As duas portas para a realidade

Imagine jogar uma bola de beisebol e não saber exatamente para onde ela vai, apesar de sua habilidade de jogar com precisão. Digamos que você seja capaz de prever apenas que ela acabará, com igual probabilidade, na luva de um dos cinco receptores. A bola de beisebol se materializa aleatoriamente na luva de um dos receptores, enquanto os demais ficam de mãos vazias, literalmente. E antes da bola ser capturada, você não pode falar dela como algo real – pois não existe uma trajetória determinista do lançador para o receptor. Até que se torne “real”, a bola pode aparecer em qualquer uma das cinco luvas.

Isso pode parecer bizarro, mas o mundo subatômico estudado pelos físicos quânticos se comporta dessa maneira contraintuitiva.

Partículas regidas pelas leis da mecânica quântica são a razão de algumas das maiores questões sobre a natureza de nossa realidade. Vivemos em um universo que é determinista ou sujeito ao acaso e ao jogo de dados? A realidade, nas menores escalas da natureza, existe independente de observadores ou a realidade é criada após a observação? E ainda há “ações fantasmagóricas à distância”, a frase de Albert Einstein sobre como uma partícula pode influenciar instantaneamente outra partícula, mesmo que as duas partículas estejam a quilômetros de distância.

Por mais profundas que sejam essas perguntas, elas podem ser perguntadas e entendidas (mesmo se não satisfatoriamente respondidas) por meio das variações modernas de um experimento simples que começou como um estudo da natureza da luz há mais de 200 anos. É chamado de experimento de dupla fenda, e suas descobertas correm pelas veias da física quântica experimental. O físico americano Richard Feynman, em 1965, disse que esse experimento “tem o coração da mecânica quântica“. Werner Heisenberg, o físico alemão e membro fundador do clube da física quântica, costumava mencionar esse estranho experimento em suas discussões com a finalidade de “concentrar o veneno do paradoxo” apresentado pela natureza nas menores escalas.

Em sua forma mais simples, o experimento envolve o envio de partículas individuais, como fótons ou elétrons, uma de cada vez, através de duas aberturas ou fendas cortadas em uma barreira opaca. A partícula pousa em uma tela de observação no outro lado da barreira. Se você tentar descobrir em qual fenda a partícula passa (nossa intuição, condicionada por viver no ambiente em que vivemos, diz que ela deve passar por uma ou outra fenda), a partícula se comporta como, bom, uma partícula, e como tal escolhe um dos dois caminhos possíveis. Mas se alguém apenas monitora a aterrissagem da partículas na tela após sua jornada pelas fendas, o fóton ou elétron parece se comportar como uma onda, ostensivamente passando por ambas as fendas de uma só vez.

Thomas Young

Quando entidades microscópicas têm a opção de fazer muitas coisas ao mesmo tempo – como aquela bola de beisebol metafísica – elas parecem escolher todas as possibilidades. Tal comportamento é impossível de visualizar. O senso comum nos falha ao lidar com o mundo do quantum. Para explicar o resultado de algo tão simples como uma partícula que encontra duas fendas, a física quântica recai em equações matemáticas. Mas, ao contrário da física clássica, em que as equações nos permitem calcular, por exemplo, a trajetória precisa de uma bola de beisebol, as equações da física quântica nos permitem fazer apenas afirmações probabilísticas sobre o que acontecerá ao fóton ou ao elétron. Crucialmente, essas equações não mostram uma imagem clara sobre o que realmente está acontecendo com as partículas entre a fonte e a tela.

Não é de admirar, portanto, que diferentes interpretações do experimento da dupla fenda ofereçam perspectivas alternativas sobre a realidade. Por exemplo, no final da década de 1920 e início dos anos 30, alguns físicos fizeram a assombrosa afirmação de que uma partícula atravessando duas fendas não tem um caminho claro ou mesmo uma realidade objetiva até que ela seja observada em uma tela do outro lado. Em uma reunião de físicos e filósofos da mansão Carlsberg, perto de Copenhague, em 1936, o físico holandês Hendrik Casimir lembrou de alguém protestando: “Mas o elétron deve existir em algum lugar no caminho da fonte à tela de observação”. Niels Bohr, um dos fundadores da mecânica quântica, replicou que a resposta depende do significado da frase “existir”. Em outras palavras, o que significa dizer que algo existe? Um filósofo do grupo naquele dia, o positivista lógico dinamarquês Jørgen Jørgensen, replicou, exasperado: “Podemos, maldição, evitar de reduzir toda a filosofia a uma tela com dois buracos”.

