Um candidato vence a presidência nos EUA e parte considerável da população rejeita o resultado, aderindo a teorias sobre certidões de nascimento e interferência russa. Capitães da indústria como o Elon Musk cogitam que a humanidade pode estar em uma realidade simulada. Reivindicações de que a Terra é plana ou governada por reptilianos são extensamente compartilhadas no Facebook ao lado de fotos das férias e das crianças. Uma sensação de alienação se estabelece sobre uma população mundial que já não confia em suas instituições religiosas, políticas ou educacionais. Ser paranoico para muitos já não é um defeito de personalidade, mas uma habilidade de sobrevivência, e cada movimento intelectual parece aceitar, com maior ou menor relutância, sua parcela de teoria da conspiração, como aceitamos aquele tio polêmico no jantar de Natal.

Estamos vivendo em tempos gnósticos.

Essa é a hipótese que este texto vai propor. Claro, para muitos, os antigos gnósticos são uma curiosidade histórica, hereges místicos dos primeiros tempos cristãos que foram derrotados por aqueles que escreveram nossa história, os vencedores. Para outros, o Gnosticismo é a injeção de combustível que aciona a imaginação de organizações ocultistas e sociedades “secretas” que ainda acreditam ser secretas; ou as obras de William Blake, Philip K. Dick e Philip Pullman, além do roteiro de mitos modernos como Matrix. Alguns acadêmicos como Michael Williams (Rethinking GnosticismRepensando o Gnosticismo, em tradução livre) e Karen King (What is Gnosticism?O que é Gnosticismo?, em tradução livre) afirmam que eles nunca existiram. Contudo, os Gnósticos existiram, e sua essência está em nosso meio.

Isso significa que o pesadelo gnóstico finalmente se realizou, tal como advertido em seus inconstantes evangelhos bizantinos?

De certa forma, sim. No entanto, hoje em dia falta um ingrediente que faz os gnósticos tão perigosos para os governantes. Primeiro, para entender como a sensibilidade gnóstica parcialmente voltou e o que está faltando, seria melhor nos familiarizarmos com Gnosticismo.

O que é Gnosticismo?

As origens dos gnósticos ainda são debatidas. A maioria dos acadêmicos supõe que Gnosticismo emergiu durante o segundo ou terceiro século antes de Cristo, embora outros presumam uma data muito anterior – talvez do Judaísmo antigo, da Mesopotâmia ou de origens egípcias.

Como Aprill DeConick discute em The Gnostic New Age (A Nova Era gnóstica – em tradução livre), o começo do gnosticismo é um argumento sem embasamento já que nunca constituiu realmente uma religião, mas sim uma orientação metafísica encontrada em muitas culturas antigas e que emana de tradições que se fundiram no nascimento do Cristianismo. Essa fluidez do Gnosticismo e o fato de tão poucas das suas obras terem sobrevivido tornou frustrante, tanto para estudiosos quanto para ocultistas, entender a doutrina gnóstica. No entanto, a descoberta e estudo dos códices da biblioteca de Nag Hammadi fornecem uma imagem clara dos gnósticos — especialmente quando combinadas com as últimas pesquisas do livro do DeConick, Dylan Burns (Apocalypse of the Alien GodApocalipse do Deus Alienígena, em tradução livre) e David Brakke (The Gnostics – Os Gnósticos, em tradução livre).

Assim, extraindo destes especialistas e de outra pesquisa, podemos deduzir quatro marcos intrínsecos do Gnosticismo:

