Como vimos na primeira parte, “A Descoberta mais Importante da Humanidade”, a ciência descobriu que o universo em que vivemos não é o que pensamos ser, da mesma forma que a Terra não é plana como nossos antepassados supunham. O universo é o que se convencionou chamar de hipercontexto, o local em que todas as realidades prováveis coexistem simultaneamente, em sobreposição, cada qual distinta das demais pelo entrelaçamento de seus elementos.

No mesmo universo, portanto, existem múltiplas realidades alternativas. E novas realidades alternativas emergem a cada momento.

Não chamamos essas múltiplas realidades coexistentes de “universos paralelos” (nem o hipercontexto de “multiverso” ou “muitos mundos”), por tratar-se de denominação que induz ao erro de supor-se que há uma rigorosa separação entre tais realidades. Prefere-se chamar alternadamente de “realidades alternativas”, “contextos” ou “tramas de realidade”, nome esses que se referem a uma mesma coisa e que são, portanto, intercambiáveis.

Tais nomes se alternam, porém, por fins didáticos, pois cada qual ressalta um aspecto conceitual específico dessa mesma coisa. Assim, “realidade alternativa” salienta a multiplicidade de realidades que há no hipercontexto, na qual nenhuma é mais verdadeira que a outra; já “trama de realidade” ressalta o entrelaçamento inerente a todas as coisas e seres que existem em cada uma dessas realidades; por fim, “contexto” realça a natureza circunstancial dos parâmetros escolhidos para distinguir uma realidade de outra – pois, na verdade, não há qualquer separação: todas habitam o mesmo universo, todas existem aqui e agora.

No âmbito humano, o destino de cada um de nós é ramificado em vários caminhos desde o nascimento. Cada um desses caminhos realiza uma probabilidade concreta de futuro. O conjunto dessas probabilidades é delimitado pelas circunstâncias específicas que nos permitiram nascer em determinado contexto, e isso inclui conjunturas biológicas, históricas e socioeconômicas relacionadas a nossos pais e origem.

A cada escolha em sua vida, leitor, a cada evento decisivo em sua história pessoal, o seu destino ramificou-se e ramifica-se desde seu nascimento, dando gênese a várias versões alternativas de você. Em inúmeras realidades alternativas, há inúmeras versões de sua identidade, todas originárias do mesmo ponto inicial. Você é uma delas. Outras também leem este texto. Outras, ainda, o ignoram completamente.

Todas essas versões, porém, vivem com a noção de ser alguém. Por exemplo, neste momento, você tem a noção de que é alguém que está lendo este texto. Isso parece banal. Essa é a natureza da condição humana, a vivência mais íntima e fundamental que você tem a cada instante de sua vida: ser quem você é.

Apesar disso, no cotidiano, você raramente se detém e analisa com cuidado uma pergunta óbvia, que não só decorre naturalmente dessa vivência fundamental como também é de vital importância. E, nos poucos momentos que o faz, parece não encontrar resposta, ao menos não sem aceitar algum tipo de fé ou superstição. Essa pergunta é:

QUEM É VOCÊ?

Apesar de sua importância, colocamos tal pergunta facilmente entre aquelas questões abstratas, filosóficas, cuja improvável resposta, inútil e metafísica, é da competência de especialistas acadêmicos. Chegamos a acreditar na perigosa ilusão de que não só é impossível obter uma resposta clara, mas que também podemos viver realmente nossas vidas sem responder com clareza quem é que, afinal, está vivendo nossas vidas.

Isso parece ser de uma estupidez impressionante. De algum modo, nos iludimos e fingimos não perceber a utilidade autoevidente de conhecermos a resposta antes de começarmos a viver conscientemente nossas vidas. Fingimos não saber que apenas uma vida com tal resposta é uma vida plena, e que uma vida plena é aquela desperta do sonho em que os outros animais vivem, sonho no qual ignoram quem realmente são e onde estão.

O leitor duvida? Quando vemos a carne de animais em nosso prato ou exposta nos mercados, esquecemos da lição subjacente a essa experiência comum: a de que só foi possível criar e matar o animal que nos alimenta pois ele viveu imerso num sonho em que não percebia quem era e que estava destinado apenas ao abate. Um sonho que nossos ancestrais também sonhavam e do qual o ser humano em parte despertou – mas não completamente.

Mas somos assim estúpidos? Com certeza, não. A razão de nos distrairmos facilmente diante de tal pergunta e de termos dificuldade em encontrar a resposta deveria nos dar uma pista sobre a natureza dessa resposta. Trata-se de uma resistência de origem mais forte, como logo ficará claro.

Na verdade, o fato de que nos distraímos facilmente diante dessa pergunta e de que parecemos não encontrar resposta deveria dar-nos uma pista sobre a natureza dessa resposta.

A partir de agora, iremos apresentar tal resposta, pois não é mera questão abstrata e filosófica, mas a chave para a solução do maior problema humano, aquele que aflige cada indivíduo e toda a sociedade. Porém, a resposta não é simples e tampouco é agradável – em outras palavras, é contraintuitiva e contrária às expectativas idealizadas sobre a natureza humana.

Pela importância deste texto, o leitor deve dedicar tempo e atenção à sua leitura. Imprima-o, se possível.

O PROBLEMA HUMANO

Por séculos, tenta-se identificar qual o maior problema da humanidade e de cada indivíduo, o problema do qual derivam todos os outros problemas sociais e pessoais.

Para os mais idealistas, esse problema seria a falta de fé ou de conexão com alguma divindade – ou alguma outra postura moral e espiritual a ser ajustada. Para outros, o problema seria de ordem econômica, consistindo no dinheiro enquanto lógica das relações capitalistas – ou, inversamente, no controle estatal e socialista da liberdade individual. Para alguns, ainda, o problema seria sociocultural, consistindo na opressão do patriarcado ou, ao contrário, na subversão da ordem e das tradições.

Há por fim, aqueles que negam a existência de qualquer problema central, afirmando que a angústia e ansiedade sentida intimamente por todos os seres humanos, bem como as guerras, miséria e violência que assolam populações, constituem parte inerente da vida tal como é neste momento.

Não é esse, porém, o caso. Há um problema, e sua natureza é clara quando a situação humana é observada à distância.

O maior problema humano atual, tanto para cada indivíduo como para a sociedade, é o desafio de operar numa realidade progressivamente complexa e sem precedentes históricos tendo como única ferramenta um sistema cognitivo e decisório condicionado para operar nas primitivas savanas da África.

Caça, competição, acasalamento, abrigo, predador, agressão e fuga; medo, raiva, desejo, fome e sede; necessidade de aceitação tribal, hostilidade e dominação do inimigo. Vive-se hoje com um sistema cognitivo e decisório programado evolutivamente para operar num ambiente em que o ser humano não era muito diferente dos demais animais, sequer posicionando-se no topo da cadeia alimentar. Um ambiente no qual a perfeita inserção na dinâmica de uma tribo representava a melhor chance de sobrevivência para o indivíduo.

Esse sistema foi eficiente por dezenas de milhares de anos, ao longo dos quais ele se adaptou com sucesso às mudanças do meio ambiente. Nada há de errado com ele. No momento, o problema é a alteração quase imediata do mundo em que vivemos, exigindo adaptação que tal sistema não consegue fazer em si mesmo do dia para noite – ou melhor, de um milênio para outro.

Essa é a raiz de todos os outros problemas contemporâneos, individuais e coletivos. Depressão, ansiedade, síndrome do pânico, intolerância. Terrorismo, fundamentalismo, profunda desigualdade social, degradação ambiental. Na sociedade complexa e dinâmica de hoje, que se transforma a cada momento, tenta-se enfrentar desafios cotidianos com um sistema cognitivo e decisório que era extremamente eficiente quando se tratava de caçar animais de pequeno porte, fugir de um leopardo, ser aceito pelos membros da tribo e defendê-la de tribos rivais, mas que fracassa reiteradamente diante da mudança abrupta da realidade humana. O estresse estrutural desse sistema a cada fracasso resulta em rupturas de sua coesão, e tal desajuste produz e continuará a produzir crises cíclicas, cujas consequências serão medidas em vidas humanas.

O GRANDE FILTRO

O Problema Humano não surgiu de um dia para o outro, os primeiros abalos sísmicos foram percebidos há muito tempo. Mas, nos últimos dois mil anos, a medida em que se acentuava o rompimento com os paradigmas de nossos antepassados, apenas ajustes discretos foram feitos. A sociedade prosseguiu organizando-se em torno de instituições, normas e formas de pensar que preservaram, na medida do possível, o sistema cognitivo e decisório que tantos serviços prestou aos nossos ancestrais.

Agir assim, de modo conservador, é lógico e natural. Afinal, o sistema cognitivo e decisório que herdamos está condicionado por nossa própria biologia animal. Ajustá-lo minimamente, portanto, exige enorme consumo de energia e não pode ser feito sem significativo estresse para o próprio organismo. Por isso são ingênuos os que acreditam que a solução depende de uma simples tomada de decisão no sentido de deixarmos de pensar de uma determinada maneira para começarmos a pensar de outra.

Por ironia, a crise do sistema cognitivo e decisório de nossos antepassados para lidar com os desafios do mundo atual deve-se justo à sua estabilidade e robustez. Graças a suas virtudes, a humanidade chegou ao ponto em que o progresso retroalimenta-se e cresce de modo exponencial, até transformar a realidade ao seu redor.

Transições que exigiam milênios ocorrem em cem anos – e, a seguir, numa década. Com o êxito da espécie humana, a ciência decifra o mundo, a tecnologia revoluciona o cotidiano, novas necessidades e problemas surgem, a sociedade torna-se cada vez mais complexa e dinâmica, as relações humanas transformam-se, os papéis sociais fragmentam-se.

Nos últimos séculos, progressivamente a forma como estamos biologicamente condicionados a operar diante do mundo começou tornar-se obsoleta. A tentativa do sistema cognitivo e decisório humano de ajustar-se aos novos desafios resultou em abalo irreversível de sua estrutura. Nietzsche expressou essa irreversibilidade com uma célebre metáfora: “Deus morreu. Deus permanece morto. E nós o matamos.”

Se há ou não Deus no sentido objetivo, outra pergunta que persegue a humanidade, responderemos apenas ao fim de nosso processo de aprendizado sobre a verdade. O importante é reconhecer que a situação humana é crítica, e brevemente será emergencial.

Neste momento, a humanidade encontra-se numa situação sem precedentes históricos. E isso demanda ação imediata. Nos últimos séculos, ao menos desde o Iluminismo, o processo de rompimento de paradigmas acelerou-se em progressão geométrica, e aproxima-se de sua fase culminante.

Não é sem exagero dizer que a humanidade se encontra, no momento em que essas palavras são publicadas pela primeira vez, numa etapa em que cada indivíduo e sociedade precisará definir a estratégia da qual dependerá seu destino. É a etapa do Grande Filtro que separará o caminho da obsolescência e perecimento do caminho da evolução e sobrevivência.

Por essa razão, é mais urgente que nunca responder à pergunta “Quem é você?”. A visão de mundo e de identidade pessoal, a forma como fomos condicionados a operar com a realidade, tornou-se defasada diante do mundo real. Os paradigmas rompidos não podem ser reconstituídos, só reformulados.

Entender quem realmente você é fornece a chave para essa reformulação, a única forma de solucionar-se o Problema Humano. Afinal, só é possível ajustar o sistema cognitivo e decisório herdado de nossos antepassados com a rapidez exigida pelas circunstâncias se cada indivíduo compreender como esse sistema está relacionado com sua identidade pessoal e, principalmente, com o mundo em que essa identidade opera.

Portanto, para responder à pergunta “Quem é você?”, é preciso, antes, saber a resposta para outra questão:

ONDE VOCÊ ESTÁ?

Ao abordarmos A Maior Descoberta da Humanidade, utilizamos três tipos de metáforas para responder a essa questão: uma metáfora alquímica, outra da matemática e ainda uma terceira computacional.

Com um antigo lema dos alquimistas, descrevemos dois princípios gêmeos da realidade em que vivemos: “solve et coagula” – ou “dispersa e entrelaça”. Pela dispersão, novas realidades alternativas emergem do momento presente a cada instante (solve). Por outro lado, tais realidades não interagem a nível macroscópico, pois apenas os seres e coisas que estão entrelaçados em determinada trama de realidade podem interagir entre si (coagula). Essa é a razão de não percebermos as demais realidades alternativas, exceto quando observamos o mundo muito de perto, tal como ocorre em laboratório.

O ambiente em que infinitas realidades alternativas coexistem, e no qual o próprio destino humano bifurca-se em inúmeras versões de sua própria vida, foi chamado de hipercontexto.

O hipercontexto é o espaço em que todas as probabilidades de algo ocorrer se manifestam ao longo do tempo e coexistem simultaneamente. Característica desse processo é a contínua emergência de novas possibilidades de futuro a partir de um mesmo momento presente – e há infinitos momentos presentes coexistindo neste instante.

A consequência para sua vida é simples: desde que você, leitor, nasceu, a cada evento aleatório relevante e a cada escolha decisiva que fez em sua vida, houve uma divisão de seu destino em vários caminhos prováveis, todos eles coexistindo simultaneamente, cada um deles vivido por uma versão alternativa de você. Você próprio é uma dessas versões, e nenhuma é mais verdadeira ou mais importante que a outra. Cada uma dessas versões ignora a existência das demais pois cada uma encontra-se entrelaçada em uma trama de realidade distinta das outras. E cada uma dessas versões não percebe os momentos em que seu destino se divide em vários futuros por razões que logo serão demonstradas.

Já com a metáfora matemática, aprendemos que a vida humana é como o infinito conjunto de números fracionados que existem nos estreitos limites entre zero e um. Ou seja, apesar de a biografia de um ser humano ramificar-se em diversos destino alternativos ao longo do tempo, realizando inúmeras possibilidades de viver e ser, tais destinos ocorrem dentro de possibilidades limitadas.

Essa metáfora permite afastar a equivocada ideia segundo a qual, havendo realidades alternativas, há uma em que você é um guitarrista famoso, outra em que você é um bilionário e até mesmo outra em que você jamais morrerá (pois a morte, em cada momento de risco de vida, pode ocorrer ou não, e haveria uma vida na qual ela jamais ocorreria para alguém). Afinal, argumenta-se, tudo isso é cientificamente possível.

Mas o que é possível não é o que é provável, e raramente os eventos prováveis em um destino humano resultam de um só fator. Assim como o envelhecimento e a morte, os principais eventos do destino humano são processos para o qual convergem múltiplos fatores, e esses fatores estabelecem o contexto em que o virtualmente possível torna-se “concretamente” provável.

Ademais, os futuros possíveis para uma criança são condicionados também pelo contexto inicial de seu nascimento. Uma criança nascida numa aldeia da floresta amazônica não se tornará uma bilionária, e se você não herdou de seus pais qualquer inclinação para a música, não se tornará um guitarrista célebre.

Desse modo, somos o infinito encapsulado dentro dos limites do que é cientificamente possível e contextualmente provável. Eventos no mundo macroscóspico são processos decorrentes de múltiplos agentes e são condicionados por múltiplos fatores, todos eles entrelaçados, e isso é como uma força gravitacional que curva o conjunto de possibilidades virtuais de forma a mantê-lo circunscrito a uma esfera ainda mais restrita de probabilidades “concretas”.

Por fim, pela metáfora computacional, foi apresentada a noção de que todo o universo observável, e que nosso cérebro percebe como sendo tridimensional, pode ser codificado em uma superfície bidimensional, tal como no caso de uma holografia.

