Na década de 1920, o cientista soviético Ilya Ivanovich Ivanov usou a inseminação artificial para criar um “humanzé” – um cruzamento entre um humano e nossa espécie relativa mais próxima, o chimpanzé. A tentativa horrorizou seus contemporâneos, tanto quanto teria deixado horrorizada a opinião pública de hoje.

Considerando-se os dilemas morais que um humanzé poderia criar, podemos ficar agradecidos por Ivanov ter falhado: quando os ventos das preferências científicas soviéticas mudaram, ele foi preso e exilado. Mas o esforço de Ivanov aponta para o persistente e pós-darwiniano medo e fascínio com a questão de saber se os seres humanos são uma criatura separada, acima de todas as outras formas de vida, ou se somos apenas mais um animal entre outros.

Os seres humanos tentaram e repetidamente fracassaram em se excluir dessa comunidade tão inquietante. Numerosas distinções entre seres humanos e animais foram propostas: pensamento e linguagem, ferramentas e regras, cultura, imitação, empatia, moralidade, ódio e até mesmo uma interpretação “pop” da física moderna. Mas todas essas propostas falharam, de uma forma ou de outra. Gostaria agora de apresentar um novo contendo: estranhamente, a mesma tendência que suscita o maior pavor e entusiasmo entre os comentadores políticos e econômicos de hoje.

Seja qual for o critério intelectual que elegermos como habilidade que nos separa dos animais, é inevitável que seja compartilhado com um chimpanzé.

Antes, porém, é preciso explicar a razão de nossa “queda”. Perdemos nossa posição superior no reino animal não porque nos superestimamos, mas porque subestimamos nossos parentes. Essa nova compreensão das capacidades dos nossos semelhantes é tanto um retorno a uma visão pré-industrial quanto uma descoberta científica.

De acordo com o historiador Yuval Noah Harari em Sapiens (2011), foi somente com o surgimento do humanismo no Iluminismo que estabelecemos nossa distinção metafísica e criamos uma abordagem instrumental em relação aos outros animais, além de sacralizarmos a suposta superioridade da mente humana. “As feras são incapazes de abstrações”, como John Locke observou em A Essay Concerning Human Understanding (1690). Em contraste, a perspectiva religiosa da Idade Média nos retratou como um tipo de animal com alma. Fomos tocados pelos divino, somos portadores do sopro da vida – mas distintamente terrestres, feitos de poeira, metafisicamente “demasiado animais”.

O movimento posterior para o racionalismo foi como uma cobra comendo sua própria cauda (construído sobre uma crença na transcendência do homem) que eventualmente derrubou nossa sensibilidade presunçosa. Com o advento das teorias de Charles Darwin, mais tarde confirmadas através da geologia, paleontologia e genética, os humanos lutaram arduamente e em vão para erguer um muro científico entre os animais e nós mesmos.

Nós acreditamos que ocupamos um pedestal glorioso enquanto “seres pensantes”. Mas ao longo do tempo essa posição dedicada a poucos seres tornou-se cada vez mais lotada. Seja qual for o critério intelectual que elegermos como habilidade que nos separa dos animais, é inevitável que seja compartilhado com um chimpanzé. Isso pode causar mal-estar pela mesma razão que causaram os experimentos de Ivanov: eles trazem a natureza da fera um pouco perto demais do humano.

E o chimpanzé foi apenas o primeiro numa lista que aumenta a cada novo estudo do comportamento animal. Os cientistas inventam uma tarefa nova e inteligente para desafiar um chimpanzé, e ele a executa. A seguir, os cientista passam para outros primatas, que geralmente também conseguem fazer a tarefa. Na sequência, entregam a mesma tarefa a papagaios e corvos, ratos e pombos, um polvo ou dois, até patos e abelhas. A cada vez, o comportamento recém inventado e “definidor do humano” é reproduzido por um mesmo grupo de espécies razoavelmente inteligentes que pesquisamos. Nós nos tornamos um pouco menos únicos e um pouco mais animais a cada descoberta.