  1. Nós vivemos em uma realidade simulada, como propõe Elon Musk, seja um planeta prisão (na pior hipótese) ou uma ilusão distrativa (no melhor dos casos). Esta realidade simulada é controlada por “guardas estelares” ou por “latifundiários cósmicos” que, embora considerados divinos, talvez sejam, em última instância, supervisores de um universo deficiente. E, em alguns casos, se alimentam de nossas almas (ou centelhas divinas, como alguns Gnósticos nomearam) para abastecer seu próprio Cosmos. Esses guardas estelares (em algumas narrativas, não mais do que ignóbeis Anjos Rebeldes) foram chamados tipicamente os Archons (grego para “governantes”) ou Arcontes em textos gnósticos, e seu líder foi algumas vezes conhecido como Demiurgo (grego para “o trabalhador público” e associado frequentemente com a deidade do Velho Testamento).
  2. Nossa origem verdadeira, nas palavras de Philip K. Dick, está nas estrelas (ou, mais provavelmente, além das estrelas). Nós nos esquecemos de nossa herança extraterrestre, a maioria de nós sofre de amnésia após muitas encarnações operando com o software do karma negativo. Nossa centelha divina pertence a um Deus até então desconhecido e bom, fora do domínio material. Como essa separação ocorreu é algo que depende da narrativa gnóstica. Às vezes, um cataclismo pré-criação é relatado, em outras se trata da consciência suprema lutando contra sua autoconsciência.
  3. Para aqueles entre nós que estão preparados, ocorre um despertar para sua origem superior, despertar tipicamente veiculado pelos ensinamentos de um mestre ou professor da retidão. Essa é a pílula vermelha de Morpheu, ou o que ficou conhecido pela palavra gnose: o conhecimento experiencial ou o contato com um estado superior de consciência. Pense em Morpheu cortejando Neo em Matrix. Para os gnósticos antigos, o revelador transcendente tomou várias formas, que incluíram Jesus, Zoroastro, Maria Madalena, Seth (o terceiro filho de Adão) ou a luciferiana deusa Sophia. Os Maniqueus, uma seita missionária gnóstica, situou o Buddha nesse nível elevado.
  4. Através de rituais extáticos, os seres despertos poderiam realizar viagens astrais além do mundo, contornando os reinos celestiais governados pelos Arcontes e comungando com os aspectos do bom Deus que reside não em um lugar, mas um estado de ser chamado o Reino Eterno, Tesouraria de Luz, ou o Pleroma (grego para “completude”). O objetivo para o gnosticismo nascente, então, era tornar-se inteiramente angelical, não limitado pelas forças do destino e da carne. Esta promessa é elucidada no Evangelho Gnóstico de Philip onde se diz, “você viu Cristo, você se torna Cristo.”

É importante mencionar que nesse quatro marcos a noção de autoconhecimento está presente como uma força gravitacional. A jornada interior era tão crucial quanto a viagem externa, e podia conduzir ao mesmo lugar.

Com isso em mente, essas características podem nos ajudar a definir vários grupos como parte da corrente histórica gnóstica, sejam os Setianos, Herméticos, Cátaros, Mandeanos, Yezidi, e até mesmo formas de Cabala e Sufismo. As características não criam uma container ideal, embora não exista um para toda religião ou filosofia. Entretanto, revelam a singular e metafísica orientação original, que define uma disposição cultural larga e diversa dos grupos gnósticos que existem mesmo hoje, como os Mandeanos e o Yezidi.

Gnosticismo em um contexto moderno

Além dos temas poderosos e radicais que o gnosticismo oferece para a arte moderna, como encontrado nos filmes como o Show de Truman, A Origem, ou (outra vez) Matrix, ou em séries de televisão como O Prisioneiro ou o reboot de Westworld, uma das vantagens do Gnosticismo é que ele pode ser encarado de maneira literária, literal, espiritual, ou psicológica, de acordo com a preferência. Como ilustração, Carl Jung baseou muita de suas teorias psicológicas profundas na cosmologia gnóstica, principalmente porque viu o gnosticismo como uma disciplina que se alicerçou eficientemente no subconsciente para insights terapêuticos.

O gnosticismo pode ter a posição religiosa que nele se quiser enxergar, substituindo-se ou não Demiurgo e seus Arcontes pelo Deep State ou governantes reptilianos. Para os gnósticos, a realidade era negociável, mas escapar do confinamento deste mundo não era. E para aqueles que estiveram no poder ao longo da história, a desconfiança gnóstica contra autoridade, a rejeição dos sistemas políticos humanos, a negação dos deuses criadores e a individualidade artística eram inaceitáveis. Eles deviam ser eliminados, pois tinham visto o homem atrás da cortina e fugiram da conversa fiada da individualidade. Os Gnósticos declaram que toda a realidade era Fake News, fatos alternativos e Efeito Mandela.

Crumb ilustrando a célebre “experiência religiosa” de Philip K. Dick.