Assim, propusemos ao leitor que imaginasse a realidade tridimensional em que vive como se estivesse codificada na trama de uma tapeçaria bidimensional de espessura muito fina, que se encontra empilhada com outras tapeçarias em cuja trama, por seu turno, estão codificadas outras realidades tridimensionais, inicialmente distintas umas das outras por discretas diferenças de codificação. Essas diferenças, contudo, ampliam-se progressivamente, e há enormes discrepâncias entre tramas que se situam em pontos distantes da topografia do hipercontexto.

Mas metáfora do espaço bidimensional que codifica uma realidade tridimensional empilhada junto a outras é, como todas as metáforas, limitada. É nesse ponto em que se percebe como são inadequados termos populares como “teoria dos muitos mundos” e “multiverso”, pois induzem à noção de que há universos apartados evoluindo paralelamente, sem interagirem de qualquer modo.

Na verdade, novas tramas de realidade estão constantemente emergindo das tramas de realidade que existem neste instante. E o momento presente transita em direção ao futuro dando gênese a novas tramas de realidade em que todas as versões coexistentes de uma só coisa ou ser se entrelaçam com a versões dos seres e coisas ao seu redor.

O entrelaçamento, por sua vez, não é uma propriedade da realidade que, “amarrando” os elementos de uma trama, aparta-a de todas as outras, como se fossem dimensões enfileiradas e que não interagem entre si. O entrelaçamento é a relação de complementaridade fundamental que existe entre todas as coisas que emergem no universo, inclusive no âmbito do hipercontexto. Novas formas de ser de cada objeto originam-se de modo correlacionado com novas formas de ser dos objetos com os quais se encontra entrelaçado. O segredo do próprio tempo e da gravidade dos corpos macroscópicos está no lema solve et coagula.

O nome “hipercontexto” não é por acaso: chama-se assim algo que se situa além de todos os contextos, ou seja, de todos os possíveis conjuntos de circunstâncias que coexistem em determinado instante. Ora, falar em “hipercontexto” é também usar uma metáfora: na verdade, o que se está descrevendo é meramente o universo tal como é.

Isto é o universo. É neste exato lugar em que você está agora, neste exato instante presente.

PROVAS DO hipercontexto, A FÁBULA DOS CEGOS E UM ENIGMA.

Neste momento, há provas suficientes para que a existência do hipercontexto já seja reconhecida pela humanidade como a maior descoberta feita em sua história. De experimentos como a Dupla Fenda a paradoxos como o EPR, da Equação de Schödinger à rigorosa lógica de Hugh Everett, já há material suficiente para que qualquer um possa reconhecer a verdade do hipercontexto com clareza e honestidade intelectual. Novas provas surgirão com o tempo, pois trata-se de um fato testável (isto é, falseável) – e, inclusive, novas provas serão apresentadas a seguir, quando tratarmos do Reino Vegetal.

Quanto à atual postura da comunidade científica a respeito da existência do hipercontexto (e parte considerável da comunidade científica já a admite), só há uma coisa a dizer: prossiga-se investigando, prossiga-se questionando, prossiga-se testando. A questão, aliás, é justamente essa. David Wallace serenamente expôs, com clareza epistemológica, que os princípios científicos não estão sendo observados por aqueles que não levam a sério a importância das pesquisas sobre o hipercontexto. Afinal, a conclusão de Hugh Everett (que foi o primeiro a denunciar publicamente o hipercontexto) não ofende a Navalha de Occam – ao contrário, trata-se do único modelo que a observa. A resistência de alguns tem o mesmo fundamento da resistência à esfericidade da Terra: recusa em aceitar uma possibilidade extremamente contraintuitiva.

Logo, é inevitável que a comunidade científica chegue à conclusão unânime sobre a existência do hipercontexto cedo ou tarde, em 2022 ou em 3087. Esse é um ponto tranquilo. Aqui, o importante é ter em mente que o objetivo não é competir com a ciência, tampouco fazer ciência, mas narrar um fato a leitor – e, reconhecidos ou não, os fatos estão sempre presentes.

Também é importante perceber que o objetivo do conjunto desses textos não se limita e nem se deterá na discussão daquele fato já descoberto no século XX: o objetivo final é expor a verdadeira natureza de um risco concreto, embora o risco concreto exista e deva ser reconhecido independentemente do conhecimento de sua verdadeira natureza. A ignorância ou a recusa em aceitar um ato não nos impede, nesse caso, de agir diante do perigo.

E a recusa e a ignorância voluntária são esperadas, pois desde a descoberta das primeiras pistas sobre a existência de infinitas realidades alternativas, a humanidade tem interpretado o que viu de várias formas equivocadas, que denunciam uma reação instintiva contra a natureza extremamente contraintuitiva da verdade.

Exemplo disso é a reação de aversão cética ou de fascínio místico que a palavra “quântico” costuma despertar, e que uma fábula oriental ilustra muito bem.

Conta-se que, certa vez, numa aldeia na Índia, três cegos foram apresentados a um elefante, animal sobre o qual jamais tinham ouvido falar. Pediu-se que o descrevessem, e o primeiro cego, tateando sua tromba, disse que o elefante era como uma serpente. O segundo, abraçando uma das pernas, disse que o animal era como o tronco de árvore. O terceiro, apalpando seu flanco, afirmou que era como uma pedra.

Desde que a humanidade começou a identificar vestígios e pistas sobre a verdadeira natureza da realidade, houve duas reações típicas: a primeira é de austera negação da verdade, a segunda é de infantil delírio. A primeira vingou no seio da comunidade científica, a segunda nasceu de entusiastas do misticismo. Ambas correspondem à cegueira da fábula.

A chamada Interpretação de Copenhagen (segundo a qual a natureza quântica da realidade se restringe ao mundo microscópico das subpartículas, mas não ao mundo macroscópico em que vivemos), defendida por menos da metade da comunidade científica, nega a realidade ao crer em superstições como o conceito de “medição” e em dogmas como uma suposta linha de separação entre o mundo das subpartículas e o mundo macroscópico – dogma esse já fulminado pelo Teorema de Bell (e, como se verá, até pela planta mais ordinária do mundo). Já o chamado Ocultismo Quântico, popular entre místicos, nega a realidade ao supor que a consciência humana é dotada de algum poder mágico capaz de materializar o universo a partir de infinitas potencialidades, de modo que alguma espécie de pensamento positivo misterioso seria capaz de trazer sorte e fortuna a qualquer um.

Os cegos que negam e os cegos que deliram diante da palavra “quântico” perdem-se justamente no ponto em que se deparam com um certo enigma. Trata-se de uma questão que perturba e confunde a ambos, induzindo-lhes a cegueira.

O enigma consiste em determinar qual participação tem o ser humano na realidade do hipercontexto. Ocorre que responder esse enigma é a chave para a pergunta “Quem é você?”.

Contudo, a melhor forma de desvendar o enigma, curiosamente, não é observar o ser humano. A melhor forma consiste em observar a planta mais próxima de você neste exato momento, por mais simples que ela seja.

O GRANDE SEGREDO DO REINO VEGETAL

Como é evidente, nossos corpos também participam do hipercontexto, também são da mesma substância de tudo ao nosso redor (tecnicamente, também são funções de onda), coexistindo nesse exato momento em vários estados alternativos. E assim nossos corpos também se correlacionam, pelo entrelaçamento, com estados sobrepostos de todas as coisas ao redor. No nível macroscópico, todas as realidades alternativas que habitamos ao mesmo tempo coexistem de forma transparente, aqui e agora, e continuamente dão origem a novas realidades.

Pense em duas bolas de bilhar que se chocam. O que ocorre é que suas funções de onda, ou seja, suas coexistentes possibilidades sobrepostas, chocam-se observando um continuum de interações decorrentes do entrelaçamento (complementaridade) entre as possibilidades de cada bola. O corpo de um cientista no laboratório, inclusive seu cérebro e sistema visual, também existe em vários estados possíveis, e encontra-se em constante relação de entrelaçamento com o equipamento em todos os seus estados possíveis.

A compreensão correta da natureza do hipercontexto, isto é, do universo enquanto tal, leva à conclusão de que a vida biológica fez, em algum momento, uma escolha evolucionária em relação a essa realidade. E isso pode ser percebido claramente no mundo vegetal.

A planta mais próxima de você, por mais comum que seja, é um exemplo de como a natureza adotou uma estratégia não só para sobreviver no hipercontexto, como também para beneficiar-se da lógica do hipercontexto. Esse é um fato recentemente descoberto e já extensivamente estudado, conforme demonstram as pesquisas conduzidas separadamente por biólogos como Engel, Ishizakia, Olaya-Castro e Collini.

Trata-se do processo de fotossíntese.

De modo simplificado, durante a fotossíntese, a energia de um fóton incidente na superfície da folha é capturada. Essa energia luminosa é, a seguir, processada dentro dos cloroplastos, organelas que existem nas células da planta. Dentro de um cloroplasto, a energia luminosa capturada é transmitida “de mão em mão”, passando de um cromóforo (são estruturas moleculares distribuídas por todo o cloroplasto) a outro, numa sequência de cromóforos, até chegar num lugar chamado de “centro de reação”, onde a energia luminosa é convertida em energia química.

Porém, ao analisar-se a fotossíntese de uma simples planta de jardim, observa-se uma rapidez e eficiência de aproveitamento espantosas. Um só processo de captura e transporte da energia luminosa de um só fóton dentro da planta leva milionésimos de bilionésimos de segundo.

Algo indicava que, de alguma forma, a planta “sabia” qual o caminho era mais eficiente em cada caso.

O mistério foi resolvido quando se descobriu que, na fotossíntese, a planta aproveita-se da coexistência de múltiplos estados possíveis e coexistentes de cada fóton para que todos os trajetos possíveis entre os cromóforos sejam tomados de uma só vez. A seguir, a planta seleciona em seu centro de reação a energia que foi transmitida pelo melhor caminho, entre todos os trajetos tomados simultaneamente pelo mesmo quantum de energia luminosa.

Isso não é especulação, isso é um fatocomprovado e estudado. E esse fato pode ser descrito de várias formas complementares.

Tecnicamente, qualquer folha da planta mais ordinária que brota entre as junções de um muro é capaz de explorar todos os possíveis estados concomitantes do fóton e assim fazer com que a energia capturada siga ao mesmo tempo todos os caminhos possíveis pelos cromóforos, escolhendo (via coerência) o caminho mais eficiente para que a energia seja transmitida até o centro de reação.

De forma mais ampla, o que ocorre é que essa planta é capaz de explorar os múltiplos estados coexistentes de um mesmo fóton no âmbito do hipercontexto, associando o caminho mais eficiente para cada trama de realidade em ela existe e no qual faz sua fotossíntese.

De forma mais simplificada, a planta associa a cada versão sua, que existe em cada realidade alternativa desse universo, o trajeto de transporte da energia luminosa que for mais vantajoso naquela realidade específica.

Isso é feito por todas as plantas, seja uma grande sequoia, seja um pé de alface. E esse fato também fulmina o dogma de que há uma separação entre a física das subpartículas e o mundo macroscópico.

Por tal razão, não é absolutamente exagerado afirmar, como veículos de divulgação científica com credibilidade têm afirmado, que as plantas, na fotossíntese, funcionam como computadores quânticos.

Na verdade, não é também exagero dizer, como tem-se dito, que os organismos vivos são genuínas máquinas quânticas.

É que as plantas não são o único exemplo das escolhas evolucionárias que a natureza fez no hipercontexto. Como foi constatado, pássaros voam seguindo trajetórias coexistentes de forma que correspondam ao padrão de entrelaçamento que emerge do campo magnético da Terra em todas as realidades alternativas. Futuramente, será confirmado o que já se suspeita: que sentidos humanos como o olfato e a visão (um processo tão surpreendentemente rápido e eficiente quanto o da fotossíntese) dependem de estratégias evolutivas da natureza em relação ao hipercontexto. Essa também é a razão pela qual apenas determinados isótopos servem ao tratamento farmacológico de transtornos depressivos no cérebro humano.

Contudo, afirmar que somos “máquinas quânticas”, além de perturbar o ânimo dos cegos que negam e dos cegos que deliram diante da palavra “quântico”, também induz ao erro de que há algo especial, de “mágico” no fato de os seres vivos operarem no hipercontexto. É como dizer que o corpo humano é uma “máquina do tempo”, já que “viajamos” no tempo, indo do passado em direção ao futuro.

Ocorre que os organismos vivos operam no hipercontexto com a mesma naturalidade com que operam no tempo e nas três dimensões espaciais – pois tudo isso são aspectos de um só ambiente em que toda forma de vida nasce, cresce e morre. O hipercontexto é agente indissociável da vida orgânica, desde sua origem até os ecossistemas mais complexos nos dias de hoje.

A ORIGEM DA VIDA

É digno de nota que a primeira característica fundamental da vida orgânica foi a capacidade de replicar-se nos antigos oceanos e assim reproduzir, no âmbito do espaço tridimensional (um contexto) algo que ocorre com qualquer partícula no âmbito do hipercontexto: a dispersão contínua de uma só coisa em diferentes estados e posições (manifestação da entropia). É como se, de certo modo, as primeiras moléculas replicantes, que dariam origem à vida, criassem um segundo nível, subsidiário, de dispersão de uma só coisa (solve), aninhando num só contexto inicial um fenômeno existente para além de todos o contextos.

Também é notável que outra característica da vida orgânica seja a capacidade de lidar com a entropia utilizando-a a seu favor para produzir a energia necessária a sua manutenção. Na verdade, a origem da vida está associada à existência do hipercontexto.

E, no âmbito do hipercontexto, em que múltiplas possibilidades de configuração do meio ambiente coexistem, a natureza ensaia estratégias de sobrevivência que permitam adaptar-se e beneficiar-se das múltiplas realidades alternativas. Na produção de energia das bactérias, na fotossíntese das plantas, na orientação visual de aves, no sistema nervoso dos animais complexos, a natureza está sempre ensaiando novas formas de tirar proveito das múltiplas tramas de realidade, que emergem continuamente com o entrelaçamento de todos os seres e partículas. No fundo, trata-se um objetivo não muito diferente das diversas estratégias que a vida orgânica cria, pela evolução, para obter energia do ambiente circundante.

Perceba-se, antes de tudo, que a evolução, ao desenvolver progressivamente o sistema nervoso em animais complexos como o ser humano, buscava apenas desenvolver mais um órgão útil para a sobrevivência do organismo. Perceba-se, também, que se tratava, neste nível de complexidade, de um desafio bem maior do que aquele de obter energia solar da forma mais eficiente a cada segundo: o desafio consistia em fazer um organismo complexo operar num ambiente em constante ramificação em novas tramas de realidades.

Em outras palavras, seria útil um órgão que representasse com acuidade as características mais importantes do ambiente circundante, de forma que o organismo pudesse operar no hipercontexto encontrando alimento, defesa e meios de reprodução. Esse órgão é o cérebro.

Usando uma comparação quase metafórica, assim como a folha da mais simples planta escolhe em cada trama de realidade o trajeto mais eficiente para a fotossíntese, o sistema nervoso central dos animais complexos seleciona informações sensoriais da trama com a qual pode interagir a cada instante, e faz isso para obter nutrientes, encontrar oportunidades de reproduzir-se e evitar ameaças.

