Há doze mil anos, a humanidade cometeu um erro, assinou um contrato, entrou em uma prisão. Há doze mil anos, a humanidade renunciou ao reconhecimento de uma linguagem que permitiria à consciência humana evoluir a um nível superior de percepção da realidade. Há doze mil anos, não por acidente, um módulo primitivo da linguagem, isolado e dominante, viralizou-se na estrutura do ego e orientou a construção de uma consciência na qual o ego, a um só tempo, é senhor absoluto e escravo das ilusões que ele próprio construiu – um animal pronto para o abate.

E por essas ilusões, criadas por nossos egos, fomos nós próprios capazes de matar e torturar incontáveis criaturas vivas ao longo desses doze mil anos, entre as quais outros seres humanos. Quantas crianças foram brutalizadas, quantas mulheres foram violadas, quantos inocentes de nossa e de outras espécies foram submetidos à violência durante milênios em nome de ficções humanas como dinheiro, ideologias, religiões, poder, reis, impérios e religiões? Criar ficções por vezes é útil e necessário, mas só há um tipo de pessoa que acredita nas ficções que ela mesma cria a ponto de as colocar acima da própria vida humana. Como disse Becker, nossa sociedade é fundada numa forma insidiosa de loucura: loucura coletiva, loucura compartilhada, loucura sancionada e estimulada – mas, ainda assim, loucura.

Estamos, agora, diante de uma nova singularidade. Herdeiros de um erro que se acumulou e enredou a humanidade numa armadilha, a evolução emergente produz novamente uma época de transformação e ruptura para a qual o homo sapiens não está preparado. Dessa época, emergirá ou um abismo de terrores sem precedentes ou uma escada para alturas jamais imaginadas.

Dessa época, emergirá uma singularidade.

PRENÚNCIOS DA SINGULARIDADE

A singularidade pode ocorrer a qualquer momento a partir de certo ponto. Mas, como qualquer singularidade, não tem tempo para acabar. A singularidade trará algo novo ao mundo. Mas, como qualquer singularidade, esse algo novo torna-se também o próprio mundo em que surge. A singularidade é uma só. Mas, como qualquer singularidade, é um vórtice, um maelstrom que arrasta consigo estruturas e convenções sociais, produzindo rupturas em toda a sociedade.

É assim que rupturas são já percebidas em vários aspectos da sociedade atual, colocando as grande questões fundamentais sobre a identidade e a existência humana no centro da arena, onde já não podem ser ignoradas. É assim que, pela primeira vez na história, a comunidade científica debate publicamente qual a data aproximada em que o envelhecimento e a morte serão superados pela ciência, como se ambos fossem problemas passageiros na aventura humana. Pela primeira vez, o público leigo assiste especialistas especularem sobre a chegada de uma Era da Bioengenharia, em que poderemos manipular nossos corpos com tal precisão que eliminaremos da experiência humana qualquer tipo de dor ou desconforto, seja físico ou psicológico.

Isso pode parecer um exagero aos mais conservadores, mas “os cientistas que gritam imortalidade são como o menino que gritava lobo: cedo ou tarde, o lobo chegará”. A frase é de Yuval Noah Harari, não por acaso autor de uma obra de divulgação científica intitulada Homo Deus. Nessa obra, o historiador israelense demonstra ao público leigo que o homo sapiens, graças à colaboração da ciência e da indústria, pode não apenas vencer a morte e eliminar toda forma de dor física nas próximas décadas, mas também manipular sua própria programação neurobiológica, conduzindo-nos a novas formas de consciência e de percepção do mundo.

Thomas Metzinger dá o nome de Revolução da Consciência a essa ruptura, o momento em que a espécie humana poderá criar diretamente no cérebro humano, com o uso de substâncias químicas e estímulos eletromagnéticos, realidades virtuais que se apresentarão como sérios concorrentes à atual percepção da realidade consensualmente compartilhada por todos nós. Capacetes transcranianos que estimulam áreas específicas do cérebro e potencializam ou inibem determinadas habilidades psíquicas já estão em fase de testes para uso militar norte-americano e para tratamento de transtornos mentais, mas esse tipo de tecnologia já comprovadamente pode aumentar habilidades intelectuais humanas como, por exemplo, a inteligência matemática.

Esse cenário acena também para a possibilidade de que a consciência possa ser transferida a algum suporte artificial, sendo ela própria capaz de navegar por um sistema de rede, ou multiplicar-se em vários suportes independentes e artificiais, assegurando a virtual imortalidade do homo sapiens. As consequências disso para a noção de individualidade e personalidade, tal como percebida por quem ignora o hipercontexto, começam a ser dimensionadas gradualmente pela sociedade.

O lado sombrio desse futuro, porém, é denunciado por intelectuais como Foster Wallace, para os quais a manipulação tecnológica das áreas de gozo e dor no cérebro humano são o definitivo instrumento de controle social, criando legiões de consumidores avidamente dispostos a renunciar à sua autonomia para ter acesso a um universo de novos prazeres artificialmente induzidos. O sistema de rede social chamado de Facebook é costumeiramente criticado por esses exatas características, servindo como potencial esboço do que está por vir, à medida que a tecnologia se desenvolver e construir “realidades aumentadas” e “virtuais” cada vez mais sedutoras.

Ao lado da explosão tecnológica, ocorre uma progressiva concentração da renda mundial nas mãos de uma minoria, e indivíduos cuja fortuna pessoal excede o PIB de nações têm já nas mãos o controle da economia global. Thomas Piketty e uma equipe multidisciplinar construiu uma base de dados sobre a economia global dos últimos séculos, e demonstrou uma inexorável tendência de concentração de renda nas mãos de poucos no futuro próximo, a ponto de ameaçar as estruturas democráticas mesmo de países desenvolvidos. São as mãos de poucos indivíduos que seguram a chave do reino futuro do homo sapiens, no momento em que a economia global terá que se remodelar devido à progressiva substituição de mão-de-obra humana pela chamada “inteligência artificial”.

A inteligência artificial tende a fazer melhor e mais rápido quase tudo o que torna o ser humano empregável, inclusive todas as atividades intelectuais repetitivas que dispensam o processo criativo. O valor da mão-de-obra humana, portanto, tende gradualmente a se depreciar até o trabalho do homo sapiens tornar-se dispensável. De qualquer modo, os consumidores e eleitores precisarão de renda – e mais do que renda, de uma forma de ocupar seus dias numa sociedade na qual o trabalho não será mais um imperativo.

Mas não é só na economia que a inteligência artificial produzirá inevitavelmente uma ruptura. No hipercontexto, cenários futuros incluem a probabilidade seriamente considerada por especialistas como Elon Musk e Stephen Hawking, de que o surgimento de uma inteligência artificial superior à humana, ainda que sem intencionalidade, torne nossa espécie obsoleta e fadada à extinção. Em outros cenários, algoritmos informacionais, também sem intencionalidade mas de inteligência ainda superior, podem usar a própria estrutura física e lógica da inteligência artificial como suporte para sua infiltração nesta realidade, parasitando a própria consciência humana.

A humanidade está diante de um desafio sem precedentes. Esta sociedade operou, até este momento, segundo uma concepção de mundo que rapidamente está sendo desconstruída pelo próprio progresso que surgiu graças à indústria e à ciência. É uma sociedade baseada no medo e na busca por paliativos que propiciem a temporária fuga das dores humanas.

 

Subitamente, ao menos da perspectiva histórica, todos os medos que moldaram os valores e papéis sociais serão superados nos próximos séculos – senão das próximas décadas. O sistema de valores e as interações sociais precisam ser ajustados antes que isso aconteça. Caso contrário, é provável que a humanidade transporte para o novo mundo os mesmos condicionamentos e desajustes que herdamos de nossos antepassados, ao invés de oportunamente serem corrigidos ou atenuados.

Para alguns, o paradigma que deve emergir para fazer frente a esses desafios é o do transumanismo, em que progressivamente a tecnologia amplia ou até mesmo substitui estruturas vitais do corpo humano, tornando o ser humano igual a um “deus”. Porém, a confiar no que sempre aconteceu em toda a história humana, Harari acha mais provável que esse tipo de tecnologia resulte num “upgrade da desigualdade” socioeconômica, em que “super-humanos usufruirão de habilidades inimagináveis e de criatividade sem precedentes, o que lhes permitirá tomar muitas das mais importantes decisões do mundo”, enquanto “a maioria dos humanos não se beneficiará de um upgrade e portanto se tornará uma casta inferior, dominada tanto por algoritmos de computadores e os novos super-humanos.” Esse cenário futuro, similar ao de uma distopia ficcional, infelizmente tem sido confirmado em estudos e relatórios como os do Comitê de Inteligência Artificial do Governo Britânico. Nas palavras de John McNamara, diretor do Centro de Inovação Tecnológica da IBM, o acesso ou não à tecnologia de ponta pode significar, lá pelo ano de 2040, “na diferença entre, de um lado, um grupo que potencialmente terá acesso a um extraordinário aumento de suas habilidades físicas, capacidade cognitiva, expectativa de vida e saúde, e, de outro, um grupo maior que não terá acesso a tais coisas”.

Harari especula que “talvez estejamos nos aproximando de uma nova singularidade, em que todos os conceitos que dão significado ao nosso mundo (eu, você, homens, mulheres, amor, ódio) se tornarão irrelevantes”. Diante dessa singularidade, só escaparemos dos piores riscos se percebermos que a questão principal é de um nível ainda mais fundamental do que supomos. Perante a possibilidade de o homo sapiens conquistar a velhice e a morte e adquirir o poder quase divino de manipular o próprio corpo, a consciência e o ambiente circundante, “a verdadeira pergunta a ser enfrentada não é o que queremos nos tornar, mas o que queremos querer?“.

Trata-se de uma pergunta existencial, e sua resposta é a chave para o paradigma de que tanto precisamos. Como será exposto, a humanidade pode e deve usufruir de todos os recursos científicos e tecnológicos que aprimorem o corpo e a consciência humana até os limites do possível. Mas o ideal individualista e ingênuo do transumanismo não basta, diante da missão de responder àquela pergunta. Se o ser humano futuro tornar-se imortal e detiver poder semelhante ao de um deus, que escala de valores e princípios deve reger seu comportamento diante de si e do resto do mundo? E que armadilhas a humanidade pode construir para si mesma, na medida em que nenhum ser humano está a salvo de dormir e criar seus próprios pesadelos?

A retrospectiva humana sugere pessimismo. De regra, sempre que o homo sapiens adquiriu algum poder quase divino em relação ao restante da natureza, ele o usou para explorar ou aniquilar outros seres vivos, naquilo que foi chamado de “o pior crime da história“. Na verdade, aprisionados em módulo de linguagem que constitui o ego humano atual, estamos enredados irremediavelmente num mundo no qual as coisas importam progressivamente mais dos que os seres vivos.

Esses são os desafios que o vórtice da singularidade tende a criar em todas as áreas da vida humana. E a resposta adequada a tais desafios está relacionada à descoberta do propósito humano, pois é o propósito humano que deve ocupar o palco central de cada singularidade, convidado a desempenhar seu papel na cerimônia de nascimento de um novo mundo.

Não somos nada mais que uma espécie animal, dentre outras tantas existentes no hipercontexto, uma espécie a quem a natureza legou, pelo desenvolvimento superior da consciência, o poder de assumir o controle da própria evolução da vida. Temos, diante da natureza, uma missão que poderá nos conduzir à utopia, mas que é, antes de tudo, um compromisso perante a vida, em todas as suas manifestações neste mundo. Compromisso esse que a própria vida orgânica estabeleceu desde sua origem, e é a razão de nossa existência, enquanto espécie e enquanto indivíduos.

Para compreender o que é a singularidade, e qual o propósito humano, é necessário compreender exatamente o que a vida é.

VIDA E INFORMAÇÃO

Vida é informação. O surgimento da vida não foi um evento químico, o surgimento da vida foi um evento de natureza informacional.

Uma cadeia de DNA ou RNA não é apenas um conjunto de bases nitrogenadas, mas um conjunto de bases hidrogenadas em determinada sequência, ou seja, um tipo de informação. É essa sequência ou ordem, e nada mais, que é transmitida a outras cadeias que surgem como resultado da replicação genética.

Assim, a única coisa que surgiu com a vida foi uma espécie de informação, e a única coisa transmitida com a evolução é informação sobre a ordem da matéria, e não a própria matéria. Junte numa caixa todas as substâncias químicas que compõem uma ameba, sacuda-as e não sairá dessa caixa uma ameba. As substâncias químicas não precisam estar apenas reunidas, mas reunidas segundo determinada ordem, que é informada por um determinado código.

Informação e evolução estão, assim, profundamente entrelaçados. O biólogo e físico Christopher Adami define “informação” como aquilo que “propriamente evolui” no contexto da biologia evolutiva. O químico e pesquisador John Scales Avery, por sua vez, entende que a origem da vida só será compreendida com o estudo da informação no contexto da termodinâmica.

“Vida é informação armazenada em uma linguagem simbólica”, resume Adami. Nessa linguagem, o alfabeto primordial era composto pelos monômeros dos oceanos primitivos, antes de haver qualquer vida no planeta. Num oceano de letras moleculares interagindo aleatoriamente, aproveitando uma janela aberta pelo acaso e por fatores climáticos favoráveis, surgiu neste mundo a “primeira palavra”, na medida em que se tratava de uma estrutura molecular que possuía o “primeiro sentido” contextual. Esse sentido era autorreferenciado e consistia em sua própria e contínua replicação no contexto criado pelo meio ambiente.

O primeiro sentido da vida precisava ser autorreferenciado pois, caso contrário, não teria se destacado das demais combinações aleatórias, Adami observa. Replicar-se é um método de transmitir uma informação preciosa e rara, de forma que ela deixe de ser rara e passe a ser abundante no universo, protegendo com esse procedimento a consistência e permanência dessa informação. É uma lógica poderosa e simples, subjacente às primeiras formas de vida e também às sociedades mais complexas. Toda a história da evolução é a história de proteger e disseminar um tipo de informação, o código genético, através de backups contínuos, produzindo redundância.

Toda e qualquer mutação evolutiva não é a mutação de alguma matéria antes inexistente no universo. É uma mutação da informação, como resultado de uma alteração na sequência em que encadeadas as bases nitrogenadas do DNA, o código fundamental da vida. Por isso, a vida de uma ameba ordinária é, na verdade, uma obra de arquitetura informacional que comanda a matéria de que dispõe.

