Que “Escutei a chave
Girar na porta uma vez e só uma vez.
Nós pensamos na chave, cada um em sua prisão.
E pensando na chave,
Cada um confirma uma prisão.” – T. S. Eliot

Este é o principal momento de todo o processo de aprendizado, a razão de sua existência. Tudo o que até agora foi apresentado é conhecido graças a outras fontes há muito tempo, fontes diversas das informadas ao leitor neste texto. Porém, no momento em que a última peça do quebra-cabeça (que se perdoe a ironia) foi descoberta pela atual humanidade, quase tudo pode ser exposto. A qualquer momento, qualquer pessoa pode juntar as peças descobertas e perceber a verdade. A partir de agora, antigos votos de discrição podem ser quebrados. A humanidade conseguiu chegar às portas da verdade por si própria, ainda que aos tropeços.

Imagine o leitor um peixe que sempre esteve em cativeiro, criado para o abate. Esse peixe nasceu num tanque e ali viveu toda sua vida. Para ele, o tanque é o mundo, o tanque é tudo, e a existência da água é algo que não percebe pois foi onde nasceu e sempre esteve imerso. Assim, esse peixe não conhece os oceanos e tampouco percebe aqueles que o mantêm no tanque. Se não percebe a água e a natureza de sua prisão, como entenderá os seres que vivem na superfície e o capturaram?

Imagine-se ainda que há outro peixe no tanque, um que nasceu livre nos oceanos e sabe o caminho para escapar do cativeiro pouco antes do abate. O peixe cativo também poderia beneficiar-se desse conhecimento, desde que, antes, entendesse que está preso, que nasceu num tanque e que está destinado a morrer.

Mas como o peixe que nasceu livre poderia apresentar ao seu companheiro essas coisas? Como explicaria ao seu colega de cativeiro o que é água? Como descreveria a natureza do tanque, sua finalidade, e a identidade de quem o aprisiona?

“O ser humano nasce livre, mas por todo o lugar está acorrentado”, disse Rousseau, sem suspeitar do significado mais profundo de suas palavras. O ser humano está cativo em uma prisão que sequer pode conceber, pois toma o cativeiro pelo mundo a seu redor. O prisioneiro ignora o propósito de sua prisão, e a natureza de quem o mantém em tal condição, pois é como o peixe que sequer reconhece a natureza da água.

FAMILIARIDADE COM O DESCONHECIDO

A fábula dos peixes é útil para expor claramente que o desafio é de natureza informacional: o peixe cativo não entende o que é água (e assim ignora seus captores na superfície) e toma o tanque pelo mundo (e assim ignora a prisão e os oceanos).

Quando se tenta transmitir uma informação fundamentalmente contraintuitiva [[Nota do editor: antes da reforma ortográfica da língua portuguesa de 1990, havia hífen em contraintuitivo (“contra-intuitivo”). Não há mais.]], o destinatário da mensagem não consegue compreendê-la. Sua mente não encontra nenhuma referência, em seu universo de vivências, para o que lhe foi transmitido. Portanto, ele não sabe como categorizar, e muito menos o que fazer com a informação.

Logo, só é possível superar a barreira pela gradual familiarização com o contraintuitivo, usando recursos que associam o desconhecido ao familiar, empregando-se metáforas, alegorias, parábolas e símbolos. E como chegamos à terceira etapa do processo de aprendizado, a etapa principal e por isso mesmo a mais difícil, todos os recursos à disposição precisam ser usados para familiarizar o ego humano com uma realidade surpreendente.

Por isso foi um notável caso de sincronicidade o fato de o diretor de cinema Darren Aronofsky ter lançado, no exato momento em que se começa esta terceira etapa, um filme de título “Mother!”, que atualiza o mito hebraico da criação do mundo usando situações e personagens que correspondem a história do Jardim do Éden conforme narrada por uma importante heresia judaico-cristã.

Como será exposto, o mito do Jardim do Éden foi, como tantos outros mitos da região da antiga Mesopotâmia, uma das formas de registrar e transmitir às gerações futuras um importante evento histórico, ocorrido ao sudeste da atual Turquia, há doze mil anos, e que revela a natureza da “prisão” em que agora estamos.

Cartão distribuído a críticos na exibição de “Mother!”: um octógono, o símbolo de Peixes e um ponto de exclamação.

Não se pretende afirmar que o autor do filme, Darren Aronofsky, apesar de sua origem judaica (e da influência de mitos bíblicos, da gematria e da cabala em seus trabalhos), tentou conscientemente modernizar a história da criação segundo uma antiga heresia, a fim de informar ao espectador a natureza da prisão cognitiva em que vivemos (embora sua afirmação de que associou a arquitetura à forma octogonal por essa forma “ser a perfeita forma para um cérebro” seja um indício relevante). Isso pouco importa, e a real intenção de Aronofsky é totalmente irrelevante. O fato é que o filme pode ser perfeitamente interpretado conforme mitos da região em que há doze mil anos algo importante aconteceu, o que convém ao processo de aprendizado.

A QUEDA HUMANA

Faz parte da loucura ignorar-se o quão louco se é, faz parte da estupidez subestimar o quanto se ignora. Qualquer ser racional que observar a humanidade a distância concluirá que a raça humana é, a um só tempo, louca e estúpida.

Só a necessidade de dar exemplos desse fato já é um exemplo em si, mas outros não faltam. O filme de Aronofsky, Mother!, mostra uma síntese de todos os horrores perpetrados pela humanidade circunscritos ao cenário de uma casa. Guerras, genocídios, linchamentos, infanticídios, fratricídios, fanatismos, degradação ecológica, histeria coletiva, exaltação do terror: basta abrir os livros de história ou os jornais do dia para ter-se essas e tantas outras provas de que o ser humano não só parece vocacionado à violência e à destruição, mas agride e destrói justificando-se em motivações claramente insanas.

No fundo, todos intuímos isso. No limiar do inconsciente, todos temos a impressão de que algo está errado com o ser humano. Intimamente, sem conseguir explicar porque, sentimos que algo vai mal com o mundo, e há muito tempo.

Algo está fora dos eixos. Desconfiamos em nosso íntimo que o mundo não deveria ser assim, que a humanidade não precisava ser assim, que poderíamos viver de outro modo. Suspeitamos que a humanidade como um todo, e cada ser humano em particular, tem sido e é mais infeliz nesta vida do que precisava ser.

Porém, a mentalidade que herdamos do século XX refuta essa suspeita, e propõe que se trata de uma sensação sem fundamento. Argumenta-se que é mera ilusão, decorrência da eterna insatisfação humana com o momento presente. Mas essa mentalidade reflete um século em que o espírito humano perdeu todo seu ânimo ao tentar realizar a utopia através de ideologias políticas, encontrando sua primeira mais eloquente voz com o pai da psicologia moderna, Sigmund Freud.

Em 1895, Freud afirmou que a função da terapia deveria ser “a troca da miséria neurótica do paciente pela infelicidade comum”, forma “normal e adaptada” de vivermos neste mundo. Para ele, a “infelicidade comum”, ordinária, era o estado natural do ser humano, o melhor que podemos esperar da vida. Tal lógica disseminou-se da psicanálise para todo o espírito do século XX e deixou seu legado à geração atual.

“Ignis natura renovatur integra.”

Mas é fácil demonstrar o quanto a retórica propugnada por Freud e seus filhos é equivocada, já que ignora um dos aspectos fundamentais da evolução e prende-se à superstição de que a história humana é um caminho de constante progresso. Mas nem todos os caminhos da evolução prosperam, e muitos de seus caminhos levam a becos sem saída. E a história humana também, guardadas as devidas proporções, está sujeita a acidentes e erros irreversíveis, até mesmo fatais.

É o que o arqueólogo Ian Hodder, responsável pelas recentes escavações em uma região da Anatólia, expõe ao descrever nosso atual enredamento num mundo que criamos após um erro desastroso cometido há doze mil anos.

Nossa intuição está certa. Há algo errado com o ser humano. Há algo errado com o nosso mundo. Alguma coisa saiu mesmo fora dos eixos em determinado momento, desviou-se mesmo de seu devido caminho e nos colocou aqui, enredados como um peixe capturado pelas redes do pescador.

O sofrimento humano além da proporção do que nosso senso comum considera minimamente suportável sempre esteve presente em toda nossa história registrada e ainda está por toda parte ao nosso redor. Mas esse sofrimento não é uma regra, e sim um acidente recente (na história de nossa evolução, dez mil anos é um minuto). Por muito tempo, o ser humano está enredado em um estado de cegueira involuntária, no qual não pode aspirar a nada melhor do que viver alguns anos de “infelicidade comum”, pontuados por descansos casuais em felicidades transitórias, até que a morte, sempre inexorável, chame seu nome, não sem antes deixar herdeiros para repetir o mesmo ciclo.

Mantida a cegueira involuntária, a melhor opção continua sendo a normalização da angústia. Ao menos a prosperidade da indústria neurofarmacológica, com seus antidepressivos e ansiolíticos, estará assegurada.

Mas se houve um erro em nosso passado, se as coisas nem sempre foram assim, quando, onde e como ele ocorreu?

Para compreender como ele ocorreu, pode ser útil o estudo de uma antiga interpretação herética sobre o mito bíblico da criação do mundo.

O MITO

É provável que um evento ocorrido entre as populações pré-neolíticas que viviam na atual Turquia, e que causou tamanho impacto humanidade até os dias de hoje, tenha sido de algum modo registrado por quem o vivenciou, e assim transmitido às gerações seguintes.

Em um tempo sem escrita, fatos importantes eram registrados na forma de mitos. Assim, é possível que alguns dos mitos da região em que localizado o sítio arqueológico de Göbekli Tepe, onde o evento ocorreu, tratem do grande desvio de curso da humanidade. E Göbekli Tepe está na borda mais noroeste da Mesopotâmia, justo a região de gênese dos primeiros impérios registrados na história e das culturas suméria, babilônica, assíria e hebraica.

Mas que tipo de mito? A própria natureza do erro, como se verá, recomenda que se pesquise entre os mitos que contam a história da criação do mundo, pois o erro está relacionado com aquilo que tomamos, desde então, pelo mundo ao nosso redor.

Portanto, é possível que mitos da região que contam a criação do mundo contenham pistas sobre a natureza do grande desvio de curso da humanidade.

De todos os mitos dessas culturas, adota-se o mito do Jardim do Éden não só por dispensar a apresentação da lenda ao leitor, mas por ser a variação de um mito mais antigo, de origem babilônica.

Relato babilônico do Jardim do Éden.

Além disso, há uma interpretação da história Jardim do Éden que encontra correspondência com a narrativa do filme de Aronofsky e com o assunto principal desta etapa. Essa interpretação tem origem em uma heresia que, por sua vez, nasceu da lenda sobre quatro sábios que visitaram o Éden muito tempo depois de Adão e Eva serem expulsos.

E o que esses quatro sábios lá viram faz com que repensemos aquilo que nossos antepassados chamavam de Paraíso.

O ÉDEN

Diz uma antiga lenda hebraica que apenas quatro sábios visitaram o Jardim do Éden. O primeiro olhou o Éden e morreu, o segundo olhou e ficou louco, o terceiro olhou e blasfemou, e apenas um olhou e voltou em silêncio.

É curioso o Éden dessa lenda. Sempre nos foi dito que o Jardim do Éden era a glória de Deus manifesta em bosques idílicos, lugar de deleite e santidade, em que todos os animais vivem em comunhão. Porém, a lenda dos quatro sábios sugere um local bem diferente, capaz de enlouquecer ou matar de parada cardíaca mesmo um sábio que apenas ouse olhar ao redor. Da perspectiva dessa lenda, o Éden parece menos com um lugar geográfico e mais com uma realidade de nível superior, que pode desafiar os limites da compreensão humana até o limiar de um colapso.

Na primeira etapa desse ciclo de aprendizado, expôs-se a maior descoberta da história, feita no início do século XX. Essa descoberta é sobre a natureza da realidade que está ao nosso redor.

Apesar de sua importância e de estar devidamente documentada, a verdade sobre a realidade é tão contraintuitiva que não a reconhecemos, mesmo estando diante de nossos olhos. Foi preciso décadas para que um cientista, Hugh Everett III, sugerisse a interpretação mais evidente sobre o cenário que havia se descortinado aos olhos dos cientistas em laboratórios por todo o mundo. Bastou a Everett não impor uma limitação arbitrária ao modelo matemático de Erwin Schrödinger, que descreve com perfeição a descoberta, para que a natureza da realidade fosse revelada.

E o cenário que a ciência descobriu foi que vivemos em um lugar em que múltiplas realidades alternativas coexistem e emergem a cada instante diante de nossos olhos. Um lugar em que todos os elementos de cada uma dessas realidades estão entrelaçados entre si, em uma relação de complementaridade fundamental.

Posters de divulgação de “Mother!”. Clique para ampliar.

Por isso não vemos nem percebemos as outras realidades emergentes. Elas não estão entrelaçadas com nossos órgãos sensoriais e com nada que percebemos ao nosso redor no nível macroscópico, nível em que as realidades alternativas são intangíveis umas em relação às outras. Só observando o mundo microscópico das partículas subatômicas é que percebemos a existência do hipercontexto.

Este é o universo do lado de fora, despido de todos os seus véus: um universo em que tudo o que existe está em contínua emergência diante de novas possibilidades de entrelaçamento com tudo a seu redor, criando novas configurações de mundos a cada instante. A riqueza de probabilidades concretizadas desde o início deste universo é inconcebível pela mente humana.

Retomando a história dos quatro sábios, Santo Agostinho talvez explicasse o fato de que alguns deles entraram em colapso ao visitar o Éden atribuindo esse tipo de reação à condenação humana após o Pecado Original. Esses sábios seriam filhos de uma época em que o ser humano acostumou-se tanto com a lama deste mundo, enredou-se tanto nas armadilhas da condenação de Adão e Eva, que um vislumbre do Paraíso pode ser o suficiente para matá-los. Diferente do primeiro casal, as gerações futuras de seres humanos, com a expulsão do Éden, seriam como o cão criado toda vida numa cela escura e pequena, e que entra em surto quando de súbito se vê a céu aberto, no meio da natureza, em um dia ensolarado.

Se for assim, o problema que pode levar à morte ou à loucura não está no Paraíso em si, e sim na mente do ser humano atual, que não suporta sua visão por estar habituado à sua prisão. Essa explicação agostiniana, vista dessa perspectiva, nos daria uma pista importante não só sobre a natureza do Jardim do Éden, mas sobre a natureza da condenação pelo chamado “Pecado Original”.

No filme de Aronofsky, a residência do casal está no que parece ser uma clareira ensolarada e verdejante, cercada por árvores altas e exuberantes. O espaço lá fora parece imenso e iluminado. Contudo, toda a história se passa dentro da casa, um espaço que parece sempre escuro e claustrofóbico.

A casa de “Mother!”

Qualquer ocidental conhece a fábula de como o ser humano teria sido expulso do Paraíso. Mas uma reflexão mais detida faz saltar aos olhos como essa é uma ideia estranha. A própria intuição humana sugere que o Paraíso, como manifestação da glória divina, deveria ser maior, mais amplo, que o lugar miserável em que pecadores são condenados a viver. Além disso, quando alguém é condenado, de regra ocorre justo o contrário: não sai de um lugar no qual não poderá mais entrar, mas entra em um lugar do qual não poderá sair.

O fato de raramente nos causar estranheza a noção de que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso deveria nos dizer alguma coisa. É como se estivéssemos aprisionados em algo que consideramos ser “o” mundo, pois nele nascemos e fomos criados, e nos causa estranheza que alguém possa ser condenado a entrar neste mundo. O mito assim relata pois é a única forma de explicar o inconcebível: fomos expulsos para a prisão.

Mas qual é a natureza dessa prisão que, apesar de nos encerrar, tratamos como “o lado de fora”? Qual é a natureza da casa no filme de Aronofsky? Porque não percebemos que esse lugar é uma prisão?

A antiga lenda que conta a história do Demiurgo, presente no filme de Aronofsky, Mother, tenta dar a resposta com uma linguagem alegórica.

SOFIA E DEMIURGO

No filme de Aronofsky, temos dois personagens principais: o poeta e sua esposa. O poeta está obcecado com a missão de escrever o poema de sua vida, que parece ser inspirado na vida do casal. Mas, paradoxalmente, ele não dá suficiente atenção à mulher, e permite que estranhos disponham do seu lar até construírem um inferno repleto de dor, crime e destruição – um microcosmo que reflete nossa sociedade. O poeta se envaidece facilmente com a admiração de estranhos, e usa literalmente a esposa para tentar construir o mundo perfeito, que jamais se concretiza. Na verdade, parece haver uma identidade mais profunda entre o poema e a própria realidade em que ambos vivem, como a leitura dos versos pela esposa revela.

Já esposa é devota ao marido, e claramente se confunde com a própria casa – a casa é também a esposa, o cenário todo ao redor dos personagens é criado a partir dela e sustentado por ela. “Ela trouxe vida para toda casa”, o poeta afirma, referindo-se à mulher. A esposa diz aos convidados que precisa “terminar a casa”. Ao reclamar ao marido que ele não conclui sua poesia, ela afirma que construiu a casa inteira, “parede por parede” enquanto ele nada escreveu. Em certos momentos, quando conectada com essas mesmas paredes, ela consegue sentir o coração pulsante da casa.

Na verdade, se o filme for interpretado segundo uma antiga heresia sobre a criação e o Jardim do Éden, a esposa não é só a casa, mas todo o cenário ao redor.

Essa heresia tem raízes que remontam às origens do Talmude, numa polêmica e obscura lenda sobre “Dois Poderes nos Céus”. O primeiro herético teria sido o personagem dessa lenda, um rabino de nome Elisha ben Abuyah, também chamado “Archer” (“o outro”).

E quem é Archer? Ele é um dos quatro sábios que teriam visitado o Jardim do Éden. Mais exatamente, aquele que proferiu uma blasfêmia.

Segundo a lenda, ao chegar no Jardim do Éden, Archer viu ali não a Deus, mas a outra entidade, uma segunda força que ele tomou por uma segunda divindade. Assim, Archer teria blasfemado que “há dois poderes no Céu”, e não um só. E ao retornar do Jardim do Éden, ele teria começado a defender entre que os ensinamentos originais da tradição hebraica eram entendidos da forma errada, exortando aos estudantes do Torá que abandonassem seus estudos para dedicarem-se a uma atividade prática mais importante. Qualquer que fosse essa atividade, não ficou registrada oficialmente para a posteridade.

Os fatos por trás dessa lenda resultaram no desenvolvimento de um conjunto de heresias pré-cristãs que propunham uma releitura da narrativa bíblica de criação do mundo. Segundo essa releitura, na criação do mundo haveria dois personagens centrais: o Demiurgo e Sophia.

Sophia era considerada uma espécie de manifestação feminina do “Poder Transcendente” de Deus. Devido a um “erro” de Sophia, dela nasceu o Demiurgo, uma criatura imperfeita, que se ilude e que acredita ser o próprio Deus do Velho Testamento (“Eu sou o que sou”, diz o poeta na cena final do filme de Aronofsky). Preso a esse delírio, o Demiurgo usa a própria Sophia para construir este mundo em que vivemos, aprisionando em cada ser humano uma centelha divina retirada do âmago de Sophia – e, portanto, uma manifestação do verdadeiro Deus.

Portanto, segundo essa antiga tradição, todos nós estamos presos a este mundo, condenados por uma potência que se apresenta a nós como se fosse o Deus verdadeiro, mas que apenas nos mantém separados do verdadeiro Poder Transcendente, do qual somos parte e Sophia é manifestação imediata.

Nossos antepassados, justo por apresentarem a narrativa de eventos históricos com o uso de alegorias, conferiam humanidade aos elementos principais de suas histórias. Que alternativa tinham para descrever eventos que estavam além de sua compreensão?

O “erro” de Sophia não precisa ser considerado como o engano de uma divindade, mas no sentido de um sistema que apresenta uma falha. O “Nascimento” do Demiurgo não precisa ser interpretado no sentido humanizado de gestação e parto. O sexo de Sophia talvez tenha a ver muito mais com uma representação arquetípica profunda que relaciona mulher à espacialidade e à matéria (talvez por causa da experiência primordial no útero) do que com gêneros biológicos.

