A humanidade sempre suspeitou dos universos paralelos

O início inesperadamente forte de Andy Murray contra Roger Federer na final do Torneio de Tênis Wimbledon 2012 colocou o colunista do Daily Telegraph, Matthew Norman, em um clima de ficção científica. “Parecia que tínhamos sido transportados para um desses universos paralelos em que Doctor Who gosta de escorregar com despreocupada facilidade”, ele comentou. Um ano depois, como Murray levou o título, esse mundo alternativo tornou-se realidade, deixando para os jornalistas a mesma imagem familar a outros casos. Contrastando Murray com o campeão de duplas Jonny Marray (que ainda aluga um apartamento e dirige um Ford Fiesta, apesar de possuir um título de Grand Slam) o Daily Mail opinou: “A dura realidade é que os dois campeões, que compartilham a paixão pelo tênis, vivem e trabalham em um universo paralelo”.

De onde veio essa ideia de universos paralelos? A ficção científica é uma fonte óbvia: nos anos 60, o Capitão Kirk conheceu seu “outro eu” em um episódio de Star Trek chamado Mirror, Mirror, enquanto o romance de Philip K Dick, O Homem no Castelo Alto (1963), imaginava um mundo alternativo que os EUA eram um estado fantoche nazista. Desde então, a ideia tornou-se mainstream, fornecendo a imagem de caminhos de bifurcação na comédia romântica De caso com o acaso (1998), no arrepiante filme “If…” e no romance de Philip Roth Complô contra a América (2004), que previa o aviador antissemita Charles Lindbergh derrotando Roosevelt em 1940.

Mas também há fatos científicos. Em 1935, Erwin Schrödinger propôs seu famoso experimento mental envolvendo um gato em uma caixa cuja vida ou morte está conectada a um evento quântico, e em 1957 o físico americano Hugh Everett desenvolveu sua teoria dos “muitos mundos”, que propunha que o ato de abrir a caixa de Schrödinger implicava uma divisão de universos: um em que o gato está vivo e outro onde está morto.

Recentemente, os físicos têm endossado corajosamente um “multiverso” de mundos possíveis. Richard Feynman, por exemplo, disse que quando a luz vai de A para B, ela toma todos os caminhos possíveis, mas o caminho que vemos é o mais rápido, porque todos os outros se cancelam. Em O universo numa casca de noz (2001), Stephen Hawking compareceu a um “multiverso esportivo”, declarando como “fato científico” que existe um universo paralelo no qual Belize ganhou todas as medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos. Para Hawking, o universo é uma espécie de “cassino cósmico” cujas rolagens de dados levam a caminhos amplamente divergentes: vemos um, mas todos são reais.

Surpreendentemente, no entanto, a ideia de universos paralelos é muito mais velha do que qualquer uma dessas referências, surgindo na filosofia e na literatura desde os tempos antigos. Até a palavra “multiverso” tem um ar vintage. Em um artigo de jornal datado de 1895, William James referiu-se a um “multiverso de experiência”, enquanto em sua coleção inglesa de 1899, o poeta Frederick Orde Ward deu ao termo um aspecto espiritual: “Dentro, sem, em nenhum lugar e em toda parte/ Agora é a alicerce do poderoso Multiverso”. (no original: “Within, without, nowhere and everywhere;/ Now bedrock of the mighty Mulverse…”).

No fundo desta história oculta está Demócrito, que acreditava que o universo era feito de átomos movendo-se num vazio infinito. Com o tempo, eles se combinariam e se recombinariam de todas as maneiras possíveis: o mundo que vemos ao nosso redor é apenas um arranjo entre muitos que certamente aparecerão. Para Epicuro, que achava que os átomos às vezes sofrem um movimento aleatório repentino (“desviar”), todo o futuro não é mapeado por princípios mecânicos, como é para Demócrito. Seus caminhos são múltiplos. O epicurismo foi uma doutrina que sobreviveu até os tempos romanos como uma filosofia de vida em geral, não apenas uma teoria física. O multiverso foi celebrado pelo poema de Lucrécio De Rerum Natura, e por Cícero em uma passagem da Academica:

“Você acreditaria que existem inumeráveis ​​mundos, e que, assim como estamos neste momento perto de Bauli e estamos olhando para Puteoli, também há inúmeras pessoas em lugares exatamente semelhantes com nossos nomes, nossas honras, nossas conquistas, nossas mentes, nossas formas, nossas idades, discutindo o mesmo assunto?” [Et cum in uno mundo ornatus hic tam sit mirabilis, innumerabilis supra infra, dextra sinistra, ante post, alios dissimiles, alios eiusdem modi mundos esse ? et ut nos nunc simus ad Baulos Puteolosque videamus, sic innumerabiles paribus in locis esse eisdem nominibus honoribus rebus gestis ingeniis formis aetatibus, eisdem de rebus disputantes?]

