Em artigo publicado ontem em seu blog, o cientista político Carlos Melo observou com precisão: “A humanidade inventou a política para que homens e mulheres não se matassem de verdade.  A política inventou o Estado para que ele, e somente ele, tivesse o monopólio da força física, da violência, o que impediria que homens e mulheres se matassem de verdade. Quando a violência assume a centralidade das relações é porque o Estado, a política e a humanidade falharam”.

Na mesma direção foi o jornalista e analista político Tibério Canuto, em artigo publicado no site do movimento “Roda Democrática”. Para ele, os tiros disparados em ônibus da caravana de Lula e as ameaças aos familiares do ministro Edson Fachin mostram que os piores temores de muitos democratas começam a virar realidade, congestionando e degradando o processo político: “A disputa presidencial se dará em clima altamente radicalizado, dificultando, assim, um desfecho virtuoso para uma crise que se arrasta por quatro anos”.

O país conhece, de fato, inédita elevação da temperatura política. O período pré-eleitoral turbina tudo, mas também há coisas mais profundas e perturbadoras por baixo dele. Deste subsolo tóxico sobem gases que envenenam o debate político e desafiam a democracia, arrastando as eleições para uma zona de risco.

Os crimes precisam ser denunciados e apurados. Ameaças a juízes e tiros em manifestações políticas são inaceitáveis. É importantíssimo saber que tiros foram aqueles e quem os disparou, tanto quanto investigar quem ameaça Fachin e com quais intenções.

Balas, em política, sempre prenunciam coisas ruins. Expressam uma conversão antipolítica da política, funcionando como uma trava que impede a política de cumprir funções positivas. Em vez da discussão de ideias e do embate entre diferentes concepções com que se pensa governar a vida, prevalece somente o confronto passional. O diálogo fica bloqueado, mesmo entre pessoas que pensam do mesmo jeito, ou quase. Ativistas se convertem em “guerreiros” e passam a amplificar os piores sentimentos humanos, o da violência, da justiça com as próprias mãos, da lei do cão, da arrogância, da vendeta, que encontram ressonância nas redes e em suas práticas de linchamento moral. No final dessa estrada, o menosprezo pelas instituições e pelas rotinas democráticas.

Forma-se assim um arranjo que se move impulsionado por “exércitos” de fanáticos que nada ouvem a não ser seus próprios messias.

É trágico quando a esquerda se deixa arrastar por essa cultura embebida em sangue, ódio identitário e estigmatização dos que pensam diferentemente. O próprio Lula, hoje vítima de intolerância, pouco faz para desarmar o fanatismo cego de seus seguidores. Está deixando de ser líder para se converter em chefe de turma, cabeça de um patronato que nada tem de comum com a democracia. Sua caravana, concebida para proclamar sua inocência e turbinar a campanha eleitoral, soa como uma provocação. Que não poderia ser recebida nem à bala, nem a chicotadas.

Vale o mesmo, com agravantes, para Bolsonaro. Ele também bebe na fonte do irracional, da política como provocação, do chefe como recurso salvacionista. Faz isso há décadas, desde que se lançou na política. Seu propósito é chamar atenção com uma pauta obscurantista que defende a liberação das armas e ataca mulheres, negros e gays. Vai assim conquistando pessoas decepcionadas com os políticos, sedentas de vingança, ressentidas e com sangue nos olhos.

É trágico quando a direita liberal não demarca distância clara e firme de provocadores como Bolsonaro, que faz do anticomunismo um pass-partout para ingressar no mundo do mercado e das liberdades, mundo que lhe é congênito, com o qual não tem intimidade. Trata-se de um engodo e de uma agressão à democracia.

Com essa polarização caricata, vazia de substância mas terrivelmente perigosa, perdem todos.

As balas de Curitiba serviram para que PT, PSol e PCdoB começassem a falar em união, em caminhar juntos, ou menos separados. Pode ser um avanço. O problema é o mote que justifica a união. Fala-se em “escalada da violência” e em “fascismo” sem a devida reflexão, como se a intenção fosse tão somente agitar. Brinca-se com as palavras. E não se explica o fundamental: união para quê, com que propósito?