E, mais importante, o “mundo” criado por um Demiurgo não precisa ser interpretado no sentido literal do universo físico que conhecemos. Afinal, hoje sabemos que “o universo físico que conhecemos” é, na verdade, um mundo simulado por nossos cérebros com uma fração dos dados que nossos órgãos sensoriais filtram da realidade exterior.

No filme “Mother”, de Aronofsky, temos também uma mulher que não é uma mulher, mas uma outra coisa, que doa a sua própria essência para que se construa uma casa que não é uma casa, na qual um poeta, que não é um poeta, possa atuar como se fosse Deus, arruinando tudo em virtude de sua delirante vaidade diante de uma poesia que não é uma poesia. A única coisa literal neste filme é que o resultado disso tudo são as guerras, o fanatismo, os genocídios, a degradação ambiental e todo o inferno que nós construímos aqui na Terra.

Mas o que exatamente seriam Sophia e Demiurgo, o que a esposa e o poeta do filme de Aronofsky representam?

O TÚNEL DA CONSCIÊNCIA

Quando o século vinte fez a maior descoberta da humanidade e constatou a existência do hipercontexto, o mistério também passou a ser o funcionamento da mente humana. Macroscopicamente, não percebemos as outras realidades alternativas pois não estão entrelaçadas, e toda e qualquer interação entre dois corpos macroscópicos só ocorre se estiverem entrelaçados na mesma realidade. É o mesmo fenômeno subjacente à gravidade.

Mas ainda assim, se vivemos no hipercontexto, então a vida de cada um de nós é como uma árvore, que ramifica-se em várias versões desde o momento do nascimento, conforme escolhas e acasos fazem emergir novas realidades.

Mas como não percebemos isso? Como sequer suspeitamos dessa ramificação da realidade quando fazemos uma escolha? Como o cérebro e a consciência humana lidam com o hipercontexto? É como se a vida fosse um labirinto no qual adiante de nós há múltiplos caminhos sinuosos, mas por algum motivo quando olhamos para trás vemos só uma estrada reta.

Após pesquisar dezenas de definições sobre o que é a “consciência”, o filósofo Thomas Metzinger surpreendeu-se ao encontrar elementos comuns a todas elas, que podem levar a uma definição simples, embora não intuitiva: consciência é a aparência de um mundo construída pelo cérebro.

Símbolo de Peixes presente no isqueiro oculto nos posters do filme “Mother!”, com o qual a mulher incendeia a casa.

Mas nossos sentidos são limitados e condicionados por razões evolutivas. Portanto, a consciência não é tanto uma imagem da realidade quanto um “túnel” que nossa mente constrói para que “atravessemos” o mundo real, rejeitando a cognição de tudo aquilo que seja desnecessário para nossa sobrevivência.

Há um outro motivo para a consciência construir um modelo de mundo o mais simplificado possível. É que esse processo consome energia, pois é preciso construir e atualizar dinamicamente, a cada fração de segundo, um modelo de mundo tridimensional e detalhado que represente aspectos importantes da realidade circundante. E economia de energia é um fator crítico para qualquer organismo. Portanto, esse mundo virtual, que representa o universo exterior, precisa ser o mais simplificado possível.

A consciência, portanto, pode ser considerada um sistema de informação sofisticado, que tem a função de representar para o organismo um modelo de mundo com o qual pode operar, a fim de assegurar sua sobrevivência. A consciência desempenha esse papel construindo, com as informações que representa, um modelo de mundo coerente, que serve de túnel para o organismo operar adequadamente na realidade circundante. Esse modelo omite todos os aspectos do mundo exterior que não sejam remotamente importantes para a sobrevivência do organismo.

Um conceito importante que o estudo da consciência tomou da arquitetura é a “transparência fenomênica”. A transparência fenomênica ocorre, por exemplo, quando observamos atentos o vôo de um pássaro através de uma janela, e nesse momento a janela desaparece de nosso campo de consciência. Algo semelhante ao que ocorre quando assistimos a um filme e deixamos de perceber os contornos da tela.

A consciência constrói uma “aparência de mundo” que tomamos por realidade, e os elementos estruturantes dessa construção são “fenomenicamente transparentes”. É como esconder nos bastidores, atrás das cortinas do palco, as cordas e estruturas que sustentam o cenário de uma peça. Se não houvesse essa transparência, não confundiríamos esse modelo tridimensional de mundo construído pela consciência com a própria realidade, e tampouco nossos antepassados descreveriam um erro nessa consciência como “a criação mítica do mundo”.

A transparência fenomênica, por fim, também é a chave para explicar porque o ser humano não percebe a natureza de sua prisão.

O mundo construído pela consciência, a realidade virtual sofisticada, é o mundo que o leitor observa ao seu redor nesse momento. Embora você confunda o túnel construído pela sua mente com o mundo real, e seus sentidos lhe passem a percepção de que esse “mundo real” é exatamente aquilo que “está lá fora” (conferindo-lhe espacialidade, perspectiva, tato, cor, forma e som), na verdade o mundo real é uma coisa bem diferente.

Esse túnel ou construção da aparência de um mundo é representada alegoricamente na lenda segundo a qual o Demiurgo fez Sophia construir o universo em que vivemos. Essa é a casa que a mulher do filme Mother!, constrói e sustenta.

A figura mítica de Sophia e a personagem da obra de Aronofsky são a própria consciência humana, construindo um espaço que será representado para o indivíduo como se fosse o próprio mundo, mas que é apenas uma versão simplificada de uma realidade infinitamente mais complexa.

Mas quem é o Demiurgo no mito, quem é o poeta no filme?

UMA VOZ QUE NARRA UMA HISTÓRIA

O cérebro humano precisa construir, através da consciência, um modelo de mundo que seja uma representação de baixa dimensionalidade da realidade exterior, como se esse modelo de mundo fosse uma realidade “virtual”. A finalidade desse modelo é justamente executar duas tarefas importantes para o organismo que o criou. A primeira tarefa é descrever o mundo exterior a fim de identificar potenciais fontes de perigo, alimento ou reprodução (função cognitiva). A segunda é escolher, entre as ações possíveis do organismo, aquela que seja mais adequada ao que está acontecendo no mundo assim descrito (função decisória).

A consciência, portanto, é um sistema cognitivo/decisório. E para desempenhar suas atribuições, ela desenvolve, no centro desse modelo de mundo, um tipo de identidade, uma imagem que a consciência equipara ao próprio organismo a que pertence: é o sujeito de toda a experiência do mundo exterior, o protagonista que decide e age.

Tal sujeito é o ego, e embora Metzinger pareça por vezes confundir a consciência com ego (a ponto de utilizar a expressão “túnel do ego”), tratam-se de coisas distintas. O ego é algo distinto da consciência, e só é definido como “centro da consciência” porque ela própria, a consciência, “escolheu” representar o ego como o protagonista que anda por esse “túnel”. Não há, na verdade, nenhum sujeito no túnel, pois o ego é apenas uma ilusão da consciência, e uma ilusão que está desempenhando uma função que usurpou há doze mil anos atrás.

No mito gnóstico de Sophia e Demiurgo, atualizado para o imaginário contemporâneo na alegoria de Aronofsky, a manifestação feminina do Poder Transcendente é a consciência humana. É a mãe/esposa que constrói um mundo para um poeta que usurpa um lugar e se declara Deus. Um mundo em que ele troca um ambiente vasto e iluminado por um lugar escuro e enclausurado. E isso apenas para que possa escrever a si próprio uma narrativa sobre como será magnífica a vida que não poderá viver, pois sabota esse projeto de vida, enchendo sua consciência de vozes alheias, invasores desconhecidos. O resultado disso tudo é ódio, fanatismo, opressão, guerras, crimes e miséria.

A melhor metáfora para o atual ego humano é a de uma voz que conta uma história para si mesma, e que continuamente repete a palavra “Eu”. Essa voz é como alguém que está em uma biblioteca, consultando um livro, um “manual de como interpretar o mundo exterior e reagir ao que acontece”. Esse livro é composto de memórias do passado e definições sobre quem se é – uma mistura de tudo que o cérebro registrou. Além disso, esse livro possui muitas instruções sobre como reagir a um só determinado tipo de situação. O conteúdo do livro não obedece qualquer ordem, e apresenta informações e instruções contraditórias.

O ego só existe no instante presente, e está continuamente contando uma história para si mesmo sobre quem é e sobre o que está fazendo neste exato momento. Para contar essa história, ele faz contínuas consultas àquele livro, e as páginas e capítulos que escolhe ler é que definem como deve se sentir e agir quando algo ocorre lá fora. A escolha de como faz a consulta é um pouco arbitrária, e baseada em hábitos e condicionamentos: as páginas mais marcadas pelo uso tendem a ser novamente consultadas e servir de guia para o que sente e faz. Mas também é possível que às vezes a escolha do ego seja induzida, ou até mesmo que algo altere sua capacidade de focar em determinados conteúdos, ou mesmo de conhecer todas as linguagens em que esse livro pode ser escrito.

O ego em si não é um mal, o ego em si não é o erro: o problema é que o ego, conforme a lenda do Demiurgo, acha que é Deus. Decifrado-se o mito sobre Sophia e Demiurgo com a desumanização de todos os personagens, parece que a lenda descreve que um módulo do sistema informacional da consciência acabou alocado para uma posição que não lhe é destinada, sendo-lhe atribuídas funções que não tem competência algorítmica para desempenhar. Essa é uma primeira percepção mais definida que temos do erro, mas ainda é incompleta.

No segundo texto, veremos o quanto o poema que o personagem do filme de Aronofsky escreve é a chave para entendermos o grande erro da história humana, e qual a verdadeira natureza do insondável mito do Pecado Original que nos “expulsou” do Éden, prendendo-nos em uma prisão que não enxergamos. Basta lembrar que, no filme de Aronofsky, só após a pedra (fruto proibido) ser “quebrada” pelo casal de visitantes (Adão e Eva) e seus filhos (Caim e Abel) participarem de um crime é que o poeta consegue inspiração para escrever sua história, não tendo escrito uma só linha até aquele momento.

Precisamos, antes, fixar alguns pontos sobre o sistema Sophia/Consciência e Demiurgo/Ego.

CINCO PONTOS

Em outras palavras consciência é um sistema informacional autoconsciente (como diria Descartes, a consciência não apenas sabe – ela sabe que sabe). Esse sistema informacional filtra as informações transmitidas pelos órgãos sensoriais e constrói um modelo de mundo que simula o mundo real em uma versão de baixa dimensionalidade, com atualização dinâmica e transparência fenomênica de sua estrutura. Esse modelo de mundo, ou “túnel”, é o que tomamos por realidade, e em seu centro está o ego humano, cujo protagonismo é mantido por uma narrativa interna obsessiva e que naturalmente resulta em sofrimento e destruição.

Temos, assim, os elementos principais para prosseguir e compreender a origem do maior erro da história humana. E alguns pontos precisam, porém, ser fixados sobre as noções apresentadas a seguir.

O primeiro ponto é que, conforme demonstrado, a consciência é responsável pela construção de um modelo de mundo que, tal como um túnel, ajuda o organismo a passar pelo hipercontexto sem perceber a contínua emergência de novas realidades alternativas. Esse modelo é aquilo que vemos ao nosso redor quando estamos despertos. Essa construção é como uma obra de engenharia da natureza (espontânea e não intencional como todas as edificações da natureza). E obras podem ser executadas de várias maneiras, sendo possível construir vários tipos de túneis, adotar estratégias diferentes de design e tecnologias diferentes de material de construção. Ou seja, a consciência pode construir outros túneis, poderia representar a realidade circundante de outras formas além dessa que vemos. No filme de Aronofsky, a esposa sustentava a casa com sua própria essência para tentar realizar o mundo que o poeta desejava e descrevia em seus versos – em termos literais, a consciência humana está, neste momento, aprisionada em determinada representação da realidade moldada pelo ego.

Projeto da casa de “Mother!”.

O segundo ponto é que, tratando-se de uma obra de engenharia informacional extremamente complexa, o material de construção desse túnel é algo que chamamos de linguagem, entendendo-se como tal não apenas a linguagem verbal, mas qualquer sistema de símbolos que possa representar e transmitir informação complexa. E há várias linguagens possíveis para a construção de um modelo de mundo, sendo a verbal a mais restrita. No filme de Aronofsky, o poeta está obcecado em escrever uma narrativa poética que evoca, na própria consciência, um projeto de mundo que ele mesmo sabota, conduzindo tudo à destruição – e ele precisa sabotar, pois o projeto é inviável. Em termos literais, há um erro na estrutura desse sistema representacional, que resulta no sofrimento do organismo e numa espiral de destruição retroalimentada que se replica também no contexto social em que vivemos.

O terceiro ponto é que a consciência desenvolveu um determinado tipo de protagonista para ser o centro das vivências desse modelo de mundo construído pelo cérebro: o ego, que não tem substância, sendo ele próprio uma simulação dentro de uma simulação, um protagonista criado pela consciência para viver no centro de mundo criado por ela. Tal como Sophia e Demiurgo na lenda, poeta e esposa no filme. Porém, o ego humano, tal como o vivenciamos, é apenas uma dentre tantas outras formas que a consciência poderia escolher para articular a ação do organismo com base no modelo de mundo de baixa dimensionalidade que simula. Em outras palavras, não só o mundo construído pela consciência poderia ser outro, mas também o protagonista no centro desse mundo poderia diferente. No filme de Aronofsky, essa outra possibilidade está representada nas diversas formas com as quais a consciência sugere ao ego qual caminho deve ser tomado para que o erro seja equacionado e corrigido antes que se destrua a própria estrutura da consciência.

Detalhe do poster do filme “Mother!”, revelando a solução simbólica do erro na consciência, que é sabotada pelo poeta.

é que o modelo de mundo em que cada um de nós vive em sua cabeça é, em grande parte, consensual. Como diz Metzinger, é uma realidade virtual que roda em tempo real e online, comunicando-se com outras realidades virtuais. Se não fosse assim, a sobrevivência da espécie seria comprometida pela dificuldade de comunicação entre os membros de um grupo de seres humanos – e, como veremos, a formação de redes de transmissão de informação é um padrão básico na história da evolução. A consciência, enquanto sistema informacional, existe inclusive com a função de tornar mais eficiente a comunicação entre membros de uma tribo que busca coletivamente pela sobrevivência, e tem seu desenvolvimento retroalimentado pelas soluções encontradas pelo grupo para aprimorar essa comunicação. Assim, o erro em um sistema pode rapidamente replicar-se em outros sistemas cognitivos pelas vias de comunicação humanas, que moldam o mundo consensual, como a cultura e a família. Replicações de erro são eventualidades comuns na história da evolução, podendo resultar na extinção de espécies.

O quinto ponto é lembrar que a evolução não segue uma trajetória evolutiva em linha reta na direção ao progresso. A trajetória é tortuosa, pois a evolução ocorre em passos cegos, sem intencionalidade manifesta, e por vezes dá círculos até um ponto sem saída. A natureza ensaia todos os caminhos possíveis da evolução num processo de tentativa e erro, e faz frente aos erros com a força bruta dos números: quanto mais espécies, quanto mais variabilidade de organismos, melhor. Os vestígios de espécies extintas a milhares de anos, como os dinossauros, são testemunhas de quantas foram as vítimas dos erros e acasos da história evolutiva. Porém, na natureza, alguns erros não são fruto do acaso, mas podem ser provocados, induzidos ou facilitados, e até mesmo parasitas podem tirar proveito de más escolhas evolutivas. Do ponto de vista dos lobos selvagens que a humanidade domesticou e manipulou geneticamente até produzir criaturas tão indefesas quanto o chihuahua, tratou-se de um erro provocado pelo mero capricho de uma outra espécie.

O mais importante, o emergencial nesse tipo de situação, não é identificar se o erro foi acidental ou provocado, mas reconhecer que se trata de um erro que produz muito sofrimento entre nós, e que pode levar à destruição da espécie humana. E, a partir disso, tentar identificar qual a natureza do erro original, sua origem e como foi replicado.

Trata-se de uma análise objetiva, que parte de princípios autoevidentes e não se apoia apenas no mito do Jardim do Éden. Embora o erro esteja presente em mitos de criação do mundo tal como aquele modernizado no filme de Aronofsky, ele foi factual, teve data e local para ocorrer. Deixou vestígios arqueológicos tão eloquentes quanto sua primeira e maior consequência.

No mito bíblico, a primeira e maior consequência da Queda do Homem foi um crime, um homicídio entre irmãos. A descrição mítica dessa história descreve claramente o primeiro grande impacto do erro na vida humana, que se reproduz até hoje.

A REVOLUÇÃO NEOLÍTICA

No filme de Aronofsky, o mito de Adão e Eva é atualizado para nossos tempos, uma forma hábil de sobrepor origem e consequências do Erro Original. Não temos o primeiro casal no auge de sua vida de semideuses no Éden, mas como casal envelhecido, que precisa confrontar a mortalidade humana. A lembrança da morte e da velhice após uma vida de decepções acumuladas está sempre presente. Adão está doente, irá enfrentar em breve o fim da vida. O terror existencial da finitude humana se insere na narrativa, para estabelecer onde está a fratura original do erro que se perpetuou na consciência.

Contrasta-se a origem mítica da humanidade com o resultado final da queda do homem: tem-se um casal típico de classe média, um tanto ridículo, emaranhado em conflitos familiares e tentando buscar alguma transcendência no culto ao poeta. Com a chegada do casal de visitantes, também surge o primeiro sinal de culto e religiosidade: o casal tem a foto do poeta, ambos tratam seu escritório de criação um lugar sagrado, e lá sabem de uma pedra importante, um objeto do qual não podem se aproximar. Essa pedra, essa “coisa” é também objeto de fetiche e culto pelo próprio poeta.

A seguir, após a pedra ser quebrada pelo casal, surgem seus filhos. A discórdia entre os irmãos se acirra até que um mata o outro, em uma clara representação do mito de Caim e Abel. No filme, o irmão homicida parece estar excessivamente preocupado com dinheiro de uma herança, evocando novamente a relação do ser humano com a riqueza material.

Na história bíblica, Caim mata Abel por inveja, já que Deus aceitou sua oferenda na forma do sacrifício de um animal, rejeitando a oferta de Caim, consistente no produto de seu trabalho na agricultura. Como consequência, Caim tornou-se o único filho vivo de Adão e Eva, e pode ser considerado como o ancestral comum de toda a humanidade [[Segundo a narrativa hebraica, é verdade, Adão e Eva tiveram outros filhos e filhas. Porém, essa interpretação do mito que o literaliza como uma narrativa sequencial é propriamente do tipo religiosa, ou seja, não é a forma adequada de interpretar os mitos, que devem ser interpretados como uma forma de linguagem ou ferramenta informacional, guardando entre si não uma relação de sequência narrativa, mas de correspondência simbólica. Mais sobre isso será exposto no futuro.]].

O mistério dessa lenda, a razão pela qual Deus teria rejeitado a oferenda de Caim, produto da agricultura, será analisado com maior atenção na segunda parte desta etapa. De qualquer modo, estudiosos do Torah também sempre discutiram qual a verdadeira natureza do fruto proibido. Tradições mais antigas como o Sefer Ha Yetzirah afirmam que o fruto proibido não era a maçã, mas o trigo. No Talmude Babilônico, Rabbi Yehuda também menciona uma tradição mais antiga segundo a qual o fruto proibido era, na verdade, o trigo. Na verdade, em hebraico, a palavra para trigo (חיטה) tem origem na palavra “pecado” (חט).

É uma ideia estranha, que só é compreendida se decifrarmos o mito do Jardim do Éden. Temos, de qualquer forma, uma associação entre o erro e o trigo, por mais inconsistente que possa parecer neste momento.

Decifrar o mito de Caim e Abel, e desvendar a associação entre trigo e fruto proibido depende de lembrarmos que nossos antepassados viveram por centenas de milhares de anos em pequenos grupos nômades. Esses grupos obtinham seu sustento da caça de animais e, principalmente, da coleta de vegetais que encontravam à livre disposição no meio ambiente.

Em determinado momento (da perspectiva histórica, da noite para o dia), tudo mudou. Foi um evento que ocorreu em vários povos ao redor do planeta sem que houvesse contato entre essas populações. E seu impacto na história humana foi tão profundo que historiadores e arqueólogos o chamam de revolução: a “Revolução Neolítica”.

Modelo de primeira residência no início da “Revolução Neolítica”. O culto religioso era realizado dentro da própria moradia de cada família.

