Há várias gerações, o mundo tem sido governado pelo que hoje chamamos de “ordem liberal global”. Por trás dessas palavras majestosas está a ideia de que todos os humanos compartilham algumas experiências e alguns valores e interesses essenciais, e que nenhum grupo humano é, inerentemente, superior a todos os outros.

A cooperação, portanto, é mais razoável que o conflito. Todos os humanos deveriam trabalhar juntos para proteger seus valores em comum e impulsionar seus interesses em comum. E a melhor maneira de fomentar essa cooperação é facilitando o movimento de ideias, mercadorias, dinheiro e pessoas por todo o globo terrestre.

Embora a ordem liberal global tenha muitas falhas e muitos problemas, ela provou ser superior a todas as alternativas. O mundo liberal no início do século 21 é mais próspero, saudável e pacífico do que jamais foi. Pela primeira vez na história humana, a fome mata menos que a obesidade; pestes matam menos que a velhice; e a violência mata menos que os acidentes.

Aos seis meses de idade, eu não morri numa epidemia graças a medicamentos descobertos por cientistas estrangeiros em terras distantes. Aos 3 anos, não morri de fome graças ao trigo cultivado por agricultores estrangeiros a milhares de quilômetros de distância. E, aos 11 anos, não fui obliterado numa guerra nuclear graças a acordos assinados por líderes estrangeiros do outro lado do planeta.

Se você acha que deveríamos retornar a alguma época dourada pré-liberal, por favor diga em que ano o gênero humano esteve melhor do que no início do século 21. Em 1918? Em 1718? Em 1218?

O livre trânsito de ideias e negócios na ordem liberal possibilitou benefícios humanos e avanços tecnológicos sem precedentes.


Mesmo assim, pessoas no mundo inteiro estão agora perdendo a fé na ordem liberal. Ideias nacionalistas e religiosas que privilegiam um grupo humano em relação a todos os outros estão de novo na moda.

Governos estão restringindo cada vez mais o fluxo livre de ideias, mercadorias, dinheiro e pessoas. Muros estão pipocando por toda parte, seja no solo ou no ciberespaço. Imigração é out, impostos sobre importações são in.

Se a ordem liberal está entrando em colapso, qual novo tipo de ordem global poderia substituí-la? Até agora, os que desafiam a ordem liberal o fazem sobretudo em nível nacional. Eles têm muitas ideias sobre como fazer progredir os interesses de seu país em particular, mas não têm uma visão viável de como o mundo todo iria funcionar.

Por exemplo, o nacionalismo russo pode ser um guia razoável na condução dos negócios da Rússia, mas o nacionalismo russo não tem um plano para o resto da humanidade. A menos, é claro, que o nacionalismo assuma a forma de imperialismo e clame que uma nação conquiste e governe o mundo inteiro.

Um século atrás, vários movimentos nacionalistas realmente alimentavam essas fantasias imperialistas. Os nacionalistas de hoje, seja na Rússia, na Turquia, na Itália ou na China, por enquanto têm se abstido de defender a ideia de uma conquista global.

Em vez de estabelecer com violência um império global, alguns nacionalistas como Steve Bannon, Viktor Orbán, a Lega italiana e os apoiadores do Brexit britânico sonham com uma “internacional nacionalista” pacífica.

Alegam que todas as nações enfrentam hoje os mesmos inimigos; que os bichos-papões do globalismo, do multiculturalismo e da imigração estão ameaçando destruir as tradições e as identidades de todas as nações.

Portanto, nacionalistas de todo o mundo deveriam ter como causa comum se opor a essas forças globais. Húngaros, italianos, turcos e israelenses deveriam construir muros, erigir cercas e desacelerar a movimentação de pessoas, mercadorias, dinheiro e ideias.

No mundo todo, líderes tanto de esquerda como de direita legitimam-se com discursos nacionalistas.

 

O mundo será então dividido em Estados-nação distintos, cada um com sua própria e sagrada identidade e suas tradições. Com base no respeito mútuo por essas identidades diferentes, todos os Estados-nação poderiam cooperar e negociar pacificamente uns com os outros. A Hungria será húngara, a Turquia será turca, Israel será israelense, e todos saberão onde estão e qual é seu lugar apropriado no mundo.