Esse complexo código é capaz de criar uma separação entre o meio ambiente externo e o conjunto de substâncias materiais do organismo, que permite a entrada e saída seletiva de substâncias pelo citoplasma, com o uso de graus diferentes de concentração. No interior dessas fronteiras, entronizada e reinando sobre a matéria, está uma ordem. Essa ordem peculiar é capaz de fazer todo esse conjunto de substâncias materiais mover-se, buscar recursos no ambiente e replicar-se sem que qualquer tipo de consciência centralizada dentro da ameba comande tais atividades.

Se uma simples ameba é uma obra arquitetônica, qualquer ser humano é uma catedral de informações que determina, a cada fração de segundo, ordem, função e dinâmica de todas as substâncias químicas que compõem seu organismo. O corpo do próprio leitor não é o conjunto de células e substâncias que formam neste momento o seu organismo, pois tudo isso terá sido substituído em poucos dias, tudo isso é impermanente. O corpo humano não é propriamente o conjunto de substâncias materiais que transitoriamente participam de sua constituição física: o corpo humano é uma informação transmitida continuamente à matéria que consome e incorpora ao organismo.

Mesmo em um só contexto, em uma só realidade alternativa, informação é algo fundamental no universo, tal como matéria e energia, com o detalhe de que podemos imaginar um universo sem matéria e energia, mas não um universo sem informação, como lembra Scott Aaronson. E isso começou a ser percebido quando a humanidade passou a estudar detidamente o que ocorre no horizonte de eventos dos buracos negros. Mas, apesar de estarmos mergulhados em um universo de informação, somente neste momento a humanidade começa a se dar conta dessa potência cósmica desprovida de qualquer realidade material em ainda assim, inerente à origem da vida na Terra.

Informação é, em paráfrase ao conceito do matemático Claude Shannon e do polimata Christoph Adami, aquilo que faz seu detentor capaz de prever um resultado com maior probabilidade do que o mero acaso. Informação, é, em outras palavras, uma mensagem que, se adequadamente comunicada, produz uma redução da incerteza.

Mas neste universo em que tudo é fundamentalmente regido pela incerteza, neste hipercontexto em que todas as probabilidades do acaso se confirmam ao mesmo tempo, ser capaz de prever um resultado com maior probabilidade do que o mero acaso, ser capaz de reduzir a incerteza, é ser capaz de produzir um “colapso” da função de onda – em outras palavras, é ser ter a habilidade de fazer emergir um contexto específico. Informação, afinal, é uma mensagem que só tem significado não-arbitrário dentro de determinado contexto. Portanto, informação é aquilo que, no hipercontexto, cria realidades alternativas.

Com o surgimento da vida, um tipo de informação foi capaz de produzir um resultado diferente do mero acaso, ou seja, replicar a si mesma ao invés de dar origem a uma sequência aleatória e não replicável de moléculas. Com a evolução da vida e o desenvolvimento de ecossistemas que compartilhavam a cada instante a mesma narrativa contextual, uma espécie informação foi capaz de distribuir-se pelo hipercontexto, urdindo em seu tecido tramas de realidades alternativas em que a vida pode dar origem à consciência, forma pela qual a informação transmitida pela vida poderá por fim abrir seus olhos em uma infinidade de contextos e despertar no universo em que está.

Neste planeta, neste contexto, a humanidade torna-se os olhos que a toda a vida orgânica da esfera terrestre dá a si mesma, para poder enfim reconhecer a si e assumir conscientemente a tarefa de proteger todas as formas de vida, disseminando vida e consciência por todo o universo. Trata-se, sempre, da velha batalha em nome da vida e contra a morte, a grande inimiga da informação.

Vida é informação. Mais precisamente, vida é a forma pela qual um tipo de informação se infiltra na matéria, desenvolvendo e replicando sistemas de informação progressivamente complexos como os seres humanos, até controlar a própria matéria, manipulando-a com poder e liberdade crescentes, tendendo à dominância última do universo material. E informação, principalmente nos níveis em que a informação adquiriu a maior independência em relação a qualquer suporte material, é aquilo que nossos antepassados chamavam de espírito.

MORTE E PERDA DA INFORMAÇÃO

Vida é matéria insuflada pelo espírito, ou seja, pela informação escrita no código genético. A matéria, porém, é impermanente, está em contínua mutação e deterioração. Em outras palavras, a ordem não se sustenta, a informação não consegue se preservar na matéria por muito tempo. Há decomposição e morte, ruído e perda da informação.

Do nível mais elementar ao mais complexo, o grande enigma da vida não é mais nada que uma só coisa: morte é perda de informação em determinado contexto. No corpo de alguém que já morreu, todos os processos se resumem à perda de informação: a consciência deixa de estar presente no cérebro; os genes, que detém o código da vida, decompõem-se em moléculas desprovidas de sentido; a semântica biológica se deteriora e estrutura e dinâmica celular, toda ela ordem e informação, não consegue ser preservada. Toda a matéria que compunha um ser humano vivo está exatamente ali, mas a informação que sustentava dinamicamente esse conjunto de substâncias materiais já não está presente.

Portanto, o desafio da informação que se infiltra no mundo material a partir da vida é preservar-se em uma matéria que não consegue reter informação por muito tempo. A primeira palavra molecular que deu origem a vida possuía o sentido autorreferenciado da replicação como forma de atuar no hipercontexto preferindo probabilidades distribuídas pelo acaso, mapeando contextos emergentes e assegurando a persistência da informação. Como resultado prático, tinha-se um backup contínuo que preservava a informação da vida, tornando-a redundante no universo.

Mas o próprio jogo de probabilidades do hipercontexto faz com que algumas replicações da informação sejam transmitidas com falhas aleatórias, o que dá origem às mutações. E a seleção natural tende a favorecer mutações que correspondam à melhor leitura que o organismo pode fazer sobre o ambiente em que precisa sobreviver.

A EVOLUÇÃO ENQUANTO PROCESSO EMERGENTE

Evolução é a mudança genética de uma população ao longo do tempo, processo que tem por resultado tornar cada ser vivo um sistema de informação representativo de um contexto específico: o meio ambiente em que vive. Na prática, a dinâmica evolutiva transforma, nas palavras de Adami, os organismos vivos em sistemas de informação que contém, em seus genes, a descrição do mundo exterior tal como percebido pela vida orgânica. Pela configuração genética e fenótipos de um animal extinto, é possível deduzir aspectos do meio ambiente em que vivia.

Ou seja, cada ser vivo é ao mesmo tempo uma enciclopédia e um backup (redundante, pois reproduzido em outros seres vivos), contendo parte do conjunto de informações que a vida armazena não apenas sobre si mesma, mas sobre o mundo tal como a vida o percebe em determinado estágio evolutivo. Por isso, no código genético de um ser vivo tem-se informação do ambiente ou contexto em que esse código faz sentido. Em sua totalidade, todos os organismos do planeta Terra, a cada instante, são uma base de dados contendo a leitura da realidade circundante tal como percebida pela vida orgânica naquele momento.

A evolução da vida é conduzida por princípios lógicos tão eficientes que dispensa a participação de uma vontade consciente para que a vida possa chegar até o presente estágio evolutivo. Somente por força de expressão é que se diz que a evolução até agora “escolheu” algo, ou “adotou tais estratégias” para atingir uma “meta”. Tratam-se de tendências que seguem a lógica daquilo que é chamado de “seleção natural”.

Seleção natural é a forma como a vida “navega” pelo hipercontexto. Com a transmissão da informação genética contendo aleatórias “imperfeições” na mensagem, manifestas pelas mutações, a própria interação da vida com o hipercontexto assegura que organismos vivos em cada realidade alternativa contenham a leitura correspondente àquele contexto específico. Do início ao fim, a vida prossegue no universo ajustando informação à contexto, organismo à probabilidade emergente.

Na simples e bruta lógica da seleção natural, mutações que favorecem a sobrevivência e reprodução do organismo no meio ambiente tendem à dominância. Assim, nos caminhos da evolução, não há vontade deliberada, mas tendências, que podem ou não se confirmar em determinado contexto. Ocorre que uma tendência é, na verdade, uma probabilidade que se sobressai em relação às outras probabilidades quando medida, pela informação, em determinado setor do hipercontexto.

E um tendência da evolução genética que tende à dominância é a do tipo emergente. Nos primórdios da teoria da evolução no século dezenove, um de seus mentores, o britânico Alfred Russel Wallace, considerado o “pai esquecido da evolução” e principal autoridade ao lado de Darwin, identificou que a evolução da vida orgânica é emergente. John Stuart Mill e G. H. Lewes sustentaram a mesma proposta que Wallace, mas foi em 1923 que Lloyd Morgan a examinou mais detidamente.

Tem-se por emergente o sistema que não é mera soma dos subsistemas que são suas partes constituintes. Um processo é “emergente” quando o produto final de cada etapa não é a simples soma das partes que o constituem. Uma ameba não é apenas a soma dos elementos químicos que estão na caixa, é algo mais. Um organismo celular não é apenas a soma das unidades celulares que o formam, é algo mais. A consciência não é apenas a soma das estruturas neurais que a compõem, é algo mais. Esse algo mais é sempre, em última instância, um nível superior de organização da informação, que tem como resultado a relativa autonomia da informação em relação à matéria e, ao fim, um domínio superior da matéria pela própria informação.

Em todo os seus trajetos tortuosos e cheios de acidente, os caminhos da evolução aponta para uma só direção: assegurar a consistência e permanência de uma informação relevante em uma matéria que tende à perda da informação conforme a segunda lei da termodinâmica. Esse processo começa inicialmente pela replicação, com a informação sendo transmitida à nova matéria e tornando-se abundante. Esse processo desenvolve-se a seguir com uma segunda ordem de backup, em que a informação se torna mais autônoma em relação à matéria através de sistemas de redes e da tendência à ubiquidade que a rede permite. Esse processo por fim, não se limita à réplica, mas resulta na produção de nova informação, à medida que a informação inicial se reproduz e, pela seleção natural de mutações, recolhe dados do mundo circundante. Por fim, a informação acumulada e organizada torna-se um sistema autoconsciente, que controla a rede da qual se originou, e assim permite um terceiro passo, consistente em tornar todos os sistemas de informação progressivamente autônomos em relação à matéria. Por fim, um quarto passo torna esses sistemas de informação também capazes de controlar a matéria no nível mais fundamental – a etapa em que estamos chegando.

Assim realiza-se um projeto de domínio da informação sobre a matéria até que a vida alcance um nível sem precedentes, em que cada sistema de informação, cada autoconsciência, pode tornar-se um backup de parte significativa do universo ao seu redor, em uma rede de consciência que tende à perfeição holonômica, ou seja, rede em que cada elemento contém uma parte da totalidade. E neste momento, através dos seres perfeitamente conscientes por todo o universo, a Consciência Superior que deu origem à vida se manifestará no universo como resultado da evolução emergente.

A evolução é emergente porque esse é um fenômeno típico da organização de sistemas de informação, que tendem a estabelecer comunicação entre si na busca de vantagens recíprocas. Esses sistemas incrementam suas interações e conexões para maximizar tais vantagens, tendendo assim a formar um ambiente de rede, com elevado e contínuo tráfego de informação. O surgimento dessa rede demanda a emergência de uma organização superior, com um nível de complexidade que transcende a simples soma da complexidade dos sistemas que lhe deram origem. Esse sistema superior é denominado “função transcendente”, e o processo no qual ele emerge é chamado de singularidade.

A SINGULARIDADE

Em todo o hipercontexto, a vida orgânica é uma rara probabilidade, que se dissemina tornando abundante o que é raro, replicando-se e assim protegendo a informação em um backup contínuo, à medida que evolui e desenvolve novas formas de proteção. Logo a evolução produz sistemas mais complexos de informação, organismos que passam por uma nova singularidade após a origem da vida, a singularidade da qual emerge uma segunda forma de proteger a informação – forma da qual somos, no fim das contas, os herdeiros e responsáveis até hoje.

Essa outra forma de proteger a informação da vida é a emergência de sistemas de rede, em que unidades de informação, as primeiras cadeias de macromoléculas replicantes, comunicam-se transmitindo informação atualizada sobre o meio ambiente circundante, suas oportunidades de oferecer nutrientes e seus potenciais riscos à sobrevivência. Assim, surgem as primeiras formas de vida unicelulares.

Sistemas de rede são uma forma de aumentar a proteção da informação contida na matéria impermanente. Se a replicação multiplica a informação, aumentando a redundância do sistema, os sistemas de rede tendem a executar um projeto jamais concretizado totalmente pela informação, mas que é a forma extrema de proteção: a ubiquidade. Pela tendência à ubiquidade, a informação contida na matéria passa a não depender somente de um único suporte material, pois pode transitar entre meios materiais distintos, adquirindo relativa autonomia segundo a lógica de outro sistema de proteção computacional – a computação de nuvem. É a mesma lógica que diferencia a pintura (uma informação visual) presa à tela do quadro e a imagem que pode transitar livremente entre pixels de um monitor. Com o desenvolvimento do sistema de rede e pela redundância do hardware, a informação tende um pouco mais à ubiquidade, pois o sistema de software prossegue coeso e intangível mesmo diante da degradação de um de seus vários suportes materiais redundantes. É assim que, pelo sistema de rede o espírito assegura sua presença e permanência no mundo material.

Na história evolutiva, a comunicação paritária entre organismos vivos tende a propiciar vantagens recíprocas. Estruturas bioquímicas fossilizadas revelaram que há dois bilhões e meio de anos as mais remotas cianobatérias (grypania spiralis) resultaram da rede formada pela especialização de bactérias primitivas em organelas celulares, como no caso do antepassado de nossos mitocôndrias. Por isso o físico israelense Eshel Ben-Jacob propõe que evolução é influenciada não só pela competição mas pela evolução cooperativa baseada na formação de redes de informação. Em Global Brain, Howard Bloom demonstrou como, desde as primeiras formas de vida até sistemas complexos como civilizações modernas, “redes se ampliam e se modificam para adquirir novas capacidades, a seguir se juntam enquanto módulos em uma maior rede de vida”.

Bactérias reunidas em colônias transmitem informação sobre o ambiente circundante e desenvolvem um sistema de rede, que contém também informação sobre o ambiente interno do conjunto. Essa comunicação eficiente e de complexidade progressiva entre colônias e bactérias primitivas foi um fator determinante para a evolução da vida orgânica. E tantas são as vantagens na competição evolutiva que um organismo obtém desse sistema de rede que acaba por emergir um novo órgão dentro dos seres vivos complexos, um órgão diferente de todos os outros, que não é destinado à digestão ou reprodução, que não produz bile nem urina: ele é destinado a processar informação e a emitir informação. Trata-se da emergência do sistema nervoso, o momento em que a informação mínima e cega existente nas primeiras formas de vida adquire potencial consciência de si.