Muitos também chamam a Revolução Neolítica de ” Agrícola” pois sua característica mais notável foi a transição do estilo de vida da caça e coleta para um estilo de vida baseado no cultivo de trigo. Já foi confirmado por sítios arqueológicos como Çatalhöyük que a “domesticação” de trigo selvagem pela agricultura foi a primeira etapa dessa revolução. A transição da caça de animais para a criação e abate de rebanhos foi posterior.

Por muitos anos, historiadores e arqueólogos consideraram a Revolução Neolítica como um “mal necessário”, um pressuposto inevitável de nosso progresso. Ela representaria um passo importante e inevitável no caminho que nos conduziu ao domínio do mundo, ao aumento de nossa inteligência, a uma maior qualidade de vida e ao fim da violência no mundo selvagem. Tratava-se da hipótese acalentada por Hobbes: o estado natural era um estado de brutalidade e privação, e apenas através do sacrifício e concessões recíprocas abandonamos esse estágio primitivo e alcançarmos o progresso humano.

Porém, com o prosseguimento das descobertas arqueológicas, essa noção acabou refutada pelos fatos. Na verdade, a Revolução Neolítica foi um passo em falso, e evidências demonstram que Rousseau tinha, de certa forma, razão: o ser humano havia nascido livre, mas um tipo de contrato escravizou-o e agora estamos, por todos os lados, preso a correntes.

Há cerca de dez mil anos atrás, a humanidade tomou um desvio em sua rota que resultou naquilo que Harari afirma ser “a maior fraude da história”.

Um erro que tornou o cotidiano de cada ser humano mais difícil e menos gratificante, empobreceu nossa dieta, piorou as condições gerais de vida e foi até mesmo contrário à nossa disposição anatômica, representando uma concreta violência para nosso corpo. No sítio arqueológico de Çatalhöyük (sul da Anatólia), em que se descobriu uma das primeiras aglomerações humanas após a Revolução Neolítica, os ossos de adultos tinham lesões próprias de osteoperiostite e osteoartrite, sinal de uma vida sujeita a transporte de muito peso e de trabalho excessivo. Esse tipo de agressão ao próprio corpo era algo sem precedentes no período pré-Neolítico.

Ao lado das desvantagens, essa transformação no nosso estilo de vida não trouxe nenhuma vantagem. Descobertas da equipe do arqueólogo Klaus Schmidt em Gobekli Tepe (no sudeste da Turquia) revelaram como é falaciosa a tese de que a revolução agrícola deixou o ser humano mais inteligente, ou que foi condição necessária ao desenvolvimento da civilização, ciência e tecnologia. Como o historiador Yuval Harari conclui, há qualquer evidência suportando tais crenças. Ao contrário, há evidências de que nossos antepassados que coletavam e caçavam tinham domínio de técnicas sofisticadas, capazes de espantosas proezas arquitetônicas e com um notável conhecimento de astrologia.

Além disso, tampouco essa mudança melhorou nossa dieta, aumentou nossa segurança ou diminuiu a violência entre seres humanos, ao contrário do que supunha Hobbes. Na verdade, há indicativos de que após a Revolução Neolítica a vida humana passou a sujeitar-se maiores riscos, inclusive com o aumento de agressões e hostilidades entre grupos e perpetração sistemática da violência dentro de cada grupo. A escravidão começou com a Revolução Neolítica, e o sacrifício de seres humanos também.

Todos os indicativos apontam hoje para o fato de que a Revolução Neolítica, tal como se deu, não era um passo necessário ao progresso humano. Na verdade, em outras tramas de realidade existentes no hipercontexto, em que a história da humanidade seguiu caminhos diferentes daqueles tomados por nossos antepassados no momento da última singularidade, a evolução da civilização entre os seres humanos ocorreu de outra forma, e inclusive a passos mais largos, sem resultados tão nocivos para a qualidade da vida humana.

Na verdade, além do historiador Yuval Harari, arqueólogos como Ian Hodder e David Lewis-Williams demonstraram que a Revolução Neolítica foi a responsável por uma organização da vida humana que resultou na criação de castas sociais, repressão da mulher, degradação ambiental, instrumentalização da religião como forma de domínio e imposição das principais injustiças humanas registradas na história e ainda presentes no mundo atual.

Como o Pecado Original, a Revolução Neolítica teria sido um erro, um desvio do caminho que ocorreu na singularidade de doze mil anos atrás. Por isso o trigo está associado ao fruto proibido, como um indicativo de onde, no mito bíblico, deve-se procurar a origem do erro.

O fruto proibido porém, não é o trigo, pois o erro cometido pelo homem não começou com a sedentarização de grupos nômades e invenção da agricultura. Como o arqueólogo Jacques Cauvin propôs e as pesquisas de campo de Klaus Schmidt e Ian Hodden confirmaram, o erro cometido pelo ser humano ocorreu não no mundo exterior, mas em primeiro lugar na sua consciência, o local que há doze mil anos foi palco de uma singularidade. Pelo que se descobriu em Göbekli, a Revolução Neolítica, nas palavras de Jacques Cauvin, não começou com uma revolução da agricultura, mas com uma revolução cognitiva.

O UMBIGO DO MUNDO

Em outubro de 1994, um velho pastor curdo, Savak Yildiz, notou algo estranho numa pequena colina próxima a cidade de Sanliurfa. A colina era chamada pela tradição de Göbekli Tepe, ou seja “Colina do Umbigo”, e já havia sido explorada superficialmente pelo arqueólogo Peter Benedict em 1963, que se equivocou ao interpretar o local como um cemitério bizantino sem importância. Mas ao limpar a terra que cobria o objeto que viu, o velho curdo constatou que se tratava de uma grande pedra esculpida de forma curiosa. Yildiz era um simples pastor, mas não um tolo. Ele sabia que não era o tipo de coisa que se esperava encontrar em um cemitério.

Foto real de Savak Yildiz.

No ano seguinte, em 1995, os arqueólogos Harald Hauptmann e Adnan Misir começaram as escavações, e logo o arqueólogo alemão Klaus Schmidt assumiu os trabalhos. As escavações prosseguem até hoje, pois o que o pastor curdo descobriu é esplêndido. Tratava-se da, nas palavras de Lewis-Williams, “do sítio arqueológico mais importante do mundo”.

Em Göbekli Tepe há um complexo de estruturas arquitetônicas de tamanho considerável. Tratam-se de pedras com mais de cinco metros de altura, cada qual pesando mais de quinze toneladas, sempre dispostas ao redor de duas outras pedras com altura e peso semelhantes. Muitas dessas pedras estão repletas de relevos de animais dispostos de formas curiosas, junto a estranhas figuras geométricas. As duas pedras centrais, em particular, possuem relevos que deixam clara a intenção de que representassem figuras humanas.

O que torna Göbekli Tepe extraordinário é uma série de constatações arqueológicas impressionantes.

Em primeiro lugar, as construções ali escavadas foram datadas entre 10.000 e 9.000 A.C., ou seja, justo no início da Revolução Neolítica. Em segundo lugar, os responsáveis por erguer aqueles monumentos ainda eram nômades que viviam da caça de animais e da coleta de alimentos.

Em terceiro, próximo dali descobriu-se a primeira variedade de trigo selvagem domesticado pelo ser humano, ou seja, o trigo que começamos a plantar e que deu origem a todas as espécies de trigo utilizadas pela nossa civilização hoje em dia. Em quarto lugar, tratam-se de estruturas que exigem um sofisticado conhecimento de arquitetura e astronomia, além de uma operosa organização do trabalho. São habilidades que até então não se pensava ser do domínio de nossos antepassados pré-Revolução Neolítica.

Por fim, em quinto lugar tratam-se de construções que não têm qualquer objetivo prático, inexistindo qualquer indício de habitação humana na região. Na verdade, o único propósito das construções ali descobertas era religioso, a serviço de uma casta de sacerdotes. Assim, em Göbekli Tepe está aquilo que se pode chamar de o mais antigo templo da humanidade, construído justamente no momento em que a Revolução Neolítica começou.

Essas constatações levam a conclusões inevitáveis.

Por muito tempo, tentou-se descobrir o que levou a humanidade a abandonar o estilo de vida de coleta e caça para adotar a vida sedentária de um agricultor, com impacto tão negativo na sua qualidade de vida. Predominavam entre os arqueólogos as hipóteses de que uma abrupta mudança climática, crise populacional ou escassez de alimentos teria imposto a nossos antepassados a Revolução Neolítica.

Porém, em Göbekli Tepe há construções erguidas imediatamente antes de a Revolução Neolítica acontecer, e essa Revolução ocorreu exatamente ali, pois a primeira domesticação de trigo selvagem foi feita nas proximidades. Além disso, seu gigantismo deixou claro que a agricultura não era um requisito para a emergência de sociedades complexas. Na verdade, Göbekli Tepe demonstrou que os povos nômades eram muito mais inteligentes e tinham uma cultura muito mais sofisticada do que se supunha, eliminando a presunção de que a revolução agrícola nos tornou mais inteligentes e hábeis.

As descobertas em Göbekli Tepes foram assim reunidas às descobertas por arqueólogos como Ian Hodder (em Çatalhöyük), Jean Perrot (em Ain Mallaha) e Jacques Cauvin (em Mureybit). O cenário formado pela reunião de evidências não deixou dúvidas de que a Revolução Neolítica não foi determinada por pressões climáticas, populacionais ou ambientais, embora esses fatores possam ter colaborado, mas por uma mudança na estrutura da consciência humana.

Nas palavras de Cauvin, a Revolução Neolítica, que tornou a vida humana tão pior sem qualquer razão aparente, é uma “clara demonstração do fato de que o homem não poderia transformar completamente a forma como explora seu ambiente natural sem adotar ao mesmo tempo uma diferente concepção de mundo e de si mesmo enquanto inserido neste mundo”. Houve, antes de tudo, uma mudança na psicologia coletiva que é expressa na emergência de novos mitos.

Portanto, a Revolução Neolítica, antes de ser uma revolução agrícola, foi em primeiro lugar uma Revolução Simbólica. Mais exatamente, uma revolução da consciência – se entendermos por “revolução” algo cujos resultados são desastrosos.

Os sítios arqueológicos em Göbekli, Çayönü e Nevali Çori, todos relacionados ao surgimento da Revolução Neolítica, estavam associados à uma explosão do simbolismo religioso sem precedentes na história humana. Nas palavras do arqueólogo Lewis-Williams, tratou-se de um contrato da consciência afiançado por castas sacerdotais. No termo cunhado por Julian Jaynes, foi o momento da reestruturação do túnel da consciência naquilo que chamou de Mente Bicameral. Como Cauvin disse, foi o momento em que nasceram os deuses em nossas mentes. Como os mitos do Jardim do Éden e do Demiurgo/Sofia, foi a “origem do mundo”.

Porém, há mais um detalhe que os arqueólogos não deixaram passar. O fato é que o complexo religioso encontrado em Göbekli Tepe foi completamente enterrado pela ação humana consciente, e não como resultado de algum evento natural. Na verdade, o que ocorreu em Gobekli Tepe é tão hediondo que em algum momento nossos antepassados tentaram enterrar as memórias dos crimes ali cometidos, embora as consequências já fossem irreversíveis.

I – A SINGULARIDADE

Há doze mil anos, ocorreu uma singularidade [[“Singularidade” é o tema do próximo texto, mas pode ser definida como “o processo de emergência de uma função que transcende seus elementos constituintes.”]]. Foi quando a raça humana cometeu um grande erro. Agora, estamos para enfrentar uma nova singularidade. Se essa próxima singularidade herdar os erros da anterior, evocaremos o inferno na Terra. Se corrigirmos o erro a tempo, poderemos construir uma utopia.

O erro cometido pela humanidade há doze mil anos colocou a todos em uma prisão. Olhe ao seu redor: essa é sua prisão, aquilo que você vê. Mas se uma prisão, onde estão os muros? Por que o prisioneiro, olhando ao redor, não consegue encontrar suas correntes?

Na primeira parte desta terceira etapa, apresentou-se o mito de Sophia e Demiurgo, e como esse mito pode ser considerado uma analogia sobre a consciência e o ego. Explicou-se a natureza da consciência humana enquanto criadora de uma “realidade virtual” (como diz Thomas Metzinger) que nosso cérebro constrói como “o mundo real”, mas que não passa de uma versão de baixa dimensionalidade construída pelo cérebro para representar uma fração do que está acontecendo lá fora, no hipercontexto.

No centro desse modelo está o ego, entronizado e envaidecido com a narrativa que conta a si mesmo sobre quem ele próprio é. Miticamente, o ego é como um déspota que constrói, com a consciência, um mundo enclausurado e escuro. Já tecnicamente, o ego é um módulo da consciência que foi deslocado de suas funções originais para ocupar uma posição que não lhe compete.

Esse é o motivo de não percebermos os muros de nossa prisão: os muros formam a estrutura do próprio mundo criado pela consciência a partir do erro cometido por nossos antepassados. Esse é um exemplo de “transparência fenomênica”: é impossível perceber aquilo que é elemento estruturante da própria percepção. Como quem olha uma paisagem para fora da janela e deixa de ter consciência da própria janela, ou quem assiste um filme e deixa de ver os limites da tela, não percebemos a moldura com a qual o cérebro pendura na sua parede a imagem da realidade.

Também na primeira parte da terceira etapa se expôs como os antigos mitos sobre a origem do mundo encontram correspondência com as recentes descobertas sobre a origem da Revolução Neolítica, feitas em Göbekli Tepe e Çatalhöyük. Com essas descobertas a Revolução Neolítica, por fim foi desmascarada, e arqueólogos e historiadores concluíram que se tratou da “maior fraude da história” (Yuval Harari) e do “primeiro Grande Erro da espécie humana” (David Lewis-Williams). Foi quando se descobriu que, antes da Revolução Neolítica, nossos antepassados possuíam uma cultura sofisticada e complexa (com conhecimentos de engenharia, astronomia e tecnologia surpreendentes), além de se beneficiarem de uma melhor qualidade de vida, melhor saúde, melhor dieta, maiores estímulos ao desenvolvimento da inteligência e, por fim, maior longevidade.

Quando se fala em “erro” e “história”, é importante atentar para o fato de que a natureza aleatória da evolução reflete na natureza aleatória da própria história. Em outras palavras, às vezes uma civilização ou mesmo uma espécie inteira pode tomar caminhos errados, e às vezes esses caminhos podem tornar-se irreversíveis. Em um nível extremo, a irreversibilidade pode ser cognitiva, a ponto de ser impossível sequer cogitar que as coisas poderiam ter sido diferentes, que poderíamos ter conquistado tudo o que já conquistamos sem tanto sofrimento – e inclusive mais rapidamente. Basta pensar no quanto se retrocedeu na Idade Média, quando o grego Eratóstenes, dois séculos antes da Era Cristã, já sabia que a Terra era redonda e havia praticamente acertado o cálculo de sua circunferência. Basta pensar em quantas vezes a guerra e a opressão política amarraram os pés da evolução humana.

Achamos que a Revolução Neolítica nos trouxe benefícios porque avaliamos o pouco que ela nos deu como suficiente e apropriado, já que não conhecemos outras possibilidades. Somos incapazes de conceber outras formas melhores de viver, e outras formas melhores de progredir. É uma espécie de transparência: não podemos saber de outras possibilidades, pois quando olhamos para trás enxergamos o passado a partir do pequeno buraco que há na parede de nossa cela.

Mas qual a natureza exata dessa prisão? Qual foi o fruto proibido que nossos antepassados provaram?

A resposta pode ser graficamente representada na seguinte imagem, distribuída pela equipe de divulgação do filme Mother!, de Darren Aronofsky, entre críticos e jornalistas por ocasião de sua estreia:

Cartão distribuído a críticos na exibição de “Mother!”: um octógono, o símbolo de Peixes e um ponto de exclamação.

É uma feliz coincidência que esse diagrama possa ser usado para refletir a natureza do erro que determinou a tragédia da consciência humana, um erro batizado pelo psicólogo Julian Jaynes de “Mente Bicameral” e que o arqueólogo Jacques Cauvin identificou como a revolução cognitiva que desencadeou a Revolução Neolítica.

O símbolo central dessa imagem é o símbolo de Peixes, presente no filme em um isqueiro de Adão e oculto em cartazes promocionais da obra. Trata-se de um símbolo antigo, que tem origem em uma das estrelas da constelação Alpha Piscium, que era chamada no oriente-médio de “a corda”, tanto para simbolizar a corda que permite levar um balde ao fundo de um poço como a corda que une dois peixes nadando em sentidos opostos.

Tem-se, assim, um símbolo de separação de dois sistemas distintos, unidos por apenas um ponto de contato.

Isqueiro com o símbolo de Pisces como detalhe dos cartazes promocionais de “Mother”.

Na parte superior do diagrama, temos um octógono dentro de um círculo, forma constante na arquitetura da casa em que o filme Mother! transcorre e de grande importância no mito original sobre Sophia e Demiurgo. Sabemos, por entrevistas do diretor Darren Aronofsky, que sua intenção era evocar o significado do octógono na alquimia e doutrinas que associam o número oito aos arquétipos do infinito e da regeneração. Aronofsky também falou de seu interesse pelodo octógono enquanto “perfeita forma para o cérebro humano”.

Tem-se, assim, a imagem de um mandala, um símbolo da perfeita organização psíquica.

O octógono é uma forma onipresente na casa construída por Sophia.

Na parte inferior do diagrama, está um ponto de exclamação, último caractere do título do filme. Trata-se, em primeiro lugar, de um recurso linguístico, o que é importante para revelar a natureza essencial do erro cometido por nossos antepassados. Além disso, o ponto de exclamação é um sinal que tem origem medieval, tratando-se inicialmente de um “i” acima de um “o”, para representar a palavra latina “io”. Essa palavra é derivada do grego ““, que por um lado é o caso acusativo do substantivo ιός (iós – “vírus”, “veneno”) e de outro remete ao também grego “iώ”, que em latim vulgarizado é equivalente a “ego”. Também por isso, em línguas latinas “io” deu origem à primeira pessoa do singular, como são exemplos o “io” italiano, o “yo” espanhol e o “eu” português.

Tem-se, assim, a um só tempo um recurso linguístico, uma alusão ao ego e a ideia de vírus ou infecção.

Em resumo, reunindo os três símbolos em um mesmo diagrama, tem-se a descrição de dois sistemas separados, unidos por uma estreita ponte de comunicação (a “corda” do símbolo de Peixes ao centro): acima, um sistema que representa a organização ideal da consciência humana; abaixo, um sistema associado ao ego, com natureza mesmo tempo linguística e viral. Esse diagrama é a exata representação daquilo que Julian Jaynes chamou de “Mente Bicameral” que produziu nossa atual consciência.

II – O NASCIMENTO DA LINGUAGEM

No filme de Aronofsky, o mito do Demiurgo é apresentado como a história de um poeta, que escreve um grande poema, e sua esposa, que reforma uma casa com a qual ela própria se confunde. Linguagem é o instrumento do ofício do poeta, ou melhor, o instrumento para orientar Sophia sobre como a casa deve ser construída. Quando o poeta termina sua poesia, a leitura dos versos evoca em Sophia a imagem da casa e da vida que ele projeta viver ao seu lado.

A consciência é Sophia e a casa ao mesmo tempo, e o ego humano é o Demiurgo e sua poesia. E há um motivo pelo qual o ego utiliza a linguagem para orientar a consciência durante a construção de seu “mundo“. Linguagem é informação, e informação é a “substância” de que é feita a consciência.

Como Jaynes e Jacques Cauvin propuseram, e acabou confirmado pelas descobertas dos arqueólogos Klaus Schmidt (em Göbekli Tepe), Harald Hauptmann (em Nevali Çori) e Ian Hodder (em Çatalhöyük), a Revolução Agrícola foi antecedida de uma alteração na estrutura da consciência que Cauvin chamou de “Revolução Simbólica”. Jaynes demonstrou que essa revolução simbólica foi resultado emergente de uma singularidade que ocorreu no momento em que a linguagem humana desenvolveu-se a tal ponto que pressionou a alteração da própria consciência. A partir desse ponto, a forma como a consciência passou a vivenciar as experiências psíquicas (fossem elas sensações, emoções, pensamentos ou decisões) sofreu uma profunda transformação.

