Cerca de seis milhões de anos atrás, uma fêmea primata muito importante teve dois filhos. Uma de suas crianças se tornaria o antepassado comum de todos os chimpanzés. A outra seria o ancestral comum de uma linhagem que, um dia, incluiria toda a raça humana. Enquanto os descendentes de seu primeiro filho seriam bastante normais do ponto de vista de um primata, com o passar do tempo coisas estranhas começaram a acontecer com a linhagem do outro.

Não temos certeza da causa, mas nos seis milhões de anos seguintes nossa linhagem ancestral começou a fazer algo que nenhuma criatura na Terra havia feito antes – nossos antepassados acordaram.

Aconteceu lenta e gradualmente ao longo de milhares de gerações, do mesmo jeito que o seu cérebro acorda lentamente nos primeiros segundos depois de despertar do sono. Porém, à medida que a clareza aumentou, nossos antepassados ​​começaram a olhar ao redor e, pela primeira vez, fizeram perguntas.

Surgida de um sonho há 3,6 bilhões de anos, a vida na Terra formulou suas primeiras questões.

O que é essa grande sala em que estamos e quem nos colocou aqui? O que é esse grande círculo amarelo e luminoso no teto e onde ele vai todas as noites? Onde o oceano termina e o que acontece quando você chega lá? Onde estão todas as pessoas mortas, agora que não estão mais aqui?

Nós descobrimos o grande romance de mistério de nossa espécie (intitulado “Onde estamos?”), e queríamos aprender a lê-lo.

à medida que a luz da consciência humana crescia e brilhava, começamos a formular respostas que pareciam fazer sentido. Talvez estivéssemos em cima de um disco flutuante, e talvez esse disco estivesse em cima de uma enorme tartaruga. Talvez as luzes acima de nós à noite sejam um vislumbre do que está além dessa grande sala – e talvez seja para lá que vamos quando morremos. Talvez se encontrarmos o lugar onde o teto se encontra com o chão, possamos colocar nossas cabeças além e ver todas coisas super divertidas do outro lado.

Cerca de 10.000 anos atrás, tribos isoladas de humanos começaram a se unir e formar as primeiras cidades. Em comunidades maiores, as pessoas puderam conversar umas com as outras sobre esse romance misterioso que encontramos, comparando notas entre tribos e gerações. Com as técnicas de aprendizagem tornando-se cada vez mais sofisticadas, as pistas se acumularam, e surgiram novas descobertas.

O mundo aparentemente era uma bola, e não um disco. O que significava que o teto era, na verdade, uma esfera maior que nos cercava. Os tamanhos dos outros objetos que flutuavam lá fora na esfera conosco, e as distâncias entre eles, eram maiores do que imaginávamos. E então, descobrimos algo perturbador:

O sol não girava em torno de nós. Nós é que estávamos girando ao redor do sol.

Esta foi uma descoberta super desconfortável e que nos deixou confusos. Por que diabos não estávamos no centro das coisas? O que isso significava?

Afinal, onde estamos?

A distância entre nós e as luzes no céu, inclusive o sol, já era desagradavelmente grande. Mas se não estamos no centro desse espaço todo, então estamos apenas em uma esfera aleatória dentro dele, sem motivo aparente? É isso o que está acontecendo?

Assustador.

Então as coisas pioraram.

Parecia que as pequenas luzes que víamos de noite no céu não eram o que pensávamos que eram – eram outros sóis como o nosso. E esses sóis estavam flutuando como nosso sol, o que significa que não estávamos dentro de uma esfera. Não só nosso planeta não era o centro das coisas, mesmo nosso sol era apenas um sujeito aleatório lá fora, no meio do nada, cercado de nada.

Assustador.

Nosso sol acabou se revelando apenas parte de algo muito maior. Uma bela e vasta nuvem de bilhões de sóis.

O tudo de tudo:

Pelo menos, era o que tínhamos. Até que percebemos que isso não era tudo, e que as coisas eram mais ou menos assim:

Trevas.

Quanto mais nossas ferramentas e entendimento se aprimoravam, mais podíamos ampliar essa imagem. E quanto mais ampliamos, mais as coisas pioram. Estávamos decifrando as páginas do livro intitulado “Onde Estamos?” por nossa conta e risco, descobrindo nossa situação diretamente, concluindo que estamos inacreditavelmente sozinhos, vivendo em uma ilha solitária dentro de uma ilha solitária dentro de uma ilha solitária, enterrada em camadas de isolamento, sem ninguém com quem conversar.

Essa é A Situação.

Nos mais recentes 1% da curta existência de nossa espécie, nos tornamos a primeira vida na Terra a conhecer nossa situação – e estamos tendo uma crise existencial coletiva desde então.

Você realmente não pode nos culpar. Imagine não saber que o universo é uma coisa e então descobrir que o universo é essa coisa. É muito para processar.

A maioria de nós lida com isso vivendo em uma ilusão agradável, fingindo que o único lugar em que vivemos está em uma infinita terra de cores e calor. Fazemos o possível para ignorarmos A Situação.

E qual nosso melhor amigo para esta atividade? O céu azul, claro. O céu azul parece que foi inventado para ajudar os seres humanos a fingir que A Situação não existe, servindo como o cenário perfeito para nos proteger da realidade.

Então a noite acontece, e A Situação fica nos olhando diretamente na cara.

Oh sim…

Esse é nosso cotidiano, da ilusão protetora dos dias de céu azul à recordação noturna de que A Situação existe. O desenvolvimento de psicoses foi, durante a maior parte da história recente, extensão do nosso relacionamento com A Situação.

Mas nos últimos 60 anos, esse relacionamento chegou a um novo nível. Durante a Segunda Guerra Mundial, a tecnologia de mísseis deu um salto e, pela primeira vez, uma ideia totalmente maluca tornou-se possível:

Viagem ao espaço.

Por milhares de anos, A História dos Humanos e do Espaço resumiu-se a uma história de olhar e se questionar. A possibilidade de alguém deixar a nossa ilha terrestre e desbravar o espaço despertou em nós o espírito de aventura.

Imagino um sentimento semelhante nas pessoas do século XV, durante a Era dos Descobrimentos, quando estávamos decifrando o capítulo sobre o mapa mundial do romance “Onde Estamos?”, e a noção de viagens marítimas deslumbrou a imaginação das pessoas. Se você perguntasse a uma criança em 1495 o que ela queria ser quando crescesse, provavelmente teria respondido: “um explorador do oceano”.