No entanto, é extraordinário o quanto da física quântica e da filosofia podem ser entendidas usando uma tela com dois orifícios – ou variações dos mesmos. A história do experimento da dupla fenda remonta ao início de 1800, quando os físicos estavam discutindo a natureza da luz. A luz se comporta como uma onda ou é feita de partículas? Essa última posição foi defendida no século XVII por ninguém menos que Isaac Newton. A luz, disse Newton, é corpuscular ou constituída de partículas. O cientista holandês Christiaan Huygens, no entanto, argumentou o contrário. A luz, ele disse, é uma onda – o nome dado às vibrações do meio em que a onda está viajando. Por exemplo, uma onda na água é essencialmente o modo como a água se move para cima e para baixo à medida que a onda se propaga. Huygens argumentou que a luz é uma vibração em um éter que permeia tudo.

Nos primeiros anos do século XIX, o polímata inglês Thomas Young resolveu o debate. Ele foi o primeiro a realizar um experimento com um raio de sol através de duas fendas estreitas. Em uma tela do outro lado, ele observou não duas tiras de luz – como você esperaria se a luz fosse feita de partículas passando por uma fenda ou outra – mas um padrão alternado de franjas brilhantes e escuras, característico de dois conjuntos de luz. Ondas interagindo entre si.

Fig. 442 de “Palestras” de Thomas Young, publicado em 1807, detalhando o experimento das duas fendas original.

Imagine uma onda do oceano atingindo uma parede de pedra costeira com duas aberturas. Novas ondas se espalham a partir de cada abertura e seguem para a costa. Essas ondas eventualmente se sobrepõem e interferem umas com as outras – em alguns lugares, construtivamente (onde a crista de uma onda encontra a crista de outra), e em outros, destrutivamente (a crista de uma onda encontra a depressão de outra). No experimento de Young, ele viu interferência semelhante. As franjas que observou tinham regiões brilhantes, indicativas de interferência construtiva, e regiões escuras, típicas de interferência destrutiva.

Essa visão da luz como onda ganhou forte apoio matemático quando o físico escocês James Clerk Maxwell desenvolveu sua teoria do eletromagnetismo na década de 1860, mostrando que a luz também é uma onda eletromagnética.

 

Esse teria sido o fim da história – se não fosse pelo nascimento da física quântica, que começou com o argumento do físico alemão Max Planck, em 1900, de que a energia vem em quanta, ou unidades minúsculas e indivisíveis. Então, em 1905, Einstein estudou o efeito fotoelétrico, no qual a luz que incide sobre certos metais desaloja os elétrons; o efeito pode ser explicado somente se a luz também é feita de quanta, com cada quantum de luz sendo análogo a uma partícula. Esses quanta de luz vieram a ser chamados de fótons.

Mas com isso o experimento da dupla fenda fica irritantemente contraintuitivo.

Imagine uma fonte de luz que lança na direção de duas fendas um quantum (ou partícula – fóton) de luz de cada vez. Nossas sensibilidades clássicas nos dizem que o fóton tem que passar por uma fenda ou outra, de modo que na tela do outro lado (digamos, uma placa fotográfica que registra os fótons conforme eles chegam um por um) cada fóton crie um ponto. E esperamos que esses pontos se acumulem atrás das duas fendas e formem duas faixas brilhantes.

Mas esse é o mundo quântico. Então é claro que não é isso o que acontece.

O que acontece é que, à medida que os fótons atingem a placa fotográfica surge, com o tempo, um padrão de interferência. Cada fóton vai somente para certos lugares da placa – para regiões que representariam interferência construtiva caso a luz fosse uma onda. Os fótons geralmente evitam regiões que representam interferências destrutivas. É um sinal claro de interferência e, portanto, de comportamento de onda.

Mas nossa fonte de luz está emitindo um fóton de cada vez. A chapa fotográfica está registrando sua chegada como uma partícula individual. E (isso é crucial) os fótons estão passando pelo aparelho um de cada vez. Não há interação entre um fóton e o próximo, ou o primeiro fóton e o décimo, e assim por diante. Então, o que está interferindo com o que?

