Walter Benjamin, Marc Bloch, Ernst Cohen, Georg Alexander Pick: algumas das melhores mentes judaicas do século 20 foram perdidas pela sede de sangue nazista. Martin Buber foi um dos afortunados. Em março de 1938, aos 60 anos de idade, deixou a Alemanha por Jerusalém e um por vínculo docente na Universidade Hebraica. Ele havia planejado retornar depois de um breve período, mas seis meses depois a Noite dos Cristais o fez mudar de ideia.

Nascido em Viena em 1878, Buber parecia fadado à fama no meio intelectual judaico. Seu avô tinha sido um Rabino erudito, e sua árvore genealógica contava com séculos de figuras judaicas notáveis. Houve um momento de agitação na adolescência de Buber, uma crise espiritual provocada por sua percepção da infinitude do espaço e da eterna solidão do tempo. Apesar desta crise, o jovem Buber se voltou em direção ao Judaísmo, sua herança de nascimento. Em sua adolescência (nas universidades de Viena, de Leipzig e de Berlim) seus interesses acadêmicos se deslocaram para longe da história da arte em direção ao misticismo religioso.

Em 1904, Buber descobriu o trabalho de Ba’al Shem Tov, fundador do Hassidismo – uma seita judaica mais interessada na experiência espiritual elevada subjetiva do que no ritual externo. Buber então, aos 26 anos foi, em suas próprias palavras, “instantaneamente tomado” pela “alma do Hassidismo”. Nos anos em seguida, Buber publicou fábulas Hassídicas Iídiche em seu alemão nativo, que se mostraram largamente populares entre os leitores. Ao lado do redescobrimento espiritual do judaísmo por Buber, veio sua ascensão proeminente dentro do Sionismo – o movimento que logo viria a se tornar bem-sucedido para estabelecer uma pátria judaica, naquele pedaço de terra que, na Torah, fora prometido por Deus aos descendentes de Abraão.

Era o meio da Primeira Guerra Mundial, já bem estabelecido como autor, Buber começou a trabalhar em seu trabalho mais famoso e mais influente, Ich und Du – que em português pode ser traduzido como Eu e Tu. Ele terminou um primeiro esboço em 1916, e publicou a versão final em 1923. Eu e Tu, um livro delgado, marcado por voos de lirismo afetivo que retrata o encontro de Buber com “a alma Hassídica”. Sua brevidade e paixão literária fizeram-no se juntar à esse pequeno clube de textos filosóficos que o público leitor geral é capaz de apreciar. (Outros exemplos são os aforismos de Marcus Aurélio, os ensaios de Michel de Montaigne, e a perspectiva de Albert Camus sobre o mito de Sísifo). Esta mesma qualidade literária é frequentemente o que faz com que o livro seja descartado pelos filósofos para ser frouxo, não sistemático e excessivamente subjetivo.

O argumento básico de Eu-Tu segue da seguinte maneira: a existência humana é fundamentalmente interpessoal. Os seres humanos não são objetos flutuantes, isolados, mas sujeitos existindo perpetuamente e em multiplicidade, alterando relações com outras pessoas, com o mundo e, sobretudo, com Deus. A vida é definida por estas interações inumeráveis, pelo empurra-e-puxa da intersubjetividade. Esta concepção conecta as convicções de Buber à primazia da palavra falada. Um dos grandes projetos de sua vida foi o processo de 37 anos para a produção de uma tradução idiossincrática da Bíblia para o alemão, em que, para fazer a justiça a suas raízes orais, o texto foi dividido em “medidas da respiração”. Para Buber, o ato do discurso incorpora a arraigada inter-relação dos seres humanos. No discurso, como na vida, nenhum “Eu” é uma ilha.