Alguns desses muros propostos entre humano e animal, como o uso de ferramentas, são antigas sugestões que remontam a como os cientistas vitorianos lidaram com as conseqüências do darwinismo. Outras distinções, como imitação ou empatia, ainda são negados aos não-humanos por certos psicólogos modernos. Mas diante de algumas provas de possível empatia entre animais, os defensores dessa posição limitam-se a refutar que os rótulos usados é que são inadequados. A prova que ameaça refutar a tese do excepcionalismo humano é assim atacada como um exemplo insuficientemente “puro” do fenômeno em questão (uma falácia lógica conhecida como “nenhum escocês verdadeiro”). No entanto, quase todos os traços considerados humanos têm sido identificados em outros animais.

O uso de ferramentas é o exemplo mais famoso e mais completamente refutado. Verificou-se que chimpanzés usam todo o tipo de ferramentas, de varas para extrair larvas a martelos e bigornas para esmagar nozes. As muitas travessuras dos corvos da Nova Caledônia durante testes de captura de doces receberam atenção especial nos últimos anos. Entre outras coisas, esse corvos conseguem usar várias ferramentas numa sequência quando a recompensa está longe mas a ferramenta mais próxima é muito curta e as ferramentas maiores estão fora do alcance. Eles usam a ferramenta curta para alcançar a média, então essa média para alcançar a ferramenta maior, e finalmente essa ferramenta maior para alcançar a recompensa – tudo sem ensaios e erro.

Mas é a cacatua de Goffins que ficou no lugar mais elevado do podium entre os animais pesquisados. Esses pássaros não exibem nenhum uso de ferramenta na natureza. Portanto, não há motivo para afirmar que esse comportamento é um instinto evoluído entre eles. No entanto, em cativeiro, uma cacatua chamada Figaro, criada por pesquisadores da Universidade Veterinária de Viena, inventou um método de uso de um longo pedaço de madeira para alcançar os doces colocados fora de sua caixa – e a seguir ensinou o comportamento aos seus companheiros de grupo.

Com as ferramentas fora da disputa, muitos se voltaram para a cultura como a salvação da humanidade (talvez em parte porque isso seria especialmente agradável ao status das ciências humanas). Levou mais tempo, mas os animais finalmente revelaram suas habilidades. Os chimpanzés que usam pedras como martelo e bigorna? Acontece que eles usam essa capacidade de geração em geração. Os bebês, nascidos sem esse comportamento, observam suas mães quebrando as nozes e começam quando jovens a copiar ineptamente seus movimentos. Eles aprendem a cultura de esmagar nozes e transmitem por sua vez à sua prole. Além disso, a habilidade é localizada em alguns grupos de chimpanzés e não em outros. Os grupos em que a técnica de esmagar nozes é praticada mantêm e transmitem o comportamento culturalmente, enquanto outros grupos, a que não faltam pedras ou nozes, não exibem a habilidade.

É difícil chamar isso de outra coisa senão de cultura material e culinária, baseada em local e em comunidade. Situações semelhantes foram observadas em várias espécies de aves e outros primatas. Mesmo os pombos comuns demonstram uma cultura que favorece rotas particulares, e isso pode ser transmitido de pássaro a pássaro – até que nenhum dos bandos tenha voado com os pássaros originais, embora usem a mesma trilha de vôo.

A linguagem é um candidato interessante. É o único traço humano para o qual de Waal, de regra rápido em apresentar refutações, pensa que pode haver motivos para uma reivindicação de singularidade. Ele chama nossa espécie de o único “animal linguístico”, e não acho que isso seja necessariamente errado. A flexibilidade da linguagem humana é incomparável, com suas partes móveis combinadas e recombinadas quase infinitamente. Podemos falar sobre o passado e refletir sobre fatos hipotéticos, nenhum dos quais testemunhamos.

