Nossa atenção não é um recurso, mas aquilo que somos.

“Estamos nos afogando em informação, mas sedentos por sabedoria”. Essas foram as palavras do biólogo americano Edward Wilson na virada do século. Se olharmos para a nossa era de smartphones, é fácil acreditar que nossas vidas mentais estão agora mais fragmentadas e dispersas do que nunca.

A expressão “economia da atenção” é uma frase que muitas vezes é usada para tentarmos dar algum sentido ao que está acontecendo hoje em dia. Ela trata nossa atenção como um recurso limitado no centro do ecossistema informacional, com vários alertas e notificações travando uma batalha constante para capturá-la.

Essa é uma narrativa útil num mundo de sobrecarga de informações, em que nossos dispositivos e aplicativos são projetados intencionalmente para nos deixar viciados. Ademais, além do nosso próprio bem-estar mental, a economia da atenção oferece uma maneira de olharmos para alguns problemas sociais importantes: desde o declínio preocupante nos índices empatia humana até belicosidade crescente das redes sociais.

O problema, porém, é que essa narrativa pressupõe certo tipo de atenção. Uma “economia”, afinal, lida com a forma de alocar recursos eficientemente a serviço de objetivos específicos (como maximizar o lucro, por exemplo). Falar da “economia da atenção” depende da noção de atenção como recurso: nossa atenção deve ser aplicada a serviço de algum objetivo, de cujo caminho as mídias sociais e outros malefícios se empenham em nos desviar. Nossa atenção, quando deixamos de usá-la para nossos próprios objetivos, torna-se uma ferramenta a ser usada e explorada por outros.

No entanto, conceber a atenção como um recurso esquece o fato de que a atenção não é apenas útil. É mais fundamental que isso: atenção é o que nos une ao mundo exterior. A participação “instrumental” é importante, claro. Mas também temos a capacidade de participar de uma forma mais “exploratória”: estar realmente aberto a tudo o que encontrarmos diante de nós, sem qualquer agenda específica.

Durante uma recente viagem ao Japão, por exemplo, me encontrei com algumas horas não planejadas para passar em Tóquio. Ao entrar no movimentado distrito de Shibuya, eu vaguei sem rumo por entre os sinais de néon e a multidão de pessoas. Meus sentidos encontraram a parede de fumaça e a cacofonia de som quando passei por uma movimentada sala de pachinko. Durante toda a manhã, minha atenção estava no modo “exploratório”. Isso contrastava com, digamos, quando eu tive que me concentrar em navegar no sistema de metrô mais tarde naquele dia.

Tratar a atenção como um recurso, como está implícito na narrativa da atenção/economia, nos diz apenas metade da história geral – especificamente, a metade esquerda. De acordo com o psiquiatra e filósofo britânico Iain McGilchrist, autor do recente Ways of Attending: How Our Divided Brain Constructs the World (2018), os hemisférios esquerdo e direito do cérebro “entregam” o mundo para nós de duas formas fundamentalmente diferentes. Um modo instrumental de atenção, sustenta McGilchrist, é o sustentáculo do hemisfério esquerdo do cérebro, que tende a dividir tudo o que é apresentado em partes componentes: analisar e categorizar as coisas de modo a poder utilizá-las para alguns fins.

Em contraste, o hemisfério direito do cérebro adota naturalmente um modo exploratório de atender: uma consciência mais incorporada, aberta a tudo que se faz presente diante de nós, em toda a sua plenitude. Esse modo de atendimento entra em cena, por exemplo, quando prestamos atenção a outras pessoas, ao mundo natural e às obras de arte. Nada disso é bom demais se atendemos a eles como um meio para um fim. E é esse modo de prestar atenção, argumenta McGilchrist, que nos oferece a mais ampla experiência possível do mundo.

Assim, além de atenção como recurso, é importante mantermos um claro senso de atenção-como-experiência. Acredito que é o que o filósofo americano William James tinha em mente em 1890 quando escreveu que “aquilo a que estamos atentos é a realidade”: a simples mas profunda idéia de que aquilo a que prestamos atenção e como prestamos atenção molda nossa realidade, momento a momento, dia a dia e assim por diante.