Para Demócrito, o mundo que vemos é apenas um arranjo entre muitos que certamente aparecerão.

Para atomistas epicuristas, a história foi uma sucessão de colisões acidentais. Os assuntos humanos estavam sujeitos às leis da matéria, ou ao puro acaso, não à vontade dos deuses, e em todos os lugares e sempre os resultados dos eventos poderiam ter sido diferentes. Assim, Lívio (não um atomista, embora acredite no acaso) especulou sobre o que poderia ter acontecido se Alexandre, o Grande, tivesse invadido a Itália. Esse tipo de especulação “e se…” foi evitado por historiadores cristãos posteriores, que viam a providência divina como o princípio que guiava o grande curso dos assuntos humanos. Como Hamlet, de Shakespeare, colocou: “Há uma divindade que dá forma final aos nossos mais toscos projetos”. [There’s a divinity that shapes our ends, Rough-hew them how we will.]

No século XVII, o matemático e filósofo Gottfried von Leibniz introduziu um novo tipo de multiverso. Ele ficou intrigado com a maneira como tantos processos naturais parecem “otimizados” – bolhas de sabão minimizam a área de superfície por serem esféricas; feixes de luz tomam o caminho mais rápido pelo espaço. Detectando o trabalho de uma mão divina, Leibniz propôs que o universo é otimizado em todos os detalhes por Deus. Assim nasceu “otimismo”, a ideia (impiedosamente parodiada por Voltaire em Cândido) de que vivemos no melhor dos mundos possíveis.

Aplicando sua teoria ao problema da existência do mal, Leibniz deu-lhe forma gráfica, como uma pirâmide, infinita e de muitos cômodos, em cada um dos quais é um mundo possível. No pico da pirâmide, está o único mundo verdadeiro em que vivemos. Leibniz modelou as várias vidas possíveis do notório Sexto Tarquínio, especulando que, na maioria dos quarto,s Sexto leva uma vida virtuosa, mas no mais alto ele estupra Lucrécia e é banido. Por que esse é o melhor dos mundos possíveis? Porque seu banimento leva à fundação da República Romana: um ato maligno produz um bem maior. Ou como os otimistas dizem hoje em dia quando tentam aceitar um desastre: tudo acontece por um motivo.

Ao contrário de Demócrito (que era ateu), Leibniz insistiu que os mundos possíveis existem apenas na “mente de Deus”, que seleciona um deles para a existência verdadeira. Como um holograma, seu universo é projetado por Deus em todas as mentes e tornado consistente por um “princípio de harmonia”. O que o torna autêntico é a benevolência de Deus: ele não faria o truque desagradável de nos fazer acreditar na realidade de um mundo falso. Esse cenário seria deixado para escritores posteriores contemplarem, em filmes sombriamente sinistros como O Show de Truman (1998) e Matrix (1999).

Religioso, Leibniz não podia aceitar, ao contrário de Demócrito, que Deus permitisse um mundo que não fosse “o melhor possível”.

O poema de Alexander Pope “Ensaio sobre o homem” (1734) ajudou a sustentar um otimismo leibniziano (“o que quer que seja, está certo”) e só no século XIX vemos um ressurgimento significativo da ideia de que o mundo poderia ser moldado por um acaso afinal. O estudioso britânico Isaac D’Israeli, pai do futuro primeiro-ministro Benjamin, especulou em 1823 que “muitas vezes, em um único, evento giram as fortunas dos homens e das nações”. No ensaio “De uma história de eventos que não aconteceu” (1830), ele prestou homenagem ao antigo exemplo de Lívio ao explorar históricos “e se?”, como uma realidade alternativa na qual Cromwell houvesse feito aliança com a Espanha e outra na qual uma Grã-Bretanha muçulmana estaria sob domínio sarraceno, caso esse em que os britânicos do período “deveriam ter usado turbantes, penteado as barbas em vez de barbeá-la e conhecido uma arquitetura mais magnífica do que a grega”.