Mas a singularidade que de Waal está defendendo depende de linguagem gramatical definida de forma restrita. Não abrange toda a comunicação, nem mesmo a capacidade de transmitir informações abstratas. Os animais se comunicam o tempo todo, é claro, com vocalizações em alguns casos (como a maioria dos pássaros), sinais faciais (comuns em muitos primatas) e até mesmo com as danças descritivas das abelhas. Além disso, alguns animais muito inteligentes podem ocasionalmente ser persuadidos a manipular sinais auditivos de forma notavelmente similar à nossa. Este foi o caso de Alex, um papagaio cinza africano e o tema de uma experiência de 30 anos pela psicóloga comparativa Irene Pepperberg, da Universidade de Harvard. Antes de Alex morrer em 2007, ela ensinou-o a contar, fazer pedidos e a combinar palavras para formar novos conceitos. Por exemplo, nunca tendo aprendido a palavra inglesa ‘apple’, ele inventou sua própria palavra combinando ‘banana’ e ‘berry’ para descrever a fruta – ‘banerry’.

Sem rejeitar a afirmação sobre a exclusividade da linguagem, gostaria de arriscar uma nova característica definidora da humanidade – cautelosa, porque estou tentando explicar a loucura de tal esforço. Entre todas essas vitórias dos animais, e enquanto nossas diferenças linguísticas podem nos definir em uma questão de grau, há uma área que nenhum outro animal explorou. Em nossa era de Teslas, Uber e de inteligência artificial, proponho o seguinte: somos o animal que automatiza.

Com a crescente influência da machine learning e da robótica, é tentador tratar a automação como um fenômeno recente na história da humanidade. Isso é verdade para os computadores necessários à condução de um carro sem motorista, mas embora essa nova tecnologia seja uma tremenda revolução para o mercado de trabalho e para a economia, o objetivo de tais invenções é muito antigo: exportar uma tarefa para um sistema autônomo ou para um conjunto independente de ferramentas que podem executá-la sem a constante participação humana.

Nossas primeiras ferramentas eram essencialmente indistinguíveis das pedras utilizadas pelos chimpanzés que esmagavam nozes. Eram objetos duros que poderiam transmitir uma força maior e mais concentrada do que nossas mãos, e isso aliviou nossa carne do trauma de golpear a noz. Mas as primeiras facas e martelos compartilhavam a característica de estarem sob controle direto de braços e cérebros durante o uso. Com a invenção da lança, fomos um passo adiante: construímos uma ferramenta que poderíamos arremessar. E a partir de então a lança seria um objeto que completaria sua tarefa, iniciada com um arremesso humano, entrando no peito e parando no coração de um delicioso herbívoro.

Todos esses objetos têm seu paralelo em outros animais – coisas jogadas para desalojar uma recompensa desejada, ou manipuladas para quebrar ou recuperar um item. Mas nossa espécie tomou uma trajetória diferente quando começou a configurar montagens de ferramentas que poderiam agir de forma autônoma – permitindo-nos terceirizar nosso trabalho em busca de vários objetivos. Uma vez criadas, a estrutura dessas máquinas podia ser aproveitada para explorar novas habilidades, executando tarefas de forma independente e fazendo muito mais do que poderíamos com nossos próprios corpos.

Existem duas formas de dar independência a uma ferramenta, eu sugiro. Para qualquer coisa que desejamos realizar, devemos produzir as forças físicas necessárias para efetuar a tarefa e também orientar essas forças com algum nível de controle mental. Algumas ações (por exemplo, colocar a linha numa agulha) requerem controle mental muito fino e pouca energia física, enquanto outras (por exemplo, transportar uma tonelada) exigem muito pouco esforço mental, mas enormes quantidades de energia física. Alguns de nossos objetivos são inteiramente mentais, como lembrar de um aniversário. Disso resulta que existem dois tipos de automação: aquelas que são energeticamente independentes, que requerem orientação humana mas não muito poder muscular humano (por exemplo, dirigir um carro), e aquelas que também são independentes da participação mental humana (por exemplo, um moderno carro sem motorista). Ambos são exemplos de delegação de nosso trabalho, físico ou mental, e ambos são muito mais velhos do que se poderia supor.