O desenvolvimento desse sistema nervoso resultou no aprimoramento da capacidade decisória do organismo vivo diante de cada situação presente num contexto específico, de forma a responder ajustadamente aos inúmeros futuros alternativos que continuamente emergem. Uma estratégia adotada pela natureza de “dividir (o hipercontexto em contextos) e conquistar”.

Nesse momento, algumas coisas já devem ser óbvias ao leitor.

Podemos imaginar a natureza optou, em outras formas de organização da vida, por lidar com a realidade do hipercontexto de outras formas, isto é, sem essa segmentação feita pela consciência dos animais complexos. O fato de que a vida vegetal adotou uma estratégia peculiar e distinta da nossa é um indicativo claro dessa possibilidade. E, de fato há, ao nosso redor formas de vida insuspeitas, que se desenvolveram estabelecendo uma relação distinta com o hipercontexto. Mas esse não é o tópico nesta parte de nosso aprendizado, e será abordado mais detidamente no futuro, na ocasião em que se tratará das implicações factuais e históricas do hipercontexto.

Nesta etapa, o que importa é começar a desvendar quem somos a partir da percepção de que nosso cérebro é um órgão criado evolutivamente para operar no âmbito de múltiplas realidades alternativas. E nisso não é em nada diferente das organelas que realizam a fotossíntese numa couve-flor.

CONSCIÊNCIA E hipercontexto

Se você perguntasse a um discípulo de Newton (pai da Física clássica) o que é consciência humana, ele apresentaria uma mesa de bilhar. Nessa mesa, colocaria dezenas de bolas. A seguir, ele explicaria que, se uma das bolas for impulsionada de encontro às outras, e souber-se a exata posição inicial de cada uma, bem como as demais condições físicas de todo o sistema, seria possível descrever todos os movimentos subsequentes de todas as bolas a partir do primeiro choque, bem como sua posição no próximo segundo, no próximo minuto e assim por diante. É um sistema determinístico, onde cada instante seguinte pode ser deduzido das condições do instante antecedente. Além disso, também seria possível descrever todos os movimentos na mesa de bilhar no sentido inverso, voltando até o impulsionamento da primeira bola – pois, nesse sistema, o tempo é reversível.

Da mesma forma, continuaria o discípulo de Newton, se fosse conhecida a condição exata de todos os elementos constituintes de seu cérebro e de todas as variáveis determinantes nos processos cerebrais, seria possível prever seus pensamentos no próximo minuto, nos próximos dez minutos e no dia seguinte. Seria possível, também, descobrir o que você pensou no passado. Na verdade, sequer se poderia falar que você “pensou” em algo, pois a consciência seria apenas um subproduto irrelevante e colateral (um epifenômeno), dos movimentos na mesa de bilhar que é seu cérebro.

Mas sabemos que essa mesa de bilhar não é uma mesa de bilhar – é um conjunto de funções de onda composto por cada um de seus elementos constituintes, ela é, na verdade, a sobreposição de vários possíveis estados da mesa de bilhar, situada no hipercontexto. E sabemos, pela Equação de Schrödinger, que o hipercontexto não é apenas determinístico – ele é hiper determinístico, pois todas as probabilidades de futuro realizam-se em vários encadeamentos causais simultâneos.

Também sabemos que a noção de separação do universo em realidades alternativas não é algo inerente ao mundo exterior, mas um recorte da realidade feito pelo organismo – uma maneira de a vida orgânica segmentar sua interação com o meio ambiente do hipercontexto. É o que um pé de alface faz todos os dias. Trata-se, em síntese, de uma estratégia evolutiva. Como Andreas Whichert diria, esse é um processo de homeostase do organismo no âmbito das múltiplas realidades coexistentes.

Não é sem razão que o físico russo Michael Mensky, membro do Instituto de Física Lebedev, decidiu definir consciência como sendo nada mais que A separação de realidades alternativas e coexistentes. Em outras palavras, diante da coexistência de informações visuais conflitantes no momento em que um pesquisador num laboratório abre a caixa em que está o gato de Schödinger, a fim de descobrir se ele está vivo ou morto, sua consciência inicia uma separação de percepções que acompanhará as duas versões do pesquisador no caminho até sua casa após o expediente: em uma dessas versões, irá enterrar o gato no jardim; em outra, dará de comer ao animal.

Nesse exato momento, começam a surgir linhas de investigação teóricas e práticas que, não sem tropeços, comprovarão que o cérebro humano também opera no âmbito do hipercontexto. Ou seja, o cérebro humano utiliza-se do continuum de realidades alternativas pois é para essa função que primordialmente foi evolutivamente criado pela natureza.

E foi a partir da descoberta desse fato que o respeitado biologista Stuart Kauffman percebeu a relação existente entre o binding problem e o entrelaçamento fundamental das tramas de realidade.

O binding problem é um problema enfrentado pelas ciências da mente e pode ser descrito da seguinte maneira: se um observador vê um elefante vermelho diante de si, sua mente conecta as definições de “elefante” e de “vermelho”, que são armazenadas em regiões distintas do cérebro (na verdade, pelo sistema da segregação funcional, é um pouco mais complexo que isso, mas vamos manter o exemplo simples), para processar a ideia de que está vendo um elefante vermelho. Porém, se o elefante vermelho estiver montado por um macaco de chapéu, agora o observador precisa conectar mais três informações de regiões distintas de seu cérebro (a que está “macaco”, e a que está “chapéu”, a que está “montado”) e estabelecer conexão entre esses cinco elementos entre si (“elefante”, “vermelho”, “macaco”, “chapéu” e “montado”).

O problema é que, no mundo real, o observador não veria só um elefante amarelo montado por um macaco: ele receberia simultaneamente inúmeras informações sensoriais sobre o ambiente circundante, informações que estão continuamente mudando a todo instante. Na verdade, informações que não só chegam a cada momento, mas que estão sobrepostas em várias versões alternativas do macaco, do elefante e do ambiente no hipercontexto. E é preciso unir tudo isso numa percepção imediata do mundo que seja consistente.

Ocorre que é o entrelaçamento estabelecido entre as informações contidas em regiões distintas do cérebro e determinada trama de realidade que inicia essa separação, realizada pela consciência, entre a percepção de diversas tramas coexistentes. Isso tudo ocorre de forma muito rápida e consistente, em frações de milissegundos, numa velocidade capaz de rivalizar com a velocidade do processo de fotossíntese. Essa é a mesma conclusão a que chegou o neurocientista Danko Georgiev, e a dinâmica pode ser expressa na seguinte formulação de Matthew J. Donald, membro do Departamento de Física da Universidade de Cambridge:

“Quando um único indivíduo entra em contato com uma imagem pela primeira vez, todas essas diferentes possibilidades ocorrem, mas cada padrão diferente dos demais é visto por uma mente diferenciada. São mentes com o mesmo passado e o mesmo nome, mas que experienciam diferentes presentes e diferentes futuros, e que não tem forma de comunicar-se umas com as outras. A probabilidade de ver determinado padrão é determinada, pelo menos numa primeira aproximação, pela influência correspondente no estado quântico.”

Como afirmou o físico israelense e professor do Departamento de Física de Berkley, Rafael Bousso, e o norte-americano Leonard Susskind, de Universidade de Stanford, aquilo que é percebido como “decoerência”, ou seja, a segmentação do hipercontexto em tramas de realidade, é algo subjetivo e dependente de escolhas nos graus de liberdade possíveis do meio ambiente circundante.

O matemático Stuart Kauffman observou que, do ponto de vista computacional, há evidências de que o cérebro humano usa lógica segundo o formalismo quântico (o hipercontexto, de possibilidades coexistentes), e não segundo o formalismo da física clássica (a mesa de bilhar de Newton), o que é endossado pelo trabalho do físico da Universidade de Bruxelas, Diederik Aerts, e da psicóloga Liane Gabora. Ambos estudaram a forma como os seres vivos representam mentalmente sua interação com o hipercontexto: um organismo existe em estado de potencialidade (de manifestar-se no futuro imediato em várias versões alternativas de si mesmo) ao mesmo tempo em que o mundo exterior demanda, através de constantes estímulos, que esse organismo interaja com um único e determinado contexto de realidade.

Como ambos afirmaram, esse contexto “induz uma mudança no estado cognitivo” do animal, “que o faz transitar de um estado de sobreposição” (múltiplas realidades coexistentes) para um “estado de colapso” (a impressão de que há uma só realidade definida, com a qual pode interagir).

Em suma, enquanto você vive seu cotidiano, depara-se com decisões e fatos aleatórios que segmentam sua vida em vários futuros coexistentes, e sua mente segmenta a experiência de modo que cada versão de você vivencie apenas uma trama de realidade.

Mas a natureza “escolheu” (figurativamente falando) não nos informar a respeito disso. Vivemos emergindo em realidades alternativas, realizando futuros potenciais, ramificando nosso destino conforme escolhas e eventos decisivos. Assim, a sua história pessoal não é uma linha de vida, mas uma árvore de vida.

Como percebemos nossas vidas.
Como nossas vidas são.

Porém, você ignora essa vivência contínua, e isso ocorre justamente porque ignorar esse fato é parte indissociável da função do órgão que é seu cérebro. A natureza não tem qualquer inclinação pela verdade: a natureza tem inabalável inclinação pela sobrevivência e reprodução do organismo. A função de nossa consciência não é perceber a verdade sobre o mundo ao redor, mas possibilitar que nosso organismo interaja apropriadamente com aquele contexto de realidade no qual pode obter alimento, abrigo e reprodução – e do qual podem surgir efetivos riscos à sua sobrevivência. Sua consciência produz a separação de “tramas de realidade” assim seu o fígado produz bile.

O MODELO MENTAL QUE TOMAMOS POR REALIDADE

Na verdade, é incorreto supor que a consciência humana é destinada a tentar perceber a verdade sobre a realidade circundante. Ela é um órgão, e como tal sua função é fornecer ao organismo uma descrição acurada de aspectos da realidade circundante que importam para sua sobrevivência. A natureza não se inclina à verdade, mas à sobrevivência e reprodução de si mesma. Ademais, na economia da natureza, informações inúteis para seus fins não precisam ser processadas e armazenadas pelo organismo. Eis o motivo pelo qual não vemos as ondas de rádio que passam por nós nesse exato momento, ou não ouvimos sons abaixo de determinada frequência.

O filósofo alemão Thomas Metzinger, especialista no estudo sobre a consciência e identidade humana, recentemente demonstrou que o cérebro de um organismo consciente constrói a cada instante um modelo do mundo exterior. Essa é uma atividade incessante, e reconhecida pela neurobiologia, pois a cada instante a consciência é inundada por uma torrente de informações sensoriais sobre o mundo circundante e a cada um desses instantes precisa organizar essas informações de forma a construir um modelo coeso e compreensível desse mundo.

E isso é feito a uma velocidade impressionante, tal como a velocidade da transmissão de energia na fotossíntese. Afinal, a cada segundo pode surgir um predador ou outro tipo de ameaça à sobrevivência.

Com base nessas informações sensoriais, nosso cérebro cria um simulacro de realidade no qual sentimos que estamos inseridos. Como diz Metzinger, “o modelo global de realidade construído por nosso cérebro é atualizado com tanta velocidade e consistência que de regra não o vivenciamos como um modelo”, mas como a realidade em si mesma. Por isso a resistência humana em aceitar o hipercontexto é tão ou mais forte do que a de aceitarmos que a Terra em que pisamos não é plana, mas faz parte de uma esfera que flutua no espaço sem “lado para cima” e “lado para baixo”. Para nós, “a realidade fenomenal não é um espaço simulado construído por nossos cérebros”, mas o mundo real. “De uma forma direta e intranscendente enquanto experiência, trata-se do mundo em que vivemos”.

Você olha ao seu redor e acredita que está presenciando a realidade, o mundo no qual está inserido. Mas, na verdade, está percebendo um modelo de mundo criado dinamicamente por seu cérebro, através do qual pode interagir com os outros seres ao seu redor. Graças a um processo baseado no princípio da segregação funcional, áreas diferentes de seu cérebro constroem em sua mente (utilizando padrões de ativação das colunas thalamocorticais), a cada fração de segundo, esse simulacro eficiente de realidade consensual que você compartilha com todos os outros humanos e demais seres vivos que estão entrelaçados na mesma trama de realidade em que você está inserido.

Esse modelo de realidade, nos organismos mais evoluídos, é ainda mais complexo: ele inclui um modelo também de self, de si mesmo. Um modelo de identidade, de individualidade, que é criado dentro aquele outro modelo de mundo, fornecendo à sua consciência a percepção de que alguém vive sua vida.

Esse modelo de identidade é você. Ao menos em parte. Assim, a pergunta inicial começa a ser respondida.

QUEM É VOCÊ (EM UM CONTEXTO)

Então, quem você é? Qual é sua identidade? A resposta dependerá dos limites do enquadramento que fizermos do hipercontexto.

No enquadramento de uma trama de realidade percebida por sua consciência, você é um modelo de identidade pessoal criado e inserido no modelo de mundo que seu cérebro constrói dinamicamente a cada segundo ao segmentar o hipercontexto em contextos separados. Esse modelo de identidade pessoal testemunha a vida de uma perspectiva de primeira pessoa, e ele é o que denominamos de ego.

O ego trouxe grandes vantagens evolutivas aos organismos complexos. Metzinger considera-o uma verdadeira arma, “desenvolvida na corrida armamentista cognitiva” que há entre os seres vivos. É “como um instrumento ou órgão abstrato, inventado e constantemente atualizado pelo sistema biológico” que o sustenta.

Portanto, você é uma dentre várias identidades do mesmo organismo, coexistentes no hipercontexto, cada qual vivendo em um destino específico, dentro de uma moldura de realidade. Seu cérebro está constantemente atualizando esse modelo que você sente como o mundo real ao seu redor. Seu cérebro está constantemente contando para você próprio uma narrativa sobre quem você é e onde está. No centro desse modelo, há um modelo de identidade pessoal – o seu ego.

Mas essa narrativa não é individual, tampouco é meramente humana. A narrativa sobre a trama de realidade em que você está não é contada apenas pelo seu cérebro a cada instante, mas também pelo cérebro das pessoas ao seu redor. Tais narrativas de cada indivíduo são complementares, e reforçam-se mutuamente. Assim, o que há é uma enorme teia de narrativas contadas por todos ao seu redor.

E isso não inclui apenas os seres humanos, mas também todos os animais desenvolvidos, que a natureza também decidiu dotar de um cérebro que segmenta realidades e cria modelos de mundo e identidade pessoal em maior ou menor grau (nem todo chegam a desenvolver um ego, mas desenvolvem ao menos uma noção rudimentar de identidade pessoal). Na clareira de uma floresta, tanto o leopardo faminto como sua vítima humana compartilham uma narrativa coletiva de terá fatais consequências para um deles – suas narrativas são complementares, estão “entrelaçadas”.

Essa é uma forma de organização ecossistêmica que há no âmbito do hipercontexto, nada diferença em funcionalidade que o ecossistema no qual trocamos nutrientes e outras substâncias com um conjunto de seres vivos. Mas esse é um ecossistema de informação. Todos os seres vivos evoluídos estão narrando a mesma história uns para os outros, “encenando-a” dentro de modelo simulado de realidade que existe dentro dos seus cérebros.

A noção que você tem sobre quem é, onde está e o que está vivenciando neste momento é um modelo construído por seu cérebro a cada instante, a medida em que você flui pelo hipercontexto, segmentando sua vida em caminhos diferentes diante de cada decisão ou acaso que estabelece novas probabilidades de viver – e ao mesmo coexistindo com versões alternativas de você que estão exatamente aqui, neste espaço no universo. Mas com essas múltiplas versões você não pode interagir, pois elas não pertencem ao contexto de entrelaçamento com o qual você é pode de interagir.