Em 1970, se você fizesse a uma criança a mesma pergunta, a resposta seria “um astronauta”.

A Segunda Guerra Mundial trouxe a possibilidade da viagem espacial, mas foi no final de 1957, quando os soviéticos lançaram o primeiro objeto artificial em órbita, o adorável Sputnik 1, que as viagens espaciais se tornaram a principal missão das grandes potências mundiais

Na época, a Guerra Fria estava a todo vapor, e os EUA e a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) apresentaram suas réguas para um concurso de medição de pênis internacionalmente televisionado. Com o lançamento bem sucedido do Sputnik, o pênis soviético aumentou alguns centímetros, horrorizando os americanos.

Para os soviéticos, colocar um satélite no espaço antes dos EUA era a prova de que a tecnologia soviética era superior à norte-americana, o que por sua vez foi apresentado como prova, para o mundo inteiro, de que o comunismo era um sistema superior ao capitalismo.

Oito meses depois, a NASA nasceu.

A corrida espacial tinha começado, e a primeira missão da NASA era levar um homem ao espaço e, em seguida, um homem em órbita completa, de preferência, antes dos soviéticos. Os EUA não deveriam ser humilhados novamente.

Em 1959, a NASA criou o Projeto Mercúrio para realizar a missão. Eles estavam à beira do sucesso quando, em abril de 1961, os soviéticos lançaram Yuri Gagarin em uma órbita completa em torno da Terra, fazendo com que o primeiro humano no espaço E em órbita da Terra fosse um soviético.

Era a hora de medidas drásticas. Os conselheiros de John F. Kennedy disseram-lhe que os soviéticos estavam muito avançados para que os EUA conseguissem superá-los em qualquer conquista a curto prazo, mas que a perspectiva de uma nave tripulada pousar na lua era um objetivo distante o suficiente no futuro para que os EUA pudessem chegar primeiro. Então Kennedy disse sua famosa frase “nós escolhemos ir para a Lua não porque é fácil, mas porque é difícil”, e direcionou uma escandalosa quantidade de financiamento nessa missão (US$ 20 bilhões, o equivalente a US$ 205 bilhões nos dias de hoje).

O projeto foi chamado de Apollo. A missão Apollo consistia em aterrizar um americano na lua – e fazê-lo primeiro. Os soviéticos responderam com o Soyuz, seu próprio programa de viagem lunar. E a corrida espacial se intensificou.

à medida que as primeiras fases da missão Apollo começaram a ser implementadas, o Projeto Mercury finalmente atingiu seu objetivo. Apenas um mês depois de Yuri Gagarin se tornar o primeiro homem no espaço, o astronauta americano Alan Shepard tornou-se o segundo homem no espaço, completando um pequeno arco que não o colocou em órbita completa, mas permitiu que atingisse o ponto mais alto possível e desse um “oi” lá de cima. Alguns meses depois, em fevereiro de 1962, John Glenn tornou-se o primeiro americano a orbitar a Terra.

Os próximos sete anos testemunharam 22 lançamentos tripulados dos EUA e dos soviéticos, como resultado do aprimoramento das habilidades e tecnologias dessas super potências. No final de 1968, os Estados Unidos realizaram mais lançamentos (17) do que os soviéticos (10) e, em conjunto, as duas nações dominaram o que chamamos de baixa órbita terrestre (LEOLow Earth Orbit).

Mas a baixa órbita terrestre realmente não havia excitado ninguém desde o início dos anos 60. Ambas as superpotência tinham a mira firmemente na lua. O programa Apollo estava dando saltos rápidos e, em dezembro de 1968, os EUA se tornaram a primeira nação a ultrapassar a órbita terrestre baixa. A missão Apollo 8 fez todo o caminho até a órbita da lua e circulou cerca de 10 vezes antes de voltar para casa com segurança. A tripulação, que incluiu James Lovell, quebrou o registro de altitude humana e James tornou-se a primeira pessoa a ver a lua de perto, a primeira a ver o “lado escuro” da lua e a primeira a ver a Terra como um planeta inteiro, tirando esta foto icônica:

Ao retornar, a equipe tornou-se o grupo de heróis mais celebrado dos EUA – pelo menos por oito meses. Em junho de 1969, três missões de Apolo mais tarde, o Apollo 11 fez os americanos Neil Armstrong e Buzz Aldrin serem os primeiros humanos a chegarem na lua, e Armstrong tirou essa famosa foto de Aldrin:

É difícil enfatizar o quanto isso foi espetacular. Desde que a vida na Terra começou há 3,6 bilhões de anos, nenhuma criatura terrestre pôs os pés em qualquer outro corpo celeste além da Terra. De repente, lá estão Armstrong e Aldrin, saltando em torno de outra esfera, olhando para o céu onde a lua deveria estar e vendo a Terra no seu lugar. Insano.

O Projeto Apollo provou ser um sucesso esmagador. Não só conseguiu colocar um homem na lua antes dos soviéticos como também enviou mais 10 homens para a lua nos próximos três anos e meio em cinco outras missões da Apollo. Houve seis viagens de lua bem sucedidas em sete tentativas, com a famosa exceção de Apollo 13, que foi abortada com segurança após uma explosão no tanque de oxigênio.

O programa soviético Soyuz continuou com problemas técnicos, e acabou nunca colocando alguém na lua.

O pouso na lua ocorreu no final de 1972. Em apenas uma década, conquistamos o espaço nas proximidades, e o progresso estava em franca aceleração. Se, naquela época, você tivesse perguntado a qualquer ser humano o que as próximas décadas de viagem espacial trariam, teria escutado previsões grandes e audaciosas como muitas pessoas indo à lua, uma base lunar permanente, pessoas chegando em Marte e até indo além.

Então você só pode imaginar o quão surpreso essas pessoas de 1972 ficariam se você lhes dissesse, depois de testemunharem doze seres humanos caminhando na lua, que 43 anos depois, no ano impossivelmente futurista 2015, o número de pessoas que já tinham pisado na lua ainda seria doze. Ou que depois de atingirmos a baixa órbita terrestre e a utilizarmos como nosso estacionamento pré-lua, 2015 chegaria e a baixa órbita terrestre ainda seria o mais distante que os seres humanos já conseguiram se estabelecer.