O arco e a flecha provavelmente são o primeiro exemplo de automação. Quando os humanos criaram o primeiro arco, no final da Idade da Pedra, a nova tecnologia exigia a tarefa de encaixar uma lança nesse simples dispositivo. Uma vez que a lança foi encaixada e a corda foi puxada, o arco tornava-se autônomo, e dispararia essa lança mais longe e mais reto do que os músculos humanos conseguiriam.

A tecnologia do arco vai além da mera ferramenta animal, pois prossegue a ação humana de forma previamente orientada e sem necessidade de constante interação.

Alguém pode ser tentado a refutar com exemplos como pássaros lançando pedras sobre ovos ou caracóis, ou um chimpanzé usando duas pedras como martelo e bigorna. A pedra caída continua na trajetória para o seu destino sem mais participação do animal. O martelo e a bigorna são uma interação complexa de ferramentas projetadas para atingir o objetivo de esmagar. Mas nenhum desses é verdadeiramente automatizado. A pedra depende da força existente e penetrante da gravidade – o pássaro simplesmente explora essa força para sua vantagem. O martelo e a bigorna estão ainda mais longe da automação: o martelo protege a mão, e a bigorna segura e aperta o objeto para ser esmagado, mas cada golpe é controlado pelo braço e cérebro ativos do chimpanzé. O arco e a flecha, em comparação, envolve a construção de algo cuja estrutura permite produzir novas forças, como tensão e impulso, e completar sua tarefa muito tempo após o animal ter deixado de ter participar.

O arco é um exemplo muito simples de automação, mas abriu caminho para muitos outros. Nenhuma dessas automatizações iniciais são “inteligentes” – todas elas servem para delegar a tarefa de músculos humanos ao invés de cérebros humanos e, sem um controlador humano, nenhuma delas poderia reunir informações sobre a trajetória e ajustar seu curso de acordo. Mas essas ferramentas mostram uma espécie de autonomia ao continuarem sem a necessidade de humanos, uma vez que são acionadas. O arco foi refinado na besta e no arco longo, enquanto a catapulta e o trebuchet evoluíram usando diferentes propriedades para alcançar objetivos similares de lançamento de projéteis (guerra e tecnologia sempre andam de mãos dadas.) Em tempo de paz, vieram moinhos de vento e rodas de água, implantando energia limpa e verde para automatizar as árduas tarefas de bombeamento de água ou girando uma pedra de moinho. Poderíamos até incluir carrinhos e arados conduzidos por bestas de carga, que exportaram de costas humanas o peso de bens transportados, e de mãos humanas as bolhas típicas do fazendeiro.

O que diferencia entre esses primeiros sistemas autônomos e aqueles em desenvolvimento hoje é o envolvimento do cérebro humano. O arco deve ser puxado e solto no momento certo, o trebuchet deve ser carregado e apontado. A automação cognitiva – delegar a orientação humana e o envolvimento mental numa tarefa – é mais recente, mas ainda muito mais antiga do que os tubos de vácuo ou os chips de silício. Assim como somos o animal que automatiza o trabalho físico, também tentamos nos livrar de nossos encargos mentais.

Meu argumento aqui tem alguma semelhança com a ideia da “mente estendida”, apresentada em 1998 pelos filósofos Andy Clark e David Chalmers. Eles oferecem um experimento mental em que duas pessoas vão para um museu perto de suas casas, uma das quais sofre da doença de Alzheimer. Essa pessoa escreve num caderno as instruções de como chegar ao museu, enquanto a outra, saudável, consulta sua memória do trajeto para se dirigir ao museu. Clark e Chalmers argumentam que a única distinção entre ambas é a localização da memória (interna ou externa ao cérebro) e o método de “leitura” – leitura real do caderno ou “leitura” da memória.