É aí que entra a matemática. Em meados da década de 1920, um grupo de físicos fabulosamente talentosos, entre eles Heisenberg, Pascual Jordan, Max Born e Paul Dirac, e Erwin Schrödinger por conta própria, desenvolveram duas formas de descrever matematicamente o comportamento do submundo quântico. Esses dois caminhos acabaram sendo equivalentes. Tudo se resume a isto: o estado de qualquer sistema quântico é representado por uma abstração matemática chamada de função de onda. Há uma única equação (chamada de equação de Schrödinger) que nos diz como essa função de onda e, portanto, o estado do sistema quântico, mudam com o tempo. Isso é o que permite aos físicos preverem as probabilidades de resultados dos experimentos.

No contexto do experimento da dupla fenda, pense na função de onda como uma superfície ondulada que codifica informações sobre a localização do fóton. Quando o fóton emerge de sua fonte, a função de onda atinge o pico em um local e quase zero em qualquer outro lugar, sugerindo que o fóton está localizado próximo à fonte.

Mas agora a matemática entra em ação. O progresso do fóton pode ser capturado pela equação de Schrödinger, que revela como a função de onda evolui com o tempo. A função de onda começa a se espalhar, como uma onda faria, com valores diferentes em lugares diferentes. Esses valores estão relacionados às probabilidades de encontrar a partícula nesses locais, caso você escolha procurá-la nesses pontos.

Conforme essa função de onda se espalha, ela encontra as duas fendas. E assim como uma onda de água batendo em duas aberturas na parede de quebra, a função de onda (que, não se esqueça, é uma abstração matemática) se divide: um componente passa pela fenda esquerda e o outro pela fenda direita. Duas funções de onda emergem do outro lado, e cada uma se espalha e evolui, ainda de acordo com a equação de Schrödinger.

Tudo isso é determinístico e previsível. No momento em que as funções de onda individuais atingem a chapa fotográfica, elas se espalham o suficiente para começar a interferir umas nas outras como as ondas no oceano. O estado do fóton é agora dado por uma função de onda que é uma combinação das funções de onda interferentes dos dois componentes: o próprio fóton agora está em uma “superposição” de ter passado pelas duas fendas. Na placa fotográfica, após a detecção, essa função de onda combinada novamente atinge o pico em um local e vai para mais ou menos zero em qualquer outro lugar. O fóton está registrado naquele local.

Tudo parece fazer sentido – até que você comece a investigar as equações matemáticas. O que é uma função de onda e o que significa para uma função de onda passar por duas fendas? A função de onda é algo real? E como descobrir onde a função de onda atingirá o pico quando encontrar a placa fotográfica? Por que seu pico ocorre naquele ponto específico lá e não em outro lugar?

Nas equações da mecânica quântica, a função de onda é, bem, uma função matemática. Para qualquer sistema quântico com mais de duas partículas, a função de onda não vive nas três dimensões espaciais familiares do nosso mundo. Em vez disso, existe em algo chamado espaço de configuração (trata-se de um espaço matemático abstrato, cujo número de dimensões cresce com o número crescente de partículas, mas podemos ignorar isso por enquanto).

No verão de 1926, apenas alguns meses depois de Schrödinger ter criado sua equação para a evolução da função de onda, Born descobriu que o valor da função de onda em um determinado ponto no espaço e no tempo pode ser usado para calcular a probabilidade de, por exemplo, encontrar o fóton naquele local. No caso da dupla fenda, verifica-se que as probabilidades são muito baixas para regiões onde os dois componentes da função de onda interferem destrutivamente, e alta para regiões onde interferem construtivamente.

 

Tudo isso parece tentadoramente compreensível, mas após um exame mais detalhado, surgem mais perguntas. O fóton passou pelas duas fendas ao mesmo tempo? O fóton tem uma trajetória, quando sai da fonte e é eventualmente detectado na placa fotográfica? Considerando que a matemática diz que há muitas regiões onde o fóton pode ser encontrado com uma probabilidade diferente de zero, por que ele acaba em uma dessas regiões e não em outras? Finalmente, se o fóton não passou pelas duas fendas, mas sim pela função de onda, a função de onda é real?

Tentar responder tais perguntas nos leva ao coração do que é confuso sobre a mecânica quântica e nos coloca em contato com questões filosóficas profundas sobre a natureza da realidade.

Pegue a questão do determinismo. Quando você joga uma bola de beisebol no mundo clássico, a física lhe dirá onde pousará. Não é assim no reino quântico. A função de onda não pode prever a localização exata em que o fóton pousará – apenas sua probabilidade de aterrissar em qualquer um dos vários pontos. Para qualquer fóton, você nunca pode prever com certeza onde ele será encontrado: tudo o que você pode dizer é que ele será encontrado na região A com probabilidade X, ou na região B com probabilidade Y, e assim por diante. Essas probabilidades nascem quando você faz o experimento várias vezes com fótons idênticos, mas o destino preciso de um fóton individual não é algo que possamos saber. A natureza, no seu mais fundamental aspecto, parece indeterminada, aleatória.