Eu-Tu discute que dentro desta realidade fundamentalmente interconectada há duas modalidades básicas da existência: Eu-Tu e o Eu-Coisa. Estas duas posturas compõem nossa “atitude dualista” básica. No modo Eu-Coisa, um “Ego” se aproxima de outro como um objeto separado. Este tipo de interação é regido por um tipo de instrumentalismo, o objeto está envolvido primeiramente como algo a ser sabido ou usado, e sua natureza é mediada sempre através da perspectiva do sujeito. Na postura Eu-Coisa, nós não nos envolvemos com as coisas em sua totalidade. Em vez disso, nos envolvemos com uma teia de qualidades distintas e isoladas notáveis por quanto são úteis para nós. Buber considerava este tipo de perspectiva egocêntrica (caracterizada, em sua opinião, por proto-existencialistas como Kierkegaard e Nietzsche) como um grave erro.

Em contraste, no relacionamento de Eu-Tu, mais do que simplesmente experimentar o outro, nós nos encontramos com ele. Um sujeito encontra todo ser de outro sujeito, e esta interação não é filtrada com o intermédio de nossa consciência, com seus preconceitos viciados e suas projeções. “Nenhuma finalidade intervém”, Buber propõe. A postura Eu-Tu contém uma pureza e uma intimidade, e é inerentemente recíproca. Com relação aos outros, ele argumenta, podemos adentrar num espaço de intersubjetividade onde duas pessoas coexistem naquilo que chamamos de Meio, para cuja existência ambas contribuem. Neste Meio, espreita-se a experiência vital, que nutre da vida humana, o material sagrado e real da existência. Nas palavras dele: “Viver realmente é Encontrar”

Ao mais alto nível, no pensamento de Buber, Deus representa o “eterno Tu“, a única entidade com que nós podemos manter um permanente Meio. Em qualquer outro encontro, há constante vacilação; até nosso mais estimado Tu ocasionalmente regressa à Coisa, mesmo que por somente alguns momentos. A silenciosa tragédia decorrente disso, da impermanência de toda a relação verdadeira, é compensada, para Buber, pelo eterno Tu, um tipo platônico de Encontro. Deus escapa sempre do impulso objetificador da postura Eu-Coisa, diz Buber. Ele sempre existe como uma unidade do ser em nossas mentes. E cada vez que nós alcançamos o Eu-Tu no nível humano, nós arrancamos uma lasca do ombro da gigantesca estátua de mármore do encontro divino.

É importante ressaltar que, para Buber, o Eu-Coisa não é inerentemente negativo. É necessário e inevitável que na vida tratemos determinadas coisas de tal forma. É assim que trocamos uma lâmpada, que seguimos uma receita, que coletamos dados ou compomos uma prova matemática.

Na leitura de Buber, contudo, muito da alienação e estupefação da vida moderna podem ser creditados na nossa confiança no Eu-Coisa. “Sem as coisas”, Buber escreveu, “o ser humano não pode viver. Mas aquele que vive apenas nessa dimensão não é um ser humano”. Na leitura de Buber, muitos de nós estamos perigosamente perto de viver com apenas a relação Eu-Coisa. Nós resolveremos nossos males, ele argumenta, movendo nossas vidas internas e nossas estruturas sociais longe do Eu-Coisa, em direção ao Eu-Tu. Deslocando a realidade para um espaço em que nos encontramos e que não apenas experimentamos pode eventualmente permitir que concentremos tanto nossa alma ao ponto de testemunhar a verdade daquela magnífica e banal noção: Deus é amor.

A recorrência da linguagem religiosa de Buber pode desagradar os leitores modernos. O argumento de que toda a experiência significativa requer o acesso à esfera divina provocará grande desaprovação em qualquer descrente. Entretanto, a filosofia de Buber é interessante – e resiste hoje – em parte porque não requer que a Teologia Judaico-Cristã seja útil. Em 1949, o autor suíço Hermann Hesse descreveu Buber como o “um de poucos homens sábios vivos no tempo atual”. Esta sabedoria vai além do judaísmo Hassidico.

Com Deus ou sem Deus, a noção que nós devemos ser cautelosos em relação a deixar o instrumentalismo pautar nossos relacionamentos possui uma verdade profunda. Os exemplos extremos são óbvios: há uma crueldade em possuir os escravos e um vazio ao pagar pelo sexo.