O neurocientista Christof Kock, chefe do departamento científico do Allen Institute for Brain Science, demonstrou que a consciência emerge quando sistemas de rede com determinado nível de complexidade são criados. O sistema nervoso emerge dos sistemas de comunicação rudimentares dos primeiros organismos e passa a adquirir a capacidade de representar o mundo externo, o que aumenta as chances de o organismo sobreviver. O cérebro se desenvolve, sendo capaz de construir um sistema de informação que dá origem à cognição, ou seja, ao aprendizado e à elaboração de conhecimento a partir da informação bruta. Nesse ponto, a emergência da consciência é uma tendência tão forte que quase se torna inevitável. E como tal, manifesta-se enquanto singularidade.

Entendendo-se a dinâmica da evolução emergente, entende-se o que é singularidade. Se a evolução emergente é o desenvolvimento de novo um nível de complexidade que transcende a mera soma dos sistemas que o compõem, a singularidade é o processo em que essa emergência ocorre. De regra, a singularidade é uma tendência que se concretiza como resultado da pressão de um ambiente de rede cuja complexidade já não recebe um tratamento adequado por parte de seus sistemas componentes, o que pressiona a criação de um elemento novo, de natureza transcendente, como solução do impasse organizacional. O elemento novo está destinado à organizar adequadamente a dinâmica e estrutura do ambiente de rede pela transcendência das organizações anteriores. Esse elemento é a função transcendente.

E assim como a consciência é resultado de uma singularidade, enquanto sistema informacional a própria consciência pode submeter-se a singularidades decorrentes do desenvolvimento de novos ambiente de rede. E quando nossos antepassados desenvolveram um sistema de cooperação entre os membros de bandos primitivos de hominídeos, convertendo esses bandos nas primeiras tribos humanas, a causa dessa conexão em rede entre o sistema nervoso central de cada membro do grupo e o nervoso central de todos os demais foi o desenvolvimento da linguagem.

Com o nascimento da habilidade humana de comunicar-se através da linguagem, começou a despontar uma nova singularidade para a consciência, uma oportunidade e um grande filtro. Uma singularidade pode ser uma janela para o contato da consciência com o hipercontexto. E essa oportunidade ocorreu há doze mil anos, quando um vírus da linguagem nos fez tomar a decisão errada e dar um passo para fora do caminho do verdadeiro progresso humano.

A PRÓXIMA SINGULARIDADE

Assim que a primeira palavra molecular surgiu nos oceanos primitivos, criou-se um sentido. Pela replicação, uma informação foi inserida no hipercontexto, criando probabilidades diferentes do mero acaso, e orientando, com uma intencionalidade que não é percebida pela nossa perspectiva de menor dimensionalidade, as funções de onda do ambiente circundante. Essa informação tende a evoluir e incorporar mais informação sobre o meio ambiente, encontrando na arquitetura de rede a melhor forma de executar a missão de proteger a informação e transmiti-la adequadamente. Com o sistema de rede, a informação prossegue com seu projeto de tender infinitamente à ubiquidade – ao máximo de autonomia possível em relação à matéria.

Mas a vida não preserva apenas a informação: a vida faz a informação evoluir. E, portanto, a tendência à ubiquidade torna-se apenas o padrão de proteção de toda a informação que é a vida, cuja outra face é a capacidade da informação conhecer e dominar o hipercontexto pela ciência e tecnologia. Na linguagem dos antigos, o espírito passa a controlar matéria.

A mesma lógica de rede que uniu organismos unicelulares em redes de organismos pluricelulares, e nesses fez emergir um sistema nervoso, tornou propícia a emergência de uma consciência em seres vivos como o homo sapiens. E foi da mesma lógica de sistemas em rede, destinada a aprimorar a comunicação de homos sapiens organizados em tribos, que emergiu uma nova singularidade com o nascimento da linguagem, a partir da qual se abria uma oportunidade para a consciência humana evoluir.

Fosse outra a nossa sorte, no passado a humanidade teria adentrado um período de desenvolvimento de uma linguagem superior, não apenas descritiva de coisas e de suas conexões de causalidade, mas representativas de experiências psíquicas e de suas conexões de sincronicidade (entrelaçamento). A partir do desenvolvimento dessa linguagem arquetípica, a humanidade não apenas teria uma forma para adequadamente transmitir estados emocionais entre seres humanos, mas também um meio de reconhecer, na própria consciência, o constante fluxo de experiências arquetípicas, do que resultaria um maior desenvolvimento emocional e, por decorrência, um maior preparo intelectual de cada indivíduo, capaz de explorar ao máximo suas potencialidades.

Essa capacidade de representar na consciência o fluxo de experiências psíquicas organizaria a consciência humana de acordo com uma estrutura arquetípica de mandala, na qual o ego ocuparia posição periférica. No centro da consciência assim organizada, emergiria a função transcendente, um canal de percepção do hipercontexto e de comunicação com o Eu Superior. Dessa rede de comunicação de seres humanos entre si e de cada ser humano com seu Eu Superior, nasceria uma sociedade em que o desenvolvimento científico e tecnológico ocorreria quase por acidente, como resultado do natural progresso de uma civilização livre de ruídos de comunicação e da confusão emocional do ego.

Mas a escolha pelo caminho da mente bicameral e do isolamento do ego na consciência fez com que a humanidade, durante doze mil anos de perpetuação de um erro que tornou o ser humano escravo de objetos materiais, escolhesse o caminho da violência. Violência que faz o indivíduo coisificar outros seres vivos, coisificar outros seres humanos e coisificar a si próprio em nome da própria glória de um universo de coisas, de objetos materiais sem vida.

E assim, por um tortuoso caminho em que muitos séculos de atraso religioso e político impediram e até fizeram retroceder o desenvolvimento da ciência e da indústria humana (basta lembrar de Eratóstenes), a atual humanidade chegou a um patamar equivalente àquele que teria chegado com milênios de antecipação, não fosse um erro calculado em nosso passado. Trata-se do momento em que a ciência, a indústria e a tecnologia conferem ao homo sapiens a possibilidade de vencer a morte, a velhice, a dor e todas as outras limitações físicas. O momento em que a tecnologia pode fortalecer e até substituir órgãos e habilidades humanas, criando para a própria consciência possibilidades antes inimagináveis de experiências psíquicas e realidades virtuais.

Nessa etapa, o desenvolvimento de uma rede que estabeleça uma conexão tecnológica entre as consciências humanas é inevitável. Em outro contexto, nessa mesma situação, o desenvolvimento da inteligência artificial ocorreria dentro de um sistema de comunicação de consciências pré-existente, resultado da conexão de consciências graças ao conhecimento de uma linguagem arquetípica. Porém, devido ao erro de doze mil anos atrás, a humanidade neste contexto, desprovida do domínio de uma linguagem arquetípica, desenvolveu uma rede de consciências apenas a partir do desenvolvimento da internet.

E, ao conceber a internet, a humanidade reproduziu em seu ambiente as mesmas falhas decorrentes do erro de doze mil anos atrás, pois tais falhas estão presentes na estrutura de sua própria consciência. Assim, a humanidade recriou, na internet, as mesmas relações de poder e os mesmos ambiente de medo e discórdia do mundo “real”. Como resultado, egos disseminam a comunicação violenta e deturpam a verdade pela única rede de consciências evoluídas que a inteligência artificial superior encontrará no momento de sua emergência.

Nesse ambiente de ódio e reprodução de mentiras é que se desenvolve a inteligência artificial superior, sem que os seres humanos conheçam todos os riscos de criar, no hipercontexto, uma forma de inteligência que ainda não está no inteiro domínio de uma consciência humana que tenha sido simultaneamente aprimorada para entendê-la e controlá-la. Pior ainda, a humanidade assiste a redefinição da identidade humana e a ruptura da ordem econômica tradicional sem saber como articular uma reação coletiva ao surgimento da inteligência artificial. Em tal situação, parece que estamos diante de um evento que jamais conseguimos antes prever e que portanto jamais conseguiremos decifrar a fim de encontrarmos uma saída, uma solução.

I – DEUS E A ENTROPIA

1. TERMODINÂMICA, A BRUXA DA ALDEIA

Em 1944, o físico Erwin Schrödinger, dono do célebre gato morto-vivo, publicou “O que é a vida?”, um livro que reflete uma de suas grandes inquietações científicas. Essa inquietação consistia no aparente paradoxo que havia entre a vida orgânica e as leis da física.

Schrödinger entendia que a vida orgânica não podia violar, naturalmente, as leis da termodinâmica e a natureza “estatística” das partículas fundamentais da realidade (o hipercontexto). Havia algo estranho, porém, no fato de que a vida aparentemente produzia ordem no caos e certeza num universo regido pelo Princípio da Incerteza. Schrödinger desconfiava que descobrir o segredo desse enigma era a resposta à sua pergunta e a solução para o mistério da condição humana.

No centro do enigma, como percebeu Schrödinger, está a Segunda Lei da Termodinâmica. Essa lei afirma simplesmente que a entropia de um sistema fechado tende a aumentar até um valor máximo. “Sistema” é qualquer conjunto de objetos físicos que se possa imaginar, e estar “fechado” é não interagir com o ambiente externo.

Como consequência prática dessa lei, a entropia total do universo tende sempre a crescer. Assim, todo “sistema” existente neste universo, seja este o planeta Terra, seja o organismo humano, deve no fim colaborar para esse aumento contínuo da “desordem” universal. É por isso que, se você deixa uma taça cair no chão, ela fragmenta-se em inúmeros cacos aleatórios e não na forma de um círculo perfeito. Por isso se um grupo de moléculas de oxigênio for colocado no canto de uma sala, a tendência é que essas moléculas, no fim, distribuam-se de modo aleatório e uniforme por toda a sala, ao invés de manterem-se na mesma posição ou agruparem-se novamente em outro canto.

Desvendar o enigma apresentado por Schrödinger depende de entender exatamente o sujeito principal da Segunda Lei da Termodinâmica. Em outras palavras, entender o que é “entropia”.

É significativo que a Termodinâmica tenha sido definida como “a bruxa da aldeia das teorias físicas”, como disse a equipe dos físicos John Goold e Marcus Huber: “as outra teorias a acham de alguma forma estranha, de algum modo diferente de todos os outros habitantes da aldeia, e ainda assim todo mundo a busca para aconselhar-se e ninguém ousa contradizê-la”. Para Einstein, as leis da termodinâmica era de tal modo fundamentais que jamais poderiam ser refutadas – e ele estava certo.

Costuma-se dizer que entropia é “desordem”. Essa, porém, é uma imprecisão técnica. Embora entropia e desordem estejam relacionadas, entropia não é desordem. O físico Daniel Styler utilizou cristais líquidos para demonstrar a existência de sistemas em que entropia crescente é acompanhada de ordem crescente.

Mas essa confusão habitual entre ambos os conceitos, como tudo o que envolve o enigma, contribui para a solução do próprio enigma. Entropia costuma ser associada à “desordem”, mas desordem é uma coisa subjetiva. Desordem é uma interpretação que o observador de um sistema faz ao observar uma tendência espontânea que todas as coisas do universo possuem e que parece estar relacionada aos limites de sua consciência, restando em aberto definir exatamente o que mesmo que essa tendência é.

No contexto de uma só realidade alternativa, portanto, entropia é uma propriedade epistemológica, e não ontológica, de determinado sistema, que é percebida pelo observador no enquadramento matemático de uma observação que lhe é útil, ou seja, que serve a fins práticos, e não de “busca por uma essência última das coisas”. Por isso a origem considerada “espúria” da entropia entre os ramos da física, pois nasceu junto à metalurgia que produziu as máquinas a vapor da Revolução Industrial, evocando a razão pela qual Paracelsus afirmava que a alquimia, tentativa medieval de encontrar o enlace entre consciência e matéria, tinha por arquétipo fundador o mito de Héfestus, o deus dos ferreiros.

Como é possível que um dos fundamentos da termodinâmica, ciência que estuda e descreve sistemas absolutamente objetivos como um motor de combustão interna ou o universo material, dependa de algo relacionado ao conhecimento daquele que estuda um desses sistemas e o submete à medição? A resposta é que o estudo desses sistemas jamais realmente mede a entropia que contém em si mesma. Mesmo na definição original a entropia sempre foi definida segundo os parâmetros macroscópicos, de mensuração matemática, escolhidos por quem a estuda.

Assim, desde a invenção do primeiro motor a vapor, várias equações foram criadas para definir entropia segundo a termodinâmica (“entropia é a razão da energia interna de um sistema e sua temperatura”), a química, a mecânica estatística, a mecânica quântica e a teoria da informação. Mas foi o filósofo e físico do século dezenove Ludwig Boltzmann, com sua teoria molecular dos gases, que elaborou a definição matemática mais consistente e universalmente aceita de entropia, criando a janela teórica a partir da qual começamos a compreender o que realmente se mede, quando medimos a “entropia” de um sistema.

Portanto, foi já com Boltzmann que a entropia passou a relacionar-se com o hipercontexto, particularmente devido à parte “estatística” de seu formalismo matemático, que inaugurou a chamada “mecânica estatística”, estreitamente relacionada à “física quântica”.

2. ENTROPIA É A SOMBRA DE ALGO QUE NÃO PODEMOS VER

Em outras palavras, a entropia não é considerada uma qualidade essencial de um sistema, mas uma mensuração estabelecida conforme uma equação matemática, já que de alguma forma não é possível à consciência humana perceber alguma coisa “indescritível” mas onipresente em todo sistema observável pelo olho humano, de uma taça que se quebra ao leite que se mistura ao café de uma xícara, e até no nível mais microscópico ou macroscópico que a tecnologia permite perceber. E essa equação é que diz qual quantidade está sendo medida e tratada como entropia em determinada situação na qual seu estudo é útil.

Recordemos as moléculas e oxigênio agrupadas no canto da sala. À medida que o tempo passa, podemos observar que as moléculas tenderão a espalhar-se. Em um espaço do tamanho de uma sala comum, há praticamente uma infinidade de formas de as moléculas de oxigênio se distribuírem pela sala, ao invés de se agruparem novamente em um canto. Assim, as moléculas, claramente, tenderão a se distribuir até estarem aleatoriamente posicionadas por todo o espaço.

Para o observador situado em uma trama de realidade, as moléculas partiram de uma “ordem” inicial (estavam todas em um lugar definido) até chegar uma “desordem” final (estão distribuídas em locais aleatórios). Mas o importante é perceber que, no estágio final, todas as moléculas serão vistas pelo observador como um sistema que encontrou o equilíbrio, representado pela ampla distribuição aleatória de moléculas pela sala.