As pessoas de 1972 ficariam deslumbradas pelos nossos smartphones e pela internet, mas ficariam muito chocadas por termos desistido de ampliar as nossas fronteiras no espaço.

Então o que aconteceu? Após uma década de emocionantes aventuras espaciais, por que paramos?

Bem, como vimos no post sobre a Tesla, a pergunta “Por que paramos?” é a questão errada. Em vez disso, devemos perguntar:

“Por que fomos aventureiros em relação ao envio de seres humanos ao espaço?”

As viagens espaciais são incrivelmente caras. Os orçamentos nacionais são incrivelmente apertados. O fato é que seria surpreendente se uma nação comprometesse uma parte considerável de seu orçamento em nome da aventura e da inspiração, forçando os limites de seus gastos.

E isso seria realmente surpreendente porque nenhuma nação estourou seu orçamento em nome da aventura e da inspiração – duas nações estouraram seus orçamentos por causa de um concurso de tamanho do pênis. Diante do embaraço internacional em um momento em que todos estavam tentando descobrir qual sistema econômico era melhor, o governo dos EUA concordou em abandonar as regras usuais por alguns anos e gastar os recursos necessários para garantir que o país vencesse aquele concurso:

E no momento em que os EUA ganharam, o concurso terminou e as exceções às regras também acabaram. E o governo norte-americano voltou a gastar dinheiro como uma pessoa normal.

Em vez de continuar a aumentar seus gastos, os EUA e os soviéticos apertaram as mãos, colocaram suas calças e começaram a trabalhar juntos como adultos em projetos muito mais práticos, como a criação de uma estação espacial conjunta na baixa órbita terrestre (a Estação Espacial Internacional).

Nas quatro décadas seguintes, a História dos Humanos e do Espaço tornou-se novamente confinada à Terra. E no momento presente, temos duas razões principais para interagirmos com o espaço:

1) Apoio às Indústrias da Terra:

Essa é a primeira e principal razão pela qual os seres humanos interagem com o espaço, já que o programa Apollo não tinha relação com o interesse da raça humana no espaço. Tratava-se de usar o espaço para fins práticos em apoio às indústrias da Terra, principalmente sob a forma de satélites. A imensa maioria dos foguetes que atualmente lançamos no espaço tem por objetivo apenas colocar coisas na baixa órbita terrestre para que assim se possa olhar para a Terra, e não para a imensidão que existe na outra direção. Há algumas outras atividades espaciais na categoria “Apoio às Indústrias da Terra” (como mineração espacial , enterro espacial e turismo espacial). Mas, pelo menos por enquanto, os satélites representam quase toda essa categoria.

2) Olhar e aprender:

A segunda razão pela qual os seres humanos interagem com o espaço nas últimas quatro décadas prova que, embora possamos ter parado de enviar pessoas para o espaço, nunca perdemos nossa fome de aprender sobre o que está lá. à medida que a sociedade desviou sua atenção do espaço para a Terra, os astrônomos se mantiveram ocupados no trabalho, decifrando página após página do antigo livro “Onde estamos?”. Os astrônomos aprendem melhor com seus olhos, e um efeito colateral da corrida espacial foi o desenvolvimento de uma tecnologia muito melhor para ver o que está lá fora.


 

Há mais de 40 anos, esses dois objetivos – apoiar as indústrias da Terra e continuar a aprender e descobrir – têm sido a razão de nosso relacionamento com o espaço.

E porque esses dois objetivos são melhor realizados por viajantes não-humanos, o capítulo mais recente de nossa relação com o espaço tem se resumido a máquinas como satélites e sondas espaciais, com a participação humana ocorrendo na Terra, controlando as coisas com joysticks.

A única razão pela qual qualquer humano foi para o espaço desde que Apollo 17 voltou à Terra em 1972 é que, às vezes as máquinas ainda não estão suficientemente avançadas para fazer uma determinada tarefa, então precisamos enviar um humano para fazê-la no seu lugar. Das cerca de 550 pessoas que já estiveram no espaço, mais de 400 delas foram lá na era da posterior à Corrida Espacial. Mas desde Apollo, os motivos têm sido práticos: cientistas e técnicos vão ao espaço para fazer um trabalho. É por isso que cada missão tripulada das últimas quatro décadas manteve-se dentro da minúscula zona do espaço que circunda a baixa órbita terrestre.

Como as coisas ficam no espaço

Nós examinamos o que está no espaço, mas como todas essas coisas (satélites, sondas, telescópios, etc) chegam ao espaço? Você já se perguntou como algo como um satélite GPS chega a entrar em órbita?

A resposta é que existem nove países que têm a capacidade de lançar algo em órbita: Rússia, Estados Unidos, França, Japão, China, Índia, Israel, Irã e Coréia do Norte – juntamente com uma entidade não nacional, a Agência Espacial Européia (ESA). Se um satélite sobe no espaço, é porque alguém pagou a uma dessas dez entidades para levá-lo até lá em cima utilizando um foguete complexo e caro.

Quanto ao lançamento dos seres humanos no espaço, apenas três países na história o fizeram – a Rússia, os EUA e a China (que é um iniciante em rápido crescimento). Desde os anos 60, a Rússia usou seus foguetes Soyuz para lançar as pessoas no espaço, e os EUA, depois de concluir o programa Apollo em 1972, recuperaram a capacidade de colocar as pessoas em órbita em 1981 com o programa de ônibus espacial.

Nos 30 anos seguintes, os EUA lançaram 135 ônibus espaciais na baixa órbita terrestre, e 133 deles foram exitosos. As duas exceções são parte bastante traumatizante da história americana: Challenger em 1986 e Columbia em 2003.

O programa de ônibus espaciais foi aposentado em 2011. Hoje, apenas dois países podem lançar um ser humano em órbita – Rússia e China. Sem capacidade, os EUA (o país que, triunfalmente, colocou um homem na lua enquanto o resto do mundo assistia) agora tem que lançar seus astronautas em foguetes da Rússia, dependendo da boa vontade do governo russo, portanto.