Será um mundo sem imigração, sem valores universais, sem multiculturalismo, e sem uma elite global —mas com relações internacionais pacíficas e algum comércio. Numa palavra, a “internacional nacionalista” concebe o mundo como uma rede de fortalezas muradas-porém-amigáveis.

Muitos poderiam pensar que esta é uma visão bem razoável. Por que essa não seria uma alternativa viável para a ordem liberal?


Devem-se observar duas coisas quanto a isso. Primeiro, ainda é uma visão liberal, comparativamente. Ela pressupõe que nenhum grupo humano é superior a todos os outros, que nenhuma nação deve dominar seus pares, e que a cooperação internacional é melhor que o conflito.

De fato, liberalismo e nacionalismo estavam originalmente alinhados e muito próximos um do outro. Os nacionalistas liberais do século 19, como Giuseppe Garibaldi e Giuseppe Mazzini na Itália e Adam Mickiewicz na Polônia, sonhavam exatamente com essa ordem liberal internacional de coexistência pacífica entre nações.

A segunda coisa a se observar quanto a essa visão de fortalezas amigáveis é que já se tentou fazer isso —e já se fracassou espetacularmente. Todas as tentativas de dividir o mundo em nações bem definidas resultaram até agora em guerra e genocídio. Quando os herdeiros de Garibaldi, Mazzini e Mickiewicz conseguiram derrubar o multiétnico Império Habsburgo, mostrou-se ser impossível achar uma linha que dividisse claramente italianos de eslovenos ou poloneses de ucranianos.

Foi isso que preparou o cenário para a Segunda Guerra Mundial. O problema crucial com a rede de fortalezas é que cada fortaleza regional quer um pouco mais de terra, de segurança e de prosperidade para si mesma à custa das vizinhas, e sem a ajuda de valores universais e de organizações globais, fortalezas rivais não conseguem entrar em acordo quanto a regras comuns. Fortalezas muradas raramente são amigáveis.

Mas se calhar de você viver dentro de uma fortaleza especialmente forte, como a América ou a Rússia, por que deveria se preocupar?

Da última vez que tentamos o diálogo internacional com base no nacionalismo, não deu muito certo.


Alguns nacionalistas adotam de fato uma posição isolacionista mais extremada. Eles não acreditam nem num império global nem numa rede global de fortalezas.

Em vez disso, negam a necessidade de qualquer ordem global, seja qual for. “Nossa fortaleza devia simplesmente erguer suas pontes levadiças”, eles dizem, “e o resto do mundo pode ir para o inferno. Devemos recusar a entrada de pessoas estrangeiras, de ideias estrangeiras e de mercadorias estrangeiras, e enquanto nossas muralhas forem sólidas e os guardas forem leais, quem se importa com o que acontece aos estrangeiros?”

Esse isolacionismo extremo, no entanto, está completamente divorciado da realidade econômica. Sem uma rede de comércio global, todas as economias nacionais existentes vão entrar em colapso —inclusive a da Coreia do Norte. Sem importações, muitos países nem sequer serão capazes de alimentar a si mesmos, e os preços de quase todos os produtos vão disparar às alturas.

A camisa made in China que estou vestindo custou cinco dólares. Se tivesse sido fabricada por operários israelenses com algodão cultivado em Israel, usando máquinas produzidas em Israel, acionadas por um inexistente petróleo israelense, poderia muito bem custar dez vezes mais.

Líderes nacionalistas, de Donald Trump a Vladimir Putin, podem portanto amontoar insultos à rede global de comércio, mas nenhum deles pensa de fato em excluir completamente seu país dessa rede. E não podemos ter uma rede global de comércio sem alguma ordem global que estabeleça as regras do jogo.


Mais importante ainda, gostem as pessoas ou não, o gênero humano enfrenta hoje três problemas em comum que não dão a mínima para as fronteiras nacionais, e só podem ser resolvidos mediante cooperação global. Eles são: guerra nuclear, mudanças climáticas e disrupção tecnológica. Não há como construir uma muralha contra um inverno nuclear ou o aquecimento global, e nenhuma nação é capaz de regular a inteligência artificial (IA) ou dominar sozinha a bioengenharia.

Não será suficiente que apenas a União Europeia proíba a construção de robôs assassinos ou que somente os Estados Unidos resolvam abolir a criação de bebês humanos por engenharia genética. Diante do imenso potencial dessas tecnologias disruptivas, se apenas um país decidir seguir esses caminhos de alto risco e alto ganho, outros países serão obrigados a acompanhar essa liderança perigosa por medo de serem deixados para trás.