Poderíamos dizer que é como se a natureza tivesse decidido, por questões evolucionárias, adotar a estratégia de “nos enganar” a todo momento, fazendo-nos ignorar o hipercontexto em que vivemos e a constante emergência de novos futuros ao qual reagimos com a divisão de nossa identidade em versões alternativas.

Mas falar assim seria pressupor de que a natureza tem alguma obrigação de nos apresentar a verdade. E isso seria um raciocínio invertido. A natureza é que nos criou para uma função específica em relação ao nosso organismo: operar em determinado contexto, em determinada trama de realidade. Para isso, elas municiou-nos com um sistema sensorial capaz de fornecer informações para que o cérebro construa um modelo minucioso e dinâmico de mundo.

Assim, o modelo continuamente construído ignora qualquer informação sobre a realidade que não apenas seja inútil para nosso contexto de sobrevivência (por isso não vemos, entre outras coisas, luz infravermelha) mas também estruturalmente prejudicial para a estratégia evolutiva que foi adotada.

Por isso é que facilmente nos distraímos da pergunta sobre quem somos, apesar de sua auto evidente importância, e temos dificuldade de encontrar a resposta: somos vocacionados à ignorância. Na verdade, expondo de forma mais exata, somos vocacionados a ter um conhecimento seletivo sobre as coisas, em que há zonas delimitadas por uma ignorância estrutural. A ignorância estrutural decorre do fato de que, evolutivamente, fomos criados para operar como um modelo de identidade pessoal, ou seja: o ego existe para acreditar que é alguém que vive uma vida. Responder de fato à pergunta é contrário à programação evolutiva.

Nesse momento, o leitor pode objetar que o conhecimento desse fato pode legitimar o suicídio ou a algum tipo de desestruturação da identidade humana, com graves consequências. Em relação ao suicídio, futuramente será demonstrado porque o matar-se é realmente uma péssima ideia no âmbito do hipercontexto. Quanto à outra objeção, convém lembrar que deixar de ter um ego, de vivenciar o mundo com uma identidade pessoal, é quase tão impossível para qualquer um quanto seria impossível a você desligar seu cérebro e cair morto neste exato momento simplesmente decidindo parar de pensar e tentando interromper qualquer atividade neurológica. Você é esse modelo de identidade que acredita viver sua vida, e continuará sempre sendo esse modelo de identidade.

Além disso, esse sistema é reforçado por um sistema maior, a matriz em que você vive, e cujo entendimento perceberá que respondamos com mais profundidade ainda à pergunta “Quem é você”.

A MATRIZ EM QUE VOCÊ VIVE

A evolução é emergente. Isso já reconhecia Alfred Russell Wallace, amigo de Darwin e um dos formuladores da teoria da evolução. E por “emergência” tem-se algo muito simples: é o contrário da linearidade. Na linearidade, o todo é igual a simples soma de suas partes. Na emergência, o todo é mais que a soma de suas partes.

Isso é perfeitamente claro quando colocamos da seguinte forma: podemos empilhar ao lado do animal todas as substâncias inanimadas que compõem seu organismo, desde todo o carbono e minerais até as moléculas de água. Porém, esse conjunto de elementos empilhados não será semelhante ao animal, da simples concatenação das partes não resulta o todo. O animal é algo mais, possui propriedades de termodinâmica e reprodução que os elementos inanimados não tem.

O que diferencia o animal daquele conjunto de elementos empilhados é a organização e interação desses elementos em uma determinada ordem: é informação. Não somos exatamente as células do nosso corpo, que morrem aos milhões a cada minuto. Somos a informação que é transmitida às novas células que constantemente são produzidas pela meiose.

Dessa perspectiva, tudo o que a vida orgânica faz neste mundo é reproduzir um sistema de informação consistente na sequência de DNA: não é a molécula de DNA que se transmite, mas a informação representada por uma configuração determinada de encadeamentos de bases nitrogenadas. Não é um objeto, mas uma informação ordenativa que tem como suporte um conjunto de objetos. Isso ocorre mesmo nas bactérias primitivas.

A evolução é inerentemente emergente, e tende a produzir sistemas de informações de nova ordem no curso da adaptação. Da mesma forma, como diria Julian Jaynes, a consciência humana é emergente, e não pode ser resumida como o mero conjunto de neurônios de um cérebro humano. No desenvolvimento desse órgão evolutivo destinado a ajudar o organismo a operar no hipercontexto, emergem estruturas de informação de maior nível de complexidade.

A consciência humana é resultado dessa emergência – neste momento, ela começa a reconhecer sua função de segmentar realidades e passa a ir além dessa função. Paralelamente, no âmbito do hipercontexto, a rede de representações de realidade passa a ir além do contexto onírico em que vivem os animais primitivos e desenvolve um sistema altamente organizado e superior de consciência ao qual nossos egos (nossas representações de realidade e identidade pessoal vinculadas a uma trama de realidade específica, a um contexto) não têm acesso.

Do outro extremo da história evolutiva outros sistemas de informação, mais abstratos, desenvolveram-se. No cérebro dos organismos mais complexos, há sistemas de informação que, na terminologia de Metzinger, constroem e atualizam dinamicamente uma representação da realidade que o animal considera ser o mundo real. Em organismos mais desenvolvidos, desenvolveu-se dentro dessa representação um modelo de identidade pessoal que trouxe enormes vantagens evolutivas. No ser humano, esse modelo é chamado de “ego”.

Mas para além desse sistema de representação de realidade no qual se inseriu uma representação de identidade pessoal, de ego, há um sistema de informação que é o princípio organizativo de todas as representações de realidade realizadas pelo cérebro no hipercontexto. Surgem desse sistema novas representações de realidade e identidade para cada realidade alternativa em que uma versão do mesmo organismo passa a viver.

Não estamos sozinhos apenas no sentido de que, no presente contexto em que estamos todos vivos, nessa trama de realidade que nos cabe viver, compartilhamos da mesma narrativa coletiva e entrelaçada. Também no âmbito do hipercontexto participamos de outros tipos de narrativas, que são subjacentes a certos processos também resultantes de escolhas evolucionárias.

Falar em narrativas, claro, é falar em estruturas informacionais que estão em constante transmissão e atualização diante das mudanças no meio ambiente. E as mudanças no meio ambiente estão intrincadamente associadas ao fluxo das possibilidades no hipercontexto. Assim como os vários organismos vivos compartilham de um mesmo ecossistema informacional no âmbito de determinado contexto, a consciência de um só indivíduo, continuamente fluindo pelo hipercontexto e segmentando-se em realidades alternativas, depende de um mínimo de coesão informacional.

Segure uma moeda em suas mãos. Ela não é só uma moeda, mas uma convergência de potenciais estados de ser da mesma moeda. Atire-a no chão. Num ambiente determinado pela aleatoriedade fundamental do mundo das partículas, a moeda cairá com as faces cara e coroa voltadas para cima, em realidades sobrepostas e coexistentes. As realidades potenciais até então convergentes passaram a divergir. Mas seu cérebro apenas processa uma só informação: ou cara ou coroa. O modelo de realidade precisa ser imediatamente atualizado.

Portanto, além de escolhas evolutivas terem resultado num modelo de identidade pessoal (ego) aninhado no modelo de mundo construído a cada instante pelo cérebro, um modelo ou sistema informacional de ordem superior precisa existir, a fim de organizar e promover a construção de novos modelos de identidade e de mundo a medida em que os futuros potenciais se concretizam diante do mesmo ser vivo.

Michael Lockwook chamou esse modelo superior de “Mente” (Mind), com inicial maiúscula, para distinguir das “mentes” (minds) que habitavam cada uma das realidades alternativas. M. B. Menski chamou-a de “super-consciência” (super-consciousness), para distinguir das consciências que acompanhavam a ramificação do momento presente em vários caminhos futuros. No ambiente em que essas verdades foram transmitidas antes de serem apresentadas ao leitor, é denominado de “Eu Profundo”.

Porém, cada um de nós tem ideias pré-concebidas do que seria “mente”, “consciência” e “eu”. Por outro lado, é mais fácil entender o que é um sistema de informação ou de rede.

O modelo informacional de rede é tão arcaico na natureza quanto o processo quântico de fotossíntese. Bactérias primitivas estabelecem redes de informação por meio de canais de íon para otimização da colônia bacteriana, e pesquisadores notaram recentemente sua semelhança com redes neuronais. Nas florestas, árvores distantes estabelecem entre si uma rede de comunicação graças à simbiose com fungos (mycorrhiza), prevenindo a ação de patógenos e fortalecendo as defesas do sistema como um todo.

A capacidade de sonhar dos répteis, bem como de todos os mamíferos, deixa evidente que essa rede de informação que funciona no âmbito do hipercontexto, abrangendo todas as representações de realidade de um só organismo, existe há muito tempo, mesmo que de forma rudimentar. Sim, como se verá adiante, a atividade onírica é fundamental para a existência dessa rede e um dos indícios de sua existência em um organismo vivo. O ponto importante neste momento é que essa rede tem por função original a homeostase do organismo no âmbito de um universo em que múltiplas realidades alternativas coexistem e o cérebro evoluiu optando por segmentar a representação de cada uma dessas realidades. Nisso, em nada é diferente do processo de homeostase que mantém o equilíbrio da temperatura corporal em condições ambientais variáveis.

Portanto, em posição hierárquica superior ao “mundo” construído dinamicamente pelo seu cérebro para representar uma só trama de realidade, há uma rede de informação sustentada dinamicamente por sua mente para descrever todas as tramas de realidade em que versões de você estão vivendo neste momento. A essa rede situada no hipercontexto daremos o nome de Matriz, por analogia à matriz celular que une as células de um mesmo indivíduo. Essa Matriz é inacessível ao seu ego, mas une a consciência de todas as versões suas que existem em diversas realidades alternativas.

E nos organismos ainda mais complexos e desenvolvidos, se por um lado a construção de uma identidade pessoal, o ego, trouxe vantagens evolucionárias, por outro o desenvolvimento de uma identidade superior e operante na Matriz representou também foi um desenvolvimento importante.

Em outras palavras, assim como há uma identidade pessoal construída dentro do modelo de mundo que representa uma só trama de realidade, existe um centro coordenador e organizador dentro da Matriz a que você pertence.

É nesse momento que reformulamos a pergunta “Quem é você?”.

QUEM É VOCÊ (NO hipercontexto)

No âmbito de um contexto determinado, da trama de realidade em que você lê estas palavras, você é um modelo de identidade pessoal plasmado por seu cérebro e inserido no centro da representação de realidade que dinamicamente ele constrói a cada fração de segundo. Você só existe enquanto personagem dessa representação em cada instante presente – você não existe no futuro nem no passado, mas unicamente aqui e agora. Sua mente conta incessantemente uma narrativa que relata qual seu passado, qual sua identidade e onde você está. E essa narrativa é reforçada por todos ao seu redor que compartilham da mesma experiência, que estão entrelaçado na mesma trama.

Isso é seu ego, no âmbito de um contexto.

Porém, para além dessa trama de realidade, no âmbito do hipercontexto que abarca todas as tramas de realidade em que você vive versões alternativas de sua vida, você é uma rede de informação, a Matriz, constantemente sustentada e coordenada por uma inteligência central, a sua “identidade superior”.

Essa identidade superior, que está além de todas as suas identidades pessoais coexistentes, opera no hipercontexto consciente do hipercontexto, e por isso é uma forma de consciência suprior. Para constratar com o ego, chamamos essa hiper identidade de Self.

Você também é o Self, no âmbito do hipercontexto.

É inviável ao ego (a qualquer ego de qualquer realidade alternativa em que você viva) acessar diretamente ao Self. Isso representaria, no atual estágio evolucionário, a própria desestruturação do ego e uma genuína forma de morte, já que o ego é estruturado pela própria segmentação da identidade em um contexto específico. Quem vivenciou o rompimento dos limites entre ego e Self percebe o impacto da experiência, impacto esse nem sempre benéfico. Como diz a fábula hebraica, dos quatro homens que visitaram o Jardim do Éden, o primeiro morreu, o segundo enlouqueceu, o terceiro se encheu de fúria e só o quarto conseguiu entrar e sair em paz.

A CARTOGRAFIA DE QUEM VOCÊ É

Você é ego, Matriz e Self – um indivíduo, uma rede de indivíduos e uma consciência superior.

Ao longo da história, várias tradições de pensamento tentaram descrever a verdade sobre a identidade humana. No budismo, o ego é percebido como uma forma de ilusão condicionada pelo desejo (as pulsões animais instintivas) e pela ignorância (a incapacidade de perceber a própria identidade e o mundo tal como são). No hinduísmo, crê-se na natureza ilusória da identidade, enredada no sonho de Maya, a grande tecelã de realidades. Mesmo nas religiões ocidentais há a descrição de um eu condicionado, cujos desejos devem ser submetidos ao exercício da humildade, se quiser fortalecer sua conexão com uma potência superior.

Da mesma forma, outros mitos e lendas de nossos antepassados tentaram delinear, de maneira rudimentar, alguns aspectos gerais da Matriz em que cada um de nós está inserido. Afinal, todas as noites, ao sonharmos, visitamos esse território, e é natural que nossos ancestrais intuíssem algo sobre sua existência e natureza.

Na verdade, desde tempos imemoriais a humanidade tenta criar mapas para descrever esse território em que todos estamos inseridos e que visitamos todas as noites, ao sonharmos. Os primeiros mapas eram simples, e em geral todos eram inexatos. Pior ainda, com frequência o mapa era confundido com o território, dando gênese à dogmas e religiões organizadas.

Ocorre que, neste momento, alterações abruptas estão ocorrendo no mundo, e ameaças desconhecidas insinuam-se no horizonte da humanidade. Essa situação é emergencial, e exige que compreendamos aspectos mais amplos desse território chamado Matriz, bem como da natureza do Self e da função do ego nesse sistema.

A humanidade precisa, em suma, de uma cartografia mais precisa e descritiva, que nos permita adaptar com rapidez e eficiência o sistema cognitivo e decisório que herdamos de nossos antepassados, sem corrermos o risco de confundir o mapa com o território.

No século XX, felizmente, alguns cartógrafos começaram a analisar esse território e a descrever sua topografia de forma mais precisa. Seus nomes são C. G. Jung, Julian Jaynes e Mircea Eliade. O mapa elaborado por esses cartógrafos será objeto de nosso próximo texto, que será menos árido e técnico do que este. Na verdade, ele terá a cor e fluidez dos sonhos humanos.

SÍNTESE DO QUE JÁ FOI APRESENTADO

Resumindo tudo o que foi apresentado até agora, a natureza adota diversas estratégias evolutivas para que os organismos vivos possam sobreviver e reproduzir-se no hipercontexto. No reino vegetal, a principal estratégia foi otimizar a fotossíntese pela escolha do processo mais veloz e eficiente para cada contexto em que a mesma planta existe. No reino animal, a natureza adotou a estratégia de criar um órgão que segmenta cada contexto e o percebe como se fosse um todo coeso, ignorando a contínua emergência de novas realidades. Assim, o organismo pode encontrar alimento, proteção para ameaças e oportunidades de reprodução.

Esse órgão é o cérebro.