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Então, como podemos resumir A História dos Humanos e do Espaço até agora? É uma história um pouco estranha. Em 1970, a história ela era assim:

Então, a suposição que se fez sobre o futuro dessa história foi a seguinte:

Mas agora é 2015, e é isso o que está acontecendo:

Quando olho para o que está acontecendo com a relação entre seres humanos e o espaço hoje, acho incrível. Neste momento, apenas 58 anos depois de os soviéticos colocarem o primeiro objeto artificial em órbita da Terra, vemos a proliferação de equipamentos de alta tecnologia em todo nosso planeta, dando aos humanos recursos mágicos em termos de visão e comunicação. Há uma equipe de sondas espaciais espalhadas pelo Sistema Solar, relatando para nós as suas descobertas. Há um enorme telescópio voador, o Hubble, acima da Terra, mostrando-nos exatamente como é o universo observável. Há um enorme laboratório científico, do tamanho de um campo de futebol, flutuando a 250 milhas acima de nossas cabeças, com pessoas dentro dele, a Estação Espacial Internacional.

Tudo o que acabei de dizer é incrível.

E se a História dos seres humanos e do espaço fosse assim:

…Eu ficaria maravilhado com as coisas que estamos fazendo atualmente.

Mas, infelizmente, os anos 60 aconteceram. Então, na verdade, a história ficou assim:

 

 

Um bom espetáculo de mágica segue uma regra simples: faça seu próximo truque de mágica ser melhor que o precedente. Se você não consegue ficar um passo à frente de um público cada vez mais entediado, as pessoas rapidamente deixarão você fazendo mágicas sozinho.

Em algumas áreas da pesquisa sobre o espaço, o show de mágica continuou melhorando. Em nossa busca de conhecimento, por exemplo, continuamos a superar a nós mesmos, aprendendo significativamente mais sobre o universo a cada década. O espírito humano de descoberta está vivo e bem, tendo prosperado no espaço ao longo dos anos desde as missões Apollo.

Mas embora estejamos fascinados pelas descobertas recentes, quando se trata de sentirmos genuína excitação e inspiração, essas mesmas descobertas não têm tanto sucesso. Sondas espaciais e telescópios podem nos encher de admiração e saciar nossa curiosidade, mas nada nos desperta tanto o espírito de aventura quanto ir aonde nenhum homem já foi. E, nessa arena, as últimas quatro décadas nos deixaram vazios. Depois de assistirmos pessoas pousando na lua, acompanhar as missões tripuladas até a Estação Espacial Internacional é, como disse Ross Andersen, “tão emocionante quanto assistir Colombo navegar para Ibiza”.

E é por isso que, no mundo de hoje, a sociedade perdeu o interesse em ler A História dos Humanos e do Espaço. Um assunto que deveria deixar a todos nós de joelhos tornou-se um espetáculo só para nerds. Peça a dez pessoas bem-informadas que digam o que está acontecendo com as sondas espaciais no Sistema Solar, ou com a Estação Espacial Internacional, ou com a NASA ou com a SpaceX e a maioria delas não será capaz de lhe dizer muita coisa. Algumas nem sequer saberão o que dizer. E as pessoas não sabem porque não se importam. Por causa da forma como ela se desenrolou, A História dos Humanos e do Espaço parece uma decepção. E, olhando para o mundo que nos rodeia hoje, é intuitivo prever que os futuros capítulos da história do espaço continuarão a aparecer como hoje:

Muitas pessoas não acham que isso é ruim. “Por que gastar quantidades exorbitantes de dinheiro enviando pessoas para o espaço quando temos tantos problemas aqui na Terra?”, Perguntam. O congressista do Massachusetts, Barney Frank, que passou três décadas desempenhando um papel fundamental na tomada de decisões no orçamento dos EUA, afirmou que uma viagem espacial tripulada é, “na melhor das hipóteses, um luxo que o país não deve se permitir” e “um total e total desperdício de dinheiro”. E os limites dramáticos no orçamento da NASA desde que a corrida espacial terminou sugerem que Frank não é o único político dos EUA a manter essa visão.

Em uma primeira análise, gente que pensa assim está sendo perfeitamente racional – afinal, diante de preocupações com saúde, segurança nacional, educação e pobreza, devemos realmente abrir espaço para um “orçamento de aventuras”? E nessa perspectiva, a projeção do gráfico acima tem maior probabilidade de continuar em seu curso atual.

Passei os últimos meses lendo, falando e pensando quase sem parar sobre o que os próximos capítulos desta história se parecerão – e as minhas premissas sobre o futuro mudaram radicalmente.

Acho que estamos todos diante de grande surpresa.

E essa surpresa é a missão que o Musk colocou diante de si.

 

PARTE 2:
A MISSÃO DE MUSK

Como todos nós, Elon Musk tem um punhado de objetivos na vida. Ao contrário de nós, um desses objetivos de vida é colocar 1.000.000 de pessoas em Marte.

Nos últimos meses, como expliquei aos amigos o que estou fazendo com esta série de postagens, sempre há um momento distinto quando menciono Marte. A reação facial varia de “O que? Sem Chance!” para “Poxa, até agora eu pensava que Elon Musk era muito incrível e não percebi que ele é um bilionário bobo e louco” para “Eu posso rir ou é sério esse papo? ”

Uma reação que eu não vi é: “Legal, isso faz sentido”.

Entendo a reação das pessoas – a minha seria igual até recentemente. De regra, uma frase com a palavra Marte é sobre alguma coisa de astronomia esotérica ou de ficção científica geeky. E a palavra colonização geralmente aparece em frases sobre história. No mundo real, as duas palavras não devem ficar juntas na mesma frase.

Para explicar porque Musk quer colocar um milhão de pessoas em Marte, vou apresentar dois alienígenas que vivem em um planeta do outro lado da Via Láctea – Zurple e Quignee:

O planeta de Zurple e Quignee, Uvuvuwu, formou-se 1,2 bilhões de anos depois da formação da Terra. Porém, melhores condições evolutivas em Uvuvuwu fizeram com que os organismos celulares simples evoluíssem para organismos celulares complexos em apenas 300 milhões de anos. Enquanto isso, na Terra, essa evolução só ocorreu em 1.6 bilhões de anos. Assim, vida em Uvuvuwu alcançou a inteligência a nível humano há 11 milhões de anos. Hoje, as criaturas em Uvuvuwu são muito mais avançadas do que qualquer coisa que pudéssemos sonhar na Terra.

Zurple e Quignee foram amigos desde sua pós-graduação há 2,4 milhões de anos, e uma de suas atividades favoritas é observar formas de vida emergentes e inteligentes em toda a Via Láctea e apostar se elas entrarão em extinção ou não (eles têm maneiras de ver todos os planetas em tempo real por causa de avanços tecnológicos que sequer começaríamos a entender).

