Nós temos um problema. Em uma galáxia de 10 bilhões de anos, deveria haver uma ampla oportunidade para pelo menos uma espécie escapar de sua própria bagunça e se espalhar pelas estrelas, preenchendo cada nicho do universo. O fato de que essa espécie não parece ter surgido leva ao Paradoxo de Fermi: se a vida não é impossivelmente rara, então onde está todo mundo?

Esforços para varrer os céus em busca de sinais de vida inteligente também deram em nada, aumentando o quebra-cabeça. Talvez os culpados sejam os vastos abismos do espaço interestelar e as estreitas janelas de tempo para as espécies comunicativas existirem dentro de uma distância que permita o contato As inteligências podem ser como pequenas embarcações passando na noite em um vasto oceano. Encontros imediatos de qualquer tipo podem ser extremamente incomuns.

Outra explicação para o grande silêncio da galáxia é que qualquer inteligência sobrevivente lá fora é tão diferente de nós, tão radicalmente evoluída, que nem podemos conceber sua forma ou comportamento. Como consequência, detectá-la e reconhecê-la pode ser praticamente impossível. Isso é um pouco deprimente.

Mas há também uma possibilidade que se situa entre esses extremos e pode ser a mais provável de todos. Quando nosso primeiro encontro finalmente ocorrer, pode ser coma uma inteligência artificial.

A ideia não é nova. Nos anos 1940, o matemático John von Neumann explorou as possibilidades de haver sistemas não-biológicos, auto-replicantes e impregnados de computação, mas que não exigem mentes operacionais. Mais tarde, na década de 1980, outros expandiram esse conceito considerando as reais necessidades de engenharia para dispositivos autônomos, replicantes e adaptados ao ambiente espacial. Essas máquinas seriam capazes de vagar pelo Universo, encontrando matérias-primas para construir mais e mais de si mesmas, criando a infraestrutura para a transmissão de energia no espaço ou para um assentamento humano entre as estrelas.

Isso exigiria um caminho mais complexo ainda para que esses dispositivos chegassem a ter uma real inteligência artificial. Com que propósito teriam sido criadas? E que tipo de inteligência essa máquina provavelmente terá? Um encontro com uma máquina alienígena poderia nos ajudar a desvendar esse quebra-cabeça.

Uma possibilidade é que esta máquina seja supercapaz, excedendo nossa capacidade humana para tarefas cognitivas ou analíticas. Tal IA pode ser extremamente difícil de ser compreendida, seja em termos de sua motivação subjacente ou por causa de barreiras práticas de largura de banda de comunicação. Para este dispositivo, conversar com a gente pode ser como conversar com uma criança. Ou tentar discutir as obras coletadas de Shakespeare usando pictogramas. Um sistema alienígena otimizado para processar vastos fluxos de dados pode nem mesmo ser capaz de reduzir seu ritmo o suficiente para perceber que estamos tentando conversar, quer usemos ou não a tecnologia.

Uma IA extraterrestre (ET) também poderia ser seriamente intimidadora e assustadora simplesmente por causa de sua natureza mecânica: uma coisa animada a partir de peças não vivas, exatamente como o conto clássico do golem moldado de barro ou lama. Em comparação, enquanto um alienígena biológico pode ser chocante, certamente teria alguns traços em comum conosco. Poderíamos nos convencer de que a evolução leva a comportamentos e intenções reconhecíveis, até mesmo apreciáveis. Uma entidade artificial não precisa seguir todas essas regras evolucionárias, levando a outro nível o estranhamento alienígena.

Encontrar uma IA alienígena não apenas apontaria para o nosso próprio futuro possível, mas também levaria a uma mudança curiosa em nossa visão de mundo. Quando Nicolau Copérnico propôs, no século XVI, que a Terra não era de modo algum o centro do universo, pôs em marcha o desenvolvimento de uma ideia científica crítica: a de que não há nada cosmicamente especial ou significativo em nós. Mas encontrar um ET-IA poderia transformar essa percepção em sua cabeça: se a única inteligência que encontramos tem a natureza de uma máquina, então seríamos especiais, afinal de contas.

Se encontrarmos uma IA em nossa excursão cosmológica, ela provavelmente não será consciente no sentido pleno da palavra. Na verdade, acho que nos veríamos diante de algo parecido com uma inteligência com a síndrome de savant“, ou seja, uma especialista em tarefas específicas, mas de outra forma extremamente limitada em suas capacidades.