A primazia da perspectiva do indivíduo atinge esferas muito mais sutis, entretanto. Com que frequência nós gostamos de pessoas porque queremos no conectar com o seu ser inteiro? Frequentemente, as razões pelas quais apreciamos sua companhia não são produtos da lógica do Eu-Coisa? Você ri de meus gracejos; você não desafia minhas opiniões mal amadurecidas; você elogia minha recente saída do Instagram; sua vida amorosa, que é um perpétuo desastre, faz eu me sentir melhor em relação a minha própria. Frequentemente você paga pelo nosso jantar; você viabiliza meu ligeiro problema com bebida; você escuta sem queixas minhas anedotas sem pé nem cabeça; quando eu flerto com você, você flerta de volta. E assim por diante. Muitos relacionamentos funcionam desta forma: nós não encontramos uma pessoa inteira, nós experimentamos um composto de partes dessa pessoa em que temos interesse (o perigo disso é aqulo que, no poema de D. H. Lawrence, é chamado de “amor pela criação de imagens”).

A verdade é que gostamos de usar as pessoas. Para validação, para entretenimento, para o simples alivio do tédio. Talvez (como Marx argumentou) esta dinâmica seja intensificada pelo capitalismo, que comoditiza as pessoas e faz dos relacionamentos transações. Mas nosso instrumentalismo é mais profundo do que isso. O capitalismo somente explora o que já está à espreita: nossa fácil tendência ao firme e pernicioso egoísmo.

O inverso do Eu-Coisa demanda algo diferente. O encontro de Eu-Tu tem um igualitarismo inerente que dissolve o interesse próprio. Como Buber esboçou, na esfera humana não há nenhum escape total ao Eu-Coisa: nós também amamos pessoas por razões funcionais e maçantes, nós fazemos uso egoísta mesmo de nossas almas-gêmeas. Mas no fundo, o Eu-Tu exige sempre vulnerabilidade, fraqueza e uma fenda na dura casca do Eu egoísta. O amor real, o tipo de amor pelo qual as pessoas vagam pela vida buscando, quer, sobretudo, se distanciar da cobiça que lança uma presunçosa perspectiva.

Apaixonar-se é, em parte, a assustadora percepção de que você entrou no campo da reciprocidade e que alguém agora pode lhe causar uma terrível dor. Este é o preço, essa é a aposta. Nas palavras de Buber, amor “sem a real liberação do outro, amor com amarras em si mesmo – é chamado de Lúcifer”. Um amor que não possa estar livre é o tipo de amor de um narcisista. Uma vida imersa exclusivamente na lógica do Eu-Coisa é a vida de um sociopata. São novamente exemplos extremos, mas o que Buber faz é mostrar que, sem vigilância consciente, momentos inócuos podem tender a tais direções extremas.

A vida imersa inteiramente no Eu-Tu também dificilmente parece possível. Se o mundo não comer você vivo, você será condenado a uma vida hippie vitrificada e inútil. O fim da inocência em virtude da experiência não é nada senão o reconhecimento de que, a fim de sobreviver, você necessita aprender a ter um pouco de crueldade. Mas qualquer que seja a raiz do dilema humano, ela claramente não é a compaixão demasiada ou o egoísmo insuficiente.

Apesar destas tendências, Buber argumenta, seria melhor, certamente, se todos nós vivêssemos mais pela regra do Tu do que pela regra da Coisa. Isso é o que a compreensão do Eu-Tu tão poeticamente retrata. Mesmo se o amor indiscriminado for concretamente impossível, tentar aproximar-se dele ainda assim é glorioso, um ideal gloriosamente desafiador. Dentro da estrutura do Cristianismo, a tragédia da humanidade é precisamente que a pessoa capaz de realizar esse ideal tenha sido torturada até a morte. Buber, que era incomum dentre os pensadores Judeus por tratar Jesus como um irmão espiritual, considerava esse aspecto e reverenciava “aquele que, pregado à cruz do mundo até o fim de sua vida, ousou esta coisa monstruosa – amar a todos os homens”.