Recentemente, Zurple e Quignee ficaram interessados no que está acontecendo no planeta nº 143, batizado de “Snoogie” – que é o nome deles para a Terra. Seu interesse em 143-Snoogie começou há cerca de 350.000 anos, quando Zurple recebeu o seguinte alerta no seu aplicativo IntelligenceWatch:

“ALERTA: a vida em 143-Snoogie atingiu o nível de inteligência fetal.”

Ele estava no almoço com o Quignee na época, e quando mencionou o alerta, Quignee disse: “Eu aposto que esses seres com inteligência fetal serão extintos”. Zurple aceitou a aposta. Por que não? Foi sempre divertido ter um grupo de espécies para acompanhar.

Mas recentemente, a partir de mais ou menos 100 anos atrás, os dois alienígenas começaram a prestar muito mais atenção às formas de vida no 143-Snoogie. E, atualmente, são positivamente interessados ao que está acontecendo no planeta que chamamos de Terra.

Para descobrir o porquê de seu interesse, vamos pensar sobre sua aposta e o que pode levar cada um deles à vitória. Quignee quer que a raça humana seja extinta. Mesmo. Zurple quer que a raça humana “faça a coisa certa”, seja lá o que for. Vamos voltar para esse ponto em breve.

Uma coisa na qual ambos provavelmente estão prestando atenção é no padrão de eventos de extinção ao longo da história da vida em 143-Snoogie. Vamos dar uma olhada.

A coisa assustadora sobre o universo

As extinções de espécies são como as mortes humanas – elas estão acontecendo constantemente, a uma taxa suave e estável. Mas um evento de extinção em massa é, para espécies, como uma guerra ou uma epidemia abrangente para os seres humanos – um evento incomum que mata uma grande parte da população de uma só vez.

Os seres humanos nunca experimentaram um evento de extinção em massa, e se acontecesse, há uma chance razoável de que ele acabasse com a raça humana – seja porque o próprio evento nos mataria (como uma colisão com um asteroide suficientemente grande), seja porque os efeitos do evento nos matariam (como algo que destruísse o suprimento de alimentos ou mudasse drasticamente a temperatura ou a composição atmosférica).

O gráfico de extinção abaixo mostra a extinção de animais ao longo do tempo (usando a extinção marinha como indicador). Eu selecionei os cinco principais eventos de extinção e a porcentagem de espécies totais perdidas durante cada um (não incluí neste gráfico é o que muitos acreditam estar se tornando uma nova extinção em massa, acontecendo agora, causada pelo impacto dos seres humanos):

Os eventos de extinção de ocorrência natural podem ser causados ​​por muitos fatores. O universo é um lugar violento e hostil e somos um grupo de organismos frágeis que vivem em um delicado equilíbrio de condições precisas. Estamos vivos, por enquanto, porque o universo está nos permitindo existir.

Algumas coisas que podem nos destruir:

  • Uma supernova próxima. As supernovas, as maiores explosões do universo, ocorrem quando as estrelas gigantes morrem. Se uma supernova formar-se a 30 anos-luz de distância da Terra (o que pode acontecer aproximadamente uma vez a cada 250 milhões de anos) provavelmente acabaria com a vida no planeta.
  • Uma grande emissão de raios gama. As rajadas de raios gama são os eventos mais brilhantes do universo. Elas são emitidas quando o núcleo de uma estrela maciça se funde em elementos cada vez mais pesados ​​até que tudo eventualmente não possa mais se fundir e a estrela colapsa em um buraco negro, ejetando uma explosão de duas vias tão ridícula que libera em alguns segundos energia equivalente a que o sol leva 10 bilhões de anos para liberar. As rajadas de raios gama são muito mais raras do que as supernovas, acontecendo em cada galáxia apenas algumas vezes em um milhão de anos. Mas, ao contrário de uma supernova (que acontece cerca de duas vezes por século em uma galáxia como a nossa), uma explosão de raios gama poderia arruinar nosso dia de uma distância muito maior, mesmo se ocorresse em qualquer lugar de nossa galáxia, se por acaso sua emissão ocorresse na nossa direção. Há inclusive a hipótese de que a primeira das cinco extinções em massa no gráfico acima possa ter sido causada por uma explosão de raios gama.
  • Um super explosão solar. As explosões solares ocorrem o tempo todo, e o campo magnético da Terra geralmente nos protege (isto é o que produz as luzes do norte do planeta). Mas observamos em outras estrelas parecidas com o sol explosões eventuais que são milhões de vezes mais poderosas. Uma super explosão de nosso sol nos destruiría. E falando sobre o campo magnético da Terra…
  • A reversão do campo magnético da Terra. Isso pode acontecer a qualquer momento, sempre que o campo magnético da Terra tem carência de atenção – em média, acontece aproximadamente uma vez a cada meio milhão de anos. A inversão em si não é o problema – é a transição que é perigosa. Enquanto o campo está em processo de reversão, há um período entre cem a mil anos durante os quais o campo magnético é reduzido para cerca de 5% de sua força normal. Uma vez que contamos com o campo magnético para nos proteger, isso pode ser devastador para a vida. Os cientistas mostraram que há relação entre reversões de campo magnético e extinção em massa no passado.
  • Um buraco negro penetra. De vez em quando, um buraco negro entra de penetra em um sistema solar sem ser convidado e causa estragos. Mesmo sem passar perto da Terra, se um buraco negro passasse a um bilhão de milhas de nós, ele colocaria a Terra em uma órbita mais elíptica, transformando nossas temperaturas de verão em cerca de 65º C e nossas temperaturas invernais até cerca de -45 °C. Nada legal.
  • Aliens sem escrúpulos. Eu deixarei o falecido físico Gerard O’Neill resumir: “A civilização ocidental teve um efeito destrutivo em todas as civilizações primitivas com as quais entrou em contato, mesmo nos casos em que foram tomadas todas as medidas para proteger a civilização primitiva. Não vejo nenhum motivo pelo qual o mesmo não nos aconteceria.”
  • Uma epidemia global. Seria como o filme Epidemia sem o conveniente final de Hollywood.
  • Um asteroide. Muito para dizer de uma só vez, então vamos tratar desse assunto em separado:

Impactos de asteroides

Existem asteroides e cometas que vagam por todas as partes do Sistema Solar, variando do tamanho de uma pedra ao tamanho de um planeta anão, mas a maioria deles está em três lugares: (1) o cinturão de asteroides entre as órbitas de Marte e Júpiter (cinturão que poderia ter se aglutinado e formado seu próprio planeta, mas que nunca conseguiu por causa da energia gravitacional nas proximidades de Júpiter), (2) o cinturão Kuiper, muito maior, que está na órbita de Netuno e 3) a Nuvem de Oort, ainda maior que os dois cinturões anteriores, consistente numa enorme esfera de objetos que estão torno do Sistema Solar.