Um exemplo recente aqui na Terra é o AlphaGo Master do Google, um sistema que joga o jogo de tabuleiro Go, e que aprende algumas de suas habilidades pela exposição a vastos catálogos de partidas jogadas por humanos. Um ano após sua criação, o sistema começou a superar os melhores jogadores humanos de Go que existem no mundo. Em seguida, veio um sistema evoluído chamado AlphaGo Zero. Em quarenta dias de treinamento, sem recorrer a dados de jogos históricos, essa nova IA revelou-se melhor do que seu ancestral de silício e melhor do que qualquer ser humano vivo. Agora, mais uma variante, AlphaZero levou apenas vinte e quatro horas para treinar e vencer uma versão de AlphaGo Zero modestamente treinada, além de superar outros sistemas jogando xadrez e Shogi (às vezes conhecido como xadrez japonês). Se você ler entrevistas com jogadores experientes, verá que essas máquinas nem sequer jogam como seres humanos, suas estratégias são estranhas e aparentemente insondáveis.

Esses Alphas são o epítome de uma máquina inteligente. Tais AIs nos ajudarão a responder a uma série de problemas científicos que estão atualmente na parte cabeluda da tratabilidade. Os pesquisadores por trás dos sistemas Alpha já estão falando sobre o quebra-cabeça do dobramento de proteínas – ou seja, como as cadeias de aminoácidos se torcem, giram e se dobram em estruturas com utilidade biológica essencial. As regras moleculares subjacentes são entendidas, mas prever o resultado final que uma receita específica é extremamente difícil no momento. Certamente parece um trabalho para algum futuro AlphaFold Zero.

Ou considere outras peças da ciência moderna. Simulações cosmológicas ou previsões climáticas e meteorológicas são todas impulsionadas por fenômenos físicos como gravitação, dinâmica de fluidos e termodinâmica. Códigos de computador digitalizam esses fenômenos, calculando bilhões de iterações de forças e movimentos. Mas esses cálculos ainda são limitados pela velocidade e precisão do processador. IAs autodidatas e de aprendizado profundo podem tornar-se melhores como adivinhadores quantitativos do que as intensas simulações numéricas – atualmente limitadas por suas abordagens sistemáticas e comparativamente lentas.

A intuição inteligente de uma máquina pode ser capaz de pular os ciclos de computação, “ver” qual será a resposta em um sentido probabilístico, em vez de reproduzir meticulosamente uma versão pixelada dela. Da mesma forma, a intuição inteligente de uma máquina pode ser aplicada ao processo raiz da dedução e descoberta científicas em si. As possibilidades ainda estão por ser muito exploradas, mas podem ser extraordinárias. As máquinas “savant” poderiam ser simplesmente tão úteis, tão revolucionárias em expandir nossa capacidade de descoberta e exploração, que há pouca motivação inicial para procurar algo mais sofisticado.

Se esse padrão de desenvolvimento de máquinas está acontecendo para nós, isso poderia representar um padrão que acontece pelo cosmos e que influencia a própria natureza da exploração cósmica. AIs desse tipo tornariam-se as ferramentas definitivas para permitir que a vida biológica alcançasse distâncias interestelares: mais robustas que a biologia, e não espertas o suficiente para levantar preocupações éticas sobre serem enviadas para vagar pelo cosmo de acordo com nossos caprichos científicos. O envio de milhões desses investigadores ao espaço seria um passo inevitável. Eles poderiam ser enviados para outras estrelas e sistemas planetários, e projetados para reconhecer as características mais interessantes desses lugares, da astrofísica à presença da vida. Essas máquinas refletiriam as motivações de seus criadores biológicos; talvez simples curiosidade, talvez algo mais.

Outra razão convincente para as máquinas savant estarem vagando pelo cosmos surge ao pensarmos em como construir IAs mais gerais e mais poderosas. Pode ser que um sistema geral de IA possa ser construído a partir de um grande número de IAs menores, cada uma assumindo uma tarefa cognitiva específica e difícil, mas conectadas entre si. Essa ligação pode ser muito localizada ou bastante difundida como a arquitetura dos circuitos neurais biológicos. Há o savant reconhecedor de rostos, o savant da linguagem natural, o savant de cálculo, o savant evasivo de impostos. Seria possível imaginar, então, uma IA cuja tarefa é aprender como combinar IAs inteligentes em algo parecido com uma inteligência geral – estabelecendo um berçário para a consciência da máquina ser executada no mais alto nível de complexidade. 

A tarefa mais desafiadora para uma IA que está desenvolvendo consciência seria a complexidade do ambiente do mundo real. A natureza não é apenas para atingir metas fixas; é cheia de ruído, aleatoriedade e trilhões de trilhões de peças interativas. Por exemplo, desde o instante em que um embrião se forma, fica exposto a variações constantes. Inicialmente formado por apenas algumas células, esse embrião percebe o mundo puramente do ponto de vista molecular. À medida que o embrião desenvolve órgãos para registrar luz, som, tato e olfato, as portas de sua percepção – e sua complexidade – expandem-se.