O experimento da dupla fenda também nos permite explorar noções de realismo, a ideia de que uma realidade objetiva existe independente de observadores ou de uma observação. Lembre-se do relato de Casimir sobre o encontro na mansão Carlsberg: o senso comum nos diz que o fóton deve ter um caminho claro da fonte até a chapa fotográfica. Mas o formalismo matemático da mecânica quântica padrão não tem uma variável que capture a posição de uma partícula conforme ela se move – apenas um ponto de partida e um ponto final que é contingente à observação. E assim, o fóton não tem uma trajetória. De fato, segundo uma forma de interpretar o formalismo matemático da função de onda (denominado de interpretação de Copenhague em homenagem ao lugar onde tomou forma) o fóton não tem realidade objetiva até pousar na placa fotográfica. Em sua posição mais radical, a interpretação de Copenhague costuma ser considerada anti-realista. Mais geralmente, o antirrealismo assume a posição de que a realidade não existe independente de um observador (um observador não significa necessariamente um humano consciente, poderia ser uma placa fotográfica; mas as opiniões variam sobre isso).

Einstein era realista. Ele estava convencido de que a mecânica quântica padrão é incompleta, na medida em que carece das variáveis ​​necessárias para capturar a trajetória – a posição e o momento de uma partícula à medida que ela se move. Einstein também era um adepto declarado do princípio da localidade: a noção de que algo acontecendo em um lugar não pode influenciar algo que aconteça em qualquer lugar a uma velocidade maior do que a da luz. Juntas, essas duas crenças formam a posição filosófica do realismo local.

Erwin Schrödinger

O oposto de localidade, a não-localidade, é destacado por algo tão simples quanto o experimento da dupla fenda. Quando a função de onda do fóton se aproxima da placa fotográfica, o fóton está em uma superposição quântica, posicionando-se em muitos lugares ao mesmo tempo (isso não quer dizer que o fóton esteja nesses lugares simultaneamente, é apenas uma maneira de falar sobre como o formalismo matemático descreve, em equações, o que está acontecendo; O próprio fóton ainda não é atribuído à realidade no modo padrão de pensar sobre isso). Após a observação, diz-se que a função de onda “entra em colapso”, situação na qual seu valor atinge o pico em um local e vai para próximo de zero em todos os outros locais. O fóton está localizado – e, portanto, é encontrado em um dos muitos locais possíveis.

Einstein apontou um problema com esse cenário (ele usou um experimento mental ligeiramente diferente do da dupla fenda, mas os argumentos conceituais são os mesmos). Se a função de onda é algo real (ou faz parte da ontologia do mundo, no jargão dos filósofos) então seu colapso é um evento não-local. Uma medição causou o pico da função de onda em um local e, simultaneamente, foi para zero em outro lugar. Em princípio, a função de onda poderia se espalhar por quilômetros e esse cenário ainda seria válido. Regiões do espaço-tempo distantes umas das outras seriam instantaneamente influenciadas pelo colapso induzido pela medida em um local.

Existe outra maneira de pensar sobre a função de onda que evita isso dificilmente. Muitos seguidores da mecânica quântica padrão diriam que a função de onda é epistêmica – ela meramente capta nosso conhecimento sobre a realidade. Se assim for, o colapso é apenas um aguçamento do nosso conhecimento sobre a realidade, e por isso não é um evento físico e, portanto, não implica não-localidade.

Mas se a função de onda não é real – então o que passa pelas duas fendas? Certamente um fóton, que não pode ser dividido em partes menores, não pode passar pelas duas fendas de uma só vez? Algo deve atravessar as duas fendas simultaneamente para gerar o padrão de interferência. Se não o fóton ou sua função de onda, o que mais poderia ser? Epistêmico ou ontológico, as questões sobre a função de onda permanecem.

 

Além do status da função de onda, talvez a questão mais bem conhecida acentuada pelo experimento da dupla fenda é como algo no reino quântico pode às vezes agir como uma onda e algumas vezes como uma partícula, um fenômeno chamado dualidade onda-partícula. Se não nos importamos em saber qual fenda um fóton passa, o fóton se comporta como uma onda e cai em uma determinada parte da chapa fotográfica. Quando fótons suficientes pousam nessas partes, surgem franjas de interferência construtivas. Crucialmente, os fótons quase nunca vão para regiões que permanecerão escuras.