Se o Sistema Solar for uma moeda de um centavo de dólar (diâmetro de 2 cm), com Netuno sendo uma minúscula esfera circulando na borda dessa moeda (e a órbita da Terra sendo tão pequena que pareceria um pequeno ponto no centro), o cinturão de asteroides é um círculo fino marcado com lápis no centro do centavo com um diâmetro de cerca de 2 milímetros. O cinto de Kuiper é um círculo plano em torno do lado de fora do centavo (como os anéis de Saturno).

A nuvem Oort não é um disco como os outros dois, é uma esfera, começando cerca de 30 centímetros de distância do centavo em todas as direções, mas que continua para fora por 30 metros em todas as direções. Enquanto estamos aqui, a estrela mais próxima fica a 90 metros da moeda de um centavo – um pouco menos de três vezes a distância entre o centavo e o exterior da nuvem de Oort. A Voyager 1, o objeto artificial mais veloz já feito pelo ser humano, que tem se afastado de nós por 38 anos consecutivos, viajou apenas 4 cm além da moeda – tornando-o o objeto humano mais distante possível.

Podemos ser atingidos por um asteroide ou uma (vou usar apenas “asteroide” para se referir a ambos a partir de agora) que foi empurrado para fora de sua órbita normal por uma colisão ou alguma perturbação gravitacional (provavelmente causada por Júpiter ou uma estrela).

Um asteroide não precisa ser enorme para arruinar tudo. Em 1908, um pequeno asteroide de 60 metros explodiu no céu no céu a uma altura de cinco a dez quilômetros sobre a Sibéria. Mesmo explodindo nessa altura, acabou com 80 milhões de árvores. Se tivesse explodido no solo terrestre, teria a força de mais de 1.000 bombas de Hiroshima. Um asteroide com um diâmetro de apenas 0,8 quilômetros lançaria no ar poeira suficiente para baixar consideravelmente a temperatura da Terra por vários anos, o que teria todos os tipos de efeitos dramáticos. Em 1989, um asteroide com esse tamanho passou pela órbita terrestre exatamente no local onde a Terra havia passado seis horas antes. E qual o efeito de um impacto de um asteroide ainda maior? Bem, basta notar que cada algumas dessas cicatrizes de impacto de asteroides em Júpiter são mais ou menos do tamanho da Terra:

O famoso asteroide que fez os dinossauros se extinguirem tinha cerca de 10 quilômetros de diâmetro. Se formos atingido por um desses, antes a área de impacto será superaquecida por uma onda de calor dez vezes maior do que a superfície do sol, pois o asteroide, ao cair com uma velocidade cem vezes superior a de uma bala, comprimirá o ar abaixo de si. Em seguida, uma onda de choque quase instantânea se dispersará a partir da zona de impacto, devastando tudo por centenas de quilômetros em todas as direções. Nesse momento, com a força de mais de um bilhão de bombas de Hiroshima, a explosão pulverizará mil quilômetros cúbicos de rocha do asteroide na atmosfera, criando uma parede negra acima das nuvens. Quando toda essa rocha cair de volta, ela se transformará em milhares de grandes bolas de fogo, que incendiarão as cidades e as florestas por toda a Terra. Em breve, todo o planeta ficará muito quente, uma corrente de terremotos será desencadeada, os vulcões de todo o mundo entrarão em erupção ao mesmo tempo e tsunamis impensáveis ​​devastarão todas as costas. Tudo isso será seguido por uma nuvem de poeira global que se levantará e bloqueará o sol por meses e talvez por anos, resfriando a Terra consideravelmente – e o clima não voltará ao normal por mais de mil anos.

Tudo isso só por sermos atingidos por algo que, se a Terra fosse do tamanho de uma mansão de três andares, seria do tamanho de uma ervilha.

A Terra em si não seria muito afetada pelo impacto – mas as condições na superfície da Terra seriam extremamente afetadas por serem extremamente frágeis. Aqui está um vídeo estressante que descreve o que acabei de descrever:

A parte extra-assustadora é que os asteroides são quase invisíveis no espaço e são muito difíceis de detectar. As agências espaciais e os astrônomos amadores estão rastreando alguns dos asteroides potencialmente ameaçadores por aí, mas em muitos casos não saberíamos que um asteroide vai atingir a Terra até ser tarde demais.

Então, embora pareça que estamos seguros em nosso pequeno planeta em um universo silencioso e parado, na verdade é como se estivéssemos em uma floresta que neste momento é calma e pacífica, mas que a qualquer instante pode nos surpreender com o ataque de um carnívoro sanguinário. O gráfico de eventos de extinção em massa acima conta cinco histórias de terror do passado, quando nosso tranquilo planeta tornou-se o cenário de um pesadelo indescritível para tudo o que vivia por aqui na época.

E vai acontecer novamente, aqui mesmo, onde você está. A única questão é quando.

Vejamos os 600 milhões de anos de história da vida animal e os eventos de extinção em massa que já ocorreram:

Olhando essa linha do tempo, vemos que, embora existam coisas ruins no futuro, os prazos em questão são enormes. Portanto, a probabilidade de um catastrófico desastre natural acontecer no futuro próximo é muito baixa. Mas o quanto baixa?

Podemos supor, pelo histórico da Terra, que há uma boa chance de ocorrer um evento de extinção em massa nos próximos 50 milhões de anos. Isso é o mesmo que dizer que há 1 chance em 50.000 de que haverá um evento desses nos próximos 1.000 anos. Proporcionalmente, é o mesmo que alguém desenhar um X no chão dizer que é altamente provável que um raio atinja esse X em algum momento do próximo mês. Como 1 mês dividido por 50.000 é cerca de 1 minuto, então as chances de um raio atingir o local marcado com X no próximo minuto são iguais a um evento de extinção em massa acontecendo na Terra no próximo milênio. Em outras palavras, estar na Terra ao longo dos próximos 1.000 anos é tão seguro como estar no ponto X no próximo minuto, sabendo que o raio atingirá o local em algum dia neste mês.