Voltou-se no tempo, a uma discussão que parecia adormecida no solo das lutas contra a ditadura militar.

Uma frente de esquerda pode ser boa para a esquerda, mas não é necessariamente boa para a democracia. Pode mesmo ser prejudicial, caso venha a derivar para a virulência verbal, a imprecisão conceitual, o ataque a aliados e o desrespeito à lei. Pode funcionar tão somente como rota de fuga e tapume para ocultar fraquezas, sem implicações para a sociedade no conjunto. O diagnóstico pode ser tão falho que não se desdobrará em uma atuação reformadora e empurrará a esquerda para as margens.

A violência que hoje se dissemina está oculta sob mil disfarces. O da “luta de classes” é um deles, o das bravatas de palanque é outro, o do “nacionalismo” outro mais. Há ainda a violência das interdições, das postulações veementes por “reconhecimento” e pela exclusão dos “outros”, aquilo que o antropólogo Antonio Risério chama de negação da “outridade”, que avança sob a cobertura da proclamação de direitos e prerrogativas.

Tudo isso desempenha papel central no crescimento da animosidade, empurrando a sociedade para uma guerra tribal em que não pode haver vencedores.

Neste clima “pós-moderno” de conflagração, de corrosão cívica da convivência, de palavrório grosseiro e ofensivo, adjetivado, seria surpresa se a política conseguisse escapar. Ela é, afinal, o terreno do conflito e do contraditório por excelência. Mas também é uma ferramenta de agregação e organização. Perder isso é por em risco a possibilidade mesma do convívio entre grupos e indivíduos diferentes.

A política degradada é mais sintoma do que causa. Está determinada, ainda que também possa determinar. O círculo vicioso que assim se forma, pela eclosão de retroalimentações diabólicas, impede a política de cumprir seu papel de construtora de mediações e articulações.

A comunidade sofre, evidentemente. Mas, no plano da vida cotidiana, repõe suas energias e suas virtudes, com as quais força a política a cair na real e se renovar.

O BRASIL EM COMA

Sociedades são arranjos complexos e dinâmicos. Têm contradições, diferenças, forças internas. Movem-se em função delas. São, como diz uma máxima, o “mundos dos homens” e mulheres.

Sociedades conhecem altos e baixos, crises, fases de bem-estar e felicidade e fases de fracasso e incerteza, nas quais o futuro parece solto no ar. Há períodos em que o arranjo desanda de tal jeito que se generaliza a sensação de que a tarefa de aprumá-lo não poderá ser cumprida. Esses são períodos de confusão e turbulência, de desânimo cívico, indignação e revolta.

É onde está hoje o Brasil. Numa estrada repleta de curvas, depois das quais não se antevê nenhum belvedere.

A Lava Jato encurralou a corrupção instalada no Estado. Tem prendido e condenado políticos, empresários e intermediários poderosos, fato que acende muitas esperanças. Mas há ao mesmo tempo judicialização excessiva e a elite togada não se mostra qualificada para dar conta do recado. O assassinato da vereadora Marielle Franco foi um atentado contra a democracia e contra os direitos humanos. Mas causou uma indignação social tão grande que pode ter inaugurado uma nova situação. Não há escalada autoritária no País, em que pese a violência se reproduzir.

O problema é o que se vê e sente. Os cidadãos só conseguem vislumbrar escombros, que recobrem conquistas políticas e sociais duramente alcançadas nos anos mais “heroicos”, em que a maioria caminhava numa mesma direção e acreditava nas mesmas coisas.

Olham para o Estado, esse guardião da comunidade e fiador do contrato social, e ficam ainda mais ressabiados e inseguros. O Leviatã simplesmente parece em coma. Da Presidência da República ao Legislativo, passando pelo Judiciário, sucede-se o mesmo quadro: cabeças batendo entre si, mediocridade generalizada, reações adaptativas e defensivas, uma recorrente demonstração de que ninguém sabe bem que direção tomar.