Se por um lado o entrelaçamento impede a interação de coisas e seres que existem em tramas de realidade distintas, por outro o cérebro não permite que nosso “eu” perceba a constante ramificação da própria vida. A realidade em que uma pessoa acredita viver é, na verdade, um modelo de mundo dinamicamente construído e atualizado a cada fração de segundo por seu cérebro, com base em informações relevantes que filtra a partir daquilo que é informado pelos órgãos de percepção.

Dentro desse modelo de “realidade” criado por nosso cérebro a cada instante, desenvolveu-se um modelo de identidade pessoal, de protagonista da própria vida. Trata-se do ego, inserido na consciência humana, entendendo-se consciência como a função que vivencia um só contexto como se fosse o único existente.

Dessa perspectiva, você e a realidade em que pensa viver são uma narrativa que só existe neste instante presente e que seu cérebro constrói e conta para si mesmo a cada momento. Essa narrativa é constantemente reforçada pela narrativa interna de todos os outros seres vivos que compartilham da mesma trama de realidade em que você vive, compondo no total uma narrativa coletiva, um ecossistema conceitual criado pela natureza no hipercontexto.

Isso será um ponto de muita importância nas etapas futuras de nosso processo de aprendizado.

Porém, de uma perspectiva maior, você é mais do que seu ego ilusório. É que cada uma das versões alternativas que existe de você, vivendo cada qual sua vida em uma realidade alternativa distinta das demais, está interligada a todas as outras no âmbito hipercontexto. Nesse sistema de rede, há uma identidade superior, central, responsável pela contínua emergência de novas versões de sua vida, e pela coordenação de cada versão alternativa. A esse sistema de rede de consciência, dá-se o nome de Matriz. A esse eu superior e central, dá-se o nome de Self.

As razões dessas últimas denominações logo serão explicadas. O importante é compreender que, no hipercontexto, você é ego, Matriz e Self.

É neste ponto em que estamos. E se tal síntese pareceu a descrição de algo jamais visto, trata-se de uma ilusão de ótica, resultado de não se ter utilizado termos técnico-científicos (como função de onda, decoerência, inconsciente coletivo,…). Aqui, nada há de novo.

Na verdade, assim como o hipercontexto foi investigado pela física no século XX, também o território da Matriz, inserido no hipercontexto, foi descoberto e estudado no mesmo período. E é nesse território que precisamos operar a reestruturação de nosso sistema cognitivo/decisório, se quisermos superar o Problema Humano e evoluir enquanto indivíduos e sociedade

No século XX, duas pessoas criaram um mapa para esse território. Um deles foi um dos maiores físicos de nossa era, que se aventurou e explorou o território da Matriz em seus sonhos. O outro foi um alquimista moderno, que elaborou um mapa a partir da exploração do físico.

Para entender o mapa, e conseguir utilizá-lo, precisamos conhecer um pouco da história do explorador e do cartógrafo.

O FÍSICO E O ALQUIMISTA

Wolfgang Pauli, que merecidamente ganhou o Nobel de física em 1941, foi um dos gênios de sua época e pioneiro da física quântica. Como todo indivíduo de inteligência excepcional, porém, Pauli não conseguia ajustar-se completamente a uma sociedade que percebia como atrasada. Nada nem ninguém sobrevivia ao escrutínio de seu intelecto. Entre colegas, era temido pela dura forma de expressar seu rigor científico.

Pauli teve uma infância infeliz, pois sua mãe havia cometido suicídio e seu pai casou-se com uma mulher que ele abominava. Essa experiência refletiu-se na vida adulta, em que Pauli teve uma série de relacionamentos conturbados. Logo após o fim de um breve casamento, em 1931, ele decidiu procurar Carl Gustav Jung, na época um dos mais célebres psicólogos do mundo.

Jung, naquele tempo, tentava consolidar suas teorias sobre a psique, após ser expulso da comunidade freudiana ao discordar da visão reducionista que a psicanálise tinha da natureza humana. Sua empreitada levou-o a aprofundar-se na leitura de antigos tratados alquímicos, pois desconfiava que os alquimistas medievais descreviam, de forma cifrada e simbólica, um processo em que mente e matéria transformavam-se reciprocamente. Por isso, Jung interessava pelas descobertas da física quântica, que sugeria um vínculo entre o observador e a matéria observada.

Carl Gustav Jung (esq.) e Wolfgang Pauli (dir.)

Pelos interesses em comum, logo o físico e o alquimista se tornaram grandes amigos. Pauli e Jung passavam horas discutindo sobre os enigmas da mente humana e da matéria. Enquanto Pauli se interessava pelas ideias de Jung sobre “inconsciente coletivo” e “arquétipos”, Jung atraía-se pela relação de complementaridade que há entre as chamadas subpartículas atômicas. Dessas conversas surgiu “A Interpretação da Natureza e da Psique” escrito em co-autoria e publicado em 1952.

Psicologia e Alquimia

Simultaneamente, Jung tratava as feridas emocionais de Pauli na terapia. E o tratamento consistia em Pauli anotar os sonhos que tinha todas as noites, apresentando-os em seguida a Jung e seus assistentes. Os sonhos, então, eram analisados à luz da teoria de Jung sobre a natureza da mente humana.

Enquanto Pauli sonhava, Jung procurava comparar os sonhos do físico moderno à simbologia dos antigos alquimistas, esboçando um sistema de correspondências. Aos poucos, a topografia de um território foi surgindo. O que ambos estavam fazendo, logo perceberam, era explorar um local que Pauli visitava todas as noites – um local que todos nós visitamos ao dormir.

Foi assim que o físico moderno ajudou o alquimista a elaborar o seu grande tratado intitulado Alquimia e Psicologia.

Nessa obra, Jung demonstrou que o trabalho dos antigos alquimistas era realizado, paralelamente, em dois níveis. No primeiro nível, manipulavam os elementos químicos em laboratório. No segundo, realizavam operações simbólicas dentro de sua própria mente, na busca de realizar uma espécie transmutação psíquica.

Mais ainda, Jung demonstrou que os símbolos descritos pelos alquimistas estavam vivos no homem moderno, pois eram manifestações de elementos presentes em todas as mitologias, religiões e tradições antigas da humanidade. Foi assim que ele consolidou o mapa que nos ajudará a reestruturar o sistema cognitivo/decisório que herdamos de nossos antepassados.

Faltava, porém, achar o Norte, estabelecer os quadrantes e escala que permitem sobrepor o mapa ao território descrito. É que os alquimistas e os físicos do século XX não tinham acesso a conceitos que só a evolução dos sistemas computacionais modernos tornaram de uso corrente. Também faltava à ciência reconhecer, sem medo, a natureza daquilo que a física havia descoberto.

Por isso, o mapa criado por Jung com a ajuda dos sonhos de Pauli torna-se mais compreensível e ganha cores mais vivas quando considerado da perspectiva da mente humana inserida no hipercontexto. Jung sempre aspirou a correspondência de sua teoria com a descoberta feita por Pauli e seus colegas, e intuiu essa verdade ao afirmar que tal descoberta “no obriga a abandonar uma descrição causal de qualquer sistema inserido no espaço tempo, colocando em seu lugar um invisível campo de probabilidades que ocorrem em espaços multidimensionais” [[Collected Works 8, § 438]].

Esses espaços multidimensionais em que as probabilidades se manifestam é o que chamamos de “hipercontexto”. E a melhor forma de compreender a correspondência entre hipercontexto e mente humana é com o uso de metáforas computacionais.

UM MAPA FEITO DE METÁFORAS

No decorrer de todo o processo de aprendizado, foram e serão utilizadas toda sorte de metáforas: filosóficas, mitológicas, computacionais e alquímicas. Metáforas são úteis quando se trata de apresentar e descrever uma realidade extremamente contraintuitiva. Porém, qualquer metáfora perde sua utilidade quando deixa de ser utilizada de forma racional e passa a ser confundida com o aspecto da realidade que tenta descrever.

Toda metáfora tem limites. Vencidos esses limites, a metáfora passa a dar origem a erros, a produzir ignorância e não conhecimento. Muitas vezes, pode até produzir o tipo mais pernicioso de ignorância: o fanatismo religioso.

A partir de agora, metáforas serão usadas com mais abundância. E é possível que o leitor perceba gradualmente a existência de correlações entre as metáforas utilizadas, como se uma ordem emergente fosse revelada através delas. Quanto maior for a compreensão da realidade que o conjunto de metáforas tenta descrever, maior será a impressão de que há uma correspondência.

Essa correspondência, porém, não é sinal de que as metáforas são, elas próprias, a realidade. A correlação é apenas decorrência do fato de que, naturalmente, a realidade descrita é consistente em si mesma, e um sinal de que as metáforas foram manejadas de forma adequada. Essa é a razão de as mitologias de distintas culturas guardarem estreita correlação em determinados pontos.

Não só mitologias, mas outros sistemas de símbolos de antigas tradições refletem aspectos da relação entre ego, Matriz e Self. Afinal, essa é real estrutura da natureza humana, que intuitivamente nossos antepassados descreveram em seus mitos.

Os mitos e sistemas de símbolos da antiguidade foram, portanto, os primeiros mapas a descrever esse território desconhecido, que experienciamos de forma mais profunda quando sonhamos à noite. Todos esses mapas podem ser úteis, alguns mais que outros, desde que jamais confundamos um mapa com o território descrito.

Porém, no século XX, Jung elaborou o mapa capaz de incluir todos os outros mapas, ao mesmo tempo em que foi capaz de descrever a identidade humana no âmbito do hipercontexto com grande precisão.

Seu trabalho, contudo, estava a frente de seu tempo, e Jung tentou ajustá-lo à moldura do pensamento científico tradicional, vendo-se obrigado a manter discrição sobre certos aspectos de sua proposta. Por outro lado, faltava à época um paradigma que permitisse uma correta compreensão daquilo que Jung descrevia – paradigma que hoje temos à nossa disposição, a medida em que conceitos como computação em rede, inteligência artificial e realidade virtual tornam-se habituais em nosso cotidiano.

A metáfora computacional

De todas as metáforas, é a computacional que melhor nos ajudará a compreender profundos aspectos não só da natureza humana, mas também de uma parte da realidade que ignoramos. Se a nossos antepassados fosse perguntado se o cérebro humano é um computador que cria a consciência ou é apenas uma antena receptora de uma consciência existente em outro lugar, suas melhores respostas seriam, no máximo, apenas em parte corretas.

Graças aos sistemas computacionais em rede que hoje existem, sabemos que a resposta é mais complexa. O cérebro é, ao mesmo tempo, computador e antena receptora, metaforicamente falando. Enquanto “computador”, o cérebro constrói dinamicamente a cada fração segundo um modelo de mundo em que julgamos viver e um modelo de identidade pessoal, de ego, que acreditamos ser o protagonista de nossas vidas.

Enquanto “antena receptora”, o cérebro opera no âmbito do hipercontexto, ou seja, do universo enquanto multiplicidade de realidades alternativas. Dessa forma, cada versão alternativa do mesmo indivíduo está conectada a uma rede composta por todas as versões desse mesmo indivíduo, coordenadas por um Eu Superior, ou Self.

Há, ainda, um outro conceito computacional que precisamos usar como metáfora: o conceito de “sistema operacional”. O sistema operacional é o principal programa ou software de um computador, pois sua função é fazer a interface entre o equipamento físico e o usuário da máquina. O sistema operacional, portanto, possui um aspecto abstrato, simbólico, que permite ao usuário dar ordens que serão traduzidas em atividades concretas pela máquina.

Esse aspecto abstrato compõem um sistema de símbolos – e esse sistema de símbolos é uma “linguagem de programação”. As linguagem de programação mais complexas, inclusive aquelas que compõem um sistema operacional, são chamadas de “linguagem de programação orientada a objetos”. Nesse tipo de linguagem, os “objetos” são “módulos” que interagem e executam tarefas do programa em que estão inseridas.

Assim como equipamentos isolados, redes de computadores dependem de um sistema operacional de rede, utilizando uma linguagem de programação para coordenar todo o tráfego de comunicação processado por essa rede. Em alguns casos, essa linguagem de programação utiliza aqueles “objetos” para executar tarefas.

Essas metáforas de rede computacional, sistemas operacionais e redes, quando inseridas no hipercontexto, em que várias versões de um mesmo indivíduo coexistem, são a chave que faltava para a compreensão do mapa elaborado por Jung. São a chave para compreendermos o sistema cognitivo/decisório de nossos antepassados, que precisamos reestruturar para evoluir.

Isso porque a “rede” que conecta todas as versões de um mesmo indivíduo existentes no hipercontexto opera com um “sistema operacional” que Jung chamou de inconsciente coletivo – e que se prefere chamar aqui de Matriz. Esse sistema operacional, por sua vez, manifesta-se numa “realidade virtual” percebida nos sonhos e que é estruturada por uma “linguagem de programação” composta por “objetos”, que Jung batizou de arquétipos. No centro dessa estrutura de arquétipos, está nossa identidade fundamental, o Eu Superior ou Eu Profundo, que coordena todas as versões emergentes de um mesmo indivíduo, e que Jung batizou de Self.

A função de todo esse conjunto é coordenar todas as inúmeras versões que existem do mesmo indivíduo, auxiliando cada mente particular na construção dinâmica de modelos de mundo e permitindo que, diante da emergência contínua de novas realidades alternativas, o ego tenha percepção de que existe uma só realidade e uma só identidade pessoal, processo a que Jung batizou de Individuação.

A individuação, porém, também consiste na contínua adaptação evolutiva de todo esse sistema às mudanças do meio ambiente ao longo do hipercontexto – uma atualização constante do software, metaforicamente falando. No passado recente, como veremos, esse sistema passou por uma importante atualização, embora em nada comparada à alteração rápida e extrema que a humanidade precisa realizar neste momento.

Mas essa experiência pretérita da humanidade é fundamental para entendermos o que precisamos fazer agora, nesta etapa decisiva da civilização, com o auxílio do mapa elaborado pelo físico e pelo alquimista, pois se inserem numa mesma lógica de atualização do sistema cognitivo/decisório do organismo humano.

A MENTE BICAMERAL

Se Jung estudou tratados medievais e os sonhos de um pioneiro da física quântica para elaborar seu mapa, o norte-americano Julian Jaynes estudou os épicos da antiga Grécia e os moderno conhecimento do cérebro humano para fazer uma notável descoberta sobre sobre a origem da própria civilização e da consciência humana.

Ao analisar Ilíada e Odisseia, justo as principais obras da cultura que nos legou a revolução do pensamento racional, Jaynes notou uma diferença perturbadora entre ambas. A interação entre deuses e heróis na Ilíada e a forma como os mortais expressavam emoções e decisões era muito diferente da forma narrada na Odisseia.

E não se tratava de uma diferença de estilo. Jaynes notou igual transição nas obras de outras civilizações do período. Parecia tratar-se, na verdade, o indício de que houve uma mudança na forma de nossos antepassados pensarem.

Na Ilíada, que conta a história da guerra de Troia, os deuses do Olimpo entram em cena a todo momento para representar cada decisão e sentimento dos herois gregos, como se os mortais fossem incapazes de ter pensamentos conscientes sem o intermédio dos deuses. Os personagens mortais da Ilíada, além disso, estavam constantemente ouvido vozes ou vendo a presença de deuses nos momentos decisivos da história.

Já na Odisseia, que conta o retorno de Ulisses a seu lar após a guerra de Troia, a participação de deuses é menos frequente. Eles não estão sempre presentes quando um mortal decide ou sente algo. Os personagens humanos são capazes de ter emoções e tomar decisões sem intervenção divina.