Se um milênio é um minuto no exemplo do relâmpago, uma vida humana é equivalente a cerca de cinco segundos.

Então, a questão é: como você se sentiria ficando no ponto X por cinco segundos? Eu não ficaria especialmente emocionado por passar algum tempo no ponto X, e esses cinco segundos provavelmente até seriam um pouco estressantes, mas eu também saberia que é quase certo que tudo ficaria bem. É assim que devemos nos sentir vivendo na Terra durante nossas vidas – pelo menos no que diz respeito às catástrofes naturais.

E se você está apenas pensando em sua própria vida, ou mesmo nas vidas das próximas dez gerações de seus descendentes, estar confinado à Terra não é um grande problema.

Mas se você se preocupa com a humanidade enquanto espécie, você deve pensar sobre essas coisas de maneira diferente. Se os seres humanos permanecerem confinados à Terra para sempre, é o mesmo que uma pessoa planejar ficar no ponto X por muitos meses. Uma vez que o gráfico de extinção acima nos mostra que o raio atinge o ponto X a cada dois meses, esse não é um bom plano a longo prazo, certo? Talvez nossa tecnologia possa nos ajudar a sobreviver a alguns relâmpagos, mas ainda será horrivelmente desagradável passar por isso, e qualquer um desses raios pode acabar nos destruindo.

Vamos analisar de outra maneira. Imagine que a Terra é um disco rígido, e cada espécie na Terra, incluindo a nossa, é um documento do Microsoft Excel no disco rígido preenchido com trilhões de linhas de dados. Usando nosso prazo reduzido, onde 50 milhões de anos equivale a um mês, aqui está o que sabemos:

  • Neste momento, é setembro de 2017;
  • O disco rígido (ou seja, a Terra) surgiu 7,5 anos atrás, no início de 2010;
  • Um ano atrás, em setembro de 2016, o disco rígido foi carregado com documentos do Excel (ou seja, a origem dos animais). Desde então, novos documentos do Excel foram criados continuamente e outros desenvolveram uma mensagem de erro e pararam de abrir (ou seja, foram extintos).
  • Desde setembro de 2016, o disco rígido parou de funcionar cinco vezes – ou seja, eventos de extinção: em dezembro de 2016, em janeiro de 2017, em abril de 2017, maio de 2017 e agosto de 2017. Cada vez que o disco rígido parou de funcionar, reiniciou algumas horas depois. Porém, após a reinicialização, cerca de 70% dos documentos do Excel foram perdidos. Exceto no caso do acidente de abril de 2017, que apagou 95% dos documentos.
  • Agora é meados de setembro de 2017, e documento Excel do homo sapiens criado há cerca de duas horas.

Agora, se você possui um disco rígido com um documento Excel extraordinariamente importante, e você sabe que esse disco rígido costuma parar de funcionar a cada um ou dois meses, sendo que o último acidente aconteceu há cinco semanas – qual é a coisa muito óbvia que você deveria fazer?

Você deveria copiar o documento em um segundo disco rígido.

É por isso que Elon Musk quer colocar um milhão de pessoas em Marte.

Por que um milhão de pessoas? Porque essa é a estimativa aproximada de Musk para o número mínimo de pessoas que seria necessário para criar uma população completamente auto-sustentável. Neste caso, a auto sustentabilidade tem uma definição simples: significa que se a Terra desaparecesse do universo, a população de Marte ainda poderia sobreviver, prosperar e crescer. Eles não dependeriam da Terra para nada. É preciso de mineração? A população de Marte então precisa de pessoas que saibam como construir uma mina e mineiros para fazer o trabalho. É preciso construir um novo hospital? Um lançamento de foguete para consertar um satélite quebrado? Agricultura expandida para lidar com a falta de alimentos? Medidas de emergência porque uma guerra eclodiu? A população de Marte sozinha precisa resolver tudo isso. Musk não pensa que dez mil ou cem mil pessoas sejam suficientes – mas que um milhão de pessoas deve ser suficiente.

Esta concepção (tornar a vida humana multi-planetária de forma auto-sustentável) é freqüentemente chamada de “redundância planetária”. Musk o chama de “seguro de vida para as espécies”. Eu chamo isso de “backup do disco rígido”.

Claro, o disco rígido de Marte não será mais confiável do que o disco rígido terrestre. Seria vulnerável à maioria das mesmas catástrofes que a Terra e também iria falhar a cada um ou dois meses. Mas na maioria dos casos, as falhas do disco rígido acontecerão em momentos diferentes. Se um desses discos rígidos parou de funcionar e nosso documento Excel naquela unidade foi perdido, o outro ainda continuará existindo, e provavelmente haverá muito tempo para planejar um novo backup.

Então, agora que você colocou o precioso documento do Excel em dois discos rígidos, você fica muito mais aliviado. Mas se o documento fosse suficientemente importante para você, você provavelmente não ficaria satisfeito de ter apenas dois discos rígidos. Você gostaria de ter cópias do documento em mais discos rígidos. Mas que outras opções nós temos?

Quais os planetas são bons para viver?

Vamos dar uma volta por eles.

MERCÚRIO

Mercúrio teve a má sorte de ser o planeta mais próximo do sol. Se você estivesse em Mercúrio, seu dia seria gasto em um clima de 430 ºC, tão quente que você poderia colocar um pedaço de chumbo no chão e vê-lo em uma poça. Não há quase nenhuma atmosfera em Mercúrio, então enquanto você estiver queimando até a morte, você também estaria de pé no vácuo, o que arrancaria imediatamente todo ar de seus pulmões e começaria a vaporizar a umidade em sua pele. A falta de atmosfera também significaria que você seria envenenado pela radiação do sol (que ficaria 2,5 vezes maior no céu do que na Terra). No lado positivo, a gravidade de Mercúrio é de apenas 38% da Terra, então você poderia brincar de uma maneira tola enquanto morre instantaneamente. Neste ponto, você estaria muito ansioso pela chegada da noite, mas você ficaria infeliz ao saber que um ciclo dia/noite em Mercúrio equivale a 58 dias da Terra.

