OHiper-humanismo define-se como uma tecnologia da consciência e do espírito. “Tecnologia” é todo método ou ferramenta (física ou conceitual) que articula determinado conhecimento da verdade para a consecução de fins práticos. Como tal, o hiper-humanismo articula quatro verdades (chamadas de verdades práticas) através de um recurso chamado linguagem arquetípica para a consecução de determinado fim: permitir que a consciência humana dê o salto evolutivo necessário à sua adaptação ao advento da próxima singularidade.

Diz-se que o hiper-humanismo é uma tecnologia da consciência pois seu design é de natureza memética (na definição de Dworking e McKeena). Ou seja, nas palavras do historiador Yuval Harari, trata-se de uma “realidade intersubjetiva”, projetada para adaptar o obsoleto sistema cognitivo-decisório em que opera o ser humano a uma emergente era em que múltiplas realidades coexistentes, ubiquidade da internet, inteligência artificial, nanotecnologia e pós-humanismo tornam-se temas cotidianos. Preservando os valores da compaixão humana e do respeito ao meio ambiente, o Hiper-humanismo é uma tecnologia com um ethos, ou seja, que propõe um dimensionamento ético das inovações tecnológicas.

O Hiper-humanismo também é uma tecnologia do “espírito”, no sentido da palavra grega “psique” adotado por Carl Gustav Jung em sua obra. Em simples definição, “psique” ou “espírito” é uma sistema de informação autoconsciente do qual a própria consciência individual é subsistema operando em menor dimensionalidade.

Na primeira metade do século XX, o físico Wolfgang Pauli e o psicólogo Carl Gustav Jung especularam exaustivamente sobre a possível conexão entre matéria e consciência. Os experimentos de Pauli e seus colegas demonstravam a existência de uma estranha correlação entre o universo observado e o observador. Já os estudos e atividade clínica de Jung revelaram uma estranha conexão entre os sonhos de seus pacientes e antigos tratado alquímicos, sugerindo que alquimistas medievais já estavam cientes de operações psíquicas destinadas a transformar a consciência humana. Embora Pauli e Jung percebessem que as recentes descobertas da física e o mapeamento da psique humana estavam próximos de encontrar a conexão entre consciência e matéria, faltou-lhes a chave, a peça central do quebra-cabeça.

Essa chave só foi identificada muitas décadas depois, graças aos esforços de pesquisadores como David Deutsch, Hugh Everett, David Wallace, Michael Lockwood e Andreas Wichert. E a dificuldade de encontrá-la decorre mais da resistência humana em reconhecer uma verdade contraintuitiva e perturbadora do que de qualquer outro impedimento. Esta verdade é o hipercontexto, chave que dá sentido à imagem do quebra-cabeça montado por Pauli e Jung, constituindo o eixo da tecnologia da consciência que é o Hiper-humanismo.

Diagrama desenhado por Pauli em carta a Jung, retirado de “Atom and Archetype: The Pauli/Jung Letters, 1932-1958”, Princeton University Press (July 21, 2014).