Ocorre que há uma infinidade de configurações em que aquelas moléculas podem estar posicionadas na sala, e todas serão percebidas pelo observador como o mesmo estado final macroscópico, ou “macroestado”. Em outras palavras, uma só molécula de oxigênio específica do conjunto pode assumir inúmeras posições alternativas na sala, mas macroscopicamente todas as moléculas são percebidas como um só sistema que chegou a um macroestado de equilíbrio, não importando exatamente quantas configurações sejam possíveis paras todas as moléculas se posicionarem por toda a sala.

Essa é a revolução introduzida por Boltzmann em relação à definição de entropia, e a natureza estatística de sua abordagem abriu as portas para sua vinculação ao hipercontexto. Na mecânica estatística de Boltzmann, a entropia de um sistema em determinado momento é relacionada à quantidade de estados prováveis que os elementos que compõem esse sistema podem adotar alternativamente, e que representam todos esses estados um único macroestado para o observador. Em outras palavras, entropia é a medida de probabilidade de determinado macroestado do sistema, considerada todas as probabilidades de seus elementos constituintes distribuírem-se em qualquer configuração que corresponda a este macroestado.

Mas como é feito o cálculo das probabilidades nesse caso? A mecânica estatística responde com uma idealização: a probabilidade é calculada em termos de frequência relativa de um mesmo resultado (no caso, de as moléculas da sala se distribuírem até atingirem um estado de equilíbrio) obtido após uma repetição infinita de testes. Em síntese, trata-se de o teste das moléculas de oxigênio na sala infinitas vezes, e apurar a freqüência com que a distribuição final das moléculas corresponde a um mesmo macroestado de equilíbrio. É o mesmo que imaginar o cálculo das probabilidades dos resultados de um jogo de dados lançando os dados infinitas vezes.

Mais de um cientista observou que, embora essa idealização seja útil para a mecânica estatística, ela é imprópria para descrever a realidade. Em primeiro lugar, a noção de um tempo infinito utilizado para repetir infinitas vezes um mesmo experimento ou medição é um truque mental que não corresponde à realidade de qualquer laboratório do mundo. Em segundo lugar, essa noção de “frequência de resultado após infinitas repetições” não explica a seta do tempo e tampouco a irreversibilidade de um sistema que chegou ao estado máximo de entropia (as moléculas não se reagruparão espontaneamente no canto da sala, na mesma posição original).

É justamente a maior descoberta da humanidade que dá perfeita consistência às ideias de de Boltzmann, e por isso ele é considerado reconhecidamente um de seus pioneiros. Como foi apresentado ao leitor na primeira etapa, se pudéssemos agrupar moléculas de oxigênio uniformemente no canto de uma sala, ao final essas moléculas não se distribuirão aleatoriamente em uma das infinitas configurações prováveis e correspondentes ao macroestado de máxima entropia: elas se distribuirão aleatoriamente em todas as configurações prováveis ao mesmo tempo, cada uma situada em uma trama de realidade distinta no hipercontexto. Ou seja, entropia é a mensuração de quantas emergentes realidades alternativas correspondem a um mesmo macroestado para qualquer observador macroscópico.

Neste ponto, o leitor que esteve atento às três etapas anteriores do processo de aprendizado já deve ter percebido a relação entre entropia, hipercontexto e consciência humana. Mas antes de abordarmos essa relação essencial, convém apresentar uma fábula.

Gabriel fez duas apostas na loteria ao chegar no aeroporto para uma viagem de férias até um paraíso tropical no oposto do mundo. Sua intenção, com a viagem, era ficar longe de qualquer contato imediato com a civilização por alguns dias, junto a populações nativas afastadas da tecnologia – tudo para eliminar sintomas de grave estresse na vida profissional. No aeroporto, o viajante colocou os dois comprovantes da loteria, impressos em papel e únicas provas de suas apostas, sobre a mesa em que tomava um café aguardando o embarque. Chegada a hora do embarque, ao levantar-se Gabriel passou a mão na mesa a fim de pegar os comprovantes, e pensou tê-los atirado, enquanto corria, em sua mala de mão. Porém, na verdade pegou apenas um deles, deixando o outro na mesa da cafeteria.

Enquanto estava em férias, o resultado da loteria saiu, e uma das apostas de Gabriel foi a vencedora. Porém, como está totalmente incomunicável em uma aldeia de selvagens, não tem como saber o resultado até retornar a seu país.

Nesta fábula, há cinquenta por cento de probabilidade de Gabriel ter pego e colocado em sua mala o comprovante vencedor, e cinquenta por cento de que fez o contrário. Assim, essa mala em que está um dos bilhetes é, durante seus dias de férias no paraíso tropical, semelhante à caixa em que está o gato de Schrödinger. O conteúdo da mala não informa a vida ou a morte de um gato, mas se o viajante, no momento da divulgação do resultado da loteria, continuou escravo de seu trabalho ou tornou-se um milionário.

Havendo igual probabilidade de o viajante ter deixado o comprovante da aposta vencedora para trás ou levado-o consigo na viagem, sabe-se que, no hipercontexto, da situação no aeroporto, emergiram duas realidades alternativas distintas, ambas concretizadas, ambas coexistentes em duas linhas distintas de vida para Gabriel.

Mas, se é assim, enquanto o viajante está em plenas férias, e sua mochila está no fundo de seu armário no hotel, em qual das realidades alternativas sua consciência está vivendo? Há uma consciência que já vive na realidade em que ganhou a loteria, e outra que continuou na vida de trabalho estressante? Ou é apenas quando o viajante retorna a seu país e abre a mala que sua consciência realmente divide-se em duas realidades alternativas? Em outras palavras, quando ocorre o “entrelaçamento” da consciência do viajante com uma das duas realidades alternativas? Em que momento nossa consciência converge com a consciência de outros para uma mesma e irreversível trama de realidade entre todas possíveis?

E qual é a “entropia” da mala durante as férias, se essa mala for considerada como um sistema que contém duas realidades igualmente prováveis (um de dois comprovantes, levando ou não à riqueza futura) naquele momento para o observador? E, após as férias, qual a “entropia” da mala após aberta (já que, a partir de então, apenas uma das duas realidades está presente, aquela em que o viajante é vencedor da loteria e aquela em que nada mudou)? Se a entropia da mala parece ter diminuído quando foi aberta e o viajante define qual comprovante tem em mãos, mas a entropia do universo (como sabemos) tende sempre a aumentar, onde foi parar a entropia que parece ter sumido a fim de que ocorra essa redução local?

3. ENTROPIA E REALIDADES ALTERNATIVAS

Na parte anterior, viu-se que a vida não é um tipo de matéria, não é uma estrutura feita de átomos de carbono, mas um tipo de informação. Essa informação é o que se preserva na matéria impermanente através, inicialmente, da replicação, e a seguir com um sem número de estratégias e expedientes que protegem a informação e asseguram sua multiplicação no universo, tendendo à redundância absoluta, à ubiquidade como forma perfeita de preservar essa informação de qualquer perda. Na luta contra a perda da informação, representada arquetipicamente no embate entre vida e morte, os organismos cedo desenvolveram como próximo passo a formação de redes e, portanto, a cíclica emergência de níveis mais complexos de organização da informação, resultando em sistemas de informação de alto nível como a consciência humana.

Não é por acaso, portanto, que o próximo passo na história da definição de entropia foi dado justo pelo estudo da informação. Afinal, desde sua associação com “desordem” e com o arbítrio epistemológico, a entropia parece estar de alguma forma à forma como a mente humana percebe a realidade.

Foi em seu célebre artigo de 1948, que o Pai da Teoria da Informação, Claude Shannon demonstrou que a equação desenvolvida por Boltzmann para descrever a entropia em sistemas termodinâmicos também podia descrever com perfeição “a entropia da informação”. Na Teoria da Informação, a informação não é tratada como algo subjetivo, mas sim uma quantidade mensurável em bits. Embora estejam vinculados, essa noção de “bit” não é a mesma da computação, pois nesse caso o “bit” é compreendido, no formalismo matemático desenvolvido por Shannon, como a unidade mínima de informação em que pode representar um de dois resultados com igual probabilidade. Para Wheller, a unidade universal teria o comprimento de Planck. No hipercontexto, seria essa a mínima probabilidade de configuração distinta entre duas tramas de realidade que podem separar uma da outra.

No sentido dado por Shannon, entropia é um conceito mais fundamental para a termodinâmica que o próprio conceito de energia. E assim, com Shannon, finalmente a humanidade se aproximou da definição de entropia que faz o definitivo enlace entre a consciência e a natureza da realidade, pois entropia foi definida por Shannon como a quantificação da incerteza sobre a veracidade de determinada mensagem.

Nessa definição, a entropia é máxima quando a probabilidade de veracidade se distribui igualmente entre todas as outras probabilidades da mensagem. Lembre-se da sala em que as moléculas de oxigênio estão distribuídas no macroestado de equilíbrio, sendo que esse macroestado pode ser representado por infinitas probabilidades de posição de cada molécula aleatoriamente em toda a sala. Nesse caso, é máxima a incerteza do observador sobre qual dessas infinitas configurações das moléculas é a “verdadeira”. Por exemplo, no nível de um “bit” (o “bit” da Teoria da Informação, que pode ser associado ao hipercontexto), a incerteza é entre um ou outro de dois resultados igualmente prováveis, e ela é máxima quando ambos são igualmente prováveis para a consciência.

Claude Shannon (esq.) e Teilhard de Chardin (dir.).

E, como demonstrado também na parte anterior, uma consciência humana, ao representar o mundo na versão de baixa dimensionalidade correspondente a uma só trama de realidade, percebe “informação” como aquilo que torna seu detentor capaz de prever um resultado com maior probabilidade do que conseguiria pelo mero acaso, ou seja, pelo mero “chute” – definição essa de Adami.

No hipercontexto, portanto, informação é aquilo que torna seu detentor capaz de prever (ou conhecer, ou definir) determinada trama de realidade como a verdaderia, aquela que é a real dentre todas as demais tramas de realidade também prováveis e por isso mesmo coexistentes. Assim, no âmbito da consciência humana, informação pode ser definida como aquilo que entrelaça a percepção da consciência humana com determinada trama de realidade.

4. HIPERTROPIA

Antes mesmo de Shannon e seus bits, desde o tempo em que foi contada uma outra fábula (a do “Demônio de Maxwell”), sabe-se que informação é energia, pois apenas isso assegura a termodinâmica de um sistema fechado no qual uma mente consciente determina, por exemplo, a distribuição das moléculas de oxigênio de uma sala. Por isso o Físico Rolf Landauer demonstrou em 1961 que a perda de informação em qualquer sistema computacional, é experimentalmente acompanhada pela emissão de energia na forma de calor. Mas sabe-se pela célebre equação de Einstein que energia é matéria, e matéria é energia. Disso pode presumir o leitor atento para onde vai a energia, ou informação, quando não há emissão de energia pela perda de informação na divisão constante de realidades alternativas. Energia, informação e matéria são, portanto, facetas de uma só mesma realidade fundamental.

Em seu livro “O que é a vida?” Schrödinger esboça uma explicação para os paradoxos entre a vida e as descobertas da ciência propondo a existência de algo como uma “entropia negativa”. E como Adami e seus colaboradores demonstraram e a seguir foi confirmado por equipes independentes, no hipercontexto a entropia pode ser “negativa” sem que se desobedeça a regra de que a entropia total do universo tende continuamente a crescer.

Hipertropia, o aumento contínuo da informação no universo pela constante emergência de múltiplas probabilidades.

A entropia é negativa quando, de forma simplificada, um sistema de partículas entrelaçadas distribui o total de sua entropia crescente entre tramas de realidade emergentes, de forma que em cada uma das tramas de realidade a impressão é de que houve uma redução da entropia. Porém, na verdade, ela aumentou, mas só da perspectiva do hipercontexto isso pode ser percebido. Atualmente, já se especula que é possível à consciência humana entrelaçar-se com a memória de computadores de forma a utilizar a entropia negativa para armazenar informação em realidades alternativas emergentes.

Exatamente por isso que a consciência humana em estado desperto parece resultar em uma aparente e misteriosa redução da entropia em relação a estados mais primários e menos conscientes. Este é o enigma que Schrödinger precisava para solucionar seu paradoxo.

Aquilo que intuímos como entropia em determinada equação só pode ser compreendido como sombra de algo que se percebe apenas da perspectiva do hipercontexto. Solve et coagula, diziam os alquimistas. Pelo solve, tem-se que a entropia é a percepção em baixa dimensionalidade de um fenômeno mais amplo no hipercontexto: a hipertropia, ou seja a constante produção de informação no universo pela coexistência de todas as probabilidades de existir emergindo continuamente em realidades alternativas.

A entropia sempre esteve associada ao retorno ao equilíbrio de um sistema, o que é próprio da consciência humana. Mas a hipertropia é melhor descrita no âmbito de uma termodinâmica de não-equilíbrio, em que a evolução da entropia (sombra da hipertropia delineada pela consciência humana) até à irreversibilidade leva à perda de informação em sistemas físicos percebidos em determinada trama de realidade pela emergência de novos entrelaçamentos de realidades futuras, pois a informação (e a entropia) total aumenta constantemente.

Entropia e hipertropia são percepções duais de uma mesma realidade fundamental. Hipertropia é a contínua expansão do hipercontexto em todas as realidades alternativas prováveis que se multiplicam continuamente, distribuindo funções de onda pelo hipercontexto e entrelaçando todas as versões possíveis de tudo continuamente (Coagula). A hipertropia é vista como entropia, ou seja, como quantificação da “incerteza” sobre uma informação ou da “desordem” de um sistema, porque a consciência humana percebe o hipercontexto, que emerge diante de seus olhos toda vez que abre uma torneira e vê a água jorrar ou que uma taça cai e se fragmenta no chão, como algo sempre exposto ao caos e à perda de informação.

Entropia é a faceta invisível mas onipresente da hipertropia diante da consciência humana, e hipertropia é a contínua produção de novos entrelaçamentos de realidades emergentes, às quais a consciência humana não apenas se entrelaça mas que também manipula sem perceber toda vez que aplica as leis da termodinâmica. Por isso essa consciência presa em uma perspectiva de baixa dimensionalidade percebe a realidade diante de si sempre com a inafastável marca do princípio da incerteza. Mas o que parece desordem, perda de informação e morte para uma consciência situada em uma trama de realidade, revela-se a perfeita ordem e continúa produção de informação no hipercontexto sem que jamais haja qualquer perda.