Mas nossas mentes clássicas se rebelam. Não podemos ignorar a convicção de que o fóton precisa passar por uma fenda ou outra. Então, colocamos detectores próximos às fendas (suponhamos que nossos detectores funcionem sem destruir os fótons). Quando fazemos isso, outra coisa estranha acontece. Os fótons passarão agora por uma ou outra fenda. Curiosamente, desta vez eles não formarão um padrão de interferência. Os fótons irão se comportar como se fossem partículas partículas e vão justamente para aquelas regiões na placa fotográfica que evitam quando agem como uma onda.

Quando Einstein e Bohr estavam discutindo sobre o experimento da dupla fenda, supunha-se que o distúrbio físico produzido pelo ato de observar faz com que o padrão de interferência desapareça.

Mas desde então, ficou claro que o problema é mais profundo. Experimentalistas criaram maneiras de determinar por qual fenda um fóton passa sem, ostensivamente, perturbá-lo. Acontece que a mera presença dessa informação “em qual das fendas” (welcher-weg em alemão) no ambiente (algo que em princípio pode ser extraído) destrói o padrão de interferência. Os fótons se comportam como partículas.

A dualidade onda-partícula foi levada ao extremo por versões cada vez mais sofisticadas do experimento da dupla fenda. Em 1982, Marlan Scully, que estava na Universidade do Novo México, e Kai Drühl, do Instituto Max Planck de Óptica Quântica, em Munique, apresentaram uma das variações mais memoráveis. E se houver uma maneira de primeiro coletar informações sobre o caminho de um fóton (fazendo com que ele aja como uma partícula) e depois apagar essa informação? Apagar a informação faria com que os fótons agissem como ondas – mesmo depois de presumivelmente passarem por uma fenda ou outra na forma de uma partícula e pousarem na placa fotográfica?

A resposta empírica a essa famosa pergunta sobre a borracha quântica é um inequívoco sim. Em 2000, Scully juntou-se a Yoon-Ho Kim e colegas da Universidade de Maryland em Baltimore e fez este experimento usando átomos que poderiam emitir um par de fótons entrelaçados (em termos matemáticos, dois fótons entrelaçados são descritos pela mesma função de onda, de modo que uma ação em um fóton imediatamente influencia o outro, devido ao colapso da função de onda única; a não-localidade é um aspecto explícito dessa versão do experimento de dupla fenda). A configuração experimental foi projetada de tal maneira que, se um fóton do par entrelaçado passasse por uma dupla fenda, o fóton parceiro poderia ser usado para extrair a informação “em qual das fendas” do primeiro fóton. Scully e seus colegas mostraram que, se você apagasse essa informação, o primeiro fóton agia como uma onda; caso contrário, agia como uma partícula.

Ficou claro que o fato de um fóton se comportar como uma onda ou uma partícula depende da escolha da configuração experimental. Com base nessa constatação, em 1978, o físico americano John Wheeler imaginou, talvez, a versão mais famosa do experimento da dupla fenda, que ele chamou de “escolha tardia”.

A brilhante ideia de Wheeler era perguntar: e se atrasarmos a escolha do tipo de experimento a ser executado até que o fóton tenha entrado no aparelho? Digamos que ele entre em um aparelho configurado para procurar a natureza de onda do fóton. Assim, o fóton deveria – de acordo com o modo padrão de pensar – entrar em uma superposição de tomar dois caminhos. Se os dois caminhos são recombinados, eles interferem e nós temos franjas. Agora, disse Wheeler, vamos fazer um truque de mágica. Pouco antes de o fóton ser detectado, vamos reconfigurar o aparelho para que ele agora esteja procurando a natureza das partículas do fóton. Isso pode ser feito retirando o dispositivo que faz com que os caminhos se recombinem, permitindo que cada caminho siga caminho para separar os detectores.

Acontece que você não pode enganar o fóton, não importa o quanto você tente. Experimentalistas realizaram o experimento mental de Wheeler com crescente precisão e sofisticação – e de acordo com as regras do mundo quântico. Quando eles removem, no último instante, o dispositivo que recombina os dois caminhos de fótons, o fóton age como uma partícula, sugerindo que ela tomou um caminho ou o outro, embora no início devesse ter entrado em uma superposição de tomar ambos o caminhos de uma só vez.