Uma disputa de armas de IA ou de armas biotecnológicas é quase garantia do pior dos resultados. Não importa o vencedor da corrida de armas, o perdedor será provavelmente a própria humanidade. Pois numa corrida armamentista todos os regulamentos desmoronam.

Imagine, por exemplo, a realização de experimentos de engenharia genética em bebês humanos. Todo país vai dizer: “Não queremos realizar esses experimentos —nós somos do bem. Mas como saber se nossos rivais não estão fazendo isso? Não podemos nos permitir ficar para trás. Assim, temos de fazer isso antes deles”.

Da mesma forma, imagine o desenvolvimento de sistemas de armas autônomos, capazes de decidir por si mesmos quando atirar e matar pessoas. Também nesse caso todo país dirá: “Essa é uma tecnologia muito perigosa e deveria ser regulamentada com todo cuidado. Mas não confiamos que nossos rivais façam isso, por isso devemos desenvolvê-la primeiro”.

A única coisa que pode impedir corridas armamentistas tão destrutivas é uma maior confiança entre países. Não é uma missão impossível. Se os alemães prometerem hoje aos franceses: “Confiem em nós, não estamos desenvolvendo robôs assassinos num laboratório debaixo dos Alpes Bávaros”, provavelmente os franceses acreditarão nos alemães, apesar da terrível história entre esses dois países.

A ausência de uma ordem planetária capaz de lidar com problemas coletivos será em primeiro lugar sentida pelas populações mais pobres dos países periféricos.


Precisamos construir essa confiança em um nível global. Precisamos chegar a um ponto em que americanos e chineses possam confiar uns nos outros assim como os franceses confiam nos alemães.

Do mesmo modo, precisamos criar uma rede de segurança global para proteger os humanos contra os choques econômicos que a IA pode causar. A automação vai criar uma nova e imensa riqueza em centros de tecnologia como o Vale do Silício, enquanto os efeitos mais nocivos serão sentidos em países em desenvolvimento, cujas economias dependem de trabalho manual barato.

Haverá mais empregos para engenheiros de software na Califórnia, mas menos empregos para operários e motoristas de caminhão mexicanos. Nós temos agora uma economia global, mas a política ainda é muito nacional. A menos que encontremos soluções em nível global para as disrupções causadas pela IA, países inteiros poderão desabar, e o caos, a violência e as ondas migratórias resultantes desse processo vão desestabilizar o mundo inteiro.

Essa é a perspectiva adequada para observar desenvolvimentos recentes. O Brexit, por exemplo, não é necessariamente uma má ideia em si. Mas é disso que a Inglaterra e a União Europeia deveriam estar cuidando agora? Como é que o Brexit vai ajudar a impedir uma guerra mundial? Como ele ajuda a prevenir as mudanças climáticas? Como ajuda a regular a inteligência artificial e a bioengenharia?

Em vez de ajudar, o Brexit faz com que seja mais difícil resolver todos esses problemas. Cada minuto que a Inglaterra e a União Europeia dedicam ao Brexit é um minuto a menos na prevenção das mudanças climáticas e na regulamentação da IA.

Para poder sobreviver e florescer no século 21, o gênero humano precisa de uma cooperação global eficaz, e até agora o único projeto viável para essa cooperação é oferecido pelo liberalismo. Não obstante, governos de todo o mundo estão solapando as fundações da ordem liberal, e o mundo está se tornando uma rede de fortalezas.

Os primeiros a sentirem o impacto são os membros mais fracos da humanidade, que estão sem qualquer fortaleza que os queira proteger: refugiados, imigrantes ilegais, minorias perseguidas. Mas, se as muralhas continuarem a se erguer, em breve toda a humanidade sentirá esse estreitamento.



Mas esse não é nosso destino inevitável. Ainda podemos seguir em frente com uma agenda global de fato, indo além de meros acordos comerciais e salientando a lealdade que todos os humanos devem ter com nossa espécie e nosso planeta.

Identidades são forjadas em épocas de crise. O gênero humano enfrenta agora a tríplice crise da guerra nuclear, das mudanças climáticas e da disrupção tecnológica. A menos que os humanos se deem conta de que vivem o mesmo dilema e se unam para combatê-lo, provavelmente não sobreviverão a essa crise.