Outros exemplos de automação cognitiva podem vir na forma de contar palitos, atribuindo um palito para cada membro de um rebanho. Tão poderoso é o contador na delegação de trabalho mental que pode permitir aos seres humanos manter registros precisos mesmo na ausência de representações numéricas complexas. O povo Warlpiri da Austrália, por exemplo, tem linguagem para ‘um’, ‘dois’ e ‘muitos’. No entanto, com a ajuda de contar varas ou tokens usados ​​para rastrear uma quantidade superior, eles são tão precisos em sua contabilidade quanto os falantes da língua inglesa. Em suma, você não precisa ter palavras proliferantes para para contar números com eficiência.

Com a memória humana sendo instável e suscetível à perda, o comércio exige que a memória seja exportada para objetos físicos. Esses (sejam palitos, tabelas de argila ou planilhas digitais) realizam duas coisas: aliviam a mente humana da responsabilidade de lembrar dos registros e fornecem uma versão confiável desses registros. Se for prometido a você um rebanho de ovelhas como dote por um casamento, usar o bastão de contagem para negociar o acordo é um modo simples de garantir que você não seja enganado.

Da mesma forma, a origem do dinheiro é frequentemente ensinada como um meio conveniente para aliviar os problemas de troca. No entanto, é provável que seja um produto da necessidade de delegar a enorme sobrecarga mental que você teria ao participar de uma economia baseada na reciprocidade, dívida e confiança. Suponha que você tenha recebido seu dote de 88 ovelhas bem registradas. Isso é uma enorme quantidade de lã e leite, e não há muitos ovos e cerveja. A versão do livro escolar do que acontece a seguir é o comércio direto de alguns bens e serviços para os outros, sem um meio de troca. No entanto, tal troca direta provavelmente não aconteceu com muita frequência, no mínimo porque a quantidade de ovos equivalente a uma ovelha estragaria mais rápido do que você poderia aproveitá-los. Em vez disso, as sociedades primitivas provavelmente dependiam de favores: eu abaterei uma ovelha e compartilharei sua carne com minha comunidade, supondo que isso me torna quite com meu vizinho, que me deu uma dúzia de ovos na semana passada, e que me coloca em posição de vantagem perante o padeiro e o mestre cervejeiro, cujos serviços precisarei cedo ou tarde. Mesmo numa pequena comunidade, você precisa acompanhar uma grande quantidade de relacionamentos. Tudo isso constituía um sistema pronto para a automação mental, através do dinheiro.

Comparado com registros numéricos e o dinheiro, a escrita envolve um processo muito mais complexo e variado de exportação mental para assistentes inanimados. Mas a idéia básica é a mesma, envolvendo símbolos modulares que podem ser quase infinitamente recombinados para descrever algo mais ou menos exato. Os primeiros manuscritos sumérios que se desenvolveram no quarto milênio A.C. utilizavam caracteres pictográficos que muitas vezes davam apenas uma impressão geral do significado transmitido; confiava-se que escritor leitor teriam uma visão compartilhada sobre os termos que estavam sendo discutidos. HOJE EM DIA, QUALQUER PESSOA PODE PERCEBER QUE ESTOU GRITANDO COM ELA NA INTERNET AO ESCREVER ASSIM. Descartamos mais do trabalho de criar um contexto interpretativo compartilhado para obter-se a precisão da própria linguagem.