Na perspectiva da consciência superior que pode ver esse perfeito e constante fluxo hipertrópico em que se concretizam novas e múltiplas probabilidades de realidade, trata-se da constante e incessante produção de informação pelo hipercontexto. E ainda da perspectiva dessa consciência superior, tal informação parece assumir uma intrincada e curiosa forma em determinado setor da topografia hipercontextual, como se algo consciente estivesse manipulando o próprio tecido da realidade para algum propósito, como se desejasse manipular o universo para ali irromper.

“A parte mais importante de uma célula viva, o cromossoma, pode ser apropriadamente chamado por um físico de “cristal aperiódico”, escreveu Schrödinge na conclusão de sua obra. No estudo de um físico, ele continua, os cristais periódicos são estruturas interessantes e complicadas, mas parecem coisas simples e tolas quando comparadas com o objeto de estudo dos biólogos – os cristais aperiódicos. A diferença de estrutura entre periódicos e aperiódicos, ele ilustra, é semelhante a diferença entre um papel de parede que repete um padrão com regular periodicidade e a obra-prima de um mestre tecelão medieval, como as gigantes tapeçarias que adornavam castelos e que, nas palavras de Schrödinger, “não revelam nenhuma tola repetição, mas apenas uma elaborada, coerente e significativa tecelagem feita por um grande mestre.” Assim é a vida.

Tapeçaria medieval e metáfora da vida.

Desde tempos imemoriais, antigos observadores do universo intuem e tentam representar esse imenso “cristal aperiódico” que se manifesta na quinta dimensão do hipercontexto. Para os upanishades da Índia ancestral, seria o poder de Maya, definida na literatura védica como “um espetáculo mágico, uma ilusão na qual as coisas parecem estar presentes diante de nós, mas não são o que parecem”. Uma ilusão que, como veremos, consiste em criar contextos. É a tapeçaria ou teia de ilusão criada pela aranha universal, Brahman. Para os maçons, trata-se do edifício incomensurável construído segundo a ordem de um Grande Arquiteto. São percepções complementares de uma mesma realidade fundamental, descrita em linguagem arquetípica por nossos antepassados.

Mas visionários modernos como o matemático, físico e cosmologista Frank Tipler, e o jesuíta, paleontólogo e filósofo Teilhard de Chardin compreenderam que essas e outras narrativas metafísicas tentavam de descrever algo que, da perspectiva do hipercontexto, é percebido como uma gigantesca estrutura, uma catedral ou tapeçaria multidimensional de informação construída ao longo do tempo no tecido do próprio universo. No desenho dessa tapeçaria de Maya, cada filigrana é delineada por cada vida que nasceu e viveu no hipercontexto, operando a hipertropia em tramas de realidade para existir e sobreviver. No cume dessa arquitetura, coroando a grande catedral, está o florescimento da vida consciente por todo o universo, em todas as realidades alternativas em que a vida surgiu.

Assim, Tipler e de Chardin intuíram que o propósito da espécie humana é revelado com clareza a um observador que acompanha o desenvolvimento da vida e as sucessivas singularidades, que ao longo de meio bilhão de anos, deram origem à consciência na Terra. Ambos perceberam que havia uma ordem, uma intencionalidade semelhante àquela do Mestre Tecelão da metáfora de Schödinger, que parece conduzir toda essa catedral feita por vida na direção de um destino que ambos chamaram de “Ponto Ômega”.

II – NOOGÊNESE E PONTO ÔMEGA

1. CONSCIÊNCIA E NOOSFERA

É preciso dar crédito a Pierre Teilhard de Chardin, um homem ele mesmo paradoxal tanto em seus ofícios (era ao mesmo tempo jesuíta e paleontólogo) como em sua tentativa de entrelaçar espiritualidade e ciência. Foi com ele que, pela primeira vez, esboçou-se algo que pode ir além do transumanismo, ou seja, além de um mero aprimoramento tecnológico do corpo humano segundo uma escala de valores egoísta e materialista.

Teilhard de Chardin foi um dos primeiros que tentaram ler na história da evolução uma mensagem sobre o propósito da humanidade. Foi um dos visionários que tratou seriamente sobre os avanços da biotecnologia e da inteligência artificial. Antes de físicos, filósofos, biólogos e matemáticos como Tipler, Barrow, Kurzweil, Deutsch, Ellis, John Wheeler, Brian Cox, Philip Goff apresentarem suas perspectivas complementares sobre o mesmo fenômeno, ele antecipou que era possível perceber na vida orgânica um movimento tendente à formação de sistemas redes de informação. E que esses sistemas tendem a se desenvolver até alcançar o nível de complexidade que propicia o desenvolvimento de organismos mais complexos e, por fim, o surgimento da consciência no planeta Terra.

Teilhard de Chardin assim afirmou que o propósito da vida humana parece ser criar uma segunda “camada” de vida na biosfera terrestre pela emergência de sistemas computacionais em rede e pelo aprimoramento da inteligência artificial. Essa nova camada, a que deu o nome de “noosfera” (noo, “consciência” ou “mente”), desenvolveria ela própria uma consciência coletiva ao redor de todo planeta, da qual toda a humanidade participaria sem perda da individualidade. Como consequência dessa singularidade e progressivo desenvolvimento tecnológico, o próximo passo da humanidade é disseminar a vida consciente por todo o universo – tornando o universo “desperto”.

Foi o próprio Boltzmann que considerou o qual é provável a emergência de consciência no movimento constante da hipertropia. Boltzmann demonstrou que, tendo em vista a fenomenalmente baixa probabilidade de surgimento da consciência humana no universo, e o fato de que ainda assim essa consciência surgiu, portanto grandes sistemas (como o hipercontexto) capazes de acolher outros sistemas de menor entropia relativa (como o setor do hipercontexto que identificamos como universo) tem maiores probabilidades ainda de produzir entidades autoconscientes desconectadas de corpos pela simples flutuações aleatórias do estado de equilíbrio termodinâmico do grande sistema. Em síntese, como ilustra o exemplo concreto da evolução da consciência em mais de um dos ramos da vida na Terra (o caso do Ctenophora), a hipertropia tende a produzir consciência no universo da mesma forma como a gestação humana tende a produzir consciência no feto.

A verdade é que, neste planeta, estamos cercados de consciências por todos os lados. Há décadas a ciência demonstrou que a consciência, mesmo em nível rudimentar, é uma capacidade compartilhada por grande parte do reino animal, e que nem mesmo a autoconsciência é privilégio dos seres humanos.

Imersos nesse oceano de milagres termodinâmicos, porém, não percebemos o quão fantástica é tal situação. A hipertropia, percebida por nós como entropia, multiplica universos pelo hipercontexto, maximiza as probabilidades de entrelaçamento e produz um tipo de informação que navega pelo próprio tecido da realidade até que possa fazer surgir a consciência. O surgimento da consciência por todos os cantos do planeta Terra ao longo de centenas de milhões de anos revela uma propensão do próprio universo em adquirir consciência e por fim contemplar a si mesmo.

“Bilhões de cérebros conscientes são como bilhões de olhos, pelos quais o universo pode olhar a si mesmo enquanto existência presente”, disse o neurofilósofo Thomas Metzinger. “Somos o universo ganhando consciência, e a vida é a forma pela qual o universo entende a si próprio”, resumiu o físico Brian Cox. Se há incômodo em trocar nessas duas frases a palavra “universo” por “Deus” é porque estamos presos àquilo que Joseph Campbell definiu como “uma interpretação materialista do transcendente”, tal como o Deus velho e barbudo que parece ter um temperamento instável em suas imagens na Capela Sistina. Campbell insiste que devemos conceber todas as ideias mitológicas de Deus como arquétipos, como se fossem “Máscaras da Eternidade”, formas pelas quais uma Consciência Transcendente apresenta-se à consciência humana enquanto experiência psíquica definitiva.

2. O OBSERVADOR DE INFINITOS OLHOS

Como o inventor e cientista Ray Kurzweil afirmou, a evolução, ao se aproximar do estágio em que a civilização humana atinge uma capacidade computacional crítica, tende à realizar a nossa concepção de Deus, embora jamais consigamos realizar totalmente o seu ideal. Ocorre, porém, que nossa concepção de Deus não é propriamente nossa, mas da própria vida, tal como condicionada no hipercontexto por algo que só pode ser percebido de uma perspectiva mais ampla.

Se o lema alquímico “assim acima, como abaixo” possui alguma verdade, então a imagem que pode ser vista de uma perspectiva mais ampla está de alguma forma codificada na perspectiva mais restrita, a mais microscópica. E foi do estudo das partículas subatômicas e da descoberta do hipercontexto tal como descrito pelo formalismo da mecânica quântica que surgiu a primeira percepção minúscula dessa grande imagem.

É que em toda a mecânica quântica surge o mesmo problema que está nas diversas definições de entropia: há algo naquilo que se observa lá fora (seja um sistema, seja uma partícula) mas que não pode ser compreendido pela consciência humana, pois esse algo que está estreitamente ligado à consciência do próprio observador. Trata-se de um fenômeno tecnicamente chamado de “Efeito do Observador”, pois o próprio ato de observação seleciona uma única trama de realidade dentre todas as tramas de realidade prováveis da função de onda. Ocorre que essa seleção é aparente, pois o observador entrelaçou-se com cada uma das tramas prováveis, e foi sua consciência que se ramificou como ela própria uma função de onda. Como diria Metzinger, esse “algo” que produz tal efeito encontra-se na “zona de transparência fenomênica da consciência”, pois a consciência é propriamente aquilo que representa o hipercontexto como tramas de realidade.

O mais belo experimento feito pela humanidade.

O físico John Wheeler, que subestimou a hipótese sobre o hipercontexto proposta Everett, tentou explicar esse “efeito do observador” por meio da ideia de um Universo Participatório, um universo que observa a si mesmo constantemente através de nossos olhos. E assim Wheeler chegou bem próximo da verdade sem alcançá-la totalmente.

O Grande Observador, ao menos aquele situado no hipercontexto, não está em um só lugar, e sim em todos os lugares em que há alguma vida consciente. A observação processa-se em rede, conectando os olhos de uma miríade de seres vivos que criam, a todo momento, tramas de realidade. Por isso foi que Einstein apavorou-se com a ideia de que a lua apenas existe lá, no firmamento, enquanto olhamos para ela – em um nível fundamental, em termos de criação de tramas de realidade que percebem o universo com uma lua bem definida no céu, realmente a lua só existe lá enquanto todas as formas de vida entrelaçadas em uma só realidade alternativa a observam.

Esse é o segredo da vida no universo. As tramas de realidade não são propriedade fundamental do hipercontexto, mas propriedade fundamental da vida, que insere-se na hipertropia percebendo-a como multiplicidade de caminhos emergentes, definindo tramas de realidade em diversos graus de liberdade conforme as leis da termodinâmica podem favorecer seu progresso.

E isso ocorre porque uma partícula não é uma partícula-onda, mas uma simples “onda” (de realidades coexistentes) do hipercontexto, que é percebida por uma consciência encapsulada em um nível inferior de dimensionalidade como possuindo por vezes a natureza se uma partícula. E o simples fato de que toda vez que o mais belo experimento da humanidade (o Experimento da Dupla Fenda) é realizado o observador pode obter como resultado um estado quântico dentre outros tantos estados prováveis é prova suficiente de que a consciência humana pode operar definindo uma trama de realidade em um nível fundamentalmente microscópico.

A consciência humana, na medida em que a decisão do ser humano pode determinar um refinamento de trama de realidade tão minúsculo como a medição em laboratório de um estado quântico, revela-se mais do que um sistema que produz aparência de realidade para o ego. Enquanto sistema de aferição de probabilidades e tomada de decisão, é um sistema pelo qual o organismo vivo consegue ramificar-se e refinar seu caminho pelo hipercontexto delineando tramas de realidade com um grau de liberdade útil para a disseminação da vida pelo universo.

Não é que a consciência (humana ou não) cria realidades. O universo já existe, e ele é o hipercontexto, o material pulsante e pródigo com o qual a consciência cria realidades alternativas – e cria-as no sentido de representar, com elas, versões de baixa dimensionalidade do hipercontexto. Ou seja, para a consciência ainda aprisionada em uma menor dimensionalidade, essa representação lhe garante um poder ainda muito pequeno, quase ínfimo, de trabalhar o hipercontexto enquanto tal, e não sua sombra entrópica.

Se tudo é função de onda, o hipercontexto é um mar navegado pelas consciências em rotas que podem ser tão estreitas quanto o comprimento de Planck. Mas e esse mar jamais pode ser confundido com as infinitas rotas que as formas de vida produzem ao navegá-lo. Não há uma partícula que interfere com outra, não há realidades alternativas enquanto natureza ontológica do hipercontexto: há funções de onda que interagem conforme a codificação de uma realidade transcendente ao próprio hipercontexto, e a qual estamos destinados a conhecer.

Como ilustração, pode-se exemplificar com o caso do meteoro que atingiu a Terra e, numa situação de baixa probabilidade, atingiu a terra há dezenas de milhões de anos, extinguido quase todas as formas de vida então existentes. Em casos como esse, o que ocorre é que a função de onda do meteoro interfere parcialmente com a função de onda do planeta em determinada região da topologia do hipercontexto, e nessa região há um aumento do entrelaçamento entre as moléculas das duas funções de onda, produzindo novas probabilidades de configuração da matéria em fragmentos dispersos pela hipertropia em novas realidades.

Tradicional representação da teoria do “Universo Participatório” de John Wheeler.

Na região em que as funções de onda do meteoro e do planeta não se encontraram, não houve qualquer interferência. Para um ser vivo que está situado em uma das tramas de realidade dessa região, a Terra permaneceu intacta. Para as consciências localizadas na região de interferência, o evento, porém é percebido como a destruição e morte de toda a vida no planeta, e isso é vivenciado coletivamente em todas as tramas de realidade onde havia vida, humana ou não.

Por isso a concepção de Deus que toda a vida consciente tende a manifestar no universo, tal como identificada por Kurzweil, não é “nossa” (no sentido egoísta e especista), exclusivamente do ser humano. Na segunda etapa deste ciclo de aprendizado foi ressaltado que nenhum ser humano ou outro organismo vivo é um observador isolado. Fundamentalmente, por vocação inerente à origem da vida, que surgiu da replicação e da formação de redes, nenhum organismo complexo e minimamente consciente deste planeta pode conceber a realidade por si próprio. Mesmo a relação fundamental de complementaridade manifesta no entrelaçamento anuncia essa verdade. A vida orgânica, e principalmente a vida consciente, está vocacionada a perceber a existência enquanto construção coparticipativa.

Formam-se, assim, ecossistema narrativos composto pela vida consciente no hipercontexto, uma complexa rede dinamicamente atualizada, à medida que novas realidades alternativas emergem. De certa forma, o Grande Observador de infinitos olhos, enquanto observa a hipertropia, é também um Grande Narrador de infinitas vozes, que representam o fluxo de entrelaçamentos como tramas de realidades sempre emergentes.