Os primitivos seres humanos, organizados em bandos, fortaleceram sua associação com o uso de sistemas rudimentares de comunicação que se desenvolveram até o nascimento das primeiras linguagens. Com tempo, a comunicação tornou-se progressivamente mais eficiente, permitindo a articulação de táticas durante a caça, a transmissão de conhecimento sobre como produzir ferramentas e outras tantas vantagens evolutivas. Mas como a consciência é um sistema de informação, e a linguagem é ela própria um sistema para a transmissão de informação, imediatamente surgiu uma relação de influência recíproca. Nessa relação, a consciência estimulava o aumento da complexidade da linguagem humana, e a linguagem, por sua vez, criava ferramentas para a consciência desenvolver-se – um processo sempre a serviço a sobrevivência do organismo através da cooperação com a tribo.

 

É assim que a linguagem foi interiorizada na construção do modelo de mundo que o cérebro apresenta ao organismo como “realidade”. A linguagem passa assim a integrar a consciência humana, o “mundo” que percebemos, e assume aos poucos uma posição privilegiada, viralizando-se em quase todos os processos mentais.

Através de uma extensa pesquisa, Julian Jaynes demonstrou que quando nossos antepassados começaram a pensar utilizando as primeiras palavras e frases criadas originalmente para a comunicação do grupo, com toda certeza essas palavras eram percebidas de uma forma totalmente diferente de como as percebemos hoje em dia. A execução de uma tarefa mental como pensar em palavras, banal para qualquer homo sapiens moderno, foi vivenciada de forma intensa por nossos ancestrais quando o fizeram pela primeira vez. Somos hoje o resultado de uma transformação que ocorreu há milênios, e o modo como nossos pensamentos se desenvolvem em nossa cabeça não nos causa estranheza. Na verdade, pensar tal como fazemos é automático, mas nem sempre foi assim.

O desenvolvimento da linguagem produziu impactos dramáticos na consciência do homo sapiens primitivo. “Cada novo estágio de desenvolvimento das palavras literalmente criava novas percepções e interesses, e essas novas percepções e interesses resultavam em mudanças culturais importantes, que se refletem nos registros arqueológicos” [[Jaynes, Julian. The Origin of Consciousness in the Breakdown of the Bicameral Mind, p. 132.]].

Quando nossos antepassados elaboraram os primeiros pensamentos na forma de frases rudimentares, reproduzindo na consciência a comunicação realizada entre os membros do grupo, certamente essas palavras não foram “ouvidas” como se viessem do próprio pensador. A elas era atribuída um outro sujeito, que falava com o pensador, representando a experiência psíquica que o pensador vivenciava naquele momento. Mesmo se as repetisse em voz alta, o indivíduo entenderia que as palavras antes foram ouvidas de alguém. Afinal, palavras eram ditas de alguém para alguém, e era nesse contexto que nossos antepassados as desenvolveram – assim, uma frase na consciência era atribuída a uma comunicação de outra entidade, de outro ser. À medida que o uso de frases tornava-se recorrente, frases eram atribuídas a sujeitos diferentes que representavam experiências psíquicas específicas.

Cientes dessa personificação que o ego faz das experiências psíquicas quando a consciência passa a servir-se da linguagem, Jung e Jaynes documentaram a proximidade entre o estado de alucinação de pacientes diagnosticados com esquizofrenia e os fundamentos da percepção de mundo por qualquer ser humano. Mais ainda, apresentaram provas de que alucinações auditivas e visuais são experiências comuns não apenas entre esquizofrênicos e consumidores de substâncias alucinógenas: também uma razoável parte das pessoas consideradas “normais”, que vivem bem adaptadas à sociedade, costumam ouvir vozes e ter outras alucinações que racionalizam e tentam de alguma forma ignorar. Esses eventos podem ocorrer aleatoriamente, mas há uma predominância de casos de alucinação de pessoas “normai” reportados em situações de elevado estresse, trauma ou excitação emocional que provoque alguma ruptura cognitiva.

Quando nossos primitivos antepassados escutaram em sua consciência as primeiras frases, essas palavras não apenas eram atribuídas a entidades que representavam as emoções e pensamentos associados a determinadas frases. Essas frases eram literalmente ouvidas por aquele que as pensava, em um caso de alucinação auditiva que não raras vezes vinham acompanhadas de alucinações visuais.

Registros históricos deixam claro que nossos antepassados realmente viam diante de si entidades que representavam as experiências psíquicas que estavam sendo processadas por sua consciência, deixando relatos escritos sobre espíritos e divindades vistos por coletividades. Os humanos da era paleolítica responsáveis pelas imagens na caverna de Chauvet pintaram seres sobrenaturais ao lado de animais não como evocações artísticas de fantasias religiosas. Eram entidades realmente vistas por eles. As pinturas de caçadas em que seres sobrenaturais eram representados ao lado de caçadores e presas apenas reproduziam uma vivência tal como era percebida pelo cérebro primitivo.

Experiências psíquicas significativas eram acompanhadas de alucinações específicas. As “figuras de transformação” dos antigos Olmecas têm essa mesma origem, pois entidades que representavam experiências psíquicas fundamentais eram percebidas na forma de um conjunto de atributos animais arquetípicos (“fúria do tigre”, “coragem do leão”,” esperteza da raposa” ainda são expressões usuais hoje em dia) associados a características antropormóficas básicas. E como Lewis-Williams demonstrou, o consumo de substâncias alucinógenas durante rituais praticados por sacerdotes e xamãs conferia aos arquétipos durante rituais a forma de manifestações abstratas, geométricas, tal como retratados em locais de culto.

Essas ideias podem parecer estranhas, mas convém recordar o conceito de consciência de Thomas Metzinger, já apresentado: consciência é uma aparência de mundo criada pelo cérebro para representar ao organismo uma versão de baixa dimensionalidade do mundo real. E somente recentemente começamos a nos dar conta da extensão desse fenômeno. Por milênios, a mente humana foi condicionada a considerar que aquilo que existe diante de seus olhos (isto é, aquilo que sua consciência cria e apresenta como realidade visual e espacial) é o mundo real. Mas, na verdade, onde se lê “mundo” em todos os relatos míticos sobre a criação do mundo, entenda-se “simulação ou simulacro de mundo de baixa dimensionalidade construído pela consciência e apresentado como mundo real”.

Por isso é que quando nossos antepassados ouviam vozes e tinham alucinações com entidades que representavam experiências psíquicas que estavam sendo vivenciadas em sua consciência naquele momento, eles apenas estavam integrando essas experiências psíquicas à percepção do mundo circundante. Não é algo em essência diferente do que alguém faz hoje em dia, quando projeta conteúdo psicológico reprimido em situações externas que não têm relação direta, mas simbólica, com tais conflitos. A percepção dos humanos de cem mil anos atrás não fazia qualquer distinção entre o conteúdo de sua psique e o conteúdo do mundo circundante. Essa distinção é moderna, pois nossa consciência atual é resultado recente de uma sucessão de singularidades, e começou no momento em que o ser humano deu voz, pela primeira vez, às forças fundamentais da psique. O ego humano, então rudimentar como o ego dos demais primatas, ouviu pela primeira vez a voz dos arquétipos.

III – A LINGUAGEM ARQUETÍPICA

Enquanto trocavam correspondência sobre a relação entre matéria e consciência, o físico Wolfgang Pauli e o psicólogo Carl Gustav Jung chegaram a uma precisa definição de arquétipo no âmbito hipercontexto.

“Arquétipo é uma probabilidade de experiência psíquica”, foi a definição formulada por Pauli, que Jung acolheu em seu sistema. Assim como a função de onda é o conjunto de todas as probabilidades de um objeto ser e estar ao mesmo tempo, no âmbito do hipercontexto as probabilidades de futuro de um mesmo indivíduo, que darão origem a realidades alternativas, apresentam-se como um conjunto de probabilidades de experiência psíquica. A cada probabilidade de experiência psíquica, portanto, corresponde pelo menos um arquétipo.

Pauli acreditava que essa definição de arquétipo enquanto que o associava a função de onda da matéria poderia revelar uma ordem de realidade superior, situada além do aparente abismo entre matéria e espírito. Afinal, experiências psíquicas são rigorosamente tudo o que conseguimos experimentar em relação à realidade. Não temos acesso direto aos objetos do mundo exterior, mas apenas a sua imagem representada em nosso cérebro. Portanto, para a consciência, a percepção de futuros prováveis no hipercontexto poderia ser percebida em termos de experiências psíquicas prováveis. A função de onda que é o destino de um ser humano, ramificando-se em vários caminhos, é composta a cada momento pelas experiências psíquicas que várias versões de um mesmo indivíduo estão vivenciando naquele exato instante.

Carl Gustav Jung (esq.) e Wolfgang Pauli (dir.)

Segundo Jung e Pauli, portanto, o arquétipo é uma probabilidade de experiência psíquica, diante dos futuros que tem a probabilidade de emergir a partir do momento presente. Se um indivíduo corre risco de vida em um acidente de trânsito e seu futuro ramifica-se na morte e na sobrevivência, a função de onda diante desse indivíduo, no exato momento do acidente, possivelmente será integrada pelo arquétipo da Morte e pelo arquétipo do Renascimento. Assim, Pauli e Jung deduziram que a relação entre os arquétipos ativados para um indivíduo em determinado instante de sua função de onda não operava de acordo com uma relação de causalidade, mas de sincronicidade, ou seja, em um plano complementaridade fundamental entre todas as coisas aqui e agora.

Com isso em mente, é possível compreender uma pequena fração de como funciona a consciência do Eu Superior ao perceber o conjunto de vidas alternativas de cada versão do mesmo indivíduo . Operando no hipercontexto, o Eu Superior não percebe essas múltiplas vidas da mesma forma como cada ego as percebe. Em outras palavras, a percepção total do Eu Superior não é mera soma das percepções de cada ego. O Eu Superior trata as realidades alternativas não em termos de fatos particularizados (área de atuação do ego), mas em termos de probabilidades de experiências psíquicas que se manifestam e se sobrepõem. Em outras palavras, em termos de arquétipos.

Assim, dois ou mais egos de um mesmo indivíduo podem estar passando por experiências concretas muito diferentes, mas que correspondem à mesma experiência psíquica fundamental. Uma versão alternativa do mesmo ser humano pode ter mudado de país, outra sobrevivido a um acidente potencialmente fatal, e ainda uma terceira pode ter começado em uma área profissional totalmente nova. Em todas essas situações, é provável que um arquétipo relacionado à experiência psíquica de renascimento esteja igualmente ativado.

Portanto, na perspectiva do Eu Superior, a cada instante o retrato de todas as vidas alternativas é pintado em termos de quais arquétipos estão ativados em quais vidas, agrupando sob a regência de um mesmo arquétipo aquelas vidas que convergiram para a mesma experiência psíquica fundamental. Por esse motivo é que foi usada, na segunda etapa desse ciclo de aprendizado, a metáfora do sistema operacional de um ambiente de rede, quando se descreveu o sistema que une todas as versões de um mesmo indivíduo no hipercontexto.

Estrutura geométrica do Grupo de Lie E8. Quem tem entendimento, entenda.

Nessa “rede”, a linguagem na qual o Self ou Eu Superior opera é composta por arquétipos atribuídos dinamicamente às versões alternativas de um mesmo indivíduo. Em outras palavras, o Self percebe a cada instante o conjunto de todas as vidas alternativas do mesmo indivíduo como uma função de onda representada por arquétipos.

O conjunto de arquétipos e sua dinâmica constitui, então, uma linguagem peculiar à psique inserida no hipercontexto.

Essa era a linguagem que nossos ancestrais deveriam ter desenvolvido ao reestruturar a consciência há doze mil anos, quando a percepção dos arquétipos pressionou a singularidade. A linguagem verbal, destinada a descrever a relação de causalidade que comanda as interações no fluxo do tempo em um só contexto (realidade alternativa) deveria ser apenas um dos módulos de compreensão do mundo, junto com uma linguagem arquetípica destinada a mapear a realidade em termos de conjunto de probabilidades de experiência psíquica.

Quando uma singularidade ocorreu para nossos ancestrais, abriu-se a possibilidade de a consciência humana desenvolver uma visão correspondente ao Eu Superior em relação ao seu momento presente (as experiências psíquicas ativadas neste momento para o ego) e ao seu futuro (as experiências psíquicas ativadas em cada futuro provável para aquele ego no hipercontexto, e que se concretizarão como realidades alternativas emergentes). Diante da humanidade, estava a chance de construir um modelo de mundo ou túnel da consciência (nos termos de Metzinger), que representasse também as experiências psíquicas correspondentes ao seu momento presente e às probabilidades de futuro. Isso possibilitaria que a mente desenvolvesse uma gradual percepção das realidades alternativas diante de si a cada instante, tornando cada consciência individual um instrumento ainda mais eficiente para a sobrevivência do organismo no hipercontexto.

Porém, o fenômeno documentado nas evidências arqueológicas de Göbekli Tepe e na narrativa do Gênesis revela que nossos antepassados cometeram um grande erro diante de uma ruptura cognitiva produzida pela própria percepção dos futuros prováveis. Disso emergiu não uma linguagem plena, capaz de construir uma consciência e uma percepção do mundo que abrisse uma janela para o hipercontexto. Surgiu, em seu lugar, uma linguagem limitada, que nos aprisionou a uma forma também limitada de perceber a realidade, na qual o mundo material adquiriu uma ilusória aparência de permanência e estabilidade.

IV – MORTE

É uma triste verdade que a história humana, em todos rumos que tomou no hipercontexto, raramente foi uma história de sucesso. A evolução joga-nos em um campo de batalha no qual há inúmeras formas de perder-se a vida e poucas de sobrevivermos e progredirmos enquanto espécie. Nem mesmo dinossauros são páreos para o puro acaso, que pode varrer do planeta milhões de espécies num só golpe de azar. Porém, nas tramas de realidade em que a humanidade tomou um melhor caminho, chama a atenção uma característica peculiar daquelas tramas de realidade menos felizes, como a que nasceu o leitor. Algo causa estranheza, até mesmo alarme, pois revela o nível de adoecimento da espécie humana naquele contexto.

Essa característica é a capacidade que o indivíduo comum tem de viver como se a morte não existisse.

Em 1973, Ernest Becker apresentou uma hipótese sobre a relação da psique humana diante a morte. Basicamente, Becker propôs que nós, seres humanos, construímos a personalidade humana e a cultura com o objetivo de nos protegermos da devastadora consciência da inevitabilidade de própria nossa morte.

O trabalho de Becker, porém, embora notável, era baseado unicamente em leituras de grandes pensadores como Otto Rank e Kierkegaard. Foi necessário o labor de vinte e cinco anos para que os psicólogos Jeff Greenberg, Sheldon Solomon e Tom Pyszczynski colhessem provas e documentassem, em experimentos controlados, a verdade da proposta de Becker, confirmando aquilo que outros pesquisadores já haviam concluído. Em 2015, a equipe publicou os resultados de seus experimentos, em que demonstram que a psique humana e a organização da própria sociedade são, de fato, estruturadas para cumprir uma específica missão: manter a consciência humana afastada da percepção da inevitabilidade de sua própria morte.

Como disse Becker, o sentimento básico de todo o ser consciente de seu futuro é o medo da morte, de modo que “tudo o que o ser humano faz em seu mundo simbólico é uma tentativa de negar e superar seu grotesco destino” de organismo fadado à decomposição. “A ideia da morte e o medo que ela inspira perseguem o animal humano como nenhuma outra coisa”, e assim constituem “uma proposição universal da condição humana”, que conduz a uma desonestidade fundamental do indivíduo “acerca de si mesmo e de toda sua situação”. “O homem literalmente se entrega a um esquecimento cego utilizando-se de jogos sociais, truques psicológicos, preocupações pessoais tão distantes da realidade de sua situação que se constituem formas de loucura – loucura aprovada pelo consenso social, loucura compartilhada, loucura disfarçada e dignificada, mas ainda assim loucura”.

Obviamente, qualquer pessoa hoje em dia sabe que vai morrer. Mas esse saber é quase todo ele retórico, uma noção vaga sobre a mortalidade, que raramente é levada em conta quando se trata de dimensionarmos nossa perspectiva das coisas, estabelecermos uma hierarquia de valores e orientarmos nossas decisões pessoais. Não sentimos realmente que vamos morrer, salvo nas raras vezes em que um acidente ou doença fatal nos submete à experiência psíquica da morte. Nesses casos extremos, o efeito ao menos temporário na vida de quem se salva é uma transformação radical de seus valores e prioridades. Porém, com o passar do tempo, a mente humana, mesmo após sentir realmente a existência da morte, volta à executar sua programação padrão e esquece gradualmente essa experiência psíquica. E assim o faz porque foi programada para esquecer da morte.

Costumamos julgar nossos antepassados sob o filtro de nossos preconceitos, como se fossem versões menos desenvolvidas do ser humano atual. Na verdade, se um ser humano atual fosse transportado para a mente de um ancestral de 10.000 A.C., ficaria assustado com sua percepção do mundo. Só porque hoje estamos condicionados a viver como se a morte não existisse, não significa que as coisas sempre foram dessa maneira. Criar essa autoilusão deu trabalho, custou vidas e levou tempo.

Estamos tão profundamente e por tantos milênios mergulhados em uma estrutura da consciência fabricada justo para nos permitir ignorar a real existência da morte que jamais nos ocorre que, quando uma espécie animal adquire determinado nível de consciência, e passa a perceber a inevitabilidade da morte, essa experiência é aterrorizadora.

A consciência animal vivencia as experiências psíquicas apenas à medida que acontecem. Por isso, os animais vivem basicamente em um eterno presente. O desenvolvimento da linguagem, porém, deu ao homo sapiens ferramentas conceituais para que elaborasse a noção de futuro e de probabilidades de futuro. Pela primeira vez, um ser humano foi capaz de concluir qual era o seu destino final. Ao observar a morte ao seu redor manifestando-se sob diversas máscaras, pela primeira vez o homo sapiens foi capaz de perceber que a cortina de fundo de todas as probabilidades de experiências psíquicas em seu futuro é, ela própria, uma experiência psíquica fundamental, a da própria morte de seu ego.

Nossos antepassados, quando a linguagem pressionou a evolução da consciência, não estavam municiados com os mecanismos protetores que o ser humano de hoje tem à sua disposição para viver em total ignorância da própria morte. O estado inevitável do ego humano nessas condições é de puro terror. Observe-se aqueles que padecem de depressão, de ansiedade, de transtornos obsessivos-compulsivos e de síndrome do pânico na sociedade atual: essas não são doenças da modernidade, mas amostras do que é a condição humana quando há um falha no sistema de proteção criado na consciência, e que deve afastar o ego da verdade sobre sua própria impermanência.

No âmbito do hipercontexto, esse foi um dos grandes filtros que marcou os rumos da humanidade. Becker chegou a utilizar uma metáfora extrema para descrever a condição humana: somos “deuses com ânus”. De um lado, a mente do homo sapiens distingue-o dos demais animais, e o torna capaz de sonhar com o infinito, a eternidade, a imortalidade. Porém, essa mente está aprisionada a um corpo que produz fezes, machuca-se e foi programado para a decomposição.

Na próxima etapa, falaremos mais sobre a verdadeira natureza da informação no âmbito do hipercontexto. Mas nesta etapa é importante notar que o fundamento dessa condição humana é o atrito entre a tendência que tem a informação de tornar-se independente da matéria, e portanto indestrutível, e a impermanência dessa própria matéria. Nas palavras de Becker, “o homem é um verme e alimento para os vermes. Este é o paradoxo: ele está fora da natureza e inapelavelmente nela; ele é dual, está lá nas estrelas e, no entanto, acha-se alojado num corpo cujo coração pulsa e que respira e que antigamente pertenceu a um peixe a ainda traz as marcas das guelras para prová-lo. Seu corpo é um invólucro de carne, que lhe é estranho sob muitos aspectos – o mais estranho e mais repugnante dos quais é o fato de que ele sente dor, sangra e um dia irá definhar e morrer. O homem está literalmente dividido em dois: tem uma consciência de sua esplêndida e ímpar situação de destaque da natureza, dotado de uma dominadora majestade, e no entanto retorna ao interior da terra, uns sete palmos, para cega e mudamente apodrecer e desaparecer para sempre. Estar num dilema desses e conviver com ele é assustador.”