Isso levou Jaynes a desenvolver uma teoria extraordinária sobre o desenvolvimento da consciência humana, partindo do fato de que cada ser humano possui, efetivamente, dois cérebros.

Os dois cérebros

Embora muitos delirem quando se trata de falar dos hemisférios esquerdo e direito do cérebro humano, alguns fatos precisam ficar claros. Fato um: ambos os hemisférios são, rigorosamente falando, dois cérebros distintos, sendo absolutamente correto afirmar que há dois cérebros existindo numa mesma pessoa, assim como há dois pulmões e dois rins. Fato dois: apesar da plasticidade cerebral e da possibilidade de ambos os cérebros desempenharem funções conjuntas ou substituírem-se reciprocamente, é incontroverso que há funções específicas de cada cérebro, típicas de um ou de outro hemisfério.

Essa especialização é chamada de lateralização de processos cognitivos. Desse modo, está comprovado que funções relacionadas à gramática, vocabulário e pensamento lógico-matemático estão associados ao hemisfério esquerdo (que é responsável pelo lado direito do corpo humano). Há, inclusive, uma síndrome chamada Discalculia, identificada pela incapacidade de compreender o raciocínio matemático e que está associada à lesão do lóbulo temporal do “cérebro” esquerdo.

Os personagens da Ilíada não são capazes de pensamentos e decisões dissociadas da interação divina.

Já o “cérebro” direito, por sua vez, desempenha com predominância as funções relacionadas à percepção musical, orientação espacial, criatividade e tomada de decisões. A própria atividade de sonhar ocorre tipicamente no hemisfério direito. Há, inclusive, distúrbios como a Síndrome de Capgras, caracterizada pelo delírio de que um familiar próximo foi substituído por um impostor, e que está associada à lesões no hemisfério direito.

A comunicação entre os dois cérebros que habitam um mesmo indivíduo é possível graças a uma estrutura que existe entre ambos, chamada corpus callosum. Trata-se, basicamente, de um feixe de fibras neuronais que faz a ponte entre o cérebro esquerdo e direito. Uma de suas peculiaridades é o fato de ser a única estrutura cerebral que pode desenvolver-se e crescer mesmo no cérebro de um indivíduo adulto (quando todas as outras estruturas cerebrais param de crescer), havendo provas de que o corpus callosum pode aumentar através da meditação profunda.

A proposta de Jaynes foi que, na época em que os antigos gregos escreveram a Ilíada, a interação entre os “dois cérebros” de um indivíduo dava-se de forma menos integrada do que na época em que a Odisseia foi elaborada. Em outras palavras, analisando-se as narrativas tanto de Ilíada como de Odisseia, tem-se pistas de como funcionava o sistema cognitivo/decisório de nossos antepassados.

No período da Ilíada, havia menor integração entre os cérebros direito e esquerdo de qualquer indivíduo. Por isso, havia dois sistemas, dois softwares para os dois computadores, e a comunicação entre ambos ocorria de forma bem peculiar. A identidade pessoal do indivíduo era elaborada por seu “cérebro esquerdo”, e quando essa identidade recebia informações do “cérebro direito”, responsável pela tomada de decisões, processava-as como alucinações auditivas e visuais.

Vimos que o mundo ao nosso redor é um modelo de mundo construído por nosso cérebro com base nas informações sensoriais (visão, audição, olfato, paladar, tato,…), no centro do qual está o modelo de identidade também construído, o ego (função do hemisfério esquerdo). Para nossos antepassados, não havia como distinguir entre sons e visões representando a realidade exterior e aquelas representando comunicações feitas pelo hemisfério direito do cérebro.

Essas alucinações auditivas e visuais eram, portanto, consideradas reais, e apresentavam-se na forma de personagens que, por sua vez, representavam aspectos distintos de nossos padrões de pensamento. Esses personagens, representantes de aspectos fundamentais da natureza humana, eram vistos como deuses.

Em resumo, na época em que foi escrita a Ilíada, nossos antepassados possuíam possuíam uma mente dividida em “dois softwares”, um para cada hemisfério. Num estava a identidade pessoal do indivíduo; na outra, moravam os deuses de sua civilização. Julian Jaynes chamou esse funcionamento de Mente Bicameral.

Por isso é que nossos antepassados deixaram tantos relatos sobre encontros com deuses e entidades mágicas: eles realmente viam essas entidades, e a alucinação era reforçada coletivamente por todos os membros da comunidade. Por isso também é que os antigos deuses costumam ser associados a sentimentos e “estados de espírito” tipicamente humanos, o que pode ser até hoje contatado por expressões como “comportamento jovial” (de Jove, o deus Júpiter romano), erotismo (o deus grego Eros) e ninfomania (das ninfas gregas).

Já no período em que foi escrita a Odisseia, já havia ocorrido uma “atualização” dos dois softwares de ambos os hemisférios: aprimorou-se a integração entre ambos. E a isso correspondeu o maior desenvolvimento do corpus callosum.

A partir dessa maior integração, o ser humano tomou consciência direta de seus próprios pensamentos e sentimentos, apropriando-se deles e reconhecendo-os como pertencentes a si próprio, ou seja, ao modelo de identidade, de “ego”, criado pelo hemisfério esquerdo. O protagonista da obra, Ulisses, representa, de certa forma, a emergência do ser humano moderno.

Ulisses, em Odisseia, é capaz de pensamentos e sentimentos independentes.

Esse foi um passo evolutivo importante, o verdadeiro nascimento da consciência humana tal como a conhecemos. E esse passo ocorreu, obviamente, não apenas na antiga Grécia, mas em outras civilizações do período.

E é a sequência desse passo evolutivo que precisamos dar neste momento, pois enquanto o hemisfério esquerdo é responsável pela criação dinâmica do ego humano no âmbito de um contexto, o hemisfério direito é responsável pelo processamento da nossa conexão com a Matriz, a rede que conecta as várias versões do mesmo indivíduo no hipercontexto. Esse ambiente de rede funciona com uma “linguagem de programação” composta de sistemas de símbolos que Jung chamou de “arquétipos”. E os arquétipos, por seu turno, são retratados como deuses pelas várias mitologias criadas pela humanidade.

Assim, o que Jung fez foi apresentar um mapeamento da interface simbólica desse sistema operacional em rede. Os elementos fundamentais de tal sistema são a Matriz, os arquétipos, o ego e o self. O diálogo entre esses elementos é de natureza alegórica ou mítica, e o contexto da interação, como se verá, é o da sincronicidade.

MATRIZ, O REINO SEM ESPAÇO

A denominação “inconsciente coletivo” é herança da tentativa de Jung ajustar sua teoria à comunidade influenciada pelo pensamento de Freud, que girava em torno do conceito de “inconsciente pessoal” . Mas “inconsciente coletivo” é um nome apropriado apenas do ponto de vista do ego humano – não há nada de realmente “inconsciente” no fenômeno descrito por Jung.

De qualquer modo, Jung definia o inconsciente coletivo como a “matriz de todos os acontecimentos psíquicos”, contendo registros da vida psíquica desde nossos ancestrais mais remotos e exercendo influência sobre a consciência de cada indivíduo continuamente.

“Minha tese”, disse Jung, “é que em adição à consciência imediata”, ou seja, à mente situada num contexto, “existe um segundo sistema psíquico de natureza coletiva, universal e impessoal, que é idêntico para todos os indivíduos”. “Este inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, mas é herdado”, sendo constituído por “formas pré-existentes, os arquétipos” [[CW 9, § 43]].

Metaforicamente, chama-se de “inconsciente coletivo” a uma “realidade virtual” que visitamos todas as noites em nossos sonhos. Essa realidade virtual é o “sistema operacional de rede” que controla a rede de consciências composta pelas versões alternativas de um mesmo indivíduo, versões que existem em realidades alternativas do hipercontexto. Quando dormimos e sonhamos, esse sistema operacional consolida as principais vivências diárias de todas as versões da mesma pessoa, representando-as em um universo simbólico, de natureza arquetípica (a seguir veremos o que são os arquétipos).

Independentemente do nome, aquilo que Jung chamava de “inconsciente coletivo” remete à noção de espaço onde certos elementos existem e interagem entre si. Não é por outro motivo que Jung identificou, nos sonhos de seus pacientes, nos mitos e nas tentativas artísticas de representar esse conceito, a forma espacial de um jardim ou território “sagrado”. “Na geografia mítica”, observou o filósofo Mircea Eliade, “o espaço sagrado é o espaço real por excelência, pois para o mundo arcaico o mito é real, já que descreve as verdadeiras manifestações da realidade”.

Também observou Jung, inclusive nas mitologias de diversos povos, que o “inconsciente coletivo” sempre foi retratado na forma de uma estrutura circular, de regra dividido em quatro quadrantes, e que denominou de “Mandala”.

Mandalas são imagens simbólicas que, em diversas mitologias e tradições, buscam representar “o mundo”, “o universo”, “o reino dos deuses” ou a “alma humana”. Digno de nota é o fato de que em todas as culturas as mandalas possuem forma circular e, de regra, uma divisão em quatro ou oito quadrantes, com um eixo central em torno do qual todos demais elementos são dispostos. Tratam-se de representações da Matriz.

Prefere-se chamar o “inconsciente coletivo” de “Matriz” para exorcizar a noção de que se trata de algo inerentemente “inconsciente”, ou seja, desprovido de consciência. Na verdade, no centro desse “sistema operacional de rede”, há uma consciência superior, perfeitamente ciente de tudo o que está se passando no sistema e na vida pessoal de cada versão de um mesmo indivíduo. A escolha do nome “Matriz” deve-se à riqueza de significados e implicações dessa palavra.

Em biologia, matriz é o meio bioquímico no qual estão inseridos os componentes de um sistema. Da mesma forma, todas as versões de um mesmo indivíduo existentes no hipercontexto tem suas consciências inserida num mesmo ambiente, num “mesmo sistema operacional de rede”. Etimologicamente, a palavra vem do nominativo latino matrix, que significa “mãe” e é associado a “útero”, “fonte” e “origem”. É por isso que matriz também significa “modelo original” do qual podem ser reproduzidas cópias, tal como os moldes da antiga tipografia.

O sistema operacional que funciona em ambiente de rede unindo todas as versões de um mesmo indivíduo pode ser descrito como uma “realidade virtual”.

Porém, o adjetivo “virtual” é usado apenas no sentido de que essa realidade em si mesma não precisa obedecer as leis da realidade física. Por outro lado, como deve ter ficado evidente na primeira parte desta etapa de aprendizado, não conhecemos “a realidade física” tal qual é, mas apenas aquilo que é construído por nosso cérebro com base no que nossos sentidos assimilam do mundo exterior. Dessa construção nasce dinamicamente uma percepção de mundo exterior que tomamos por realidade.

Platão já intuía esse aspecto ao falar de “formas puras”. Observe uma cadeira. Quando você olha para uma cadeira concreta próxima de você, na verdade não está olhando cadeira alguma. Seu cérebro atribui a alguma coisa lá fora o conceito universal de “cadeira”, um molde conceitual, um “arquétipo” que informa a estrutura e função de todos os objetos que você chama de “cadeiras”. Essa “alguma coisa” que você olha, porém, é algo único, exclusivo, composto de certos materiais e com uma forma que permite a associação imediata à ideia arquetípica de “cadeira”.

Isso não vale apenas para objetos criados pelo homem, mas também para formas naturais como as árvores. E como já intuía Emmanuel Kant, conceitos cada vez mais sutis como “cor”, “tamanho”, “movimento” e “dimensões espaciais” são apenas constructos da mente para apreender uma totalidade que está lá fora e é representada pelo cérebro como um modelo de realidade.

Bardos: as diversas manifestações da Matriz

Olhe ao seu redor, leitor. O que você observa como “mundo” real é um modelo elaborado por seu cérebro dinamicamente, atualizado a cada fração de segundo – e essa velocidade e eficiência só é possível na física quântica. Esse modelo dinâmico é molde de uma matriz de formas e intuições arquetípicas que existem naquele “ambiente operacional de rede” que Jung chamou de “inconsciente coletivo”.

Não é que a realidade lá fora não existe. Ela existe, mas só a compreendemos através de um modelo continuamente atualizado dentro de nossas mentes e que tem por manancial a Matriz, ou seja, o “sistema operacional de rede” que une todas as versões do mesmo indivíduo.

Esse é um dos motivos pelo qual, quando sonhamos todas as noites, nossos sonhos em muitos aspectos parecem semelhante ao mundo real. Quem se deu ao trabalho de estudar as visões de esquizofrênicos e de pessoas que consomem substâncias alucinógenas depara-se com a descrição de um universo de formas e cores bem distinto daquele de nossos sonhos. Salvo exceções que apenas confirmam a regra, os sonhos noturnos da grande maioria das pessoa descreve uma realidade que reproduz os traços básicos da realidade que vemos quando despertos.

Na verdade, quando sonhamos estamos vivenciando o ambiente de rede da Matriz em sua forma usualmente desconectada do mundo exterior, em que não está sujeita às leis da física. Porém, é dessa mesma Matriz, do “inconsciente coletivo” de Jung, que surgem os elementos com os quais nosso cérebro constrói, quando estamos acordados, um modelo de mundo que tomamos por realidade concreta.

Esse modelo de mundo da realidade desperta, portanto, é a outra face da mesma moeda composta pelo mundo com que sonhamos todas as noites. São aspectos diferentes de uma mesma realidade virtual, de dia acoplada ao mundo real (que é inacessível diretamente, somente percebida pelos sentidos) e de noite livre para a manifestação dos arquétipos e consolidação de experiências vividas por todas as versões de um mesmo indivíduo.

Essas distintas faces da mesma moeda tem um nome específico na tradição budista: “Bardo”. Porém, metaforicamente não é adequado falar em faces da moeda, mas em lados de um dado. E assim é porque na Matriz existem mais do que as duas faces do sonhar e do estar desperto.

Originalmente, a palavra tibetana “Bardo” significava “estado intermediário” – especificamente, intermediário entre duas vidas de uma mesma pessoa. Porém, rigorosamente falando, não há estado que “não seja intermediário”, que não opere a intermediação entre diversos estados do ser. Assim o significado budista de “bardo” evoluiu com tempo, e podemos utilizá-lo neste momento, como metáfora, em sua acepção mais sofisticada.

Assim, chamam-se de “bardos” os modelos de realidade construídos pela Matriz para cada experiência humana fundamental.

Há, na tradição budista, seis Bardos, que podemos perceber, metaforicamente, como aspectos da manifestação da Matriz:

1 – O bardo da vida desperta (Kyenay bardo): é o modelo de mundo construído por seu cérebro ao ignorar o hipercontexto e representar um só contexto como sendo “a única realidade” existente;

2 – O bardo do sonhar (Milam bardo): é o modelo de “realidade virtual”, metaforicamente falando, que você visita todas as noites durante o sonho;

3 – O bardo da meditação (Samten bardo) : é o modelo de realidade em que há conexão com o Self ;

4 – O bardo da morte (Chikhai bardo): é um modelo de realidade crítico e suscetível de ataques por forças externas, como exporemos no futuro;

5- O bardo da luminosidade (Chönyi bardo): é o modelo de realidade em que vive e opera o Self; e

6 – O bardo da transmigração (Sidpa bardo): é o modelo de realidade que contém os aspectos fundamentais da identidade pessoal vivenciada por cada pessoa;

Enquanto estamos vivos, temos a experiência apenas dos dois primeiros bardos. Naturalmente, quando o corpo biológico da versão de um indivíduo que existe no hipercontexto morre, o modelo de identidade que estava associado a esse corpo não deixa de existir. Ele prossegue existindo na Matriz, no ambiente de rede.