O ensaio de D’Israeli é um dos primeiros exemplos do gênero da “história alternativa” que Philip K. Dick e tantos outros usariam, muitas vezes como uma reação subversiva contra a suposição da elite governante de que eles tinham direito ao poder. Antes disso, as revoltas da política francesa se revelavam território fértil para tal especulação revisionista. Em Napoléon et la conquête du monde (“Napoleão e a conquista do mundo”), de 1812, Louis Geoffroy, trouxe o imperador vitorioso para a Grã-Bretanha, e em Histoire de ce qui n’est pas arrive (“História que jamais aconteceu”), de 1854, Joseph Méry o faz chegar à Índia. A história alternativa de Charles Renouvier, Uchronie (1876), ofereceu uma reescrita completa da história europeia. O mais interessante de tudo é L’éternité par les astres (Eternidade pelas estrelas), de 1872, na qual Louis-Auguste Blanqui ofereceu uma versão atualizada do multiverso de Demócrito, no qual utilizou a teoria atômica do século XIX para argumentar que existem planetas fisicamente reais, onde Napoleão venceu a batalha de Waterloo.

Blanqui, um agitador revolucionário, foi aprisionado por todos os regimes sob os quais viveu. Os comunistas de Paris exigiram sua libertação para que ele pudesse ser seu presidente, e Karl Marx disse que se o desejo deles tivesse sido concedido, a Comuna poderia não ter caído. Mas Blanqui era muito esquerdista mesmo para Marx e Friedrich Engels, que o denunciou como anarquista.

Como Engels, Blanqui se interessava por especulação científica. Ele aprendeu ciência o suficiente para apreciar a natureza probabilística de duas grandes teorias da época: termodinâmica e seleção natural. Ele também apreciava a conexão íntima entre ideologia política e interpretação científica. Foi Marx quem disse que a teoria da seleção natural era essencialmente uma descrição do capitalismo sem o conceito de conflito de classes, mas Blanqui certamente teria apreciado a observação.

Marx, de fato, havia estudado o atomismo de Demócrito para seu doutorado em filosofia, e sua própria teoria da história era similarmente mecanicista: a ascensão final do proletariado era tão inevitável quanto a queda de uma maçã. A história é progresso, e só pode ir por um caminho, impulsionada pela luta de classes. Para Blanqui, o atomismo implicava um universo diferente, pois assim como há mundos onde a revolução é bem-sucedida, também existem aqueles em que ela falhou ou está falhando no momento. Cada momento é efetivamente uma eternidade no espaço, repetida em diferentes lugares em todas as variações possíveis. O progresso histórico é, portanto, ilusório – um fenômeno local sem significado no multiverso maior.

A visão sombria, mas supostamente racional, de Blanqui poderia ser considerada como uma contrapartida pseudocientífica de outros pesadelos da mente instruída do século 19 : a morte pelo calor do universo ou a extinção de espécies. Foi uma visão que mais tarde tomou conta do crítico literário e filósofo alemão Walter Benjamin.

Na década de 1920, Benjamin iniciou um estudo da Paris do século 19, que se tornaria a obra Passagens, uma massa de citações e comentários que permaneceram num estado fragmentário e desordenado quando ele morreu em 1940. Um desdobramento foi o ensaio Sobre alguns temas em Baudelaire, no qual Benjamin comenta sobre a ascensão do jogo e da especulação, a maneira como cada lançamento de dados representa um novo começo, um novo mundo. Ele compara isso com a correia transportadora de fábrica, onde cada componente é novo, mas idêntico ao anterior. O operador da máquina passa um dia repetindo incessantemente alguns gestos físicos simples e depois se diverte ao fazer a mesma coisa em uma máquina caça-níqueis. O mundo mecanizado, como o próprio capitalismo, é uma aparente oferta de esperança constantemente renovada, quando na verdade a única coisa que deve produzir para se perpetuar é uma sensação de necessidade constantemente aumentada.

Walter Benjamin.

Para Benjamin, o que era crucialmente novo na visão de mundo do século 19 era a multidão – isto é, a massa estatística. Ele não cita a termodinâmica ou a seleção natural, mas sim duas histórias, “A janela do canto do Primo” (1822), de E.T.A. Hoffmann e “O Homem da Multidão” (1840), de Edgar Allan Poe, que dramatizaram essa nova maneira de ver o coletivo em vez do individual. Com isso, surgiu o aumento do acaso como um fator na vida das pessoas. Em uma aldeia, você não pode esbarrar num estranho que vai mudar a sua vida. Em uma cidade, você pode.