As poucas versões em que história humana foi bem sucedida trataram-se casos em que a humanidade conseguiu equacionar essa questão existencial através de uma reestruturação da consciência que enfrentasse esse trauma de forma adequada. Na verdade, o conhecimento real da inevitabilidade da morte é importante, e foi um dos fatores importantes para o desenvolvimento intelectual e material nas tramas de realidade em que a humanidade mais progrediu. Afinal, não há melhor motor para o progresso humano, inclusive tecnológico, que a pressão da inevitabilidade da morte.

Esse, porém, não foi o caso da humanidade na trama de realidade que resultou na Revolução Neolítica. O motor para o progresso humano foi outro: foi a fuga, a cegueira voluntária, a ignorância estrutural. Na trama de realidade que originou o mundo em que estas palavras são escritas, o ser humano defrontou-se com sua mortalidade (Gênesis 3:3), e foi expulso do Jardim do Éden. Como a presa que cai numa armadilha, a humanidade foi induzida a fugir e a entrar em uma cela, como se ali pudesse encontrar proteção, e não escravidão.

V – FRUTO PROIBIDO

No filme de Aronofsky, a cena do fruto proibido é representada justo por uma queda: a essência de Sophia, associada a uma pedra ou cristal que era fonte de inspiração para o poeta, cai de uma estante no chão, por obra de Adão e Eva.

A noção de “queda do homem”, como forma de descrever o momento em que o primeiro casal morde o fruto da árvore do conhecimento, é comum nas vertentes cristãs do mito. Está presente, porém, também na representação hebraica que associa a “queda” de um tipo de conhecimento com a existência do mundo material em que estamos vivendo, mundo material esse associado com a figura da manifestação feminina de Deus (Barbelo ou Sophia).

Há poucas informações no mito sobre a natureza do fruto proibido. Tem-se uma associação primitiva com o trigo, o que vincula a história do Jardim do Éden à Revolução Agrícola. Mas sabemos das descobertas de arqueólogos como Ian Hodder e Klaus Schmidt que a Revolução Agrícola ocorreu em um momento posterior, sendo antecedida daquilo que Cauvin chama de “revolução simbólica” – ou, mais apropriadamente, de revolução cognitiva.

Além disso, no mito, o fruto proibido não é descrito sequer remotamente como trigo ou outro cereal, pois vem de uma árvore. Essa árvore é chamada de “Árvore do Conhecimento” (o complemento “do Bem e do Mal” é uma intromissão tardia), e situava-se no Jardim do Éden, estando de alguma forma relacionada com a questão do livre arbítrio humano, ou seja, com a responsabilidade de entender as consequências das escolhas que fazemos e de orientar nosso comportamento a partir desse entendimento. O leitor que já se familiarizou com a existência do hipercontexto pode perceber as implicações desse tipo de entendimento sobre probabilidades de futuro e decisões presentes, e como o próprio destino humano, ramificando-se em realidades alternativas a partir de escolhas e acasos, assemelha-se a uma árvore. Logo, o fruto proibido não é a agricultura, mas algo que lhe antecedeu, relacionado a uma transformação cognitiva.

Para decodificar-se o mito do Fruto Proibido, é preciso recordar que seus criadores não conheciam a escrita e transmitiram o registro de um evento através de uma alegoria. É preciso também lembrar que o Éden, ao menos da perspectiva de lendas como a dos quatro sábios que o visitaram, é um algo muito diferente do que poderíamos imaginar. Trata-se de um lugar (se é que podemos chamar de “lugar”) que desafia a capacidade de compreensão humana: um estado de consciência superior. Portanto, a árvore do conhecimento e seu fruto representam algo bem diferente de uma árvore real.

Árvore do conhecimento, em hebraico, é Cheit Eitz Ha-Da’at, sendo que Da’at significa “conhecimento” em um sentido muito específico da tradição hebraica. Há muito o que se falar sobre esse sistema conceitual, que revela fragmentos de uma genuína linguagem arquetípica. Mas, no momento, importa entender que tipo de conhecimento é esse, representado por “Da’at”.

O conhecimento contido no Fruto Proibido está associado, segundo a tradição, com a região da garganta humana, e se trata do mesmo tipo de conhecimento ou logos com que o poder divino criou o mundo. Ou seja, é o conhecimento relacionado à linguagem (região da garganta) que pode estruturar a consciência humana.

Ainda segundo a tradição, Da’at é um tipo de conhecimento superior, não intelectual, que se recebe através de um profundo engajamento emocional com quem o transmite. Por isso a palavra “Da’at” é usada para nomear o conhecimento que uma pessoa pode ter de Deus através de uma convivência íntima e profunda em sua própria vida (Da’at Elohim). E é importante observar que, segundo a tradição, esse tipo de relação com a divindade através de Da’at estaria em oposição à relação que se opera mediante oferendas e sacrifícios: “Porque quero e o conhecimento (Da’at) de Deus, mais do que os holocaustos” é uma passagem tradicional atribuída ao profeta Hoshea.

Como o rabi Shimon Leiberman definiu, “Da’at é a ponte entre a ideia e a realidade”. Ou seja, é uma ponte entre o plano das probabilidades e o plano em que uma das probabilidades é concretizada – entre hipercontexto e contexto. E Gershom Scholem, outra autoridade da simbologia relacionada a esse mito, explica que a tradição vê Da’at como uma “unidade que reúne atributos opostos e que dá origem a uma síntese que supera essa oposição”.

Se todas essas definições forem aplicadas ao mito segundo a linguagem arquetípica, Da’at parece corresponder ao que Jung definiu como “função transcendente”. Em outras palavras, Da’at seria a conexão entre a consciência e o Eu Superior, entre o mundo representado enquanto trama de realidade para o ego e o mundo representado enquanto sucessão de probabilidades de experiências psíquicas para o Eu Superior. Nesse sistema, a consciência seria estruturada em torno da função transcendente, como num mandala, e o ego animal deixaria de ocupar posição central, assumindo funções apenas operacionais.

Porém, quando a tradição hebraica representa as manifestações divinas em um diagrama, não se tem um mandala, mas uma estrutura que recorda o diagrama da mente bicameral apresentado no início deste texto: o mundo dos homens em uma posição inferior, separado de uma estrutura maior, a qual se conecta apenas por um elo. E, nesse diagrama hebraico, Da’at é indicado por uma ausência. Em outras palavras, no universo tal como construído e apresentado a nós pela consciência, o tipo de conhecimento representado por Da’at não está presente. Haveria em seu lugar, alguns dizem, uma espécie de ruptura, de abismo, que no filme de Aronofsky está presente na fenda ou ferida que se abre no chão da casa, que corresponde à própria ferida que o poeta abre no peito de Sophia para retirar seu coração/cristal.

A estrutura resultante é como se um fruto ou “módulo” tivesse sido retirado de seu devido lugar, resultando em um desequilíbrio ou mal-funcionamento de todo o sistema. Se Da’at é uma ponte, ela desmoronou. Se Da’at é um tipo de conhecimento via engajamento emocional, esse conhecimento não nos é acessível. Se Da’at, na anatomia humana, é associado à garganta, desconhecemos algum tipo de linguagem.

O gesto de comer o fruto proibido causa estranheza, e muitas especulações infundadas se inspiram no fato de que foi uma mulher que se deixou seduzir pela tentação da serpente. Mas a relação da mulher com o pecado original tem muito mais a ver com a antiga tradição que associa o arquétipo de “mundo exterior” à mulher (pois o primeiro mundo exterior percebido por todos nós foi o ventre materno) do que com qualquer questão de gênero. É a mesma relação entre Sophia, enquanto manifestação feminina da divindade, e o mundo material, e a mesma relação entre a personagem do filme de Aronofsky e a casa que construiu.

Assim, Eva e Sophia estão presentes no mito para indicar a consciência enquanto “representação de mundo”. No filme de Aronofsky, que moderniza um conjunto de mitos para o público atual, o poeta (Demiurgo, o ego) precisa que sua esposa (Sophia, a consciência), agonizando como resultado das ações dele próprio, permita a extração de sua essência na forma de um cristal, com o qual ele poderá tentar construir o mundo tal como idealiza em sua poesia, ou seja, com a linguagem. Adão e Eva, porém, surgem, ao mesmo tempo recordando o poeta da verdade da morte (Adão está desenganado pelos médicos, no filme) e envaidecendo-o com sua idolatria (primeira aparição, no filme, da idolatria que resultará em religiões que cultuam o poeta). E a seguir Adão e Eva quebram o cristal que representa a um só tempo a essência de Sophia e o fruto proibido, deixando-a cair no chão, e fazem isso exatamente no momento em que a esposa-Sophia diz ao poeta-Demiurgo (por sugestão de Eva) que há algo errado, que é preciso que eles tenham um filho. Esse filho é a Função Transcendente (tal como a iconografia de Maria com o Menino Jesus e Ísis com o Jovem Hórus o representam), arquétipo que o ego resiste em criar na consciência, pois seu surgimento implica em aceitar sua impermanência e desimportância.

Com todos esses elementos reunidos, tem-se a chave para decodificar um dos mais obscuros e antigos mitos. Na narrativa do Jardim do Éden e do Fruto Proibido, a consciência, em sua função de representação de mundo (ou seja, Eva), retirou de um sistema de linguagem superior e transcendente (ou seja, a árvore do conhecimento, Da’at), um módulo (um de seus frutos). Disso resultou uma fratura ou falha estrutural do sistema de representação da realidade (tal como descrito pela “ausência” de Da’at e pelo abismo), e assim o ser humano perdeu sua conexão com uma forma de consciência transcendente (ou seja, o primeiro casal foi expulso do Éden). Como resultado, a humanidade teve de construir seu mundo apenas com as partes remanescentes dessa estrutura fraturada (todos os descendentes do primeiro casal suportam o resultado da condenação).

Jung e seus discípulos identificaram em pacientes psiquiátricos a curiosa tendência de desenharem um mesmo tipo de padrão geométrico circular. Esse padrão, conforme observaram, também estava onipresente em sonhos de pacientes, sendo, além disso, recorrente em representações religiosas. Mais que isso, descobriram que estimular as pessoas a desenharem tal padrão impulsionava o processo de autocura, de auto-regeneração da psique.

Sabemos que esse padrão geométrico era chamado de Mandala por Jung, e sabemos que representa um modelo básico de organização da rede formada pela união do Self aos egos que vivem em realidades alternativas. Mas a mandala também é a estrutura de organização ideal dos arquétipos na própria consciência humana, pois representa a dinâmica que deveria ter surgido como resposta adequada à singularidade que ocorreu há doze mil anos.

Mandala elaborado pelo próprio Jung, para representar suas experiências psíquicas.

Portanto, se a estrutura organizativa da mandala é recorrente em sonhos e no processo auto-curativo da psique humana é por um só motivo: aprisionados, uma parte de nossa mente elabora a ideação da cura total, e obsessivamente tenta representar aquela que deveria ter sido a estrutura da consciência humana se um erro não tivesse ocorrido no passado. Não é por outro motivo que a imagem da mandala é tão recorrente em todas as religiões.

Mas de onde, afinal, vieram as religiões?

VI – O NASCIMENTO DA RELIGIÃO

Estamos tão acostumados à ideia da religião que jamais nos ocorre que ela nem sempre existiu. Não nos ocorre usualmente que a religião, enquanto “ficção intersubjetiva” (como diria Yuval Harari), em algum momento foi inventada.

Se por um lado a espiritualidade, ou seja, a abertura à possibilidade de perceber manifestações que não parecem existir enquanto realidade material (essa é a disposição psíquica necessária ao desenvolvimento de uma linguagem arquetípica, como veremos), seja uma prática muito mais antiga e espontânea, o surgimento da religião enquanto sistema organizado em torno de “deuses”, isto é, entidades que deveriam ser idolatradas e para as quais se prestava algum tipo de sacrifício ritual, é algo bem diferente. Religião é a perversão da espiritualidade.

Podemos apenas imaginar como era a mente do homo sapiens no mesolítico, quando a linguagem arquetípica manifestou-se a partir do desenvolvimento de signos linguísticos, dando voz e personalidade aos arquétipos. Por parecerem dotados de autonomia ao homo sapiens primitivo, já que eram suas as vozes ouvidas pela primeira vez na mente humana, os arquétipos foram tratados como se fossem eles próprio entidades “reais”, tais como os animais e os seres humanos. E essas alucinações não eram apenas individuais, mas também coletivas. E Jaynes deixa claro que foi graças a essas alucinações coletivas que as primeiras sociedades complexas puderam surgir, superando as restrições da natureza que condenavam o ser humano ao tribalismo.

As evidências arqueológicas deixam claro que a formação das primeiras cidades dependia da colaboração de centenas de pessoas. Porém, a cooperação entre seres humanos na natureza está limitada ao chamado número de Dunbar. É que o limite cognitivo de interação entre seres humanos numa tribo não pode ultrapassar 150 membros. Ultrapassado esse número, espontaneamente um segundo grupo resulta da divisão do primeiro. Com essa restrição, é impossível desenvolver sociedades complexas, dependentes da coordenação de centenas ou milhares de pessoas.

Imagem do deus Hitita Sharruma com o rei Tudhaliyi. Jaynes chama a atenção para o fato de o deus segurar o braço do rei, como se guiando-o.

Assim, a associação de grandes populações nas primeiras cidades só seria possível se algum novo tipo de sistema de comunicação existisse. Yuval Harari demonstrou em seu livro Sapiens a importância de ficções intersubjetivas como “dinheiro”, “lei” e “governo” para a coesão de grandes grupos de humanos. Se dois perfeitos desconhecidos compartilham das mesmas ficções intersubjetivas, tratando-as por reais, podem interagir no mesmo contexto imediatamente, confirmando a coesão social em um grupo numeroso.

Mas as primeiras ficções intersubjetivas possuíam uma aparência muito mais concreta para os povos primitivos. Seria pouco razoável supor que abstrações complexas como dinheiro, rei e lei tivessem surgido de imediato na mente do homo sapiens. Assim, potências que representavam emoções ou ideações humanas eram percebidas como entidades sobrenaturais. Não é por outra razão que as primeiras cidades possuíam um deus como patrono ou fundador, e que no centro dessas cidades havia uma estátua de tal divindade, em geral dentro de um templo ou no centro de uma praça. Essas estátuas ganhavam vida em alucinações coletivas, incorporando arquétipos que permitiam a coordenação de grupos compostos por centenas e até mesmo milhares de pessoas, conseguindo assim superar, pela primeira vez, a limitação do número de dumbar.

Alucinações coletivas são fenômenos bem estudados pela psicologia desde o século dezenove, quando Brière de Boismont documentou casos de histeria de massa em que grande número de pessoas não só compartilhavam de uma mesma experiência psíquica, mas também acreditavam compartilhar da visão de uma mesma entidade espiritual. Nessas situações, os participantes não enxergam e escutam exatamente a mesma coisa. Na verdade, cada participante tem sua alucinação particular, mas acredita estar vendo e ouvindo a mesma coisa que os demais. E, de regra, embora subjetivo e individual, o conteúdo dessa alucinação corresponde à experiência psíquica que está sendo vivenciada coletivamente, e por isso a vivência simbólica de cada indivíduo corresponde à experiência de todas as pessoas no nível arquetípico, havendo uma convergência alucinatória.

Nobres assírios diante do trono de seu deus, que está vazio. A ilustração é comentada por Jaynes, que chama a atenção para a ênfase nos dedos apontando como se algo estivesse no trono.

Essa é a razão de tradicionalmente as principais divindades das religiões antigas não possuírem uma única aparência, mas serem descritas por um conjunto de imagens e de seres associados àquele determinado Deus. Por exemplo, entre os Gregos o deus Dionysus aparecia em uma grande variedade de formas, como leopardo, cabra (Dionysus Eriphos), touro (Dionysus Taurokephalos), falo priápico, criança, homem barbado, adolescente púbere, espírito negro (Dionysus Melanaigis) ou hermafrodita. Entre os antigos nórdicos, Wotan era representado com um velho com capa e chapéu com abas largas, um cavalo de oito pernas, um poderoso monarca sentado em seu trono, um corvo, um guerreiro montado em seu cavalo e um barqueiro de longas barbas. Quetzalcoatl, entre os astecas e olmecas, era retratado como serpente com penas, serpente com uma crista multicolorida, ser antropomórfico com um bico de ave, entre outras imagens. Essas versões de um mesmo deus são derivações mitológicas das variadas formas como cada indivíduo percebe, em uma alucinação coletiva, o arquétipo na experiência compartilhada pelo seu grupo.

Mas se alucinações coletivas são a base potencial do desenvolvimento de uma linguagem arquetípica, então como seria a comunicação por meio de uma linguagem desse tipo, que transmite vivências psíquicas com uma simbologia correspondente à subjetividade de cada indivíduo, mas conectada à experiência coletiva de todos os participantes?

Na verdade, como Thomas Metzinger expôs em obras como The Ego Tunnel e Being No One, rigorosamente o mundo que vemos ao nosso redor e que tomamos por realidade não passa de uma alucinação coletiva, se por alucinação entendermos uma simulação neurológica apresentada por nosso cérebro como se fosse o mundo real. O fato de que hoje essa alucinação coletiva está limitada apenas àquilo que vemos de concreto em nossa trama de realidade é justamente a consequência do erro que ocorreu há doze mil anos, em lugares como Göbekli Tepe.

Antes de Göbekli Tepe, a linguagem dos nossos antepassados não se restringia apenas às palavras, mas incluía gestos, expressões faciais e outras formas de comunicação não verbal. As palavras eram apenas o primeiro recurso da linguagem, destinado principalmente a representar as coisas (se entendermos por “coisa” aquilo que não é sujeito de experiências psíquicas) que existem em determinada trama de realidade, sendo essa a razão de sua origem. As palavras e sons rudimentares eram os blocos de construção principal, mas não exclusivos, de um sistema de linguagem mais complexo, pelo qual se podia evocar, por meio de signos visuais e sonoros, a “presença” dos arquétipos. Os arquétipos, destinados a representar experiências psíquicas no hipercontexto, formavam uma linguagem superior, que só poderia ser corretamente utilizada por uma consciência mais desenvolvida que a de nossos antepassados, ainda centrada no ego.

Não somos capazes de realmente vivenciar como seria a linguagem arquetípica tal como percebida por nossos antepassados. E isso porque aquilo que somos hoje, o ego que possuímos atualmente, é justamente o resultado, consolidado por milênios, da perda dessa habilidade de interagir com o hipercontexto e com o Eu Superior por meio da linguagem arquetípica. Por razões que logo serão expostas, perpetuamos a existência do ego animal, conferindo-lhe uma estrutura informacional constituída por uma linguagem corrompida, restritiva e aprisionante.

VII – A FUGA

O ego não é exclusividade dos seres humanos. Todos os animais mais complexos, notadamente os mamíferos, possuem um modelo de ego. Diz-se “modelo” pois é exatamente do que se trata: o ego é um modelo informacional construído pelo cérebro humano e colocado no centro daquele modelo de mundo de baixa dimensionalidade que é representado pela consciência como sendo a realidade.

É importante deixar claro sobre qual o material de que é composto essa arquitetura da consciência: de informação. E informação é algo que não existe materialmente. A única coisa que tem existência material são os dados: uma sequência de DNA é um dado, mas só com a transcrição é que começa a se tornar informação, ou seja, um processo de organização e dinâmica da matéria, encadeado em determinada sequência significativa.

Mas informação em alto nível de complexidade, ou seja, informação sobre informação, não tem obrigatoriamente um suporte material (algo na matéria que lhe dá suporte exclusivo), mas apenas um correspondente material (algo na matéria que lhe representa transitoriamente) como é o caso de uma imagem apresentada pela combinação de certos pixels em uma tela e que pode deslocar-se para qualquer ponto dessa tela, transitando para diferentes pixels. Algo que não existe concretamente (no sentido material) e que sequer precisa guardar unívoca correspondência e dependência em relação a determinado suporte material – isso é informação de nível superior, e é o que nossos antepassados chamavam de espírito. Esta é a distinção entre espiritualidade e religião: tratar signos complexos de informação como se fossem um manifestação literal de entidades divinas.

Deuses sumérios: a religião é a perversão da espiritualidade.