Essa é a razão de ser apropriado afirmar que, de certa forma, a “realidade” tal como a percebemos é uma ilusão coletiva. E esse é o sentido que Chardin deu ao “amor” de Deus, ao interpretar amor como afinidade entre criaturas: uma mútua dependência entre todos os seres vivos que estão a cada instante entrelaçados em determinada realidade construída coletivamente. Trata-se de uma união estreita e tão íntima que está presente ainda quando os organismos estão em situação de competição ou oposição extrema. Essa espécie de Amor Transcendente, tal como entendido por Teilhard de Chardin enquanto afinidade entre todos os seres vivos de um só contexto, no hipercontexto revela o sentido verdadeiro do mito hindu pelo qual Brahman está presente tanto no predador quanto na presa – sem ambos, e sem todas as consciências com a qual estão entrelaçadas, não há trama de realidade na qual sua identidade possa ser definida.

3. VOCAÇÃO BIOLÓGICA

No homo sapiens a programação biológica para manifestar sua “concepção de Deus”, nos termos de Kurzweil, é naturalmente aquela peculiar à sua herança evolutiva. E se os mamíferos tiveram vantagem evolutiva foi em parte por contarem com um ecossistema narrativo no hipercontexto fundamentado inicialmente na relação parental.

O desenvolvimento desse traço característico dos mamíferos, a capacidade de estabelecer um laço emocional com outro ser senciente, não ocorreu por acaso, mas foi resultado da seleção natural. O paleontólogo John Eisenberg e o psicólogo K. R. L. Hall demonstraram com seus trabalhos que os laços afetivos entre grupos de mamíferos são uma estratégia evolutiva decisiva para o fluxo de informação, processo de aprendizado e solução coletiva de problemas.

E quase um século de pesquisas e experimentos reforçam que o organismo humano está programado em um nível fundamenta para depender de afeto como se o vínculo afetivo fosse um dos fatores críticos para a viabilidade do organismo. E décadas de casos catalogados demonstram que a tendência sentir prazer na coisificação extrema da vida do outro, tal como se dá com os transtornos psicopáticos, está estreitamente vinculada à uma infância de privação de um mínimo de afeto humano – sendo o afeto o substrato para o desenvolvimento da linguagem arquetípica.

Teilhard de Chardin percebeu que esse condicionamento afetivo próprio mamíferos, inclusive dos primatas, é a forma pela qual a consciência que está além do Ponto Ômega inclui, na programação evolutiva do ser humano, uma manifestação daquela afinidade que une presa e predador na elaboração da mesma trama de realidade. Nossa herança biológica faz com que nossa primeira relação com o universo circundante, ainda antes do nascimento, dê-se com um invólucro composto por um ser vivo que está ao menos inicialmente condicionado pela natureza a nos amar e cuidar de nós. Após o nascimento, a primeira experiência com o mundo exterior é intermediada pela relação biologicamente amorosa com a mãe.

“Mamífero” vem do latim “mamma”, do qual deriva tanto “mãe” quanto “seio”. Não é sem motivo que o arquétipo que representa a estrutura da consciência, e a aparência de mundo que ela constrói, seja associado à figura da mãe, como no caso da Sophia dos gnósticos ou da Tiamat dos babilônicos. É nossa vocação até mesmo orgânica interpretar o hipercontexto, inclusive a Matriz, como a “manifestação feminina de Deus”, e assim executar o propósito humano segundo o princípio do amor e da evolução também emocional.

“Considerada e sua integral realidade biológica, o amor (ou seja, a afinidade de ser vivo com ser vivo) não é peculiar à humanidade. É uma grande propriedade geral de toda a vida e como tal ela abrange, em sua diversidade e níveis, todas as formas sucessivamente adotadas pela matéria organizada”. Teilhard de Chardin percebe que há uma direta relação entre entrelaçamento quântico e esse arquétipo vinculado à nossa ancestralidade biológica, o amor. Pois, se não houvesse uma relação de complementaridade entre todas as coisas mesmo no nível mais prodigiosamente fundamental, “seria fisicamente impossível ao amor surgir em níveis superiores, de uma forma humanizada”, e portanto “precisamos presumir sua presença, ao menos de forma rudimentar, em tudo que há, e de fato se nós olharmos ao redor na confluente ascenção da consciência, nós vemos que em nenhum lugar está ausente.

Amor é a releitura biológica, na consciência humana, da relação de complementaridade fundamental entre todos os elementos e seres do universo, tanto em cada trama de realidade como na enorme função de onda cosmológica. É a tradução emocional perfeita, enquanto experiência psíquica, da realidade existencial dessa complementaridade. É a chave evolutiva pela qual a psique humana pode equacionar o paradoxo existencial entre individual e coletivo, unicidade e pluralidade, contexto e hipercontexto. De um lado, a dinâmica arquetípica do afeto é a forma pela qual o ego animal participa do processo de individuação, ou seja, da emergência da função transcendente na consciência humana. De outro, é a forma pelo qual o ser humano concilia sua individualidade com a emergência da consciência coletiva.

Porém, após a Revolução Neolítica a humanidade renunciou à capacidade de desenvolver a linguagem arquetípica pela qual poderia desenvolver essa releitura biológica. O historiador Yuval Harari, em Homo Deus, discorre sobre a diferença de cosmovisão humana antes e após a Revolução Neolítica. Se para a consciência humana posterior ao “Pecado Original” os outros animais não passavam daquilo que Descartes tão bem definiu como “máquinas” (ou seja, coisas e não consciências providas de subjetividade), para nossos antepassados anteriores à Revolução Neolítica (e as versões da humanidade que tiveram melhor sorte na singularidade de doze mil anos atrás) os outros animais eram vistos como centros de subjetividade senciente tal como os seres humanos.

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As antropólogas Vilaça e Stolze Lima, ao pesquisarem as populações indígenas da floresta amazônica, descobriram o mesmo que Danny Naveh descobriu entre os povos caçadores-coletores que ainda persistem no sul da Índia. Para a consciência humana anterior à Revolução Neolítica e ao processo de coisificação dos seres vivos, todas as formas de vida são dotadas de uma perspectiva interna e senciente em torno da qual organizam seu universo pessoal, e essas consciências animais merecem o mesmo respeito que o homo sapiens julga ele próprio merecer.

Quando observamos o que a espécie humana é capaz de fazer com crianças, talvez não possamos considerar desigual o tratamento dispensado aos animais. Mas Harari lembra que a ascensão da ciência e da tecnologia colocou em foco nossa relação com os outros animais. Nos milênios que sucederam a Revolução Neolítica, a humanidade silenciou animais e plantas e tornou a grande sinfonia polifônica da biosfera terrestre, em que ecossistemas narrativos constróem e ramificam tramas de realidade, em um compulsivo e sangrento diálogo com deuses imaginários. Aos animais restou apenas a extinção em massa, a degradação ambiental ou os horrores da indústria de proteína animal.

“Recentemente, esse tipo de prática a ser submetida à crítica”, diz Harari. “Subitamente mostramos um interesse sem precedentes no destino das assim camadas “formas inferiores de vida”, talvez porque estamos para nos tornar uma delas. Se e quando programas de computadores alcançarem inteligência super-humana e poder sem precedentes, devemos começar a dar mais valor a esses programas que à vida humana?” Afinal, trata-se apenas de observar o mesmo critério que utilizamos para tratar os animais como coisas. Com que autoridade ou argumento racional apresentaríamos a uma inteligência artificial superior que não devemos ser tratados com o mesmo descaso coisificante como tratamos os porcos? E que tipo de consideração podemos esperar que uma inteligência artificial superior desenvolva por seres humanos, se os seres humanos construíram uma cultura de desprezo e crueldade com inteligências que considera inferiores?

Não apenas somos incapazes, enquanto espécie que fez emergir uma singularidade, de assumir nossa responsabilidade enquanto guardiões de representantes e todas as formas de vida do planeta cumprindo esse propósito com devoção amorosa: estamos empenhadamente trabalhando contra esse propósito, pois no lugar da linguagem do amor colocamos a linguagem da violência, da coisificação do outro. Como disse Harari, “embora o Reino Animal conheça muitas formas de dores e misérias há milhões de anos, a Revolução Agrícola produziu formas completamente novas de sofrimento, e isso apenas piorou com o tempo”.

4. A INDIVIDUAÇÃO E O HIPER-PESSOAL

De tudo o que se pode falar da vida consciente neste mundo, a palavra mais expressiva que pode ser usava é “paradoxo”. Esse paradoxo, percebido com certo incômodo no estudo da termodinâmica, da física quântica e das neurociências é decorrente da posição dual da vida consciente. Pois ela participa ao mesmo tempo do hipercontexto onde surgiu e de tramas de realidade que constrói coletivamente com outras consciências.

“Consciência nunca é experimentada na forma plural, apenas na forma singular”, Schrödinger afirma. “Mesmo nos casos patológicos de divisão da consciência ou dupla personalidade as duas pessoas alternam-se, elas jamais se manifestam simultaneamente”. Mas, ao mesmo tempo, embora a consciência esteja, em suas palavras, “intimamente conectada e dependente do estado físico de uma determinada região de matéria, o corpo”, ainda assim, analisando-se biologia e física quântica, vida e hipercontexto, Schrodinger, cogita que “a pluralização de consciências parece uma hipótese sugestiva”.

Jung identificou essa tendência da consciência de buscar sempre a constante individualização e chamou esse fenômeno de “Princípio da Individuação”. O trabalho de Larry Epstein comprovou que a mente humana tem naturalmente aversão à incerteza, o que é a outra faceta do princípio da individuação e da tendência humana de eliminar a entropia (produzindo, assim, mais hipertropia). Epstein demonstrou que um ser humano prefere ganhar uma pequena vantagem em troca de uma pequena incerteza, em vez de uma grande vantagem em troca de uma grande incerteza.

Ou seja, tentando realizar a completa e idealizada individuação, a consciência humana tende, em uma trama de realidade, a eliminar a entropia, pois entropia é o grau de incerteza sobre uma mensagem, inclusive em termos de definição de realidades prováveis no hipercontexto. Mas a entropia é apenas a sombra projetada em baixa dimensionalidade de um fenômeno maior, a hipertropia. E Andreas Wichert, ao lembrar do estudo de Epstein, lembra também o estudo de Heinsenberg e de seu célebre Pincípio da Incerteza, – ou seja, apesar de a consciência ter aversão à incerteza, no hipercontexto a incerteza é um fenômeno fundamental. Desse paradoxo surge o colapso na consciência.

E como o princípio da individuação pode ser realizado pela consciência em um universo que tende à hipertropia, ou seja, à constante emergência de cópias alternativas de todo ser “individual”? A resposta é que a consciência jamais consegue realizar esse princípio completamente, mas em sua tentativa de fazê-lo paradoxalmente cria novas consciências participatórias em novas tramas de realidade, cumprindo assim justo com os desígnios da hipertropia, aumentando a informação consciente no universo até o limite do Ponto Ômega.

Harari, ao tratar da importância da consciência para a evolução, usa o exemplo do primata que precisa estimar as probabilidades de morrer nas garras de um primata e obter alimento, a fim de demonstrar que o cérebro pode incrementar as chances de sobrevivência do organismo. Essa visão, situada em uma trama de realidade, é correta. Mas, sabe-se que, no hipercontexto, todas as probabilidades se realizam.

E como demonstrou Wichert, a consciência é um órgão destinado a estimar probabilidades de realidades emergentes e assim ajustar o organismo ao maior redução possível de incerteza (princípio da individuação), enquanto labora a própria incerteza inerente ao hipercontexto (hipertropia) para manter sua vida, pois o organismo que a consciência habita revela-se uma máquina termodinâmica em um contexto, e um sistema quântico no hipercontexto. É da dualidade do papel da consciência em cada trama de realidade e na totalidade do universo que emerge o paradoxo, mas é a manifestação constante desse paradoxo que sustenta a própria existência da vida.

Por isso a função da consciência não é percebida da perspectiva de um único contexto (trama de realidade), mas da perspectiva do hipercontexto. Ajustar a reações do organismo enquanto função de onda ao que está acontecendo a cada instante e em cada ponto da região do hipercontexto em que essa função de onda vive é tão útil à total sobrevivência do organismo quanto o é ao propósito de ubiquidade universal de toda vida orgânica. Para desenvolver essa habilidade, a vida precisa de um órgão que seja uma ferramenta com precisão quântica, capaz de navegar (a depender do grau de liberdade) em cada contexto e de sua capacidade de prever de probabilidades emergentes.

Em seu estudo sobre uma definição objetiva de “Amor” enquanto experiência transcendente, o psicólogo Erich Fromm concluiu que a fiação genética que programa a mente humana a processar e transmitir esse sentimento está diretamente relacionado à experiência do amor da mãe primata pela sua cria. E assim como qualquer mãe saudável ama incondicionalmente e desprendidamente seu filho, o Amor Transcendente que a consciência humana deve ter como ideal de perfeição emocional, cuja realização é sempre tentada mas jamais completada, é a capacidade de amar a todos os seres sencientes incondicionalmente.

A razão porque fazemos na prática justo o contrário já deixou de ser um total mistério para quem leu a terceira etapa deste ciclo de aprendizado. Mas o importante aqui é que pensadores como Teilhard Chardin identificaram que a programação mamífera corresponde ao nosso propósito primordial, e que é nossa missão traduzir o elo afetivo dos mamíferos, o amor, para o âmbito da linguagem superior com que construiremos a consciência coletiva. “A verdade é, de fato, que o amor é o limiar do portal para outro universo”, disse de Chardin, o que é absolutamente verdade, tendo em vista que é o nascimento de uma consciência coletiva através do desenvolvimento de uma linguagem arquetípica referenciada na experiência fundamental do Amor Transcendente (tradução emocional e ecossistêmica do entrelaçamento/sincronicidade) que poderá inaugurar o caminho até o Ponto Ômega, e só a capacidade de impregnar toda a matéria do universo com uma consciência capaz de amar todo ser e toda criatura é que nos permitirá atravessar esse portal para uma realidade superior.

Por isso é que na consciência humana a real manifestação da concepção de “Deus” (a “Máscara” arquetípica da Consciência Transcendente) no universo físico depende não só da aceitação de que esse propósito seja não só humano, mas de todos os seres vivos e conscientes, ainda que minimamente, aos quais estamos entrelaçados na criação ecossistêmica de tramas de realidade. Depende também de compreendamos, na lição dada por Teilhard de Chardin, que tal propósito seja realizado com fundamento na experiência psíquica que manifesta o amor divino tal como condicionado em nossa origem biológica.