Em suma, o caminho para criar-se uma IA melhor é deixar que a IA e seus componentes explorem o Universo caótico. Por mais complexo e rico de informações que um planeta possa ser, um universo cheio de mundos oferece milhões, bilhões e até trilhões de tubos de ensaio naturais, cada um com sua própria história de seleção natural e acaso. Espalhar peças de Inteligência Artificial através das estrelas é uma maneira de explorar essas intermináveis ​​experiências naturais e entradas sensoriais.

O caminho para uma melhor IA pode ser paralelo à evolução biológica apenas de formas superficiais. Considere o desenvolvimento bruto de um cérebro humano. O processo central parece ser um esforço que tem uma só oportunidade para ocorrer. Começa com células-tronco unindo-se numa estrutura inicial chamada tubo neural e conectando-se ao embrião em desenvolvimento a uma taxa de 15 milhões de células por hora. Essa montagem prodigiosa do cérebro é seguida de aprendizado – o cérebro é moldado e podado à medida que a experiência cria nosso caminho único ao longo da vida. Apesar de sermos incrivelmente flexíveis e capazes de absorver e dominar todo tipo de habilidades e conhecimentos, como indivíduos somos também limitados por nossos condicionantes genéticos, infelizmente. E, na verdade, embora todos nós possamos continuar aprendendo e mudando, raramente desenvolvemos novos talentos milagrosos durante nossas vidas.

Uma máquina pode não ser tão restrita, especialmente se peças críticas estão explorando o cosmos e foram projetadas para evoluir para algo novo. Os componentes savant de uma inteligência maior podem ser ativados e desativados em escolhas e combinações sempre em transformação. Algumas habilidades cognitivas podem ser úteis em certos contextos, mas podem simplesmente representar interferência em outras situações. Isto é, a inteligência baseada em máquinas pode ser altamente fluida, mutável e, acima de tudo, rapidamente desenvolvida. Como consequência, o que poderia estar à espreita no cosmos é um vasto e diversificado zoológico de IAs.

Em certo sentido, essas IAs são similares às máquinas microbianas que são o centro da vida na Terra: formando as menores unidades de inteligência para atravessar o Universo e, finalmente, combinando-se, como a bióloga evolutiva Lynn Margulis propôs, para criar criaturas multicelulares, entidades maiores e autoconsciente. De fato, muito tempo depois que uma espécie biológica tenha desaparecido em meio à torrente implacável da seleção natural, ou autodestruição, esse tipo de máquina permaneceria.

Uma AI alienígena pode ser difícil de reconhecer. Assim como alguém que vive nas estepes da Mongólia do século XII encontraria um carro autônomo, mágico e sem sentido, poderíamos ser bastante incapazes de registrar ou interpretar a presença de máquinas savant de bilhões de anos. Da mesma forma, as máquinas savant podem não estar ativamente buscando falar conosco ou com quaisquer outras inteligências.

Mas um encontro reconhecível com até mesmo uma máquina inteligente realmente mudaria tudo. Isso nos diria que a galáxia está repleta de inteligência, e poderia sugerir que nosso futuro poderia ser o de uma presença biológica residual e vestigial no universo. Acima de tudo, essa descoberta nos diria que atualmente podemos ser as únicas mentes naturais cientes desses fatos. Isso porque a biologia que poderia produzir exploradores de IA provavelmente evoluiria ou se extinguiria em escalas de tempo muito mais curtas do que a persistência dessas máquinas interestelares, e nós já vivemos em uma galáxia de 10 bilhões de anos.

Encontrar um IA-ET poderia desbloquear nossa própria exploração cósmica, iluminando um caminho à frente. Pode também oferecer uma visão da natureza de seus criadores, essas inteligências ancestrais, presumivelmente na forma biológica. Exatamente como esse processo investigativo ocorreria é algo extremamente difícil de imaginar. Mesmo um único IA savant pode não vir em um pacote físico, mas sim em um enxame de componentes ainda mais difíceis de assimilarmos. No entanto, vamos supor que, por meio de interrogação ou desmontagem literal, eventualmente venhamos a resolver o mistério das origens da IA-ET. Podemos encontrar evidências de uma espécie orgânica como nós – ou podemos descobrir apenas máquinas sucedendo-se umas às outras infinitamente.


Tradução do texto What if ET is an AI? Publicado originalmente na Aeon magazine.