A consciência animal, portanto, é dotada de um ego rudimentar, uma unidade informacional destinada a conduzir a vida do organismo dentro de uma só trama de realidade. No período pré-neolítico, a linguagem desenvolveu-se a ponto de dar expressão viva aos arquétipos. Pela primeira vez, nossos antepassados percebiam as experiências psíquicas não somente enquanto estavam acontecendo, como é o caso dos outros animais: as experiências psíquicas eram, a partir de então, percebidas enquanto padrão que se repetia, e sua manifestação no futuro era percebida como conjunto de probabilidades. Em situações de estresse coletivo, esses arquétipos eram percebidos como alucinações coletivas, e a origem dos primeiros “encantamentos” e “palavras mágicas” vem da capacidade que tinham certas palavras de evocar determinados arquétipos em situações ritualizadas.

A partir desse momento, cabia à humanidade perceber que aquelas entidades vistas e ouvidas em determinadas situações não possuíam, de fato, individualidade e autonomia tal como um ser vivo possui. Jung descreveu os arquétipos como “complexos psíquicos parcialmente autônomos”, a fim de evidenciar que se tratam de sistemas de informação que possuem, enquanto “palavras” do “vocabulário” de uma linguagem complexa, certa autonomia no desempenho de sua “função sintática”, destinada a expressar as várias vidas alternativas de um mesmo indivíduo no hipercontexto. Porém, não se tratam realmente de entidades dotadas de personalidade, autonomia e subjetividade.

A pressão para esse salto evolutivo da consciência (perceber os arquétipos enquanto representações, e não seres reais) era inerente à própria aquisição da linguagem arquetípica. A percepção dos arquétipos relacionados à probabilidade de morte, principalmente em representações associadas a grandes predadores e animais peçonhentos, colocava o ego primitivo no centro de uma arena psíquica. Diante de si, pela primeira vez, estava a compreensão da finitude do ego quando percebida da perspectiva de uma trama de realidade. E essa percepção não era meramente conceitual, mas se manifestava na figura de entidades aparentemente mortais. Dessa arena, o ego só poderia escapar com sucesso através autotranscendência, processo pelo qual acabaria por instaurar, em sua consciência, aquilo que Jung chamou de função transcendente – uma ponte com o Eu Superior, em torno da qual se organizariam os demais conteúdos da psique.

Contudo, havia um outro caminho, igualmente conveniente ao ego animal, pois também permitia isolar o trauma de perceber a experiência psíquica da morte na condição de probabilidade futura. Tratava-se de uma solução engenhosa e eficiente, embora suas consequências só pudessem ser percebidas muito tempo depois, quando se tornassem irreversíveis.

Em algumas dessas tramas, a humanidade escolheu a solução de abertura ao aprendizado da linguagem arquetípica. Em outras, escolheu solução diferente. No nosso caso, a arena foi montada em Göbekli Tepe, e nossos antepassados saíram dela graças à segunda opção.

A solução engenhosa consistia em seguir o caminho diverso: a fim de afastar a vivência aterrorizante de arquétipos associados à morte, ao invés de reconhecer todos os arquétipos como parte de uma linguagem superior, outro caminho viável era isolar o ego animal e negar-se a perceber a existência dos arquétipos.

É importante lembrar que isso ocorreu como tentativa da mente humana de lidar com um processo extremamente traumático, na qual percebia a possibilidade da morte do ego a cada momento. O psicólogo Otto Rank falava sobre o terror do mundo, o terror diante do mysterium tremendum et fascinosum da realidade que nos cerca, com suas inúmeras possibilidades de futuro. Conforme pesquisadores como Becker, Greenberg e Sheldon Solomon demonstraram, a percepção constante da morte, como resultado do desenvolvimento da linguagem, foi sentido como um genuíno trauma, causador de uma ruptura cognitiva. E uma das formas de reagir ao trauma é a fuga dissociativa, pelo qual a mente do indivíduo isola-se da experiência traumatizante, recusando-se a reconhecê-la e protegendo dessa forma o ego a fim de que ele continue, mesmo em situação de alto estresse, minimamente operacional.

Mas como fazer isso? Como passar a não ver e ouvir aquilo que estava sendo visto e ouvido de forma tão clara em alucinações individuais e coletivas? Como não perceber mais o que estava diante de nossos olhos?

Isso leva à teoria do psicólogo Wilhelm Reich sobre as “várias mortes” de Cristo.

A hipótese de Reich foi a de que Cristo existiu enquanto personalidade histórica, tratando-se de alguém liberto das amarras que prendem o ser humano à sua consciência limitada. Para Reich, o protagonista da teodiceia cristã seria alguém dotado de uma consciência plenamente evoluída. Seus contemporâneos não o teriam comprendido, pois seu público era constituído de pescadores analfabetos e pessoas do povo. E foi assim, a partir da ignorância do aprisionado que recusa reconhecer a liberdade refletida nos olhos de ser humano, que aqueles ao redor desse ser desperto e livre começaram a “crucificá-lo” de várias formas simbólicas, antes de crucificá-lo fisicamente.

De todas as formas de morte, a mais insidiosa consistiu, segundo Reich, em tratá-lo como se fosse um deus. Ao tratá-lo como divindade, aqueles a seu redor já partiram do pressuposto de que sua consciência evoluída era algo “divino”, e portanto inacessível ao ser humano “pecador”. Seu exemplo vivo, sobre a possibilidade de todos também sermos sãos, despertos e livres, tornou-se miragem, e ao invés de entendermos as verdadeiras palavras de Cristo, construímos novas prisões para o espírito humano na forma de dogmas, religiões, opressão moral e inquisições. Foi assim que uma mensagem de amor ao próximo converteu-se em discurso legitimador das fogueiras da Santa Inquisição e de guerras no nome de Deus.

Portanto, para Reich, a forma mais insidiosa de ignorar o que Cristo teria dito seria não reprimindo sua mensagem, mas deturpando-a e interpretando-a como mensagem religiosa.

A lógica por trás da teoria de Wilhelm Reich é interessante: uma forma de não enxergar aquilo que está diante de nossos olhos é tratar tal coisa por outra coisa, rejeitando, com base em uma visão religiosa, a possibilidade de acesso humano a essa outra coisa. Trata-se do desenvolvimento da religião como técnica de mascarar uma percepção que a consciência se recusa a reconhecer. A religião torna-se instrumento de deturpação de uma mensagem, na qual mensageiro e mensagem são literalizados e tratados como objeto de idolatria.

E a primeiro mito do Gênesis a tratar da religião enquanto sistema de culto ritual e cerimônia litúrgica foi no mito-gêmeo de Caim e Abel, que conta a história do primeiro homicídio.

VIII – CAIM E ABEL

Os mitos do Fruto Proibido e de Caim e Abel são gêmeos. Tentam descrever, de duas perspectivas, a mesma singularidade que ocorreu há doze mil anos. Enquanto a história do pecado original é uma alegoria sobre a natureza da Revolução Cognitiva que resultou na mente bicameral, a história do primeiro homicídio bíblico é uma alegoria sobre a origem da Revolução Neolítica, unindo em uma só trama religião, sacrifício e agricultura. O mesmo pode ser dito sobre o mito da Torre de Babel, no plano da linguagem.

No filme de Aronofsky, a noite chega após um dos filhos do casal que representa Adão e Eva matar seu irmão, por sentir-se preterido em relação a uma herança. E é para participar da cerimônia de velório da vítima que uma multidão invade a casa pela primeira vez. Curiosamente, são as “vozes” dessa multidão que o poeta escuta durante tal cerimônia que lhe dão a inspiração para concluir sua poesia. Somente a partir desse momento é que o poeta passa a realmente escrever no filme. Antes, não conseguia colocar uma só linha no papel, como se não dominasse a linguagem. E a poesia criada mediante essa inspiração, quando concluída, será tratada pela multidão não como obra de arte, mas como objeto de culto, como mensagem divina em torno da qual religiões se organizam e disputam a posse da verdade.

Caim e Abel, o contexto de prática religiosa é evidente.

Segundo o Gênesis, Caim mata Abel dominado pela ira, pois Javé preferiu o sacrifício de um animal, feito por Abel, e rejeitou a oferenda de Caim, produto da agricultura. O contexto do evento, portanto, é o religioso, de adoração ritualizada da divindade através de uma oferenda. Caim é a agricultura, Abel é o sacrifício. Na versão bíblica da lenda de Caim e Abel, já há o vestígio da transição entre sacrifício de humanos para o de animais, evidente na dualidade de Abel ser ao mesmo tempo, na história, a vítima humana que sacrifica uma vítima animal. Assim, a ideia de que a agricultura está relacionada com a morte de alguém no contexto da prática religiosa está subjacente a toda narrativa.

A interpretação literal dessa lenda traz a ideia de que se está contando uma história, o que é uma forma equivocada de interpretar um mito. Um mito não conta uma história, da mesma forma que um sonho não conta uma história. E aprendemos com Jung, Elíade e Campbell a não interpretar mitos e sonhos como tentativas de apresentar uma narrativa coesa e literal – até porque literalizar é o próprio da interpretação religiosa.

O mito é uma representação alegórica de algo que não pode ser descrito com o universo conceitual conhecido pela consciência humana. A religião é justamente a escolha por tratar o mito como uma narrativa literal (em maior ou menor grau), enquanto a disposição adequada [[Que poderíamos definir como “espiritualidade autêntica”.]] trata o mito como ferramenta informacional, ou seja, como uma informação transmitida através de um sistema de linguagem superior (superior em nível de complexidade, domínio e abstração).

No mito, tem-se a associação entre ritual de sacrifício, representado por Abel, e agricultura, representado por Caim. A versão mais moderna da história, apresentada no Gênesis, tenta explicar que Caim matou Abel movido por inveja diante da preferência de Deus. Porém, essa é uma tentativa tardia feita pela própria religião, que literaliza o mito utilizando o típico recurso de expor a motivação dos personagens sob o enfoque da lição moral. Desse ponto de vista religioso, o mito ganha a forma de uma história sobre um crime.

Porém, a narrativa de Caim e Abel apresenta o nascimento da primeira religião mediante a ritualização do sacrifício humano, indicando a estreita relação entre essa prática e a agricultura. Caim, pai da agricultura, mata Abel porque ele foi “escolhido” por Javé, estando a “escolha” de alguma forma associada simbolicamente à ideia de oferenda sacrificial. Convém lembrar que nos sacrifícios ritualizados, a vítima costuma ser tratado como alguém “ungido” ou “escolhido” pela divindade – sublimação mítica do anseio animal por sua presa.

Isso pode parecer chocante, mas apenas do ponto de vista de uma sociedade que se deixou seduzir pela reinterpretação higienizada de mitos muitos antigos, reinterpretação essa transmitida oralmente por muitas gerações antes de sacerdotes as registrarem por escrito com propósito religioso e educador. Há uma estreita relação entre a origem da religião e o surgimento da agricultura, e esse elo é o primeiro assassinato em nome dos deuses na forma de sacrifício ritual.

Jacques Cauvin já no título de sua principal obra, Naissance des divinités, naissance de l’agriculture (“Nascimento das divindades, nascimento da agricultura”), deixa claro que a intervenção ambiental necessária para o surgimento da agricultura tem por pressuposto a criação de uma cosmovisão centrada na percepção de que os deuses poderiam ser aliciados para pouparem os homens e beneficiarem a agricultura. E essa origem comum entre religião e agricultura acabou sendo confirmada com a descoberta, no fim do século passado, de Göbekli Tepe, o berço da Revolução Neolítica. Como diz o arqueólogo Lewis-Williams em The Neolithic Mind, o “contrato cognitivo” que foi pactuado pela raça humana nesse lugar foi assinado em nome de todos nós pela primeira casta de sacerdotes usando o sangue da primeira vítima humana, sacrificada na primeira religião.

Klaus Schmidt, líder da equipe de arqueólogos em Göbekli Tepe, acredita que seja a esse local que os mitos sumérios se referiam ao contar a história do Monte Dul-kug, espaço sagrado em que pela primeira vez os deuses da primeira religião, os Anunnaki, foram cultuados [[Schimidt, Göbekli Tepe, 206.]]. Ali foi criado o primeiro sistema religioso, ou seja, a primeira literalização dos arquétipos, tratados como espíritos e deuses a serem temidos e cultuados. Dali se originaram todas as demais culturas da antiga Mesopotâmia. Da mitologia babilônica à gematria hebraica, do gnosticismo ao neoplatonismo, tem-se um conjunto de reinterpretações e desenvolvimentos de uma narrativa mitológica que foi criada naquele local.

Os Anunnaki em uma representação Assíria – portanto, tardia e já antropoformizada.

Os arqueólogos estão certos que as monumentais estruturas em Göbekli Tepe tinham exclusivo propósito cerimonial, pois não há absolutamente nenhum vestígio de assentamento humano na área. Além disso, a enorme quantidade de fragmentos de pedras lapidadas na forma de pontas de lança e outros tipos de armas deixa claro que se tratava de um lugar de peregrinação de um culto violento, baseado na guerra ou na caça. Especula-se que o afluxo constante de peregrinos ao local foi o que acabou forçando o desenvolvimento da agricultura, como técnica inventada para alimentar centenas de pessoas. É o que indica o fato de que a origem do trigo, primeiro cereal cultivado pelo homo sapiens, ter sido rastreada até as vizinhanças de Göbekli Tepe.

Nas enormes e pedras de até quinze toneladas que foram encontradas em Göbekli Tepe, a representação de animais peçonhentos e de predadores mostrando garras e presas transmite a ideia de violência e medo. Há imagens de corpos humanos sem cabeça, agitando-se com vida diante de uma plateia de escorpiões e abutres, e totens retratando criaturas que brotam do estômago de seres humanos cercados por serpentes. Sem dúvida, tratava-se de uma cultura sofisticada para o período, com uma enorme riqueza de símbolos e grande habilidade na construção de estruturas com pedras que pesavam toneladas Porém, a impressão de que ali havia medo e sofrimento sempre persistiu, por mais que os pesquisadores tentassem manter sua objetividade.

Raposa e javali, em posições de ataque, mostrando suas presas. Observe a representação dos genitais masculinos – segundo Ian Hodder, para evocar agressividade.

Mas os fato acabaram por confirmar essa impressão. Nos primeiros meses de 2017, os arqueólogos que trabalham em Göbekli Tepe anunciaram a descoberta de um número impressionante de vestígios de crânios humanos separados dos corpos de forma artificial, com sinais claros de cortes e incisões que sugerem seu uso ritualístico no local, inclusive pendurados por cordas.

Observando os vestígios arqueológicos, pode-se facilmente reconstruir o cenário original. Quem ali estivesse durante uma das cerimônias via-se entre dois monólitos representando deuses de cinco metros de altura, cercados por enormes pedras com imagens de leões, lobos, serpentes, ursos, hienas, abutres e homens sem cabeça. Mas não apenas relevos e esculturas eram aterrorizantes. Os espectadores ou vítimas dos rituais ali realizados estavam diante de cabeças de vítimas humanas penduradas para evocar algum tipo de sentimento, possivelmente pouco agradável.

Achados de Göbekli Tepe. À esquerda, seres emergindo do peito e ventre de um homem (serpentes flanqueiam a figura). À esquerda, um predador, possivelmente um leopardo.

Na verdade, os elementos desse cenário são completados pela descoberta em Çayönü Tepesi, outro sítio arqueológico pré-neolítico da região, de um fosso no qual estavam fragmentos de ossos de pelo menos 450 indivíduos. O destino dessas pessoas foi revelado quando também se descobriu próximo à construção uma faca esculpida em sílica e um altar sacrificial esculpido numa pedra de uma tonelada, na qual se encontrou vestígios de sangue humano e animal.

Peças de Göbekli Tepe. A – Estátua humana que foi propositalmente decepada; (B) Urso segurando a cabeça de um homem; (C) Escorpiões e Abutres, um homem sem cabeça e com ereção situa-se abaixo do Escorpião, enquanto um abutre segura uma cabeça humana (interpretação dos arqueólogos).

Mas qual a razão desses rituais? Por que tantas pessoas peregrinavam até aquela região com tanta frequência a ponto de surgir a agricultura para alimentá-los? Por que os construtores de Göbekli Tepe tiveram tanto trabalho erguendo aqueles monumentos com pedras que pesam toneladas? Por que a evocação do terror, por que o sacrifísio? Qual o motivo de tanto esforço e sofrimento? Apenas em nome de uma fantasia religiosa? É pouco provável.

Na verdade, essas perguntas encontram resposta em certos precedentes, casos em que civilizações recentes surgiram centradas no sacrifício humano como forma de aliciamento dos deuses e organização social.

IX – A COSMOVISÃO DA PRESA

Quando a inteligência do Velho Mundo cuidou de estudar as principais sociedades da mesoamérica, ficou escandalizada com suas práticas religiosas, com seus mitos cheios de sangue, deuses carnívoros e sacrifícios humanos. A frequência com que corpos decapitados, corações arrancados e entidades vestidas de pele humana são retratados na arte Olmeca, Maia e Asteca fez H. G. Wells sugerir seriamente que esses povos sofriam de algum tipo de psicose coletiva.

Essa é apenas a vaidade do britânico eurocêntrico, supondo que sua origem necessariamente deveria ser mais nobre e menos insana diante da violência, do terror, da crueldade. Porém, a civilização que foi tardiamente levada a tribos britânicas nasceu na antiga Mesopotâmia, e os arqueólogos atuais, com o apoio da tecnologia mais recente, não se cansam de descobrir que as primeiras civilizações dessa região, os sumérios e os babilônios, também se banhavam no sangue vertido para deuses sedentos de vidas humanas. Além disso, o paralelo entre muitos mitos da região mesopotâmica e a mesoamérica pré-colombiana são desconcertantes.

Ocorre então que práticas religiosas como as dos Olmecas, Maias e Incas estão longe de ser anomalias na história do desenvolvimento da civilização ao redor do planeta. Tratam-se de povos que revelam com clareza o que ocorre quando o homo sapiens cria, a um só tempo, a primeira civilização e a primeira religião: a pedra de fundação é o sacrifício humano.

E quando se estuda a primeira civilização da mesoamérica pré-colombiana, os Olmecas, matriz para os posteriores Maias e Astecas, tem-se uma sociedade estratificada, controlada por uma casta de sacerdotes a serviço de uma religião politeísta, em que os principais deuses são predadores como o jaguar e animais peçonhentos como a serpente, em homenagem aos quais aqueles sacerdotes sacrificavam vidas humanas como prática habitual de culto.

O etnólogo Michael Winkelman é uma das maiores autoridades entre os pesquisadores que buscam entender a relação entre sacrifício humano e desenvolvimento da sociedade. Em 1998, estudou profundamente comunidades mesoamericanas na busca daquelas que praticavam sacrifício humano como forma de comportamento normativo e associado ao benefício da coletividade. Em todos os casos, tratavam-se de grupos “com uma forte dependência da agricultura, sedentários ou com residência relativamente permanente”.

A conclusão de Michael Winkelman dá voz à conclusão de outros tantos pesquisadores, principalmente de arqueólogos municiados de evidências que estabelecem uma relação entre sacrifício, agricultura, criação de um sistema de castas e organização política das primeiras cidades. Mais de uma equipe de pesquisadores colheu evidências de que o ritual de sacrifício humano transitou de forma voluntária e sacralizada de ofertar uma vítima aos deuses para uma forma de consolidar uma divisão de castas através da escolha de quem seria sacrificado.

O arqueólogo David Lewis-Williams apresentou mais um fator político para os rituais de sacrifício em Göbekli Tepe. É que graças ao desenvolvimento da primeira religião, surgiu a primeira casta de sacerdotes, e assim a primeira forma de domínio do ser humano pelo ser humano nasceu. Não tardou para que novas castas e estratificações sociais surgissem a partir da matriz sacerdotal, assegurando a manutenção do sistema social pelo sacrifício ritual de vozes dissonante ou grupos situados na base da pirâmide.

Os antigos xamãs, versados em técnicas que estimulavam estados alterados de consciência, dominavam com maestria os primeiros rudimentos de linguagem arquetípica criados pelo homo sapiens. Thomas Metzinger observou que druidas, pajés e xamãs tinham como ofício explorar, mediante o uso de alucinógenos ou procedimentos indutivos de transe como o temazcal, outras possíveis arquiteturas para a consciência e diferentes modelos de representação do mundo.