Com base nesses resultados, Wheeler argumentou que o fóton não tem natureza intrínseca – seja onda ou partícula – antes de ser detectado. Caso contrário, se ele entrasse no aparelho como uma partícula e você fizesse mudasse o dispositivo detector nanossegundos antes de ocorrer a detecção e escolhesse observar a natureza de onda, o fóton teria que voltar no tempo e novamente entrar no aparelho, dessa vez na forma de onda. De que outro modo você pode explicar o padrão de interferência observado? Na proposição de Wheeler, negar ao fóton uma realidade independente da observação evita postular a ideia absurda de fótons voltando no tempo, mas então você tem que conviver com o antirrealismo da mecânica quântica padrão, algo que alguns acham intragável.

Experimentalistas também combinaram experiências de escolha retardada e de apagamento quântico em um único experimento de apagamento quântico de escolha tardia – no qual você não só adia a escolha do que ver (natureza de partícula ou natureza de onda), mas também pode apagar aleatoriamente essa própria escolha. Novamente, o fóton, ou qualquer sistema quântico, mostrará apenas uma face ou outra – e o que revela depende do estado final do aparato experimental.

Tais experimentos sugerem que o ato de medir colapsa a função de onda. Mas o que colapso realmente significa? Ainda mais enigmaticamente, o colapso, em última análise, precisa ser observado por um ser humano consciente? (Para ser claro, quase nenhum físico hoje pensa que esse é o caso.)

Para evitar os problemas conceituais que desafiam o senso comum da mecânica quântica padrão, tem havido uma miríade de tentativas de reinterpretar os resultados e propor novas teorias. Um desses esforços é a chamada teoria de de Broglie-Bohm, segundo a qual a realidade é tanto uma onda quanto uma partícula. Nesta teoria, uma partícula é real e tem uma posição definida em todos os momentos e, portanto, uma trajetória; mas a partícula é guiada por uma onda piloto que evolui de acordo com a equação de Schrödinger. No contexto de um experimento de dupla fenda, a partícula sempre passa por uma fenda ou outra, mas a onda piloto, ou a função de onda, passa por ambas e interfere com ela mesma no outro lado das fendas, e esse padrão de interferência guia a partícula para a chapa fotográfica. A teoria de de Broglie-Bohm é realista: tanto as partículas quanto as funções de onda são reais. Mas a teoria é não-local. Todas as partículas – não importa onde estejam no Universo – são influenciadas instantaneamente pela função de onda em evolução, uma forma de não-localidade extrema que faria Einstein estremecer.

Ainda outra abordagem evoca um colapso espontâneo da função de onda, independente de observadores ou observação. Tais teorias são projetadas para que pequenos sistemas quânticos, como partículas individuais, possam permanecer em superposição de estados indefinidamente. Porém, aglomerações maiores de partículas, como um gato, não poderiam sustentar essa situação por muito tempo, e assim colapsarão quase instantaneamente em um dos muitos estados prováveis . Tais teorias predizem que, à medida que os sistemas se tornam maiores, colapsos espontâneos farão com que os estados quânticos se tornem clássicos; eles predizem uma escala de massa na qual isso acontece, dividindo a realidade quântica do mundo clássico.

O nanofísico quântico Markus Arndt e seus colegas da Universidade de Viena estão usando o experimento da dupla fenda para investigar essa divisão enviando coisas cada vez maiores, como macromoléculas orgânicas e até vírus, através de uma dupla fenda para procurar por interferência. Se eles virem interferência, o processo é de mecânica quântica. Mas se puderem observar o desaparecimento do padrão de interferência e mostrarem que o efeito é apenas porque a massa do objeto passando pelas duas fendas é mais do que um valor limiar, então eles podem alegar ter encontrado a divisão quântica clássica. A pesquisa continua.

É difícil exagerar a importância do experimento da dupla fenda para todo o empreendimento da mecânica quântica, apesar de sua surpreendente simplicidade e elegância.

Como Feynman colocou durante uma palestra na Universidade de Cornell em Nova York em 1964: “Qualquer situação da mecânica quântica pode ser explicada começando com “você se lembra do caso do experimento com as duas fendas?” Em 1964, até Feynman não poderia saber o quão importante o experimento se tornaria. Mas a física ainda não conseguiu explicar com sucesso o experimento da dupla fenda. O caso permanece sem solução.

[Tradução de Through two doors, publicado na Aeon Magazine]