Como o sacrifício humano reforçou desigualdades sociais

Para lamentar a morte de aristocratas, o povo Ngaju de Bornéu realizavam um ritual sagrado que começava ao pôr do sol com a amarração de um escravo a um poste, continuava com uma dança noturna e com o esfaqueamento da vítima, e culminava com o escravo tombando numa piscina de seu próprio sangue ao nascer do sol. Em outras partes do mundo, os métodos de sacrifício humano incluíam concussão, afogamento, estrangulamento, queima, decapitação, sepultamento e até mesmo serem usados ​​como rolos para lançar ao mar uma canoa recém-construída. Como poderia algo tão custoso quanto o sacrifício humano ter sido tão comum nas primeiras sociedades? E por que esses rituais precisam ser tão dramáticos e sangrentos?

Antropólogos e historiadores propuseram a “hipótese do controle social” do sacrifício humano. De acordo com essa teoria, os ritos sacrificiais tinham uma serventia para as elites de um povo. Propõe-se que o sacrifício humano tenha sido usado pelas elites para exibir seu poder divinamente sancionado, justificar seu status e aterrorizar as subclasses para impor-lhes obediência e subordinação. Em última análise, o sacrifício humano poderia ser usado como uma ferramenta para ajudar a construir e manter sistemas de desigualdade social.

A desigualdade social hereditária foi a primeira forma de complexidade social surgida na história humana e deu origem a chefias, reinos e estados políticos. Ao colaborar com a construção e manutenção da desigualdade social, os sacrifícios humanos poderiam ter nos ajudado a estabelecer os tipos de sociedades modernas em que vivemos hoje. Uma linha de apoio para essa teoria é encontrada no registro arqueológico do Sudoeste da América do Norte, onde os restos mortais de indivíduos abatidos de forma ritual foram encontrados nas mesmas regiões que os remanescentes das primeiras sociedades hierárquicas. No entanto, até agora, essa ideia não havia sido rigorosamente testada.

Com meus colegas da Universidade de Auckland e de outros lugares, recentemente testamos a hipótese do controle social usando uma amostra de 93 culturas de língua austronésia e publicamos nossos achados na Nature. A família de culturas austronésias originou-se em Taiwan, desenvolveu canoas com estabilizadores e foram alguns dos maiores viajantes oceânicos da história da humanidade. Milhares de anos antes das sagas vikings, os austronésios haviam começado sua grande expansão, navegando para o oeste até Madagascar, para leste até a ilha de Páscoa e para o sul para Aotearoa – cobrindo uma área total com mais da metade da longitude do mundo.

Nas primeiras culturas austronésias, uma ampla gama de eventos exigia sacrifícios humanos, inclusive sepultar um chefe importante, preparar-se para a guerra, construir uma nova canoa, apaziguar os deuses ou simplesmente esperar uma temporada de colheitas abundantes. As vítimas tendiam a ser de baixo status social e os perpetradores eram a elite social. Embora possam ter sido os deuses que exigiram o sacrifício humano ritualizado, muitas vezes eram os chefes e os padres que convenientemente escolhiam as vítimas.

Ao coletar dados sobre as culturas austronésias a partir dos registros históricos dos primeiros exploradores, missionários e antropólogos, construímos um banco de dados sobre deuses, crenças e práticas do Pacífico, batizado de Pulotu. Como parte desse banco de dados, identificamos se as culturas tradicionais austronésias praticavam o sacrifício humano e a extensão da desigualdade social herdada dentro das sociedades (a desigualdade social incluía coisas como escravos hereditários e linhagens dominantes).

O sacrifício humano era surpreendentemente comum. Ocorreu em quase metade das culturas que estudamos (43%). Embora fosse relativamente escasso em sociedades igualitárias, o sacrifício humano era praticado na maioria das culturas com sistemas de classes estritamente hereditários. Isso sugere que há uma relação entre desigualdade social e sacrifício humano, mas não nos diz se o sacrifício humano leva à desigualdade social ou vice-versa.

Usando uma árvore genealógica baseada em linguagem e métodos estatísticos desenvolvidos por biólogos evolucionistas, fomos capazes de modelar como o sacrifício humano e a desigualdade social evoluíram na pré-história da Austronésia. Esses métodos filogenéticos nos permitiram mirar a causalidade modelando a ordem na qual o sacrifício humano e a desigualdade social tendiam a surgir, assim como os efeitos que eles tinham um sobre o outro. Encontramos forte apoio para a hipótese do controle social: o sacrifício humano ajudou a construir sistemas de classe estritamente herdados e impediu que as culturas se tornassem mais igualitárias.

A sobreposição de autoridade religiosa e política permitiu que sacrifícios humanos ritualizados fossem usados ​​pelas elites sociais para construir e manter a desigualdade social. Nas culturas austronésias, os conhecimentos religiosos especializados, como a realização de orações elaboradas ou rituais mágicos, poderiam ser transmitidos através de linhagens familiares da elite. Em muitos casos, essas famílias alegavam ser favorecidas pelos deuses ou ter descendentes delas. A superioridade religiosa era usada para justificar o status social, e frequentemente os chefes e sacerdotes eram uma e a mesma pessoa, ou eram da mesma linhagem.

Existem inúmeras maneiras pelas quais as crenças e práticas religiosas favorecem os responsáveis. Por exemplo, os Bughotu das Ilhas Salomão acreditavam que os deuses exigiam sacrifícios na forma de alimentos, mas para que o alimento chegasse aos deuses, primeiro tinha que ser comido pelo sumo sacerdote. Também sabemos, por descrições etnográficas, que aqueles que estavam em desacordo com as elites sociais tinham o hábito de serem sacrificados. Isso destaca como o sacrifício humano ritualizado poderia ser usado pelas elites sociais para remover dissidentes, incutir medo e justificar a autoridade nas primeiras sociedades austronésias.

Apesar de ser escasso hoje em dia, o sacrifício humano ritualizado foi realizado nas primeiras sociedades humanas em todo o mundo. Durante a Primeira Dinastia do antigo Egito, os túmulos dos faraós eram acompanhados por “retentores” – seres humanos sacrificados que, acreditava-se, dariam assistência aos faraós na vida após a morte. Na Europa, corpos mutilados foram encontrados enterrados em poços de turfa, alguns dos quais com até 8.000 anos de idade, acompanhados por parafernália religiosa como cadinhos, ídolos e plantas sagradas. Os sumos sacerdotes astecas extraíam os corações das vítimas na frente de dignitários visitantes de comunidades rivais. Muitas vezes, as vítimas eram cativas de uma das comunidades concorrentes, e os dignitários voltavam para casa tremendo de medo.

A religião é muitas vezes não falsificável e pode expressar caprichos demasiado humanos. Quando a verdade religiosa é colocada nas mãos de uma poderosa elite social, a religião pode se tornar uma ferramenta construir e manter o controle social. Esse controle é visto de forma vividamente mais sangrenta pelo uso generalizado de sacrifícios humanos ritualizados.


Tradução do texto How human sacrifice helped to enforce social inequality publicado originalmente na Aeon Magazine.