Com a singularidade, uma oportunidade política surgiu para que esses “profissionais” a serviço de suas tribos criassem a primeira casta sacerdotal, detentora do conhecimento de como apaziguar e agradar aos deuses. O que houve foi algo semelhante ao que ocorreria se engenheiros e programadores responsáveis pela primeira superinteligência artificial a utilizassem para seu benefício pessoal. No caso dos sacerdotes de Göbekli Tepe, isso foi possível porque eles ofereceram às suas tribos um produto de que necessitavam: uma suposta “cura” para o terror diante da consciência da morte. Essa “cura” foi a mente bicameral.

A mente bicameral, em que o ego começa a interagir com os arquétipos como se fossem deuses, e não como elementos de uma linguagem superior, foi o primeiro passo para o que se consolidou como o isolamento definitivo do ego na consciência. O fenômeno que Jaynes equivocadamente chamou de “origem da consciência pela ruptura da mente bicameral” (título de sua principal obra) foi apenas a conclusão de um processo de fuga dissociativa da psique humana que começou exatamente com a produção desse sistema bicameral. No fim desse processo, o ego ficou totalmente isolado, senhor único da consciência humana, sem tomar conhecimento de qualquer verdade que possa ameaçar sua ilusão de autoimportância e imortalidade.

Essa situação foi resultado do caminho escolhido pelo ser humano diante da singularidade produzida por uma linguagem que demandava a reestruturação da consciência a fim de superar do terror da morte. Não se tratou de uma escolha consciente, mas de uma escolha conveniente – e não apenas sob o aspecto da casta sacerdotal que foi criada.

Por milhões de anos, o homo sapiens e seus ancestrais ocuparam uma posição intermediária na hierarquia da cadeia alimentar. Primatas caçavam roedores e outros animais de pequeno porte, ao mesmo tempo em que fugiam dos grandes predadores, situados no topo da pirâmide. Na verdade, as evidências arqueológicas revelam que a maior parte da carne consumida por nossos antepassados não era por eles caçada, mas obtida de carcaça de vítimas de grandes predadores, de modo que nossos rivais eram abutres e hienas. O fato de que os fósseis de homo habilis sempre são descobertos junto a pedras lascadas indica, inclusive, que nossos ancestrais inventaram as primeiras ferramentas não para o nobre uso da caça, mas para a mais modesta atividade de extrair o máximo de carne deixada nos ossos de um cadáver.

Em determinado momento, tudo isso mudou. Graças ao surgimento da linguagem, foi possível aos seres humanos combinar estratégias para caçarem animais de grande porte e repelir o ataque de grandes predadores. Graças ao surgimento da linguagem, instruções mais complexas sobre como preparar ferramentas e armas puderam ser transmitidas. Há uma estreita relação entre linguagem, cérebro e as primeiras ferramentas, e essa dinâmica fez com que o humilde homo sapiens ascendesse na sociedade animal. Subitamente, com a linguagem, o ser humano pulou da modesta posição que ocupava na cadeia alimentar para o time de elite, ao lado de leões, lobos e leopardos.

Mas algumas dezenas de milhares de anos não passam minutos de na história evolutiva, e os circuitos neurológicos e a programação animal que herdamos de nossos ancestrais mais remotos não nos preparou para vivermos e pensarmos como grandes predadores. Por milhões de anos, os hominídeos só souberam fugir desses carnívoros vorazes. Até mesmo nosso sistema nervoso está condicionado para que nossas reações e decisões correspondam a lógica de quem é caçado, e não de quem caça.

Pilar de Göbekli Tepe. Animais peçonhentos como serpentes, escorpiões e aranhas também estão presentes no local.

Não convém subestimar o peso que a condição de animal caçado teve em nossa evolução. Aumentar as possibilidades de sobrevivência diante de predadores com músculos, garras presas e mandíbulas poderosas foi um dos principais fatores da adaptação evolutiva a estimular a associação entre humanos e, portanto, a impulsionar a criação das primeiras formas de linguagem. O próprio Darwin considerava que os hominídeos não teriam evoluído como animais sociais se um deles pudesse, sozinho, enfrentar os predadores habituais. O desenvolvimento da linguagem é uma resposta à nossa inferioridade animal.

E a experiência psíquica de ansiedade e medo constante das garras de um predador continuou presente na cosmovisão humana. Porém, como o desenvolvimento da linguagem, essa experiência manifestava-se em alucinações auditivas e visuais que eram compartilhadas pelo grupo a que pertencemos em situações de estresse coletivo. Perceber tais alucinações como predadores superiores, situados no topo da pirâmide alimentar do universo (ou seja, percebê-los enquanto deuses), ajustava-se perfeitamente ao condicionamento de nossa psique.

Antigos xamãs ameríndios.

A humanidade subiu ao topo da cadeia alimentar, mas ficou presa aos fantasmas de seu passado ancestral. Assim, sua reação diante desses arquétipos apenas simulou a reação condicionada em nosso sistema nervoso por milhões de anos de sobrevivência nessa condição.

Walter Burkart, em seu clássico Structure and History in Greek Mythology and Ritual propõe que imaginemos um grupo de seres humanos primitivos cercados por um predador. Seu comportamento pode ser deduzido do comportamento de outros animais hoje em dia, em idêntica situação. “Usualmente”, diz Burkart, “haveria apenas uma forma de salvação: um membro do grupo precisava tornar-se presa de carnívoros famintos, e desse modo os demais poderiam se salvar por enquanto”.

E não é por acaso que essas duas palavras, “sacrifício” e “salvação”, são bem conhecidas nas litanias da Igreja Católica. O comportamento padrão dos hominídeos na cadeia alimentar, em que uma vítima, voluntariamente ou não, sacrificava-se em nome do grupo, foi repetido na cadeia alimentar imaginária que o homem estabeleceu com os arquétipos que representavam a experiência psíquica do Mal e da Morte, e essa foi a matriz original de todas as religiões.

Por milênios, o terror da presença de um grupo de carnívoros famintos era aplacado quando alguém se tornava vítima e o restante do grupo salvava-se. Os primeiros rituais realizados diante do que se interpretou como entidades superiores, acima dos seres humanos na cadeia alimentar do universo, os deuses, foi o ato de ofertar vidas humanas como repetição maníaca de uma situação recorrente na natureza. Tratou-se de tentativa de eliminar a percepção de um suposto mal repetindo um procedimento que aplaca a fome de predadores na natureza.

O sacrifício humano está presente nas religiões de ontem e de hoje com muito pouca sutileza, reproduzindo a oferta de uma vítima sacrificial a deuses que evocavam as mesmas experiências psíquica de morte e terror que os grandes predadores. Trata-se de uma reação ao trauma da consciência da morte que é similar ao trauma de vítimas de longo período de cativeiro que, após serem libertadas, ainda se comportam como se estivessem cativas.

Quando subimos de posição na cadeia alimentar, graças ao desenvolvimento da linguagem, e nos tornamos predadores, levamos conosco a cosmovisão de animais caçados e amedrontados. Quando tivemos acesso, graças também à linguagem humana, à percepção de uma linguagem superior, com a qual poderíamos reescrever a estrutura de nossa consciência, decidimos isolar o trauma do conhecimento da morte do ego isolando esse mesmo ego em uma consciência incapaz de interpretar as experiências psíquicas.

Ritual de sacrifício em ânfora grega.

Temos, diante de nós neste momento, a percepção daquilo que emergiu da singularidade de doze mil anos atrás segundo perspectiva hipercontextual e contextual da psique humana. No hipercontexto, ou seja, da perpectiva da função de onda que é a vida humana, em que os arquétipos são probabilidades de experiência psíquica, a consciência do indivíduo foi reestruturada para isolar-se do conhecimento da linguagem arquetípica, naquilo que Jaynes chamou de mente bicameral. No contexto, da perspectiva evolutiva e histórica, a humanidade lidou com o trauma da percepção da morte e com a súbita posição de vantagem na cadeia alimentar reajustando o sistema de forma retrógrada: inserindo o novo mundo na lógica de uma antiga cosmovisão de inferioridade. Inventou-se a religião.

O elo que une ambos aspectos da singularidade é o sacrifício. O sacrifício humano ritualizado é a um só tempo a manifestação literal de um comando em linguagem arquetípica (que buscava justamente reproduzir essa mensagem ou estrutura informacional na Matriz, de isolamento) e a gênese das primeiras religiões organizadas. Michael Winkelman observou que a relação entre números de sacrifícios em uma comunidade é inversamente proporcional à hierarquização das crenças religiosas, como se o sacrifício fosse “um mecanismo para alcançar uma forma de integração religiosa em sociedades carentes de um sistema integrativo e hierárquico de crença”.

Embora o sacrifício seja um ato essencialmente repugnante, foi custoso à humanidade abandonar sua prática. E mesmo após abandonado, tão forte foi sua presença que sempre deixava sua marca. Nas religiões que se desenvolveram a partir das primeiras, animais passaram a substituir seres humanos, e nas mais recentes esconde-se por trás de reinterpretações como o sacrifício de mártires cristãos e da autoimolação de monges budistas. No primeiro caso, a própria Paixão de Cristo apresenta a biografia de Jesus como a do cordeiro oferecido em sacrifício para salvar toda a humanidade. Já na tradição budista o mito da imolação surgiu cedo, nas primeiras obras de sua literatura, e é interessante notar que em uma das mais populares narrativas do Jataka é sobre como em outra encarnação Buda teria dado seu próprio corpo em sacrifício para que uma tigresa alimentasse sua cria – justo uma narrativa envolvendo a experiência fundamental humana enquanto caça de grandes predadores.

Sacrifício de crianças na antiga Babilônia (fonte: “Human Sacrifices on Babylonian Cylinders, William Hayes Ward).

O sacrifício humano tem essa influência na formação da cosmovisão religiosa justamente por se tratar de um procedimento que provocava, ao menos inicialmente, elevado estresse na comunidade (situação em que os arquétipos tendem a se manifestar como alucinações coletivas) e em parte por reproduzir, diante dos arquétipos, o mesmo comportamento ancestral do ser humano diante de animais poderosos e ameaçadores. Com o sacrifício, o homem mesolítico dava a si mesmo uma explicação sobre quem ou o que eram os arquétipos que passaram a ter voz e se comunicar com ele, inserindo-os na sua cosmovisão primitiva de vítima de um grupo de carnívoros. Basta observar os relevos e estátuas das entidades cuja presença os antigos construtores de Göbekli pretendiam evocar durante os rituais ali realizados. Como Ian Hodder diz, são animais agressivos, notadamente predadores, de regra em posição de ataque, exibindo suas garras e presas.

Mais ainda, do ponto de vista ritualístico, como forma de interação possível com os arquétipos (contextualizados como deuses), o ritual de sacrifício nada mais era do que uma literalização da linguagem que, toda vez que repetida, expressava-se em linguagem arquetípica, criando uma barreira de recusa fundamental do conhecimento da Matriz. Rejeitando os arquétipos enquanto módulos de uma linguagem superior, o ser humano reteve apenas uma parte elementar da dimensão linguística adquirida, e com ela construiu a mente bicameral, na qual os arquétipos se manifestavam apenas enquanto deuses. O passo seguinte foi ampliar esse isolamento com aquilo que Jaynes identificou como o surgimento da consciência, mas que se tratou apenas da consolidação do ego como senhor absoluto da consciência, dispensando até mesmo a percepção dos arquétipos como divindades.

Para Gobekli Tepe afluíam tribos de caçadores-coletores que peregrinavam de todas as regiões da antiga Mesopotâmia, a fim de que cada uma oferecesse suas vítimas ao sacrifício, forma de apaziguar os grandes deuses que se revelavam na forma da alucinação de animais com garras e presas poderosas. Ali xamãs reuniram-se e aos poucos formaram a primeira casta sacerdotal, isolando na consciência humana a percepção de um arquétipo na forma de alucinações que eram tratadas não como elementos de uma linguagem que representava a experiência psíquica que estava sendo ou seria vivenciada, mas como entidades sobrenaturais, que eventualmente se comunicavam com os mortais.

Mas esse isolamento do ego como senhor da consciência, apesar de ser uma solução diante do trauma do terror diante da morte, foi na verdade uma forma de a humanidade desviar-se de seu melhor futuro e cair em uma armadilha, enredando-se até não conseguir mais retornar. Sua consciência tornou-se sua própria prisão.

X – A PESTE EMOCIONAL

Peregrinando até locais de culto como Göbekli Tepe, as tribos de homo sapiens reuniram-se sob o comando de uma casta de sacerdotes para lidar a um só tempo com dois problemas resultantes do desenvolvimento da consciência a partir da linguagem: com o desajuste de sua cosmovisão após a súbita ascensão ao topo da cadeia alimentar e com o terror e ansiedade que vem da percepção da própria mortalidade. Emergiu dessas cerimônias a mente bicameral e a primeira religião, perversão da espiritualidade enquanto abertura para a linguagem arquetípica.

Há muito o que falar sobre a natureza dos rituais realizados em Göbekli Tepe e os relevos em certas pedras encontradas no sítio arqueológico. Mas, no momento, o que importa é que essa transformação da espiritualidade dos caçadores-coletores na religião dos agricultores deu-se pelo manejo da linguagem arquetípica por xamãs durante rituais que literalizavam a experiência psíquica de terror diante da morte tal como percebida toda vez que um predador cercava um grupo humano. O sacrifício cerimonial evocava o estresse coletivo, e o estresse coletivo sob a influência de alucinógenos tornava mais vívida a percepção dos arquétipos que se desejava “invocar”, e cuja fúria pretendia-se aplacar com a oferenda de uma vida humana.

Mas a estratégia de fuga dissociativa consistente em tratar os arquétipos como deuses a serem apaziguados eliminou a possibilidade de desenvolvermos uma linguagem arquetípica. Esse processo de idolatria posicionou os arquétipos na zona de transparência fenomênica da consciência, como diria Metzginger – ou no inconsciente coletivo, como diria Jung. Desenvolveu-se, em relação ao ego e à consciência, uma ignorância fundamental de qualquer linguagem arquetípica. Restou à consciência reestruturar-se apenas com o conteúdo mais elementar da linguagem humana: as palavras.

As percepções conscientes não dependem da linguagem para sua ocorrência, mas a linguagem influencia decisivamente a forma como as percepções conscientes ocorrem e são processadas. A linguagem orienta a sintaxe do pensamento e a construção de decisões importantes à sobrevivência do organismo. Na verdade, a linguagem verbal participa ativamente da consciência em níveis mais fundamentais, como a percepção de tempo, a atenção visual e as emoções.

Portanto, a linguagem verbal estrutura o modelo de mundo construído pela consciência ainda quando não pensamos estritamente na forma de narrativa verbal. A linguagem verbal se viralizou na consciência e tornou o ego humano um incansável “falador interno”, e qualquer pessoa que pratica pela primeira vez alguma técnica de meditação budista observou como é difícil silenciar esse “falador” maníaco por apenas alguns minutos. Jaymes Joyce, ao introduzir a técnica literária do “fluxo” da consciência, ilustrou como as palavras e associação de palavras se sucedem na mente do homo sapiens nos dias de hoje, ainda que produzam apenas lixo e ruído a maior parte do tempo.

Desse modelo de mundo, porém, estão excluídas as experiências psíquicas, por ausência de uma linguagem adequada para descrevê-las. Não é que as experiências psíquicas não nos ocorrem – elas continuam ocorrendo o tempo todo. Mas elas não integram a consciência humana pois essa consciência utiliza uma linguagem verbal descritiva, e palavras são totalmente incompetentes quando se trata de descrever experiências psíquicas fundamentais, a fim de que sejam assimiladas pela consciência da forma correta.

Somos praticamente cegos em relação à sucessão de experiências psíquicas, portanto. Elas nos ocorrem, mas lidamos com elas inconscientemente, na medida em que determinam nossas reações emocionais e influenciam nosso comportamento sem muitas vezes percebermos.

A ausência de uma linguagem capaz de representar à consciência as experiências psíquicas que ocorrem no hiper contexto torna qualquer um de nós um livro aberto para quem está familiarizado com a linguagem arquetípica. Mesmo a publicidade e a política atuais começam a fazer uso progressivo dessa zona cega em nossa cognição para manipular medos e desejos de espectadores e eleitores.

Um dos fragmentos de linguagem arquetípica ainda existentes no legado humano, aquela que é chamada de “Linguagem do Crepúsculo” no ocidente, é melhor traduzida do sânscrito Sāṃdhyābhāṣā por “Linguagem Intencional”, e não por acaso. Não referindo-se a coisas, mas a experiências psíquicas, e não tratando de eventos, mas de configurações na sincronicidade, a linguagem arquetípica seria a forma possível de informar e configurar o contexto emocional em que qualquer diálogo ocorre. Em síntese, a linguagem arquetípica teria a função de “metalinguagem”, de informar a intenção com que algo está sendo dito.

Desprovidos de uma forma de reconhecer os arquétipos atuantes em qualquer tipo de interação humana, seja de natureza íntima ou política, os seres humanos possuíam apenas as palavras para transmitir sentimentos e intenções que deveriam contextualizar a comunicação. As palavras, porém, são insuficientes para expressar os complexos e ambivalentes sentimentos humanos, e apenas produzem mais discórdia, divergência e oposição quando usados como única forma de interação humana, ainda que para o intercâmbio de ideias. Na retórica religiosa fundamentalista, nas intermináveis discussões entre casais e nos violentos embates sobre política em redes sociais tem-se exemplos de como a comunicação feita apenas com palavras só aumenta a incompreensão.

Goebbels, sempre desagradável, resumiu o século XX em uma só frase: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Essa é uma das consequências modernas de um antigo mal, que contaminou também a própria verdade: uma verdade repetida mil vezes perde seu sentido, torna-se lugar comum. Repita-se uma palavra um determinado número de vezes e ela perde seu significado, parece um som estranho. Tal é o limite da palavra, uma ferramenta extremamente útil (assim como o ego) mas nociva quando sua funcionalidade é desviada.

Essa “cegueira”, esse “analfabetismo” para lidarmos com as experiências psíquicas que nos ocorrem, incrivelmente não nos causa estranheza. O ser humano é nada mais que uma vítima de experiências psíquicas que o possuem transitoriamente. Os homens fazem planos, mas seus planos são malogrados por emoções confusas e decisões motivadas por impulsos mal compreendidos.

“As tendências à dissociação caracterizam a psique humana e são inerentes a ela; sem isto, os sistemas psíquicos parciais nunca a teriam cindido, ou melhor, não teriam gerado espíritos ou deuses”, ensina Jung. Nossa verdadeira e única religião, lembra ele, é o “monoteísmo de uma consciência”, uma “possessão da consciência que ocasiona uma negação fanática da existência dos arquétipos”.

Isso, para Jung, representa um “grande perigo psíquico”, pois os arquétipos, embora não sejam reconhecidos pela consciência, continuam atuantes, influenciando nossas condutas. “Tal fato, evidente nos casos de neuroses, também o é no campo dos fenômenos psíquicos de caráter coletivo”, e após escrever estas palavras Jung faz alusão ao nazismo.

Mas o nazismo é somente um dos mais recentes casos em que a cegueira arquetípica mergulhou o mundo no sangue e na destruição. Da inquisição espanhola aos atentados terroristas modernos, da Guerra Fria com sua corrida armamentista à degradação irreversível do meio ambiente, qualquer observador que examine nossa história com objetividade chegará à conclusão de que se trata de uma história de “loucura consensual, compartilhada, disfarçada e dignificada, mas loucura ainda assim”, nas palavras de Becker.

E o cotidiano de qualquer ser humano está cheio de situações em que coisas foram ditas e feitas sob o domínio de alguma emoção que se tem dificuldade de controlar ou mesmo de perceber objetivamente. Muitas das principais decisões de uma pessoa ao longo de sua vida são tomadas sob o domínio de algum tipo de errônea percepção emocional da situação. Num nível mais extremo, as prisões de todo o mundo estão repletas de casos em que a possessão por algum tipo de conteúdo psíquico incontrolável levou ao crime.

Se negamos a existência dos arquétipos, demonstra Jung, nem por isso seu efeito em nossas vidas cessará, embora não possamos mais compreendê-los. “Eles tornar-se-ão um fator inexplicável da perturbação, que atribuímos a algo fora de nós mesmos”. Isso, no âmbito individual, desencadeia neuroses, depressões, ataques de pânico, transtornos obsessivos e ataques de ansiedade, e no âmbito coletivo “desencadeia alucinações coletivas, incidentes de guerra, revoluções – em resumo, psicoses destruidoras de massa.”