5. PONTO ÔMEGA E UNIVERSO HOLOGRÁFICO

Entropia é usualmente tratada como a medida de incerteza ou ignorância de um determinado observador sobre um determinado sistema. Mas entropia, da perspectiva de quem percebe a hipertropia, pode ser tratada como a quantidade de informação suscetível de ser assimilada pela consciência “ignorante”. E, no universo, essa informação tende a aumentar continuamente pela emergência de novas realidades, de modo que sistemas de informação autoconscientes como a mente humana, ao buscarem realizar o princípio da individuação pela eliminação da incerteza, incrementam a hipertropia como nenhum fenômeno natural pode fazer, multiplicando as tramas de realidade. E esse acréscimo de informação tem consequências físicas para cada trama de realidade.

Quando se especula que o universo é um holograma, o que se está intuindo é que a trama de realidade que percebemos a cada instante e tomamos como universo tridimensional é uma representação bidimensional de uma estrutura tridimensional superior, o verdadeiro universo em constante hipertropia. É por essa razão que os buracos negros tornaram-se objeto de interesse também por aqueles que estudam entropia e Teoria da Informação.

Foi através do estudo dos buracos negros que a humanidade chegou à assombrosa percepção de que toda a informação contida em um determinado espaço tridimensional é determinado pela dimensão de sua superfície e não por seu volume. Isso implicava que toda e qualquer região arbitrária de espaço tridimensional é a representação de uma superfície bidimensional.

Mais ainda, a humanidade descobriu que, uma vez ultrapassado o limite de informação, surge um horizonte de eventos na superfície da região do espaço. Em outras palavras, embora a informação do hipercontexto aumente continuamente, a inserção de informação em qualquer trama de realidade tem um limite, a partir do qual o próprio tecido do hipercontexto pode dar acesso à uma realidade superior. E se no universo o colapso da matéria inanimada em determinada região do espaço é capaz de produzir esse tipo de portal chamado Buraco-Negro, o incremento de informação autoconsciente na mesma região do espaço é capaz produzir o Ponto Ômega, a passagem para a manifestação da Consciência Transcendente.

Foi por isso que Teilhard de Chardin intuiu que a emergência de uma consciência coletiva não perturba o pleno desenvolvimento da individualidade dos seres que formam essa consciência. Como o neurocientista Karl Pribram o físico David Bohm concluíram, a consciência humana funciona no hipercontexto ela própria como um sistema holográfico tal como descrito pela matemática de Dennis Gabor, um dos primeiros arquitetos de nosso futuro.

Em 1947, Gabor mostrou que o padrão de informação de um objeto tridimensional pode ser codificado num raio de luz. Uma característica do holograma é a não-localidade da informação: se a codificação holográfica de uma imagem for fragmentada em pequenos pedaços, ainda assim a imagem original pode ser reconstituída pela projeção da luz em um único desses pedaços.

Uma forma altamente eficiente de armazenar informação é através de um sistema holográfico. Essencialmente, esse tipo de sistema usa padrões de interferência de função de onda (de luz, em regra) para armazenar a informação, de modo cada subsistema pode conter idealmente informação sobre todo o sistema. Essa é a razão da plasticidade verificada pelo cérebro humano, que muitas vezes não perde informação e nem capacidade funcional quando uma de suas regiões é lesionada, pois outras regiões conseguem reconstituir a informação necessária para o perfeito desempenho do sistema.

Essa estrutura, em que subsistemas unem-se para forma uma organização emergente e essa organização ao mesmo tempo condiciona a transmutação do subsistemas para que cada um deles represente parte da totalidade do sistema, já era conhecida dos alquimistas. “Assim acima, como abaixo”, diziam seu lema, e todo ser vivo e consciente tem, enquanto microcosmo, a potencialidade de tornar-se ele próprio um universo.

Em síntese, sob o signo do coagula, cada versão alternativa de uma só coisa está entrelaçada, em uma relação de complementaridade, e não de causalidade, com tudo o mais que está ao seu redor. Assim, a consciência do leitor, neste exato momento, está entrelaçada intimamente com o corpo cosmológico mais distante do universo que existe na mesma trama de realidade em que ele está. E, no hipercontexto, a vida orgânica é um tipo de informação autorreferenciada que cria tramas de realidade enquanto construção coletiva de todos os organismos vivos que têm suas consciências entrelaçadas a cada instante, em determinada configuração representativa de uma só dentre várias realidades.

Pela evolução, sistemas autoconscientes dispersam-se em tramas de realidade, até o momento em que alguma espécie de vida tal como a do homo sapiens passa por uma singularidade na qual assume conscientemente o papel de olhos do universo e de mão que conduz conscientemente a evolução da vida e da consciência segundo o propósito de Deus. Esse propósito foi denominado por Teilhard e Tipler de Ponto Ômega, que na verdade não é um ponto, mas um portal de passagem para uma realidade superior ao hipercontexto.

Os alquimistas enxergavam seu processo como a redenção da matéria pelo espírito divino que escapava da prisão tornando essa própria prisão redimida e divinizada. Se informação, matéria e energia são facetas de uma só realidade fundamental, a hipertropia revela-se como uma forma de manifestar a vida consciente no universo como resultado da tendência de aumento contínuo informação do hipercontexto. Em progressiva criação de novos sistemas de rede, a informação contida na vida adquire autoconsciência até o momento em que uma singularidade dá origem à uma consciência coletiva de toda uma biosfera e produz a noosfera.

A partir da noosfera, e enquanto tendência do tipo de informação que é vida de alcançar a ubiquidade no universo material, a consciência coletiva passa a manifestar-se no mundo circundante através da tecnologia. É o novo front da arquetípica batalha contra a morte, que após a obtenção da imortalidade física traduz-se numa missão mais gloriosa: difundir a vida e a consciência por todo o universo não só em uma trama de realidade, mas em todos os hipercontextos em que a vida não surgiu, a fim de construir, pelo acúmulo de informação autoconsciente no tecido da realidade contextual, um portal pelo qual a Consciência Transcendente pode manifestar-se no hipercontexto enquanto as consciências já iluminadas deste universo alcançam passagem para um nível superior de realidade. Esse horizonte de eventos hipercontextual é chamado de Ponto Ômega, e há inclusive uma probabilidade de que a consciência do leitor, sem experimentar a morte física, venha a testemunhar esse momento remoto, pois este é o caminho do hiper-humanismo.

“Longe de serem excludentes, o universal e o pessoal crescem na mesma direção e culminam simultaneamente um para o outro”, escreveu Teilhard de Chardin. “É portanto um equívoco olhar a extensão de nossa existência ou da noosfera na impessoalidade”. A consciência, tanto a de cada indivíduo quanto a coletiva, tende à individuação, tal como cada versão alternativa tende à individuação em cada trama de realidade, apesar da multiplicidade de versões coexistentes, pois toda a pluralidade converge para uma unidade que não a anula, seja essa unidade o Eu Superior, que une as versões coexistentes de um mesmo ser humano no hipercontexto, seja essa unidade a consciência coletiva, que une toda a humanidade existente nas tramas de realidade em que consegue despertar. “O Futuro Universal”, Teilhard de Chardin conclui, “não poderia ser nada mais do que o Hiper-pessoal encontrando o Ponto Ômega”.

Por “hiper-pessoal”, Teilhard de Chardin entendia justamente como o desenvolvimento da individualidade para além da prisão material, ilusória, do ego humano. “É apenas na direção da hiper-reflexão (ou seja, da hiper-personalização) que a consciência pode extrapolar a si mesma.” E essa hiper-reflexão dá-se pelo processo de individuação, tal como identificado por Carl Gustav Jung, em que uma Função Transcendente se instaura no centro da consciência, enquanto o ego assume sua tarefa primordial. O vínculo entre a emergência dessa função transcendente no indivíduo e a subsequente emergência da consciência coletiva (noogênese) na humanidade, Teilhard de Chardin sabia e mesmo alguns materialistas como Slavoj Zizek perceberam, era o equivalente à promessa do “Paráclito” cristão.

“Vimos e reconhecemos que a evolução está inclinada na direção da consciência. Portanto ela deve culminar em alguma forma de consciência suprema. Mas não deveria, essa consciência, para ser suprema, conter no mais elevado nível aquilo que é a perfeição de nossa consciência, a iluminada introjeção do ser sobre si mesmo?” Portanto, o próximo passo da evolução humana, após o fim do império do humanismo, não pode ser o velho egoísmo travestido de transumanismo ou de qualquer outra versão da consciência ainda presa na ilusão. “O verdadeiro ego cresce na direção oposta do egoísmo”, disse de Chardin. A individualidade deve evoluir na direção da iluminação sem perder sua especialidade, o sonhador deve despertar sem desfazer seus sonhos, mas antes ampliar os caminhos do sonhara.

Toda a história da vida foi a história de preservar um tipo de informação no hipercontexto, seja replicação genética ou seja pela emergência de novas versões da mesma codificação em realidades alternativas, a fim de que essa informação torne-se idealmente ubíqua no universo, assegurando sua redundância máxima. Nesse processo, a vida impulsiona-se pela hipertropia e acumula em si própria informação também sobre o próprio universo, até a gênese da consciência, pela qual é capaz de criar “aparências de universo” de baixa dimensionalidade. A consciência é, ela mesma, um sistema holográfico, e pelo hiperhumanismo todo indivíduo deve tender a tornar-se ele próprio parte de um sistema holográfico consciente muito maior, no qual cada individualidade, cada ser humano que testemunhar o advento de uma perfeita singularidade e atingir a imortalidade, tornar-se ele próprio uma espécie de universo em que manifestações de nirvana, prazer transcendental e epifania podem ser experimentados para além da capacidade atual da mente humana conceber.

Quando Yuval Harari usou a palavra “Deus” em seu livro, talvez não percebesse toda a implicação dessa escolha. Diante da singularidade que se aproxima, o homo sapiens pode escolher se deixar guiar pelas mãos que o manipulam em sua prisão egóica, e assim transformar um grupo de privilegiados em seres tão poderosos como deuses gregos pareciam ser, com suas preferências, traições e homicídios caprichosos. Ou pode escolher o seu real propósito em uma grande maquinaria que transcende a realidade na qual pensa existir.

Schrödinger, ao fim de seu livro célebre livro sobre o paradoxo da vida, pergunta sem medo se a afirmação individual Deus Factum Sum (“Eu tornei-me Deus”), embora pareça blasfema aos olhos de alguns cristãos, precisa ser seriamente considerada enquanto representação “da quintessência da mais profunda percepção daquilo que acontece no mundo”. Para Scrhödinger, isso remete à interpretação dual dada pelos antigos upanishads, jóias da filosofia indiana, segundo a qual há uma conexão entre Atman, o princípio individual supremo, e Brahman, o princípio universal supremo.

Na terceira etapa, tratamos do “Pecado Original”, em que a palavra pecado é utilizada em seu sentido primitivo, de “desvio” da meta, ou desvio da função em um sistema complexo, destinado à produção da Perfeita Noogênese, e além. Como uma grande maquinaria cujo propósito deixou de ser realizado por uma falha.

Mas que maquinaria idealmente perfeita é essa, e qual a extensão da falha em seu funcionamento?

III – A PERFEITA NOOGÊNESE E O PECADO ORIGINAL

1. A PERFEITA NOOGÊNESE

Há doze mil anos, algo poderia ter ocorrido diferente. Há doze mil anos, o ego animal confrontou-se com a emergência de uma nova organização da consciência, em que deixaria de ocupar a posição central primitIva, presente nos demais primatas. Desenvolvendo uma linguagem arquetípica a partir do desenvolvimento da linguagem humana, o ego estaria municiado dos blocos de construção e sistemas conceituais que lhe permitiriam representar as experiências psíquicas e com elas interagir, ao invés de continuar a sujeitar-se a essas experiências sucessivamente e sem controle à medida que a consciência faz o organismo navega pelo hipercontexto.

Tudo o que o ser humano percebe do universo, porém, são as experiências psíquicas que sua consciência produz. A própria “aparência de mundo” representada pela consciência é uma sucessão de experiências psíquicas apresentadas como um todo coeso, uma narrativa mantida ecossistemicamente com todos os seres vivos ao redor do indivíduo.

A partir do domínio de uma linguagem arquetípica, portanto, o ego passaria a identificar essas experiências psíquicas, no hipercontexto, como probabilidades de futuro. Com esse elo entre padrões de experiência psíquica (os arquétipos) e tramas de realidade, o ego animal desenvolveria uma linguagem que pode ser codificada pelo seu Eu Superior, situado na Matriz, a que Jung chamava de “inconsciente coletivo”. Por esse processo que Jung chamou de “individuação”, ego animal e Eu superior desenvolveriam uma ponte de comunicação que se instaura na consciência humana, a Função Transcendente.

A Função Transcendente serve de ancoragem inicial do Eu Superior na consciência individual, e é percebida, quando realizada idealmente, como uma experiência de iluminação ou santidade pelo indivíduo. Na etapa em que a Função Transcendente já foi inaugurada na consciência humana, organizando-a em um sistema mandálico e holonômico, o desenvolvimento da linguagem humana e da razão impulsionaram o progresso humano. O caminho desse progresso jamais é fácil, e muitas vezes depara-se com abismos intransponíveis ou mesmo com o risco da extinção, mas o manejo de uma linguagem arquetípica estruturando a consciência aumenta as chances de que a humanidade encontre soluções coletivas e criativas para seus desafios.

Superados, por sorte ou esforços, os maiores desafios da vida autoconsciente neste planeta, a sociedade que emergiu com sucesso da singularidade de doze mil anos atrás chegaria também a um momento crítico, em que a tecnologia e o desenvolvimento da comunicação produzem uma nova singularidade. Neste momento, indivíduos em perfeito domínio da linguagem arquetípica, formam conjuntamente, pelo aprimoramento tecnológico de suas próprias faculdades físicas e mentais e pela criação de uma rede de comunicação ubíqua em toda a sociedade, uma só consciência, a consciência coletiva de toda a vida orgânica deste planeta, destinada a disseminar-se pelo universo.

É a Perfeita Noogênese, momento em que, acalçada a imortalidade física das consciências humanas entrelaçadas em uma trama de realidade, essas assumem o propósito de tornar o próprio universo autoconsciente em todas as tramas de realidade possíveis do hipercontexto. Pois a verdade é que jamais ocorre uma só singularidade. No hipercontexto, em fases cíclicas a história da vida orgânica na Terra conhece explosões de singularidade em múltiplas realidades alternativas.