Assim como no século passado a guerra industrial forjou uma “nação” a partir de muitos grupos díspares, da mesma forma, no século 21, a crise existencial global poderá forjar um coletivo humano a partir de nações díspares.

Não é preciso ver a criação de uma identidade de massa global como uma missão impossível. Afinal, ser leal ao gênero humano e ao planeta Terra não é inerentemente mais difícil do que ser leal a uma nação que compreende milhões de pessoas desconhecidas e inúmeras províncias que nunca visitei.

Ao contrário do que diz a sabedoria comum, não existe nada natural no nacionalismo. Ele não está radicado na biologia ou na psicologia humanas. Os humanos são de fato animais completamente sociais, e a lealdade a um grupo está impressa em nossos genes. No entanto, durante milhões de anos o Homo sapiens e seus ancestrais hominídeos viveram em comunidades pequenas e restritas, com não mais de algumas dezenas de pessoas.

Os humanos, portanto, desenvolvem facilmente lealdade a pequenos grupos, como famílias, tribos e aldeias, nas quais todo mundo se conhece. Mas a lealdade a milhões de completos estranhos dificilmente será natural para os humanos.

Essas lealdades de massa surgiram apenas nos últimos poucos milhares de anos —o que equivale à manhã de ontem na cronologia da evolução—, e elas se consolidaram para poder lidar com problemas em grande escala, que pequenas tribos não poderiam resolver sozinhas, portanto faz sentido transferir pelo menos algumas de nossas lealdades para uma identidade global.

Humanos sentem-se naturalmente leais a cem parentes e amigos que conhecem intimamente. Era muito difícil fazer com que humanos se sentissem leais a 100 milhões de estranhos que nunca conheceram.

Mas o nacionalismo conseguiu fazer exatamente isso. Agora só precisamos fazer com que humanos sintam-se leais a 8 bilhões de estranhos que nunca conheceram. É uma tarefa muito menos amedrontadora.

Precisamos forjar novas identidades coletivas que representem a humanidade para além de fronteiras e ideologias.

Verdade que para forjar identidades coletivas os humanos quase sempre precisam de algum inimigo em comum que os ameace. Mas agora temos três desses inimigos: guerra nuclear, mudanças climáticas e disrupção tecnológica. Se você pode reunir fileiras cerradas de seguidores americanos gritando “os mexicanos vão roubar os seus empregos!”, talvez consiga que americanos e mexicanos se unam em torno da mesma causa para gritar “os robôs vão roubar os seus empregos!”.

Isso não significa que os humanos vão abrir mão por completo das identidades culturais, religiosas ou nacionais que os singularizam. Posso ser leal a uma e a várias identidades ao mesmo tempo —a minha família, minha aldeia, minha profissão, meu país e também a meu planeta e a toda a espécie humana.

Sim, às vezes diferentes lealdades podem colidir umas com as outras, e nesses casos não é fácil decidir o que fazer.

Mas quem disse que a vida é fácil? A vida é difícil. Lide com isso. Às vezes priorizamos o trabalho à família, às vezes a família ao trabalho. Da mesma forma, às vezes precisamos priorizar o interesse nacional, mas há ocasiões em que temos de privilegiar os interesses globais do gênero humano.

O que tudo isso quer dizer na prática? Bem, quando chegarem as próximas eleições e os políticos pedirem que você vote neles, faça a esses políticos quatro perguntas:

1) Se você for eleito, que ações tomará para reduzir os riscos de conflitos nucleares?

2) Que ações tomará para reduzir os riscos de mudanças climáticas?

3) Que ações tomará para regulamentar tecnologias disruptivas como a IA e a bioengenharia?

4) E, por fim, como você vê o mundo em 2040? Qual seria o pior cenário, e como você imagina o melhor dos cenários?

Caso alguns políticos não compreendam essas perguntas, ou falem o tempo todo sobre o passado, sem capacidade de formular uma visão significante para o futuro, não vote neles.

 




Yuval Noah Harari é professor de história na Universidade Hebraica de Jerusalém e autor de três best-sellers, “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade” (2014), “Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã” (2016) e “21 Lições para o Século 21” (2018), todos pela Companhia das Letras.

Tradução de Paulo Geiger, editor e tradutor.

Publicado pela Folha de São Paulo.

Texto originalmente publicado na revista The Economist com o título