A igualdade é um dos valores mais sagrados da sociedade moderna, ainda que a sociedade moderna esteja pronta para se tornar a mais desigual da história. A humanidade pode rapidamente se dividir em castas biológicas, com humanos de classes mais altas se transformando em deuses.

Quando pensamos sobre o futuro, geralmente pensamos sobre um mundo em que pessoas como nós usufruirão de tecnologia mais avançada: espaçonaves que viajam na velocidade da luz, poderosas armas laser e robôs inteligentes. Mas o principal potencial das tecnologias futuras, como engenharia genética e interfaces cérebro-computador, está na possibilidade de alterar nossos próprios corpos e mentes, e não nossos veículos e armas. Se as elites tiverem acesso preferencial a tais tecnologias, o resultado pode ser a transformação da desigualdade social em desigualdade biológica. Pela primeira vez na história, as classes superiores não serão apenas mais ricas que o resto da humanidade, mas também muito mais talentosas, belas, corajosas – ou qualquer outra característica que eles se importem em adquirir.

Quando cientistas são confrontados com tais cenários, sua resposta padrão é que no século XX os maiores avanços médicos iniciaram com os ricos mas gradualmente se tornaram acessíveis para a população geral. Podemos presumir que isso aconteça novamente no século XXI. Entretanto, isso pode ser apenas um pensamento esperançoso. O que aconteceu no século XX pode não necessariamente se repetir no século XXI, e por dois importantes motivos.

Primeiro, a medicina está passando por uma revolução conceitual. A medicina do século XX tinha por objetivo curar os doentes. Em contraste, a medicina do século XXI está cada vez mais buscando a melhoria da saúde. Curar doenças é um projeto essencialmente igualitário, pois presume que há um padrão normativo de saúde física e mental que qualquer um pode e deve desfrutar. Mas melhorar a saúde é um projeto elitista, pois rejeita a ideia de um padrão universal aplicado a todos, buscando dar a alguns indivíduos uma vantagem sobre os outros. Se uma melhoria se torna tão barata e comum que qualquer um possa adquiri-la, então ela simplesmente será considerada a nova normalidade, o que faz com que a próxima geração de tratamentos busque superá-la.

Segundo, o mundo está passando por uma dramática transformação militar e econômica. O século XX foi a era das massas. Exércitos precisavam de massas de soldados saudáveis e a economia precisava de massas de trabalhadores saudáveis, sendo esse o motivo de a medicina focar no tratamento das massas. As maiores conquistas foram nos campos de higiene em massa, vacinação em massa e na superação de epidemias. Os ricos tiveram interesse em vacinar os pobres, construir hospitais e sistemas de tratamento de água e esgoto porque se um país queria ter um poder grandioso, ele precisaria de milhões de soldados e trabalhadores saudáveis.

Mas a era das massas pode acabar e com isso a era da medicina das massas. Exércitos não são mais formados através do recrutamento de milhões de soldados, mas por meio de grupos pequenos de experts e tecnologias de ponta como drones sem piloto. Na esfera econômica, algoritmos estão substituindo humanos não apenas em simples trabalhos manuais, mas também naqueles que demandam maiores habilidades cognitivas, como dirigir táxis, operar em bolsas de valores ou diagnosticar doenças.

Como o século vinte revela, humanos normais estão em perigo de perder seu valor econômico porque a inteligência está se desacoplando da consciência. Até hoje, alta inteligência sempre esteve associada a uma consciência desenvolvida. Somente seres conscientes podem dirigir táxis ou diagnosticar doenças. Dessa forma, toda consciência humana era potencialmente um ativo econômico.

Entretanto, hoje estamos desenvolvendo novos tipos de inteligência não-conscientes que podem executar estas tarefas de forma muito melhor do que humanos. Isso levanta uma nova questão: qual das duas é realmente importante – inteligência ou consciência? De uma perspectiva econômica a resposta é clara: inteligência é obrigatória, mas consciência tem pouco valor. Uma vez que a economia se beneficia de serviços de algoritmos de alta inteligência não-conscientes, humanos normais talvez se tornem sem valor.

Em um mundo onde seres humanos estão perdendo seu valor militar e econômico, elites ao redor do globo podem concluir que não há sentido em prover condições normativas de saúde para massas de pessoas pobres, sendo muito mais sensato focar em atualizar uma minoria de super-humanos que vão além da norma padrão. Isso se aplica especialmente para grandes países em desenvolvimento como Índia, China e Brasil. Estes países se assemelham a um longo trem. As elites no vagão da primeira classe possuem convênios de saúde, educação e salários de níveis comparáveis aos dos países mais desenvolvidos do mundo. Entretanto, as centenas de milhões de cidadãos comuns que formam a multidão nos vagões da terceira classe ainda sofrem com doenças generalizadas, ignorância e pobreza.

O que as elites indianas, chinesas ou brasileiras preferirão fazer no século que se aproxima? Investir em resolver os problemas de centenas de milhões de pobres – ou atualizar alguns milhões de ricos? No século passado, as elites tinham um prêmio por resolver os problemas dos pobres, eles eram econômica e militarmente vitais. Porém, no século XXI, a mais eficiente (e cruel) estratégia pode ser deixar os inúteis vagões da terceira classe e seguir adiante apenas com a primeira classe. A fim de competir com a Coréia do Sul ou o Canadá, o Brasil talvez precise muito mais de um punhado de super-humanos atualizados do que milhões de trabalhadores saudáveis comuns.

[Traduzido por Guilherme Cruz e revisado pela equipe a partir do original Upgrading Inequality: Will Rich People Become a Superior Biological Caste?]