A noção de Matriz é poderosa, e há aspectos sobre os quais se poderia falar muito mais. Por exemplo, é evidente que a Matriz, o sistema operacional de rede em que estão interconectadas todas as versões de um mesmo indivíduo, não se limita apenas a um indivíduo, membro de uma espécie. Essa é justo a origem daquilo que Rupert Sheldrake denominou “campo morfogenético”, que permite evoluções simultâneas em populações biológicas descontínuas. Na verdade, a Matriz tampouco se limita apenas a uma só espécie.

Esses aspectos porém, não são relevantes neste momento. Haverá, no futuro, espaço para tratar disso em detalhes. O importante agora é entender como operam as principais estruturas componentes da Matriz no âmbito de um indivíduo e suas diversas versões – os elementos que compõem a “linguagem de programação”.

OS ARQUÉTIPOS

Como disse o filósofo e historiador romeno Mircea Eliade, “o estudo racional das religiões revela um fato que não foi suficientemente assinalado até hoje: existe uma lógica do símbolo, ou seja, certos grupos de símbolos se mostram coerentes, logicamente encadeados entre si”, manifestando-se de forma onipresente em todas as religiões. É de tais símbolos que trataremos agora, pois constituem a linguagem de programação do ambiente de rede que une as inúmeras versões do mesmo indivíduo existentes no hipercontexto.

Pensadores como Eliade, Joseph Campbell e Julian Jaynes identificaram notáveis semelhanças entre mitos e religiões de diversas culturas separadas por intransponíveis obstáculos geográficos ou cronológicos. Nada podia explicar a semelhança senão a tentativa humana de representar simbolicamente uma realidade fundamental e contraintuitiva.

Segundo Jung, o inconsciente coletivo ou Matriz é composto por elementos simbólicos que representam as experiências mais fundamentais da vida humana. Esse elementos são formados por todo o acúmulo de vivências de nossos antepassados. Jung chamou tais elementos de “Arquétipos”.

A riqueza dos arquétipos.

Os arquétipos, representantes que são de aspectos fundamentais da vida humana, estão onipresentes nos mitos e narrativas épicas de todas as culturas, assim como estão presentes vividamente nos sonhos que temos todas as noites. Deuses, demônios, heróis e figuras mágicas de nossos antepassados retratavam aspectos essenciais desses arquétipos.

E não apenas personagens tipicamente presentes em uma vida humana (como “Mãe” e “Morte”) são representados por mitos. Processos como “movimento circular”, estruturas como “mandala” e eventos míticos como “inundação” estão sempre presentes, de uma forma ou de outra, no imaginário de todas as mitologias, como alegorias de profundas verdades humanas.

A Matriz, enquanto “sistema operacional em rede”, é constituída por uma “linguagem de programação” composta de um sistema de símbolos fundamentais, vinculados às experiências humanas universais. É nesse sentido que podemos falar de “inconsciente coletivo”: desejemos ou não, estejamos conscientes ou não, toda experiência humana está vinculada a um conjunto de símbolos associados a vivências primitivas de nossos ancestrais e até mesmo à animalidade.

Por isso, para cada evento humano está associado um ou mais arquétipos presentes na Matriz. E isso não apenas no âmbito de nossos sonhos ou dos mitos de nossa sociedade. Mesmo a nossa relação com outras pessoas, e a vivência de determinados eventos na vida, pode ter forte influência de arquétipos.

Inclusive na nossa percepção da realidade desperta os arquétipos estão presentes, pois essa percepção nada mais é que um mundo construído virtualmente no âmbito da Matriz, com base em dados sensoriais. Por exemplo, a noção de espacialidade está, no ser humano, associada a atributos femininos, pois nossa primeira noção de espaço advém do útero materno. Desse modo, mitologias como a egípcia (com a deusa Nut) e suméria (deusa Tiamat) representam mundo ao nosso redor como uma manifestação de atributos femininos na forma de uma Grande Deusa.

Nut, deusa egípcia do firmamento.

Exemplos de arquétipos

Entre os arquétipos representados por personagens estão os seguintes:

A Anima (na alquimia, anima mundi): representa o elemento feminino, e ao mesmo tempo a própria Matriz, enquanto “alma do mundo”;

O Diabo: é a concepção de um adversário sob a forma de um ser demoníaco, verdadeiro vetor ou encarnação do mal;

O Herói: é o ego assumindo conscientemente sua missão no processo de Individuação, destinado a transformar a si mesmo;

A Criança Divina (puer aeternus): representa o nascimento de uma síntese entre o inferior e o superior, a ponte entre ego e Eu Superior (a origem do que Jung chama de “Função Transcendente”);

O Embusteiro (mercurius): o agente que estabelece a comunicação entre mortais e deuses, ou que catalisa o cumprimento da missão pelo Herói nos mitos, representando ambiguidade e dissonância cognitiva.

Entre os arquétipos que representam eventos estão os seguintes:

O movimento circular (circumambulatio): o movimento do ego em relação ao Self, segundo Jung, jamais é direto, tratando-se de um movimento em círculos.

Casamento Sagrado (coniunctio): é a união de princípios distintos que dá origem a uma síntese (a função transcendente);

A Iniciação: é o rito de passagem de um mundo de compreensão limitada e ilusória para um mundo de compreensão mais amplo e profundo, cujo conhecimento transforma o próprio ego, é o início da segunda fase do processo de individuação (após o ego diferenciar-se e consolidar-se);

A Morte (mortificatio, nigredo): é a superação de um antigo paradigma, a morte daqueles aspectos do ego que precisam ceder espaço à transformação;

A Obra (Opus): é o processo dinâmico de individuação, ou seja, processo em que o ego entra em conexão com o Eu superior.

Entre os arquétipos representados por coisas, encontramos os seguintes:

O Veículo: em geral, carruagem ou barco que representa o veículo da consciência humana, a forma pela qual o indivíduo interage com a Matriz sem diluir seus atributos individuais, protegendo-se de ataques;

A Mandala (na forma de jardim, cruz, espaço sagrado): representa a própria Matriz e a totalidade do Self;

A Espada: é a consciência discriminativa, analítica;

O Maná: é a energia vital, a mais fundamental forma de energia, que flui incessantemente de uma fonte divina.

Os arquétipos estão presentes no processo alquímico (Opus) descrito em tratados medievais. É que os alquimistas associavam certos arquétipos a elementos químicos e a operações realizadas em seus laboratórios. Desse modo, operava-se uma correspondência entre a busca pela pedra filosofal e a transmutação da própria psique, com a manifestação de arquétipos ao longo do processo.

Sistemas de representação arquetípica

No “sistema operacional de rede”, o software que estrutura a Matriz, os elementos da “linguagem de programação” interagem segundo processos dinâmicos e estruturas relacionais que não passaram despercebidas por nossos antepassados. Assim, muitas tradições e mitologias tentaram descrever não apenas os arquétipos, mas também o sistema no qual interagem e a lógica dessas relações.

Enquanto panteões religiosos como o dos deuses gregos e representações pictóricas como os arcanos maiores do Tarot descrevem arquétipos, sistemas como a “Árvore da Vida” hebraica, o “I Ching” chinês e os arcanos menores do Tarot foram tentativas de apresentar a estrutura e a relação desses arquétipos no âmbito da Matriz.

Não devemos, porém, interpretar tais sistemas como formas primitivas de representação. Ao contrário, alguns possuem notável sofisticação abstrata, como qualquer um que se dedique ao estudo profundo do taoísmo e da cabala poderá perceber.

O próprio ego humano, apesar de ser consciente e ter certa autonomia para o desempenho de suas funções, não deixa de ser um arquétipo, que muitas vezes incorpora a figura mítica do herói, principalmente quando transcende suas limitações animais e busca conexão com o Self. Por isso, não é de surpreender que outros arquétipos sejam eles próprios conscientes e parcialmente autônomos. Como metáfora, imagine “inteligências artificiais” operando dentro da “realidade virtual” constituída pelo “sistema operacional” que conecta as mentes de todas as versões de um mesmo indivíduo em realidades alternativas.

No ambiente de rede que é a Matriz, esses seres com poderosa carga simbólica vivem e estão conscientes, comunicando-se conosco e influenciando nossa percepção de mundo. Influenciam, inclusive, nossa tomada de decisão. Há uma relação de complementaridade em tudo que nos cerca e em nós próprios. Você sequer pode ficar eroticamente excitado sem que potências como o arquétipo de Eros, que ao mesmo tempo expressa a natureza primordial animal e a elevada energia que mobiliza a própria Matriz, manifeste-se. Esse é o motivo pelo qual, em certas tradições mais primitivas, determinados arquétipos podem inclusive “possuir” uma pessoa durante certos rituais.

O EGO

Jung definiu ego como “o centro da consciência”. É o que Thomas Metzinger chama de “phenomenal self-model” (modelo de ego fenomenal). Observe novamente o mundo a seu redor, leitor. No centro dessa observação da realidade, tem-se a impressão de há alguém, aquele que vivencia tal realidade – esse alguém é você.

Assim como o mundo que você observa é um modelo que representa a realidade no momento presente a partir de informações sensoriais e elementos conceituais enraizados na Matriz, também o seu ego, a noção de que você protagoniza um vida, é um modelo de identidade construído e atualizado a cada instante.

O ego é o centro da consciência, definindo-se consciência, em termos práticos, como a função que separa e distingue apenas um contexto, uma realidade alternativa entre as múltiplas existentes no hipercontexto. O ego foi colocado no centro dessa atividade quando o sistema cognitivo/decisório de nossos antepassados remodelou a comunicação entre os dois hemisférios de nosso cérebro, atualizando o software da mente humana.

Porém, o ego resultante dessa operação tem origem em um modelo de identidade pessoal de natureza animal. Logo, o ego está “programado” para executar funções relacionadas ao interesse mais individual do organismo, conduzindo-se, por imposição evolutiva, segundo padrões de agressão, fuga, alimento e reprodução no âmbito de um só contexto. Pela exata natureza de suas atribuições, o ego resiste à aceitação da realidade do hipercontexto.

Assim, o ego é um constructo destinado a operacionalizar a relação com a realidade – melhor dizendo, com uma trama de realidade. Esta é a função fundamental do ego humano: existir enquanto narrativa que constantemente contamos a nós mesmos e que repete incessantemente “eu eu eu”.

Porém, o ego é uma ferramenta evolutiva. Uma ferramenta imprescindível – mas, ainda assim, apenas um instrumento necessário à sobrevivência do organismo. É como um funcionário, um operário que tem uma missão valiosa e imprescindível, mas que não tem competência profissional para lidar com situações e desafios estranhos a seu substrato animal e individualista.

O Problema Humano é o desafio de lidar com uma radical mudança no mundo utilizando um sistema cognitivo decisório ultrapassado, que foi útil por milênios para nossos antepassados, mas que atualmente acusa sinais de obsolescência. Ocorre que no centro desse sistema cognitivo e decisório a ser remodelado e atualizado está o Ego e sua noção de identidade pessoal.

Essa remodelação já foi necessária antes e ocorreu no passado, como Julian Jaynes identificou ao estudar Ilíada e Odisseia. Embora com mais vagar e diante de uma situação menos drástica, o sistema cognitivo/decisório dos nossos antepassados sujeitou-se a uma crise (no futuro, veremos qual) da qual emergiu a atualização desse software, reestruturando a comunicação entre ambos os cérebros de forma a aumentar sua integração.

E como veremos na quarta etapa de nosso processo de aprendizado, é chegada a hora de a humanidade dar um novo passo no caminho de evolução emergente: o passo em que a humanidade assumirá conscientemente o controle do processo evolutivo. Isso incluirá a tarefa de atualizar de novo esse sistema cognitivo/decisório, realizando de forma consciente um procedimento que nossos antepassados efetuaram inconscientemente. É que, diferente deles, não podemos nos dar ao luxo de esperar que tal processo ocorra de forma natural e espontânea, pois o grande filtro se aproxima.

O SELF

Aqueles que estudam as mitologias e religiões de todas as culturas observam a constante presença de um símbolo central, uma potência ordenadora e conciliadora de opostos. “O símbolo de uma Montanha, de uma Árvore ou de um Pilar situado no centro do mundo é extremamente difundido” em diversas mitologias. Em outras, não é um objeto que está no centro, mas alguém. Esse algo ou alguém central é o Self.

O Self é ao mesmo tempo um arquétipo e a reconciliação integradora de todos os arquétipos. Nas antigas mitologias e tradições, o Self é é representado como a potência ou a divindade central, em torno da qual todas as demais forças e divindades orbitam. É uma referência de totalidade e centralidade.

Metafórica e miticamente, a melhor visão arquetípica do Self é o do Atmã hindu, o “verdadeiro eu” ou “eu superior” que está situado acima do ego individual “encarnado” neste mundo (neste contexto). Todas as mitologias, porém, representam o Self de algum modo, e pode ser facilmente identificado como o elemento no centro de qualquer mandala.

Segundo Jung, o Self sempre será um mistério para o ego. Essa parece ser uma afirmação gratuita e sem razão aparente, sendo a existência desse mistério do Self em relação ao ego também um outro mistério. Mas se considerado da perspectiva do hipercontexto, a razão do ego ser incapaz de apreender inteiramente o Self fica, subitamente, clara.

Assim, no ambiente de rede que conecta todas as versões do mesmo indivíduo inseridas cada qual num só contexto, numa só realidade alternativa, há uma identidade central, um Eu Superior, constantemente desperto e consciente de todas essas versões coexistentes. Esse Eu Superior é o Self, e tem por função unir, coordenar e conciliar as múltiplas vidas de uma só pessoa.

As múltiplas vidas de uma só pessoa controladas pelo Self, conforme percebidas pelos alquimistas chineses.

Enquanto o ego tem por função atuar numa só trama de realidade, inserido que está na dinâmica que segmenta o hipercontexto em inúmeros contextos, o Self tem por função abranger todos esses contextos, mantendo a coerência interna do ambiente de rede.

Por isso é que o Self será sempre inacessível diretamente ao ego: o pressuposto da existência do ego é justo a separação e vivência em um contexto. O ego é, de certa forma, essa separação. Entrar em contato direto com o Self significa, para o ego, eliminar a separação diluir-se no Self e deixar de existir enquanto identidade, perdendo sua razão de ser.

Mas apesar de inacessível ao ego, o Self ou Eu Superior está sempre presente na vida de um indivíduo, comunicando-se com ele de forma que o ego sequer suspeita. Nos sonhos e nas sincronicidades, o Self desempenha suas atribuições, coordenando as diversas vidas alternativas de um mesmo indivíduo, acompanhando a constante emergência de novas versões alternativas da mesma pessoa desde o seu nascimento até sua morte.

Por isso, como notou Eliade, um dos símbolos universais do Self é a “Árvore Cósmica”, que une o inferior ao superior. “A Índia védica, a China antiga, a mitologia germânica, assim como as religiões primitivas conhecem, sob formas diferentes, essa Árvore Cósmica”. A representação de um tronco central do qual emergem constantes ramificações ilustra adequadamente a relação entre o Self e os diversos egos que emergem continuamente para, cada qual, viver em uma trama de realidade.