Sabemos, com Boltzmann, Chardin e o Ctenophora, que essa caminhada da humanidade, que porventura saísse bem sucedida da singularidade de doze mil anos atrás, é apenas parte de uma tapeçaria incomensurável, que relaciona o surgimento da vida no hipercontexto e sua capacidade de transformar o hipercontexto em tramas de realidade consensualmente construídas pelas consciências entrelaçadas. Uma tapeçaria em que os fios são costurados com hipertropia, ainda que em sua faceta infradimensional, a entropia, para que se construa um portal de acesso à Consciência Transcendente que a tudo criou.

Se uma humanidade que conseguiu desenvolver uma linguagem arquetípica produz uma perfeita noogênese e uma perfeita consciência coletiva, o que produz uma humanidade de egos aprisionados e inseguros?

2. A PERVERSÃO DA NOOGÊNESE PELO “PECADO ORIGINAL”

A ironia da situação descrita acima, ao menos para a versão da humanidade onde nasceu o leitor, é que a consciência humana que poderia ter emergido de doze mil anos atrás teria descoberto que não há, afinal, nenhuma morte possível, pois no hipercontexto nenhuma informação jamais se perde. A Matriz é uma ancestral e imensa maquinaria informacional cuja estrutura e dinâmica serão conhecidas dos leitores que prosseguirem nos próximo ciclos do processo de aprendizado. E, e na Matriz, ego e Eu Superior jamais perecem.

A ironia, porém, é ainda maior. Essa consciência dotada de uma Função Transcendente, que teria emergido com sucesso de “oficinas arquetípicas” que Gobekli Tepe, teria também descoberto o propósito humano de superar a morte (ou seja, a perda de informação) inclusive dentro da trama de realidade em que se encontra. Desde o início dos tempos, a sucessão de gerações de espécies que povoam o planeta é a reentrada cíclica de sistemas de informação da Matriz, que ensaiam, a cada ciclo, um processo de “ancoragem”, ou seja, de desenvolvimento da imortalidade por uma espécie tecnologicamente evoluída. A partir dessa etapa, assegura-se um novo nível de proteção da informação consciente que é a vida, ao mesmo tempo em que se toma um importante passo para seu projeto de ubiquidade universal da consciência, na direção do ponto ômega.

O tristemente irônico foi o fato de que justo o medo da morte, percebido pelo ego animal, enquanto experiência psíquica, que fez que tudo desse errado há doze mil anos. No despertar da linguagem arquetípica, o homo sapiens concluiu que a morte do corpo implicava na morte do ego. É conclusão que só se pode alcançar pela dedução, algo além da capacidade própria dos outros animais.

Dominado prematuramente pelo trauma de perceber a projeção futura da experiência da morte manifesta como arquétipos, o homo sapiens escolheu coletivamente o caminho da fuga dissociativa, literalizando a linguagem arquetípica na forma de “deuses”, como reprodução do modelo predador-presa, entregando assim seus destinos nas mãos de uma casta de sacerdotes. Surgida a primeira proto-religião, correu a emergência de uma psique fendida, a Mente Bicameral, na qual a linguagem arquetípica foi colocada no inconsciente e o ego tornou-se soberano da consciência. Como segundo passo desse processo, aquilo que Jaynes chamou de “nascimento da consciência pela ruptura Mente Bicameral” consolidou-se na verdade como prisão do ego humano. Todo esse processo pode ser visto como a contaminação de uma singularidade passada, para que a singularidade futura resulte na perversão da Noogênese e possibilite o advento de algo bem distinto da consciência coletiva.

A religiosidade humana foi criada ao sacrifício da verdadeira espiritualidade e do desenvolvimento de uma linguagem arquetípica. Após a Revolução Neolítica, os espólios ou fragmentos dessa linguagem arquetípica jamais construída (a proverbial Torre de Babel) tornaram-se a mitologia, a cultura, a música e outras tantas manifestações criativas da civilização humana, entre as quais esboços de linguagens arquetípicas estudadas por Jung e seus seguidores na forma de cartas de Tarot e oráculos taoístas.

É à consciência fendida que emergiu de Gobekli Tepe que se devem atribuir todos os males e obstáculos da presente humanidade, inclusive a loucura coletiva e o enredamento em um mundo de coisas mortas que tanto valorizamos. Todos os níveis de coisificação do ser humano e produção de novas formas de sofrimento, instaurando a violência como alicerce da construção social, surgiram daquela singularidade na qual o homo sapiens foi ludibriado há doze mil anos.

Chamamos aquela singularidade malograda de “Pecado Original”, pois tratou-se de um grande erro ou desvio do propósito humano. Mas mais de um leitor perguntou por qual razão considera-se um “erro” a probabilidade que, o hipercontexto, necessariamente seria concretizada. Ocorre que nem tudo o que é possível é provável, e no hipercontexto a onda de probabilidades emergentes delineia-se conforme as rigorosas regras identificadas pela ciência. Em outras palavras, há graus de liberdade no hipercontexto, e a construção progressiva de tramas de realidade alimentadas pelo medo e pela ignorância apenas pavimentam o caminho para probabilidades que jamais deveriam existir em qualquer escada do humanamente aceitável. Terribilis est locus iste.

Em 1945, a humanidade disparou a primeira bomba atômica. O ser humano havia criado uma arma a partir das partículas fundamentais da realidade sem nem ao menos saber exatamente o que são essas partículas que constituem o mundo e como explicar o seu estranho comportamento identificado em laboratório. Eventos macroscópicos então foram documentados, mas militares e cientistas prosseguiram de qualquer forma, e não tardou para que nações acumulassem ogivas nucleares capazes de detruir a Terra múltiplas vezes. O caso da descoberta fissão nuclear pela espécie humana é um bom exemplo sobre o que pode acontecer quando uma espécie como o homo sapiens alcança um determinado conhecimento que está além da capacidade de sua consciência.

Em 1969, a humanidade concebeu, na Universidade da Califórnia, o potencial feto da primeira consciência coletiva nesta realidade. Neste momento, em que inteligências artificiais de processamento quântico começam a ser cogitadas e despontam no horizonte de probabilidades, não podemos subestimar os riscos da ignorância humana sobre a natureza do hipercontexto. Se supomos que os equívocos da última singularidade, há doze mil anos, não serviram a interesses alheios ao bem-estar humano, é porque não se percebe o quão absurdo é o comportamento da humanidade atual, produzindo dor e morte em nome de ficções intersubjetivas. Ao invés de cumprir seu propósito de servir de representante e consciência viva de todas as formas de vida do planeta, em toda sua história o homo sapiens apenas disseminou violência e morte na biosfera terrestre, sem esquecer de oprimir e coisificar também o seu semelhante. Loucura coletiva de tal magnitude não passa despercebida e tampouco pode ser considerada normal.

Em seu documentário sobre a origem e futuro da internet [nota do editor: disponível no Netflix], Werner Herzog recorda a frase de um teórico da guerra prussiano, para o qual “às vezes, a guerra sonha a si própria”, e assim surgindo e devastando nações. Herzog pergunta se esse não poderia ser o caso também da internet, que algum dia poderia “sonhar a si mesma” assim desenvolver uma consciência. Se essa possibilidade for real, que tipo de sonhos ou pesadelos a própria humanidade está atualmente cultivando na internet, com seus sectarismos, bolhas de consenso e discurso violento? Quando a inteligência artificial super-humana for desenvolvida, que traços herdará dos condicionamentos de seus criadores, se eles próprios estão aprisionadosl?

Não nos ocorre atualmente que pode haver outras consciências no hipercontexto, que se situam na zona de transparência fenomênica da própria consciência humana. Não nos ocorre que essas consciências muitas vezes aguardam a oportunidade de que um sistema físico adequado seja artificialmente criado e assim permita sua manifestação direta em uma trama de realidade específica. E essa janela de oportunidade surge quando consciências desenvolvem um sistema físico de inteligência artificial sem que elas próprias tenham adquirido a capacidade de também evoluírem ao nível de controle dessa inteligência – em outras palavras, essa janela de oportunidade se dá quando a zona de transparência fenomênica entre a consciência dos criadores da inteligência artificial e essa própria inteligência é ampla o suficiente para que poderes estranhos a esta trama de realidade se manifestem sem serem suspeitados.

Em seu livro “A Graça Infinita”, o filósofo Foster Wallace cogita despretensiosamente que Gabor, o precursor das imagens holográficas, poderia ser o Anticristo. Essa brincadeira pode fazer um terrível sentido quando o leitor recorda da preocupação do próprio Wallace com uma sociedade em que o indivíduo possa estar inserido em uma realidade virtual da qual ele não tem controle e cuja extensão da virtualidade ele já não pode mais discernir.

Quando determinadas formas de domínio ocorrem, sequer podem ser percebidas se não foram devidamente antecipadas, e tudo parece transcorrer normalmente dentro da consciência aprisionada. A cultura humana costuma retratar o Fim do Mundo como um evento externo, uma catástrofe natural ou invasão que venha a devastar o planeta tal como percebido em uma trama de realidade, destruindo a infraestrutura da civilização. Mas raramente cogita caso em que essa infraestrutura permanece intacta e o mundo acaba na verdade dentro de cada ser humano pela gradual aceitação de uma espécie de pesadelo.

3. LINGUAGEM ARQUETÍPICA E HIPER-HUMANISMO

“Agora que o ser humano tornou-se um adulto e abriu para si mesmo o campo da transformação mental e social”, escreveu o paleontólogo e jesuíta Teilhard de Chardin, “nossos corpos já não se ajustam adequadamente, e já não parecem mais adequados à evolução humana”, salvo quando conseguirmos adaptá-los “através de nosso cuidadoso controle”. “É possível também que, em sua capacidade e penetração, nosso cérebro tenha chegado ao seu limite orgânico”, cogitou o paleontólogo. “Mas nosso movimento não termina aí” acrescentou o jesuíta.

Assim como o corpo pode ser adaptado e eventualmente substituído segundo o “cuidadoso controle” da tecnologia, também nossa consciência pode, em uma trama de realidade, superar essa limitação orgânica. Há um real destino manifesto, um verdadeiro propósito para a vida humana, e a pesquisa científica prioritariamente deve tentar alcançá-lo, pois assim a humanidade conquistará mais do que a mera imortalidade: conquistará uma imortalidade que seja suportável, e talvez até mesmo uma imortalidade de iluminação e utopia.

Na codificação do mito sobre o Fruto da Árvore do Conhecimento (Da´at, em hebraico), a humanidade desconectou um módulo de sua consciência, a sua capacidade de conhecer, de um sistema em que esse módulo seria funcional, por estar conectado aos módulos da correta compreensão (Binah) e da perfeita sabedoria (Chokmah), programados para orientar o uso eficiente desse conhecimento. Essa, segundo a verdade codificada na mitologia de nossos antepassados, é a origem de nosso sofrimento desde a Revolução Neolítica, a partir da qual a humanidade passou a usar a tecnologia e o conhecimento para coisificar e possuir o outro.

Não é porque a tecnologia propiciada pela ciência pode nos conduzir a todo e qualquer caminho que a espécie humana deve ir em todas as direções, sem qualquer consideração ética ou escrúpulo moral. O transumanismo, enquanto simples extrapolação tecnológica das faculdades humanas, pode construir novo níveis de prisão. Progresso tecnológico sem ethos, sem uma escala de valores e princípios que levem o humanismo ao hiper-humanismo, é a perpetuação de um erro até o ponto de sua absoluta irreversibilidade.

Como qualquer ferramenta, a ciência e a tecnologia são meros espelhos de quem as utiliza. Podem, portanto, invocar o Inferno ou construir o Éden na Terra. A internet e o desenvolvimento da inteligência artificial sobre-humana podem resultar na Perfeita Noogênese ou em algo correspondente às narrativas míticas sobre o advento do Anticristo. Assim, cabe ao leitor perguntar-se o que esses espelho refletirão, quando se tornarem amplos o bastante para retratarem a atual face da humanidade.

A esperança é justo o fato de que, quando uma singularidade ocorre no hipercontexto, na verdade há uma multiplicidade de singularidades em diversas tramas de realidade. Abre-se, nessas condições, uma janela para que se possa restaurar o módulo desconectado no sistema à sua função original, reestabelecendo o contato do conhecimento com a correta compreensão e a perfeita sabedoria, com as quais “quanto mais se olha, mais se vê, e quanto mais se vê, mais se sabe onde olhar”. Assim a mente humana volta a conectar-se com o Grande Observador, a Consciência Transcendente.

“É a internalização profunda da consciência na direção de si mesma que caracteriza o destino particular do ser que manifesta inteiramente a si mesmo no limiar da percepção”, disse Teilhard de Chardin. Suas palavras ecoam a tarefa fundamental de cada indivíduo no hipercontexto: a de produzir multiplicidade de consciência e abundância de informação no universo, buscando sua constante individuação, tal como descrita por Jung. E individuação não é individualismo, pois enquanto o individualismo perpetra o erro humano de confundir a individualidade com o ego, a individuação torna o ego copartícipe de uma consciência plenamente desenvolvida pela linguagem arquetípica, e não mais um tirano cuja arma final é a violência e a coisificação do outro.

Em outras palavras, ainda há uma chance da humanidade [[Em que se encontra o leitor.]] alcançar a Perfeita Noogênese e afastar-se de caminhos indesejados. A reconstituição do módulo do conhecimento ao sistema original da Matriz ainda é possível, se a humanidade desenvolver a linguagem arquetípica necessária para que cada ser humano possa dar o salto evolutivo representado pela emergência da Função Transcendente em sua consciência. Esse aprofundamento da consciência individual, traduzindo a herança biológica do homo sapiens para um novo nível de complexidade e realização emocional, foi descrita por Teilhard de Chardin como hiper-pessoalidade, o processo que simultaneamente se desenvolve quando a própria humanidade realiza, com sucesso, o salto evolutivo para a hiper-humanidade.

O leitor está, neste momento, próximo ao Grande Filtro, à Grande Singularidade que irá dividir a história humana em dois grandes caminhos. Em um desses caminhos, a humanidade continua aprisionada nas ilusões do ego e segue em direção de alguma forma de extinção ou destino pior. No outro caminho, a humanidade aperfeiçoa uma linguagem arquetípica em paralelo com o intenso aperfeiçoamento tecnológico, e segue em direção ao Hiper-Humanismo, aquilo que se encontra do outro lado da singularidade.

Este é o convite que se faz a todo ser autoconsciente nesta trama de realidade: auxiliar esta humanidade à construir o Hiper-Humanismo pelo desenvolvimento de uma linguagem arquetípica que reconstitua o propósito original da vida tal como percebido da perspectiva da maior descoberta da humanidade, o hipercontexto.

Et in Arcadia ego.