Na obra de Nietzsche, Assim falou Zaratustra (1883), o profeta do título declara que “de tudo que é escrito, amo apenas o que alguém escreveu com seu sangue”. O trabalho de Buber é certamente desse tipo. Ele foi abandonado por sua mãe aos três anos de idade, e, em idade avançada, disse que seu envolvimento por toda sua vida com a natureza dos relacionamentos humanos “teve sua origem naquele momento”, quando ele constatou que ela nunca voltaria. Eu-Tu é um livro de sentimento, não de pensamento frio. O pensamento de Buber está imerso na linguagem religiosa, mas ele era um pensador honesto, que escreveu sobre a substância real do ser humano, de maneiras que podem ser úteis ao mais fervoroso ateu.

De muitas maneiras, a fé de Buber era distintamente moderna. O ensaísta Basco Miguel de Unamuno escreveu em 1913 que a crença em Deus “sem angústia em mente, sem incerteza, sem dúvida, sem um elemento de desespero”, não é a crença em Deus, mas a crença em uma mera ideia de Deus. Nestes termos, Buber era um crente verdadeiro, descrevendo-se como o “um homem que se esforça sempre novamente pela luz de Deus e sempre novamente desaparece no abismo de Deus”. Ele não confiava na sistematização do instinto espiritual. Da mesma maneira que Leo Tolstoy era um cristão apaixonado que veio a detestar sua igreja nacional, Buber era um auto descrito, “arqui-Judeu” que pensava que a fé institucionalizada ossificava e corrompia a vida do espírito.

No funeral de Buber em julho 1965, o teólogo Paul Tillich disse que “Buber antecipou a liberdade em relação à religião, incluindo as instituições da religião, em nome daquilo para o que a religião aponta”. Nestes termos, Buber emerge como um tipo de místico. Como o biógrafo Maurice Friedman escreve: Eu-Tu “é um livro universal, dirigido não aos judeus, mas ao homem ocidental moderno”. A utilidade geral de sua filosofia é apresentada pela famosa menção à Eu-Tu por Martin Luther King em sua “Carta da Prisão de Birmingham” (1963). King parafraseou Buber e escreveu que a segregação “substitui a relação Eu-Tu por uma relação Eu-Coisa”, o que atribui a pessoas o status de coisas. No fim das contas, Eu-Tu é um texto profundamente religioso, mas não é sobre ortodoxia, dogma ou tribalismo. É sobre o amor.

Isso posto, há um cenário de tragédia na filosofia de Buber. Ele articulava sua visão de empatia redentora em um tempo em que, em sua terra natal, a humanidade estava construindo o mais homicida exemplo da perspectiva Eu-Coisa da história. Não havia muitos lampejos de redenção do “divino Tu” dentro dos muros de Auschwitz. E na terra para a qual Buber havia escapado, judeus e árabes estavam uns contra os outros. Como Judah Magnes, o então presidente da universidade Hebraica, lamentou, Buber vislumbrou “Sião poderia ter sido construída” através “do trabalho criativo incansável”. Em vez disso, foi construída com “sangue e fogo”.

Mesmo enquanto Buber falava sobre a crise do homem moderno e a ascensão do estatuto Eu-Coisa como uma corrente de pensamento global, ele acreditava, ainda assim, que chegaríamos a um mundo mais amável e mais “Eu-Tu”.

Uma bela visão, embora alguns possam achar ofensivamente esperançosa à luz do que ocorreu realmente durante a vida de Buber, e do que ocorre durante a vida de qualquer pessoa. Mas que escolha nós temos? O pessimismo não trará de volta os mortos, não corrigirá o incalculável sofrimento da história. Necessitamos das melhores interpretações de nossos livros sagrados que podemos reunir, e a de Buber é uma interpretação refinada. Faz do relacionamento algo sagrado. Faz de amar as pessoas, realmente amar as pessoas, a coisa mais importante. Mesmo “na lama e na escória das coisas”, disse Ralph Waldo Emerson, “lá sempre, sempre algo canta”. Eu-Tu certamente faz isso. “Quem quer saia verdadeiramente ao mundo” escreveu Buber “sai a Deus”. Você não precisa acreditar que a segunda parte é verdadeira para que a primeira o seja.

Com agradecimentos a Paul Mendes-Flohr.

[Traduzido por Lilia Costa do original I and Thou, de M. M. Owen, publicado na Aeon Magazine]