É também o modo exploratório de atenção que pode nos conectar ao nosso mais profundo senso de propósito. Apenas observe quantas formas não-instrumentais de atenção estão no cerne de muitas tradições espirituais. Em Awareness Bound and Unbound (2009), o professor de Zen norte-americano David Loy caracteriza uma existência não-esclarecida (samsara) como simplesmente o estado em que a atenção fica “presa” quando se agarra de uma coisa para outra, sempre procurando a próxima coisa a qual se apegar. Já o “Nirvana”, para Loy, é simplesmente uma atenção livre e aberta que é completamente liberada de tais fixações.

Na cultura ocidental, Simone Weil, a mística cristã francesa, viu a oração como atenção “em sua forma pura”. Ela escreveu que os valores “autênticos e puros” na atividade de um ser humano, como verdade, beleza e bondade, resultam de uma aplicação particular de atenção total.

O problema, então, é duplo. Primeiro, o dilúvio de estímulos competindo para atrair nossa atenção quase certamente nos inclina para a gratificação instantânea. Isso prejudica o espaço disponível para o modo exploratório de atenção. Quando chego ao ponto de ônibus agora, eu automaticamente pego meu smartphone, em vez de olhar para ao redor. Meus companheiros de viagem (quando levanto minha cabeça) parecem estar fazendo a mesma coisa. Em segundo lugar, além disso, uma narrativa da economia da atenção, apesar de toda a sua utilidade, reforça uma concepção de atenção como um recurso, em vez de atenção-como-experiência.

Em um extremo, podemos imaginar um cenário no qual gradualmente perdemos o contato com a atenção-como-experiência. Atenção torna-se apenas uma coisa para utilizar, um meio de fazer as coisas, algo de que o valor pode ser extraído. Este cenário implica, talvez, o tipo de distopia desmembrada e desumana de que fala o crítico cultural americano Jonathan Beller em seu ensaio “Paying Attention” (2006), quando descreve um mundo no qual “a humanidade se tornou seu próprio fantasma”.

Embora tal cenário possa parecer exagerado, há indícios de que as psiques modernas estão se movendo nessa direção. Um estudo descobriu, por exemplo, que a maioria dos homens optou por receber um choque elétrico em vez de ser deixado em paz sem nada o que fazer nem se distrair – quando, em outras palavras, eles não tinham entretenimento para fixar sua atenção. Ou considere o surgimento do movimento do “eu quantificado”, em que “rastreadores da própria vida” usam dispositivos inteligentes para rastrear milhares de movimentos e comportamentos diários de si próprio a fim de (supostamente) acumular autoconhecimento. Se alguém adota essa mentalidade, os dados são a única entrada válida. A experiência direta e sentida do mundo simplesmente não é computada.

Felizmente, nenhuma sociedade chegou a essa distopia – ainda. Mas diante de uma corrente de reclamações sobre nossa atenção e de narrativas que nos convidam a tratá-la como um recurso meu, precisamos trabalhar para manter equilibrados nossos modos de atenção instrumental e exploratória. Como podemos fazer isso?

Para começar, quando falamos de atenção, precisamos defender seu enquadramento como uma experiência, não um simples meio ou ferramenta para algum outro fim.

Em seguida, podemos refletir sobre como gastamos nosso tempo. Além de conselhos especializados sobre ‘higiene digital’ (desligando as notificações, mantendo nossos telefones fora do quarto, e assim por diante), podemos ser proativos e dedicar uma boa quantidade de tempo a cada semana para atividades que nos estimulam a viver de forma aberta, receptiva e exploratória. Atividades propícias à atenção não dirigida como dar um passeio, visitar uma galeria ou escutar um álbum.

Talvez a mais eficaz de todas, no entanto, seja simplesmente retornar a um modo de atenção exploratório e encarnado, apenas por um ou dois momentos, sempre que possível ao longo do dia. Observando nossa respiração sem qualquer outro propósito. Em uma era de tecnologias aceleradas e sucessos instantâneos, isso pode parecer um pouco… nada assombroso. Mas pode haver beleza e maravilha no ato sem graça de “experimentar”. Isso poderia ser o que Weil tinha em mente quando ela disse que a aplicação correta da atenção pode nos levar à “porta da eternidade”, que apenas encontramos no “infinito instante”.