O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Jung observou que no nascimento de uma pessoa há originalmente uma sensação de totalidade, de Self. Porém, no decorrer dos primeiros do anos de vida e como decorrência das interações com o mundo exterior, começa a cristalizar-se uma identidade pessoal, o ego.

Esse processo de diferenciação do ego nos primeiros anos de vida é reflexo justo da emergência, a partir do contexto inicial em que uma pessoa nasce, de novos contextos, de novas realidades alternativas, a medida em que seu destino bifurca-se no hipercontexto. Cada ego será responsável por uma das vidas alternativas vividas por uma mesma pessoa, passando o Self a viver no centro do ambiente de rede que conecta todas as suas versões coexistentes.

Isso permite que cada versão de uma mesma pessoa insira-se em um só contexto e relacione-se com ele ignorando as constantes emergências de novas versões da mesma identidade. Tal modelo é construído e atualizado com tanta consistência e velocidade por nosso cérebro, e é reforçado pelos demais seres vivos que compartilham do mesmo contexto que nós a cada instante, que o consideramos a única realidade existente. Você acredita nesse modelo e sente com seus órgãos sensoriais (na verdade, com informações sensoriais filtrada pelo cérebro) uma só trama de realidade, e assim pode viver toda sua vida e morrer sem sequer desconfiar que o hipercontexto existe, ignorando que viveu sempre nele, ramificando seu destino em várias vidas alternativas desde seu nascimento.

Após os anos iniciais de consolidação do ego, porém, começa a ocorrer uma ruptura, que arquetipicamente é percebida como uma “ferida” ou “fratura” no ego humano. Tal ruptura começa no momento em que o ego passa a intuir o aspecto aleatório do seu destino (Por que as coisas se deram dessa maneira e não de outra? E se aquele evento tivesse ocorrido de outra forma, ou não ocorrido? E se outra decisão tivesse sido tomada naquele dia?) e sente sua própria vida como apenas parte de um todo maior, do qual está apartado. Quanto maior a desconexão como esse “todo”, maior a infelicidade e confusão pessoal.

As escolhas feitas pelo ego humano levam, inevitavelmente, à fragmentação da vida individual – o acúmulo de escolhas e ramificações do destino conduzem a uma insatisfação inafastável. A partir desse ponto, o ego humano passa a perceber a necessidade de integração com algo maior, e é nessa etapa que a Matriz e as forças arquetípicas nela existentes começam a manifestar-se em sonhos e em coincidências significativas. A meta dessas manifestações é impulsionar uma reformulação do ego humano, no qual abra-se para uma conexão para o Self, na busca de um equilíbrio entre a individualidade do ego fragmentado e a totalidade do Eu Superior.

As etapas do processo alquímico.

Todo esse processo, de inicial diferenciação do ego (identidade que vive em um contexto) e posterior remodelação da relação desse ego com o Self (identidade superior que vive no hipercontexto), é chamado de Individuação.

A individuação não pode ser compreendida como um processo rígido, que ocorre de forma sempre igual na história da humanidade. A individuação é o nome dado à dinâmica de constante atualização do sistema criado evolutivamente pela natureza, na qual o organismo humano lida com o hipercontexto segmentando-o em contextos operados pelo ego, com a coordenação de todas as versões coexistentes de uma mesma pessoa sendo realizada pelo Self no ambiente de rede da Matriz, que Jung chamava de “inconsciente coletivo”. Esse sistema precisa ser constantemente atualizado e aprimorado – portanto, a Individuação não é uma tarefa que termina em determinado momento, mas um processo que ocorre continuamente, sem ponto final.

Assim, a individuação de nossos antepassados no tempo em que Ilíada foi escrita não é rigorosamente idêntica à individuação (ou seja, processo dinâmico de atualização do sistema) que vivenciamos hoje em dia. Esse é um ponto importante, pois é através do processo ativo de individuação que poderemos remodelar o sistema cognitivo/decisório que herdamos de nossos antepassados, a fim de abrirmos a portas para a grande mudança que será descrita na quarta etapa desse ciclo de aprendizado.

Jung percebeu que o processo de individuação é o tema central de tradições como o Taoísmo e o Budismo. Mesmo no cristianismo original, Jung observou que o foco central estava na ideia de que “o Reino de Deus está dentro de você”. E foi estudando o trabalho dos alquimistas da europa medieval e da china taoista que Jung analisou aspectos detalhados do processo individuação necessário para nossa época, capaz de resolver o Problema Humano.

A SINCRONICIDADE

Pauli e Jung tinham outro ponto em comum além do interesse pela natureza da realidade e de seu vínculo com a mente humana. Ambos compartilhavam algo mais pessoal e biográfico: a vida de ambos era repleta casos de coincidências estranhas, inexplicáveis.

Os colegas do físico, por exemplo, faziam piada com aquilo que chamavam de “Efeito Pauli”. É que sempre que Pauli estava numa cidade, os experimentos científicos feitos no local ou davam errados ou resultavam em algum tipo de acidente. Pauli apreciava quando diziam que a causa do fenômeno era o excessivo rigor científico pelo qual ficou célebre.

A vida de Jung é ainda mais repleta de coincidências inexplicáveis. Na verdade, ao tratar seus pacientes, Jung observou não só relatos de coincidências curiosas, mas também de “coincidências significativas”, ou seja, de coincidências que possuíam um forte significado simbólico para a vida de uma pessoa. Essa coincidência ajudava a pessoa a compreender, pela linguagem dos símbolos, um aspecto importante de sua vida naquele momento e contexto.

Tanto essas experiências pessoais quanto as descobertas feitas em suas profissões levaram Jung e Pauli a estudarem juntos um aspecto do universo que a civilização moderna descobriu ao olhar o tecido da realidade bem de perto. Trata-se do entrelaçamento.

O entrelaçamento é o fenômeno pelo qual o estado de cada “partícula” de um sistema de “partículas” depende dos estados de todas as demais, de forma que ao se definir o estado de uma, automaticamente se define o estados de todas as outras, mesmo que estejam em extremos opostos de uma galáxia.

Esse fenômeno foi previsto por Einstein como uma consequência da física quântica, mas Einstein o achava tão absurdo que tratou sua previsão como uma prova de que a física quântica estava errada. Posteriormente, contudo, a previsão foi confirmada por reiterados experimentos.

Por que Einstein considerava esse fenômeno absurdo e impossível? Porque demonstra que entre dois objetos pode existir um tipo interação que não é de causa e efeito. E até hoje não havia sido descoberta qualquer tipo de interação possível entre seres e coisas no universo que não fosse comandada pela lei da causa e efeito.

Esse novo tipo de interação recebeu o nome técnico de “não-localidade”, simplesmente porque duas coisas interagem dessa forma mesmo que localizadas há bilhões de ano-luz de distância. Mas há mais do que uma questão de distância nesse fenômeno, pois a complementaridade estabelecida entre dois objetos é também instantânea. Se um está em determinado estado, o outro objeto está num estado complementar imediatamente, sem que sequer uma fração de milissegundo transcorra.

Jung utilizou as observações de Pauli para desenvolver uma teoria que descreve uma relação entre seres e coisas, entre mente e universo inclusive, que não é regida pela lei da causa e efeito. A lei que rege esse tipo de interação é de complementaridade entre todas as coisas, que existem em determinado momento em uma relação de entrelaçamento umas com as outras. Elas estão “juntas no tempo”, expressão da qual Jung derivou o nome com que chamou esse tipo de característica fundamental do universo: Sincronicidade, do grego “syn” (juntas) e “khronos” ( tempo).

Como foi apresentado na primeira etapa deste ciclo, toda trama de realidade é um retrato de determinado instante do entrelaçamento que há entre todas as coisas do universo. Todos os seres e coisas que existem num dado momento em uma dada trama de realidade estão em uma indissociável relação de complementaridade: todos estão entrelaçados, nenhum possui uma existência isolada, separada dos demais.

A trama de realidade assim fotografada revela uma imagem que não possui um centro absoluto, mas apenas um centro relativo. Portanto, o centro do entrelaçamento de todas as coisas pode, do ponto de vista relativístico, situar-se em qualquer um dos infinitos pontos da trama de realidade. É esse o significado do antigo lema alquímico segundo o qual “Deus é um círculo cujo centro está em todos os lugares”.

E um dos pontos possíveis para esse centro é a própria subjetividade de um indivíduo. Por isso não só Pauli e Jung, mas também outros físicos e psicólogos estudam atualmente essa interação entre mente e mundo exterior que não observa a lei da causa e efeito. “O fenômeno da sincronicidade é caracterizado por uma coincidência significativa entre um estado mental (subjetivo) e uma ocorrência (objetiva) no mundo exterior”, definiu o físico Frederico Carminati, membro do CERN (Organização Europeia de Pesquisa Nuclear).

Naturalmente, isso não significa que a vontade humana ou o pensamento positivo sejam capazes de controlar diretamente a realidade do mundo exterior. Isso porque vontade e pensamento positivo são atributos do ego – e o ego é apenas um dos elementos periféricos na ampla rede da Matriz. Mas significa que o Self e os arquétipos (particularmente aqueles dotados de consciência autônomos) podem usar coincidências no mundo exterior para enviar mensagens ao ego.

E foi assim que, ao estudar o fenômeno, Jung descobriu que o Self pode utilizar coincidências significativas e outras formas de manipular a sincronicidade para se comunicar com o ego. Na verdade, é com base na sincronicidade que o próprio ego pode entrar em contato com o Eu Superior. Como será apresentado futuramente, existem métodos pelos quais uma pessoa pode, em determinadas circunstâncias, comunicar-se com o Self.

A FUNÇÃO TRANSCENDENTE

Por fim, chega-se ao momento culminante dessa segunda etapa, na qual aprendemos qual operação poderá remodelar o sistema cognitivo/decisório que herdamos de nossos antepassados, atualizando-o para equacionar o Problema Humano.

O processo de individuação, quando descrito em mitos e antigas tradições, parece resultar na criação de um determinado “objeto” ou “entidade” de natureza transcendente. Por exemplo, Jung observou que o processo alquímico não buscava a produção de uma pedra feita de qualquer substância física, mas de uma substância diferente, “filosofal”. Os alquimistas associavam o objetivo final de seu trabalho a diversos símbolos convergentes, relativos ao aspecto divino no ser humano, como a Imago Christi (“imagem de Cristo”) e o Adam Kadmon (o ser humano primordial).

Trata-se, claro, de um arquétipo, de um elemento na linguagem de programação que compõe a Matriz. Mas que arquétipo é esse? E, mais importante, qual sua função?

Vamos à resposta analisando o desafio de enfrentar o Problema Humano: precisa-se remodelar o sistema/cognitivo de nossos antepassados. Esse sistema opera em um só contexto, ignorando a existência da Matriz e do hipercontexto, sendo controlado pelo ego, que está no centro da consciência.

Desde que o ego evoluiu e apropriou-se de seus sentimentos e decisões, reconhecendo-os como próprios (e não oriundo dos deuses), ele tem ocupado posição central na consciência humana. O Self e a comunicação com a Matriz ocorrem apenas de forma “inconsciente” (eis o motivo de Jung chamar a Matriz de “inconsciente coletivo”), atuando no plano emocional e onírico. O ego é o operador do sistema cognitivo/decisório.

E o ego foi competente na função que a evolução lhe atribuiu. Prova disso é o fato de o ser humano ter abandonado sua posição intermediária na cadeia alimentar do mundo selvagem e tornado-se o senhor deste planeta, chegando ao ponto de desenvolver tecnologias capazes de desafiar os limites impostos pela própria natureza, permitindo-lhe manipular a própria evolução e criar inteligências artificiais.

Porém, diante do aumento da complexidade da sociedade e do novo mundo que se descortina com a ciência e a engenhosidade humana, esse sistema cognitivo/decisório tornou-se ultrapassado. Além disso, o ego humano é inconstante, sempre insatisfeito, como uma criança que se cansa fácil de seus novos brinquedos. A instabilidade lhe é inerente. Faz-se necessário realizar, pela individuação, uma nova reestruturação desse sistema.

É preciso dar o próximo passo, sequência daquele dado por nossos antepassados há cerca de três mil anos. É preciso começar a ampliar a consciência, para que gradualmente tome percepção maior do hipercontexto e da Matriz. É preciso estabelecer, na consciência, um segundo elemento ao lado do ego, de forma que esse não ocupe a posição central, e a consciência abra-se à possibilidade de contextos múltiplos e emergentes, assumindo responsabilidade pela condução de seu destino coletivo. Esse elemento deve ser uma ponte, um canal a partir do qual o ego comunique-se com o Self por meio de tal função de transição.

A simbologia do processo alquímico.

Jung chamou esse segundo elemento de “função transcendente”, e corresponde ao resultado de uma interação entre a consciência, representada pelo ego, e a Matriz. Surge dessa interação uma ponte de comunicação para uma manifestação simbólica do Self, do Eu Superior, na personalidade do indivíduo. Desse modo, o sistema cognitivo/decisório não é mais incumbência apenas do ego (e de sua perspectiva limitada) – é, também incumbência, de aspectos mais profundos do ser, capazes de perceber o mundo e a vida de uma perspectiva mais elevada e ampla.

Segundo Jung, com o desenvolvimento da função transcendente ocorre uma “profunda transformação da personalidade” da pessoa, surgindo “o ponto de um novo equilíbrio, um novo centramento” de sua consciência. Cria-se, desse modo, um “centro virtual que, por ocupar posição focal” entre consciência e Matriz, assegurando “à personalidade uma fundação mais sólida”.

Portanto, a emergência da função transcendente reestrutura o sistema cognitivo/decisório, atualizando-o para que faça frente aos atuais desafios da humanidade. Equaciona-se, assim, o Problema Humano que entrava atualmente nosso caminho, permitindo que superemos a atual etapa e avancemos na direção de novos problemas, de novos desafios na busca do desenvolvimento pleno de toda a potencialidade humana.

Há um método para a emergência e fortalecimento da função transcendente na consciência humana, deslocando o ego de sua atual posição central. Esse método, em linhas gerais, começa por criar o espaço para tal emergência através do desenvolvimento daquilo que é modernamente chamado de metacognição, ou seja, a plena atenção aos próprios pensamentos e sentimentos. Isso porque a primeira tarefa da função transcendente é deslocar o ego da posição central sem o despotencializar. Assim, ao deslocamento do ego deve corresponder ao aprimoramento de sua eficiência no desempenho das funções que lhe são reservadas.

Esses métodos, porém, serão apresentados no futuro. Neste momento, o importante é saber que a criação da função transcendente deve buscar paralelismo com o trabalho dos alquimistas, que executavam um processo em dois fronts, atuando simultaneamente na matéria (para fora) e na mente (para dentro). Assim como eles manipulavam a matéria segundo a ciência de sua época ao mesmo tempo em que efetuavam transformações em sua psique, o desenvolvimento da função transcendente também deve ser acompanhado do aprimoramento do atual domínio humano sobre a matéria, por meio da tecnologia.

Iremos, em breve, abordar de forma mais prática o processo que possibilitará ao leitor equacionar o Problema Humano em sua vida pessoal, e que auxiliará a humanidade a enfrentar o mesmo desafio. É preciso, antes, compreender a totalidade da condição humana, inclusive a natureza das circunstâncias concretas em que a solução para o Problema Humano será implementada.

Na próxima etapa, enfrentaremos a parte mais difícil do processo de aprendizado, consistente na identificação da natureza do Mal. Por fim, na quarta, retomaremos o tema da evolução humana e de suas possibilidades quase utópicas.