Humanos têm vivenciado o mesmo pesadelo por milênios

Acordar no meio da noite e encontrar seu corpo paralisado e sob a ação de um peso invisível: essa é a matéria de que são feitas as histórias de fantasmas. Uma variedade de culturas usou a experiência da paralisia do sono para compor seu folclore de horror, sugerindo que esse pesadelo recorrente não é específico para nenhum período da história ou lugar. Contudo, os cientistas que estudam esse fenômeno aterrorizante pensam que na verdade é um processo regido pela neurologia – um processo, porém, que dá errado, sugerindo que não há como escapar dessa experiência recorrente a menos que intervenhamos diretamente em nossas cabeças.

Antes que a ciência iluminasse a origem desse pesadelo perturbador, os humanos presumiram que ele tivesse uma fonte sobrenatural. Em lugares tão variados quanto  Escandinávia, ÁfricaEstados UnidosTurquia, o folclore atribui a experiência a algum tipo de espírito maligno, bruxa ou criatura que se senta no peito de uma pessoa ou a segura enquanto dorme. Agora, pesquisadores propõe que aquilo que pessoas atribuem à Night Hag durante tantos séculos é, na verdade, o resultado de um ciclo de sono que deu errado.

 

Você provavelmente não percebe, mas na verdade está fisicamente paralisado enquanto dorme durante uma grande parte da noite, algo que os cientistas responsáveis por uma pesquisa publicada no Journal of Neuroscience atribuem ao trabalho conjunto de neurotransmisores como a Glicina e o Ácido gama-aminobutírico (GABA). Esse estado é de paralisia é conhecido como “atonia muscular”, e só acontece durante a fase do sono conhecida pelo movimento rápido dos olhos (REM).

A fase REM é a parte mais profunda do ciclo do sono, na qual temos os sonhos mais vívidos. Acredita-se que desenvolvemos essa paralisia temporária, porque, caso contrário, poderíamos representar fisicamente nossos sonhos mais do que já fazemos, o que poderia ser muito perigoso para nós e aqueles ao nosso redor. Durante o sono REM, que acontece em períodos que duram de 90 a 120 minutos, sua respiração também se torna mais rápida e altamente irregular. Essa não é uma boa parte do sono para ser interrompida.

Mas, infelizmente, maus hábitos de sono, exaustão, trabalho em turnos e jet lag podem acordá-lo durante o sono REM, de acordo com pesquisadores da Anomalistic Psychology Research Unit, (“Unidade de Pesquisa de Psicologia Anomalística”), da Universidade de Londres. Acordar do sono REM e ficar imediatamente desperto é muito raro, de regra há um estado intermediário por algum tempo. Quando você está no estado de transição entre o sono e o despertar, meio acordado e meio dormindo, respirar é difícil porque sua respiração está ocorre no ritmo irregular da fase REM, e você está consciente de que não pode se mexer. Quando o pânico se instala, isso apenas aumenta a sensação de que você não pode respirar.

Para piorar a situação, estudos mostraram que alucinações frequentemente acompanham o terror físico. Em 2011, na revista Sleep Medicine Reviews, os pesquisadores vasculharam 35 estudos sobre paralisia do sono nos últimos 50 anos e agruparam as alucinações em três tipos: “A presença de um intruso no lugar, pressão no peito (às vezes acompanhada de experiência de estupro ou ataque) e levitação (experiências fora do corpo)”. Os pesquisadores acreditam que essas alucinações são um remanescente do estado de sonho, embora não esteja claro por que esses três tipos são os mais comuns.

Felizmente, a sensação passa quando você sai do estado de sonho, e tudo indica que não causa qualquer dano a longo prazo – pelo menos fisicamente.

Psicologicamente a paralisia do sono pode mexer com a cabeça por muito tempo depois que você sai da cama. Em 2013, um estudo na Clinical Psychological Science analisou os tipos de sofrimento experimentados após um episódio de paralisia no sono e descobriu que os efeitos incluem sentir presenças invisíveis, sentir como se a morte fosse iminente, ter um medo exagerado de ameaça ou agressão e, geralmente, ruminar o episódio, embora o tipo de sofrimento dependa dos detalhes da experiência. As pessoas que tiveram experiências particularmente baseadas nos sentidos (como sentir um demônio agachado em seu peito) tenderam a ter mais sofrimento físico posteriormente. Os efeitos são tão ruins que os pesquisadores afirmam que a paralisia do sono pode “contribuir significativamente para perda mundial de bilhões de dólares em custos associados a acidentes, doenças e perda de produtividade relacionados a distúrbios do sono”.

Mesmo se você for um dos 92% da população em geral que não sofre paralisia do sono, você nunca escapará completamente da influência deles. A palavra “pesadelo” (nightmare) foi, na verdade, primeiro inventada para descrever a paralisia do sono e seus personagens habituais, pois derivada de mare (égua), palavra do inglês antigo que se refere aos íncubos mitológicos, molestadores de sono demoníacos que estavam mais do que dispostos a esmagar os pulmões de um sonhador.