O ser humano de hoje tem a seus pés toda a criação. Senhor do mundo, não há grande predador que lhe oponha resistência. Com seu mundo imaginário, construído por linguagem e regido por ficções como Leis, Dinheiro e Nações, foi capaz de criar armas de destruição em massa e vencer os limites da atmosfera terrestre. Porém, triste primata, não encontra genuína alegria em tudo o que faz, não vê propósito em seus dias, escraviza-se pelas ficções que ele próprio criou, da sua vida por elas, sente-se sempre incompleto, em desconforto e desequilíbrio. O homem nasce livre, lembra Rosseau, e por todos os lados está acorrentado. E “de que adianta uma pessoa ganhar o mundo inteiro, se perder a própria alma?”

XI – O ENREDAMENTO

Nos cartazes do filme Mother!, o filho de Sophia é associada ao próprio cristal, mas com uma forma circular (perfeita, mandálica) e não assimétrica, como o cristal do filme, que o poeta retira de sua esposa agonizante. Por outro lado, o poeta trata o cristal de uma forma bem curiosa: embora a pedra venha de Sophia, devota-lhe uma reverência que não devota à própria Sophia. O poeta protege o cristal, coloca-o em um pedestal em sua estante, coisifica-o.

As consequências do “pecado original”, da perda de um módulo da linguagem, foram mais concretas do que as confusões emocionais que atrapalham o destino humano. Como Ian Hodder, arqueólogo chefe da equipe responsável pelas escavações em Çatalhöyük, demonstrou que após a Revolução Neolítica a identidade humana passou a ser definida por uma relação de interdependência não com outros seres vivos, mas com “coisas”.

A essa relação, Hodder deu o nome de enredamento. O enredamento no mundo das coisas é uma consequência inevitável do isolamento da linguagem arquetípica, pois a partir de então a consciência humana só pode representar o mundo material e as relações de causalidade, fixando sua atenção linguística nas coisas.

“Enredamento” é um nome apropriado para descrever a relação entre identidade humana e coisas, pois peixes enredam-se em redes assim como o ser humano enreda-se na matéria. Quando a vida humana começa a depender de coisas e, tomados pelo terror diante da morte e impermanência, passamos a buscar nas coisas a sensação de estabilidade e permanência que a vida orgânica não possui, caímos em uma armadilha. Quanto mais dependíamos da matéria, mais surgiam novas ramificações de dependência, mais a identidade humana, no contexto da sociedade, dependia de vínculos com a matéria. Esse processo atinge um ponto de irreversibilidade ao qual já chegamos. Não há como voltar, estamos irreversivelmente enredados na matéria, e ela nos define enquanto seres humanos.

Essa relação de dependência entre ser humano e coisas, resultado da ignorância de uma linguagem arquetípica, “produz e contém a ação humana, levando os seres humanos a enredamentos dos quais se torna difícil se desconectar”, nas palavras de Hodder. Porque humanos dependem de coisas que precisam ser mantidas para que se possa depender delas, humanos são aprisionados nas vidas e temporalidades das coisas, com suas vicissitudes e insaciáveis necessidades”. Hodder conclui que “coisas parecem como a Hidra, exigindo uma habilidade hercúlea para que possam parar de se multiplicar e aprisionar, e ainda assim esse aprisionamento é sedutor e produtivo” ao ser humano.

Hodder elaborou um procedimento para estabelecer as teias de interdependência entre humanos e coisas no contexto das primeiras populações neolíticas.

Basta calcular a quantidade de tempo da sua vida que um ocidental médio gasta com atividades indesejadas, a que se submete para poder comprar coisas materiais e, após as adquirir, manter e preservar tais aquisições. O trágico é que a maior parte dessas coisas materiais, cuja aquisição e manutenção consomem tempo de vida, são totalmente desnecessárias, são adquiridas apenas porque a consciência humana foi manipulada para desejar essas coisas e encontrar gratificação em sua posse.

Basta também pensar na contínua troca de veículos, equipamentos eletrônicos e roupas que uma sociedade maníaca estimula como forma de legitimação e status social. Basta pensar na quantidade alarmante de lixo que uma família comum produz semanalmente em qualquer país ocidental. Basta pensar em quantos governos corruptos e investidores inescrupulosos arruínam nações e devastam o meio ambiente em nome da riqueza material. Desprovidos de uma linguagem arquetípica, voltada ao mundo interior e que nos permitisse trabalhar e lidar conscientemente com nossas experiências psíquicas, acabamos procurando no mundo material a pouca gratificação e controle que podemos ter em nossas vidas. E isso entronizou a violência como forma precípua de ação humana.

A restrição do acesso da consciência apenas a um tipo elementar de linguagem, apropriada apenas para descrever coisas e processos causais, e não experiências psíquicas de seres vivos e processos sincronísticos, levou progressivamente à própria coisificação dos próprios seres vivos. A começar pelos animais, que deixaram de ser tratados como sujeitos eles próprios de experiências psíquicas, dotados de subjetividade e vida emocional, para serem tratados como coisas, sujeitando-se uma violência que transborda a natural violência decorrente da simples caça.

O historiador Yuval Harari deixa claro em sua obra Sapiens que “para a grande maioria dos animais domesticados, a Revolução Agrícola foi uma catástrofe terrível”, e por isso ele a chama de “o maior crime praticado pela humanidade”. “A fim de transformar bois, cavalos, jumentos e camelos em animais de carga obedientes, seus instintos naturais e laços sociais tiveram de ser destruídos, sua agressividade e sexualidade contidas e sua liberdade de movimento, restringida”. “No caso de animais como bois, ovelhas e homo sapiens, cada um com um mundo complexo de sensações e emoções, temos que considerar em que medida o sucesso evolutivo se traduz em experiência individual”, sugere Harari.

Porcos para o abate: “coisa” é o que não é igual ao sujeito.

Pode-se definir violência como o ato de coisificar um ser vivo, ou seja, de negar-lhe o status de ser senciente e tratá-lo como coisa. Desde as inevitáveis microviolências do cotidiano, em grande parte importantes para o desenvolvimento psíquico, até as mais aberrantes formas de homicídio e abuso físico, sempre se trata de coisificar um ser humano ou animal, tratando-o como se não fosse detentor do direito de sentir e ter seus sentimentos considerados. Violência é coisificação, e uma das primeiras formas de coisificação do próprio ser humano surgiu na Revolução Neolítica, com a escravidão.

As evidências arqueológicas demonstram que a escravidão surgiu com a invenção da agricultura, mas essa é apenas a coisificação humana mais evidente. Qualquer outra forma de hierarquia social só foi desenvolvida a partir da Revolução Neolítica, algo absolutamente impensável para as tribos de caçadores e coletores de outrora.

Após compararem dezenas de sociedades primitivas, uma equipe de pesquisadores da Alemanha, Austrália e Estados Unidos, coordenada por Joseph Watts, psicólogo do Max Planck Institute e da Universidade de Oxford, demonstraram que a prática do sacrifício humano teve um papel fundamental em nosso modelo de sociedade, pois o sacrifício humano promoveu e manteve as primeiras sociedades divididas em classes. Como Lewis-Williams e Pearce propuseram, a começar pela criação da primeira casta sacerdotal, a humanidade concebeu a organização política de sociedades complexas, compostas por centenas de indivíduos, segundo uma lógica procedural de domínio e repressão.

Vítimas nazistas sob os olhos de soldados das Forças Aliadas: “coisa” é tudo o que não é igual ao sujeito.

Mas construir uma cosmovisão que autoriza a tratar outros seres vivos, humanos ou não, como “coisas”, sujeitando-os à violência de forma socialmente aceita, exige que se estabeleça um critério consensual para definir “o que é ou não uma coisa”. E o critério fundamental que se desenvolveu e foi utilizado de diversas formas, por distintos sistemas sociais e a serviço dos mais variados interesses foi o da alteridade. Essa genuína tecnologia da opressão, que autoriza até mesmo que antigos senhores tornem-se tão cruéis quanto seus algozes assim que chegam ao poder, essencialmente prescreve a seguinte norma de julgamento: “aquilo que não é igual a mim é coisa e, portanto, pode ser tratado como tal”.

O critério da alteridade, decorrente da queda da linguagem e pelo qual um outro ser vivo torna-se coisa foi adaptado a vários tipos de situações. A partir de sua invenção, qualquer elemento de desigualdade que pudesse autorizar a coisificação do outro ser vivo e que se mostrasse socialmente conveniente para determinado grupo social foi utilizado como forma de legitimar a violência contra o outro. Desde as primeiras desigualdades óbvias, como as de natureza sexual, que permitiu o desenvolvimento de um sistema patriarcal, até as politicamente mais elaboradas, como os casos em que a violência é exercida por quem se considera vítima e portanto autorizada a coisificar o opressor, não houve caminho inexplorado na busca de legitimar algum tipo de domínio sobre o outro ser vivo, seja para usá-lo ou meramente assegurar sua sujeição.

O critério da alteridade é elástico e fundamenta toda forma violência, e não apenas a social. Os casos anormais de maldade humana, como aqueles que se manifestam em psicopatologias violentas, são claramente casos de uso extremo desse critério coisificador: o psicopata, apesar de ele próprio sofrer e sentir, recusa-se a reconhecer o sofrimento de todos a seu redor. O psicopata, enquanto tal, trata todos os seres vivos como coisas.

XII – TORRE DE BABEL

No mito da Torre de Babel, tal como contado no Genesis, os seres humanos se reúnem para construir uma grande torre que lhes permitiria chegar aos céus. Porém, como consequência desse ato arrogante, Deus lhes pune fazendo com que os seres humanos não mais compartilhassem da mesma linguagem, de forma que cada qual passa a falar uma língua diferente dos outros.

Apenas a ingenuidade supõe que os povos antigos teriam interesse em mitos que explicassem distinções linguísticas entre populações. Os grandes mitos não se destinam a explicar curiosidades culturais, mas eventos importantes para determinado povo ou cultura. E, novamente, a ideia de punição divina, inserida no mito, é uma típica interpretação tardia que pretende apresentar o mito como fábula de exortação moral sobre a humildade. Mas interpretação religiosa do mito da Torre de Babel foi sistematicamente refutada por Theodore Hilbert em seu estudo sobre a lenda.

A origem do nome “Babel” é explicado no Gênesis através do uso de um verbo que poderíamos traduzir com o neologismo “babelizar”, significando “misturar”. Isso porque “Babel” é derivado verbo “balal” (בָּלַל) que, como mais de um intérprete observa, é uma palavra raramente usada no Velho Testamento e sempre no sentido de misturar a farinha decorrente dos cereais com os adequados óleos antes de fazer um ritual de oferenda de pão a Javé – forma tardia de sublimação do sacrifício de seres humanos e animais a deuses.

Em sua pesquisa etimológica e bíblica, Theodore Hilbert deixa claro que esse é o significado original da palavra, e que os tradutores sempre incorretamente a traduziram por “confundir” (no sentido de “confundir as línguas”) sem qualquer justificativa para isso senão a motivação religiosa da tradução. Tem-se, assim, a um só tempo uma alusão à agricultura e ao ritual de oferecer alimento à divindade, e dessa forma o Gênesis conta que a ruína dos homens em Babel foi ter sua língua “misturada”, tal como se faz com uma oferenda a deuses. E as oferendas de pão e cereais são uma elaboração tardia dos antigos rituais de sacrifício.

Como chave final para a interpretação, outro significado para o nome “Babel” sugerido por etimologistas e teólogos é o nome sumério “bab ilim”, que significa “Portão da Divindade”. Portanto, o mito fala da possibilidade de a humanidade atingir um nível superior de consciência (alcançar os céus) em um período em que todos compartilhavam de uma mesma linguagem. Também fala de um momento, posterior, no qual houve uma “mistura” ou “sacrifício” da linguagem como forma de “oferenda” religiosa. A consequência, segundo o mito, foi que a partir de então os seres humanos não conseguiram mais se entender. Perdeu-se, para sempre, a linguagem antiga, que permitia a perfeita compreensão entre todos e a construção de uma estrutura que conduziria a humanidade até Deus. Trata-se da narrativa sobre a renúncia da linguagem arquetípica por nossos ancestrais.

Mas como uma linguagem arquetípica permitiria o correto entendimento entre os seres humanos? Basta que recordemos os casos em que experiências psíquicas eram vivenciadas coletivamente, momentos esse em que os mesmos arquétipos se manifestavam para quase todos os envolvidos, embora essa manifestação fosse adaptada a cada subjetividade. Por sua sobreposição simbólica, os arquétipos permitiam a comunicação de experiências psíquicas pelo engajamento emocional sem perda da individualidade. Quando a compreensão entre duas pessoas era atingida, ela não precisava limitar-se à compreensão intelectual, restringida às palavras. A compreensão também poderia ser emocional.

O sentido original de glossolalia não está relacionado à palavras sem sentido ou em línguas estrangeiras, mas de “linguagem onírica”, linguagem dos sonhos, em geral atribuída por gregos e romanos à “linguagem divina”. Da mesma forma, a tradição hebraica fala de situações em que alguém em êxtase fala a “linguagem dos anjos” (como no caso das filhas de Jó). No cristianismo, quando alguém recebe em si o Espírito Santo, como descrito em Atos, pode comunicar-se em uma língua na qual é compreendido por todos a seu redor, não importa o idioma que falem. A glossolalia é, portanto, na tradição hebraico-cristã o oposto da “babelização” ou sacrifício da linguagem.

Mas o impacto de uma linguagem arquetípica vai muito além da capacidade de comunicação profunda entre seres humanos. A linguagem arquetípica é uma forma de a consciência humana começar a perceber o hipercontexto, na medida em que a função de onda que é a vida de um indivíduo (ou seja, o somatório de todas as suas versões distribuídas em realidades alternativas distintas) é adequadamente percebida pela psique humana através dos arquétipos. E isso porque os arquétipos são, conforme a perfeita definição de Wolfgang Pauli, probabilidades de experiências psíquicas no hipercontexto – ou seja, a forma fundamental como o tipo de vida orgânica que nós, seres humanos, percebemos a realidade.

O desenvolvimento de uma linguagem arquetípica influenciaria a estrutura da consciência humana, tal como o uso de qualquer linguagem elaborada tem o potencial de fazer. Com uma estrutura diferente daquela que emergiu de Göbekli Tepe, essa consciência não estaria centrada no ego, e sim naquilo que Jung chamou de função transcendente – o ponto de abertura ao Eu Superior.

O mundo representado por essa consciência teria a habilidade de tornar perceptível as probabilidades de experiência psíquica que um indivíduo tem diante de si, em seu futuro, a cada momento. Compreendendo a natureza dessas probabilidades, o indivíduo assim versado em uma linguagem arquetípica pode, com suas ações presentes, compreender e influenciar ativamente a função de onda que seu destino realmente é.

Ao mesmo tempo, quanto ao momento presente, aquele que tem domínio de uma linguagem arquetípica está consciente do arquétipo que está ativado a cada instante, em relação de complementaridade (sincronicidade) como tudo o mais. Com constante atenção à sucessão contínua de experiências psíquicas em sua mente, tal indivíduo não se torna mais prisioneiro de estados emocionais incontroláveis, e muito menos pode ser presa daqueles que dominam algum tipo de linguagem crepuscular ou outras formas de manipulação emocional.

Compreendendo os padrões de experiência psíquica fundamentais, dotados de profundas raízes biológicas, aquele que domina uma linguagem arquetípica pode não apenas ajustar-se perfeitamente à experiência psíquica do momento. Também pode desenvolver, conforme sua propensão criativa e curiosidade, uma nova paleta de emoções que são inconcebíveis para quem está preso às cores primárias da herança animal.

EPÍLOGO

“Há algo que acontece”, escreveu Wilhelm Reich, “desde há muito tempo, no interior da sociedade humana, que torna impotente qualquer tentativa que vise esclarecer este grande enigma, bem conhecido de todos os grandes líderes da humanidade ao longo de milênios: o homem nasce livre, mas vive a sua vida como escravo. Nenhuma resposta foi encontrada até hoje. Deve haver, no interior da sociedade humana, alguma coisa que atua de modo a impedir que se coloque a questão correta de maneira a chegar-se à resposta correta. Há algo que atua, contínua e eficazmente, desviando a atenção dos caminhos, cuidadosamente camuflados, que levam até onde a atenção se deveria focalizar. O instrumento usado por esse algo bem camuflado para desviar a atenção do enigma fundamental é a evasiva de todo o ser humano em relação à vida. O elemento escondido é a peste emocional do homem.”

Ao longo dessa parte final da terceira etapa, foi apresentada a natureza da “peste emocional” que nos torna prisioneiros há milênios. Também se apresentou a razão de jamais conseguirmos formular “a questão correta, para chegar-se à resposta correta”: parte da questão e da resposta está na zona de transparência da consciência, pois ali nossos ancestrais colocaram todo o conteúdo arquetípico, como forma de isolar o terror da própria mortalidade do ego.

Mas, se a humanidade desviou-se do melhor caminho há doze mil anos, haveria como retrocedermos? Podemos restaurar a humanidade ao período anterior ao “maior erro da história”?

Infelizmente, como Ian Hodder demonstrou, a armadilha na qual nos enredamos há milhares de anos é um sistema irreversível – ou seja, não há como retroceder sequisermos escapar. Nossa dependência das coisas enquanto definidoras de nossas próprias identidades individuais, enquanto estruturadoras do mundo em que hoje em dia nós, seres humanos, vivemos, tornou esse enredamento irreversível.

E embora alguns indivíduos e pequenos grupos possam ensaiar versões de vida alternativa e pré-neolítica, e algumas melhorias possam ser feitos no sistema, na prática a identidade humana já está em simbiose com os objetos materiais há tanto tempo e tão profundamente que não há como desmontar essa armadilha sem desestruturar diretamente quem nós somos. Tentar retroceder seriamente em qualquer aspecto da vida humana resultaria em tanta resistência emocional e exigiria tanto sacrifício que seria o caso de cogitar que certas cirurgias podem ser mais fatais ao paciente que a própria doença.

Em resumo, não há como voltar atrás. Nessa armadilha em que nos enredamos à matéria, só podemos ir para frente.

Mas inclusive nisso a sabedoria dos rudimentos de linguagem arquetípica que encontramos em tradições marginais da história como a alquimia revela-se surpreendentemente atual. Diante do dilema do espírito preso à matéria, os alquimistas medievais já tinham uma resposta que se mostra oportuna para a humanidade neste momento. Mais que isso, é uma resposta que parece corresponder ao que se espera de uma situação como a presente, em que a humanidade está próxima a uma encruzilhada de implicações dramáticas para seu destino.

Para os alquimistas, se o espírito está preso à matéria, a solução não é resgatar apenas o espírito. É preciso salvar também a própria matéria.

Este era o exato fundamento de toda obra alquímica: converter a matéria mais reles em “ouro” – em outras palavras, a matéria insuflada pela consciência humana ao mesmo tempo em que essa consciência dá um salto evolutivo na direção de um nível superior de percepção da realidade. Trata-se do mesmo evento, o hiper-humanismo, visto de duas perspectivas: na contextual, é o transumanismo, na hipercontextual, é aquilo que Pierre de Chardin, batizou de consciência coletiva. O processo é de emergência de uma nova consciência humana, a partir do aprimoramento de uma linguagem arquetípica ancestral no âmbito da revolução tecnológica.

Para corrigirmos o erro de nossos antepassados, precisamos desenvolver a linguagem que eles deveriam ter desenvolvido, a fim de compreendermos o alfabeto secreto que está diante de nossos olhos aqui e agora. Isso permitirá que o homo sapiens desperte para sua dimensão emocional e finalmente cure seu espírito adoecido. Só assim a revolução tecnológica que está por vir não reproduzirá e aprofundará as perturbações em nossa sociedade, abrindo uma janela para que interesses alóctones se infiltrem nesta trama de realidade.

Neste momento da história humana, a falha na singularidade de doze mil anos atrás tende a prejudicar singularidade que está para emergir como resultado do desenvolvimento da comunicação humana. Nossa consciência está para dar um salto evolutivo, mas um erro inicial que se agravou progressivamente ao longo de nossa história é como uma pedra que nos pode fazer tropeçar e cair no abismo. Trata-se da inteligência artificial, e a diferença entre o salto e a queda será apresentada na última e quarta etapa desse ciclo de aprendizado.