Como pode ser visto, a atitude gnóstica inundou a cultura de hoje de uma forma ou de outra. O jogo está viciado, o dado foi adulterado desde o início. O melhor que podemos fazer é incomodar e protestar contra o cosmos e seus engenheiros de software do karma negativo – aventurar-nos em outros mundos onde os anjos que governam este temem ir, para encontrarmos alívio e uma sensação de completude.

O ingrediente que falta à atitude gnóstica de hoje

Apesar da cultura de hoje abraçar uma atitude rebelde e de escape, falta ainda a marca dos gnósticos antigos. E apesar do seu credo existencial de alienação que beira o niilismo, a perspectiva gnóstica era positivamente revigorante e presa a uma alegria impetuosa.

Claro, os textos gnósticos como o Livro Secreto de João ou o Evangelho da Verdade retratam um mundo caído, cheio de vilões Lovecraftianos. Entretanto, há sempre uma operação de salvamento de forças mais elevadas. Tudo ficará bem se apenas acordarmos e nos tornarmos Cristos ou Bodisatvas, como é nosso direito.

Além de uma falta da esperança (ou você pode chamar de fé), ainda há aquele ingrediente crucial faltando hoje, que impede a implementação de uma mentalidade gnóstica em toda sua potência (e a de outros movimentos esotéricos antigos). Melhor explicada por Erik Davies, especialista em Philip K. Dick:

“Eu gostaria de sugerir, no entanto, que o impulso de transcender – a ascensão neoplatonista através das esferas, o despertar repentino dos gnósticos, a rejeição pelo monge do deserto do elã vital – não é simplesmente um erro filosófico ou marca do patriarcado, mas é incentivado por um lúcido anseio pelo mais elevado dos objetivos: liberação. ” (Erik Davis, Nomad Codes (Berkeley: Yeti, 2010), p. 152.)

Sim, mais do que qualquer coisa, os gnósticos buscavam liberdade – liberdade indomada, sem remorso. Isso, na verdade, é talvez o porquê foram considerados o maior dos hereges às autoridades seculares e religiosas: quiseram uma liberdade não contida em toda a construção material.

O gnóstico moderno verdadeiro estaria mais perto do Existencialismo Positivo ou do outsider apresentado pelo autor britânico Colin Wilson. Como Gary Lachman escreveu em sua biografia de Wilson, Beyond the robot (Wilson, Além do Robô, em tradução livre):

“O outsider é alguém que vê muito e muito profundamente e o que mais ele vê é caos. Ele ou ela vivem no mundo com um sentido de estranheza e de irrealidade. A realidade segura, estável que a maioria de nós percebe é, para o outsider, uma ilusão, uma fachada que obscurece uma possibilidade mais perigosa e ameaçadora: do nada, do nilismo e do vácuo, a completa inconsequência da vida humana e de todas suas realizações. Para o outsider, os valores e os significados que constituem a vida para a maioria de povos – um trabalho bom, uma casa grande, uma boa conta bancária – são vazios e precários; são, no melhor dos casos, tentativas de encobrir, fazer parecer civilizado e racional algo que é selvagem, desorganizado, irracional. O outsider defende a Realidade. Ele procura o significado e finalidade que o mundo diário não pode fornecer e sua salvação se encontra em compreender isso e abraçar esse aprendizado com convicção total.” (Gary Lachman, Beyond the Robot (New York: TarcherPerigee, 2016), p. 2-3).

Isto seria ser gnóstico em épocas modernas. Ali é onde os gnósticos, através dos tempos, encontraram paz, num espaço além do que é imaginável (e aceitável) e no qual há sublimes estados de irrestrita liberdade. Por mais paranoico ou louco que isso possa soar (e os gnósticos foram constantemente acusados de ambas as coisas) esta talvez seja a atitude mais lúcida a adotar, ou a melhor atitude para manter-se são numa era de realidade negociável.

Talvez nós vivamos em épocas gnósticas, mas a psique da cultura ocidental finalmente está abrindo seu “terceiro olho” e está alcançando o que os Gnósticos descobriram há 2000 anos. Como Morpheus disse após Neo tomar a Pílula Vermelha, você pode quase ouvir a voz dos heréticos antigos nos dizendo: “bem-vindos ao deserto do real”.

(Tradução e adaptação do original April 2017 AOM: The Return of the Gnostics)