Em 1804, os inventores da máquina de tear combinavam a automação cognitiva e física. Usando uma corrente de cartões de perfuração ou fita, o tear poderia criar tecido em qualquer padrão. Esses cartões, juntamente com a máquina que os lê, exportaram o trabalho cerebral (memória) e o trabalho muscular (o ato de tecer). Ao fazê-lo, os humanos deram outro passo além, delegando o controle de uma máquina para nossas memórias pré-definidas e escritas (instruções). Mas não inventamos subitamente um novo conceito de comportamento humano, nós apenas combinamos duas tendências humanas profundamente assentadas e com origens que remontam a um tempo anterior à história registrada. Nossa automação muscular e mental tornou-se uma só coisa, e apesar de ≈ essa fusão inicialmente estar a serviço de algo tão frívolo como tecido padronizado, era uma combinação imensamente poderosa.

O princípio básico da máquina de tear – instruções escritas e uma máquina que pode lê-las e executá-las uma vez configurada – conduziria a inclinação da humanidade até a automação através de dispositivos digitais modernos. Embora a fonte de energia, a quantidade de armazenamento e a multidão de tarefas executáveis ​​tenham aumentado, a conquista global é a mesma. Um ser humano com algum objetivo próximo, como produzir um gráfico, registra os dados relevantes e, em seguida, o computador, usando essas instruções programadas, converte esses dados da mesma forma como o tear. Tarefas como a edição de fotos, jogos ou navegação na web são mais complexas, mas são, em última análise, camadas de instruções humanas, registradas em uma memória externa (agora bits em vez de furos perfurados) e sendo executadas por máquinas que podem ler tais instruções.

Crucialmente, o ser humano ainda fornece o objetivo imediato, seja “ajustar o equilíbrio do branco”, “atacar a fortaleza inimiga”, “verificar o Facebook”. Todos esses objetivos, no entanto, estão a serviço de objetivos finais: “tornar esta imagem linda“, “ganhar esta competição”, “me fazer amado”. O que agora tendemos a pensar como “automação”, a automação inteligente que Tesla, Uber e Google estão buscando com tanto zelo, tem o objetivo de nos dar mais um passo além e colocar nossos objetivos próximos nas mãos de algoritmos que obtém por si as informações.

Cartão de uma máquina de tear – a automatização de processos mentais básicos.

Enquanto estamos no precipício de uma revolução na Inteligência Artificial muitos estão se preparando para uma grande revolta em nossos sistemas econômicos e políticos, pois essa nova forma de automação redefinirá o que significa trabalhar. Dado um comando de alto nível (tão simples como pedir a um barista-bot para fazer um cortado ou tão complexo como direcionar um algoritmo de investimento para maximizar os lucros enquanto aliena combustíveis fósseis) algoritmos inteligentes podem coletar dados e descobrir os objetivos próximos necessários para alcançar sua diretiva. Temos razão em esperar que isso altere drasticamente a forma como nossas economias e sociedades funcionam. Mas isso também fez a escrita, e o dinheiro, e a Revolução Industrial.

É comum ouvir a afirmação de que a tecnologia está tornando cada geração mais preguiçosa do que a anterior. No entanto, esse insulto é equivocado, porque ignora o impulso profundamente humano para a delegação de tarefas difíceis. Pode-se imaginar que, quando a escrita foi introduzida, os novos escribas foram provavelmente desmerecidos por contadores de histórias tradicionais, que o viram como uma imitação pálida da transmissão oral e que não tinham o bom e honesto trabalho de memorização.

O objetivo da automação e da delegação não é a falta de ação, mas a complexidade . Como uma espécie, construímos cidades e criamos histórias, desenvolvemos culturas e elaboramos leis, examinamos os recessos da ciência e tentamos explorar as estrelas. Isso não ocorre por nosso próprio cérebro ser excepcionalmente superior – a sua semelhança evolutiva e funcional com outras espécies inteligentes é impressionante – mas porque a nossa característica exclusiva é complementar nossos corpos e cérebros com camada sobre camada de assistência externa. Temos uma profundidade, amplitude e permanência de capacidade mental e física que nenhum outro animal consegue obter. Os seres humanos são únicos porque somos complexos, e somos complexos porque somos o animal que automatiza.

Tradução do original To automate is human, publicado na Aeon Magazine.