Durante seus estudos, Benjamin descobriu o fascínio particular de Baudelaire por Blanqui, e talvez tenha sido assim que, no final da década de 1930, Benjamin passou a ler L’éternité par les astres, escrevendo entusiasmado sobre a obra a seu colega filósofo Max Horkheimer. De acordo com Benjamin, a teoria de Blanqui representa uma capitulação trágica de tudo contra o que os antigos revolucionários lutaram – uma visão da existência burguesa remodelada como cosmologia, com mundos replicados como bens de consumo produzidos em massa, inspirando passividade e tédio.

Na mesma época, e de forma bastante independente, o livro de Blanqui foi lido na Argentina por Jorge Luis Borges, que o compartilhou com seu amigo e colega escritor Adolfo Bioy Casares. Casares inspirou-se na sua leitura para escrever um conto chamado La trama celeste (“A trama celeste”), em 1948, no qual um aviador tem problemas com seu avião e acaba chegando a um mundo paralelo; o enredo fala de cópias do livro de Blanqui que são paginadas diferentemente nos diferentes universos.

O próprio Borges refere-se à Blanqui em seu ensaio de 1936, “Uma História da Eternidade”. Para Borges, a visão de Blanqui é celestial – como a biblioteca que ele descreve em seu conto “A Biblioteca de Babel” (1941), um edifício que contém todos os livros possíveis entre seus textos gerados aleatoriamente. O que Borges nunca considerou em sua história é quantos milhões de anos-luz qualquer pobre alma precisaria viajar para encontrar pelo menos uma página que valesse a pena ler. Para qualquer pessoa real, a biblioteca seria indistinguível do caos, e é apenas a partir do ponto de vista elevado da contemplação literária que o lugar assume a ordem. Para Benjamin, no entanto, o multiverso não é um jogo de salão intelectual, mas um reflexo condenatório da sociedade que o produz.

Em uma introdução a sua obra Passagens, Benjamin compara o multiverso de Blanqui ao poema de Baudelaire “Os Sete Velhos”, de 1857, que toma uma sucessão de homens velhos idênticos e os imagina como um único homem multiplicado em alguma “trama infame’. Isso, diz Benjamin, é uma imagem da própria modernidade. Uma consequência eventual de tal desumanização foi a ascensão do fascismo. Em um de seus últimos ensaios sobre a filosofia da história, Benjamin diz que, para entender o fascismo, precisamos avaliar como, num regime opressivo, todo dia é apresentado como uma nova situação de emergência.

Jorge Luis Borges

Dado que a guerra é o ponto arquetípico da história alternativa, talvez a ameaça do fascismo seja responsável pelo aumento da popularidade das histórias do mundo paralelo na década de 1940, às vezes como um escapismo que satisfaz nossos desejos, como no filme It’s a Wonderful Life (1946), ou então como avisos de alternativas que poderiam facilmente acontecer. No conto de Borges Tlön, Uqbar, Orbis Tertius (1940), por exemplo, um mundo inventado faz a própria realidade desmoronar. Um ano depois, Borges trabalhou novamente o tema das realidades ramificadas, numa história de espionagem de guerra chamada “O Jardim dos caminhos que se bifurcam”. Quando o físico americano Seth Lloyd conheceu Borges em uma recepção em Cambridge em 1983, ele perguntou se ele sabia que essa história prefigurava o conceito de muitos mundos de Hugh Everett. Borges nunca tinha ouvido falar disso, mas disse que não lhe surpreendia que a física às vezes seguisse a literatura. Afinal, os físicos também são leitores (da literatura e da história).

As teorias de Everett, Feynman e outros são altamente técnicas, mas os físicos que procuram explicá-las na linguagem comum usam o mesmo estoque comum de imagens e metáforas que os demais, e esse estoque existe há muito tempo. A ideia de Feynman sobre a luz tomando todo caminho possível é essencialmente a de Leibniz, apenas sem a necessidade de Deus. Dito isso, o otimismo moderno não é mais uma crença de que todas as coisas foram criadas para o melhor; é a crença de que, na loteria cósmica, qualquer um pode ser um vencedor, seja você Andy Murray ou apenas alguém que comprou um bilhete de loteria.

Tradução do texto Parallel Worlds, publicado na Aeon Magazine