Um mês depois, quando a noite finalmente chegasse, você ficaria com um humor melhor por um minuto antes de perceber que agora é -170 ºC. Isso ocorre porque não há atmosfera para reter qualquer calor do sol ou distribuí-lo ao redor do planeta. Você teria que passar um mês inteiro congelando até a morte antes que pudesse finalmente queimar até a morte novamente após o nascer do sol.

Sua melhor aposta em Mercúrio estaria perto dos pólos, que pelo menos têm gelo para que você possa ficar hidratado. Em teoria, uma base humana poderia ser construída perto de lá, mas a vantagem seria pequena.

Quando perguntei a Musk sobre Mercúrio, ele chamou de “um inferno” e encerrou abruptamente a conversa.

VÊNUS

Viver em Vênus faz a vida em Mercúrio parecer algo como estar sentado numa praia paradisíaca comendo camarão. É que o vácuo de Mercúrio é um lugar adorável quando comparado com a situação exatamente oposta de uma atmosfera incrivelmente densa como a de Vênus. Veja como uma visita de Venus seria.

Em primeiro lugar, 96% do ar é de CO2, puro veneno para se respirar.

Em segundo lugar, você não se preocuparia com o veneno no ar pois seria imediatamente achatado pela atmosfera, que pesaria sobre você com mais de 90 vezes a pressão da Terra. A pressão seria a mesma coisa que você sentiria se estivesse a 1 km abaixo no oceano. Se você de alguma forma pudesse ficar de pé, a resistência do ar seria tão forte que a sensação ao mexer seu braço seria a mesma de tentar mover-se na água.

Em terceiro lugar, quem se preocupa em respirar veneno e ser achatado quando está numa temperatura de 465 ºC . À noite (que demora um pouco – o dia de Vênus é mais longo que seu ano), a temperatura de Vênus permanece exatamente a mesma porque a atmosfera densa retém o calor no planeta.

Durante o dia, você experimentaria tudo isso com luz fraca, sob uma cobertura de nuvens avermelhadas. O sol só seria visto como uma parte nebulosa, brilhante e amarelada do céu. À noite, você viveria numa total escuridão, sem estrelas.

Diante de tudo o que acabei de descrever, estou super impressionado com a sonda soviética Venera 13, que desceu até a superfície de Vênus em 1982 e conseguiu funcionar por 127 minutos – tempo suficiente para tirar essas duas fotos, únicas imagens que temos da superfície de Vênus:

O vento é um problema que você não teria na superfície de Vênus, onde você só sentiria uma leve brisa – mas quando você subisse na atmosfera, isso mudaria rapidamente. A atmosfera superior de Vênus tem ventos infernais, com o dobro da velocidade de nossos furacões mais poderosos, e repleta de gotículas de ácido sulfúrico.

Curiosamente, no entanto, se você chegar até o topo da atmosfera de Vênus, você seria recompensado com condições chocantemente agradáveis ​​e habitáveis. Aleatoriamente, no topo das nuvens de Vênus há uma camada onde a temperatura e a pressão são semelhantes às da Terra. Como o oxigênio e o nitrogênio se elevam na atmosfera densa de Vênus (como faz o hélio na Terra), o ar dessa camada pode ser quase respirável . Isso levou alguns cientistas a discutirem a colonização humana da alta atmosfera de Vênus, construindo “cidades destinadas a flutuar a cerca de cinquenta quilómetros de altitude na atmosfera”.

Quando perguntei a Musk sobre Vênus, fiquei surpreso ao ouvir que o planeta poderia tornar-se viável “com extrema dificuldade”. Ele diz que, no futuro, com tecnologia suficientemente avançada, poderiam surgir maneiras de limpar a maioria da atmosfera de Vênus e, possivelmente, torná-lo uma opção futura para a colonização.

MARTE

Se Marte fosse um lugar na Terra, ninguém jamais iria querer visitar. Mas em uma discussão sobre a habitação de planetas não-terrestres, todos os quais são um pesadelo total para viver, a perspectiva de se mudar para Marte parece estranhamente boa.

Marte é basicamente uma Antártica mais fria e que se parece com o deserto do Arizona. Você não poderia respirar o ar de lá, e a exposição prolongada às radiações solares seria fatal. Qualquer região de Marte é dramaticamente menos habitável do que o lugar menos habitável na Terra. Mas as condições são suficientemente razoáveis para que, com uma estrutura adequada e um traje espacial suficientemente bom, você pudesse realmente viver em Marte. Há até água em Marte (muita água) na forma de gelo nos pólos, e se você estiver na parte direita do planeta na época certa do ano, você pode desfrutar do clima glorioso de 21 ºC.

Um dia de Marte equivale a cerca de 24,5 horas, o que funcionaria bem tanto para humanos quanto para plantas. E com 38% a gravidade da Terra, você poderia mover-se normalmente. Haveria algumas vantagens divertidas com a baixa gravidade, como ser capaz de pular um muro de 4 metros de altura ou sair do seu apartamento no segundo andar saltando pela janela.

A atração turística mais legal no Sistema Solar também está em Marte – a montanha mais alta do Sistema Solar, o Monte Olimpo, que é do tamanho do Arizona e faz o Everest parecer uma colina. Para não mencionar o cânion de Marte, que faz o Grand Canyon parecer uma rachadura no asfalto.

Nós falaremos sobre isso mais tarde. Mas, em teoria, com bastante esforço e tecnologia, os seres humanos poderiam terraformar Marte e, em algum momento desse processo, ter um planeta um pouco mais agradável para viver, com árvores e oceanos e sem necessidade de usar uma roupa espacial.

JÚPITER, SATURNO, URANO E NETUNO

Espero que você tenha gostado do chão, porque nenhum dos outros planetas tem um chão. Veja como os quatro planetas distantes acabaram se tornando tão estranhos:

Há 4,6 bilhões de anos, havia uma enorme nuvem de gás no espaço quando alguma perturbação desencadeou o processo de condensação dessa nuvem sobre si mesma. E isso é o equivalente a uma Black Friday no universo: há uma corrida frenética para conseguir o máximo de massa possível a partir dessa nuvem de gás. Como todas as estrelas e planetas lhe garantirão, o segredo para se dar bem é começar bem cedo. Se você começar condensando maior massa, será mais fácil coletar mais massa a seguir e assim aumentará sua vantagem em relação aos competidores.

O vencedor dessa competição se tornará uma estrela – todos os outros acabarão se tornando planetas que, como paparazzi, ficarão girando em torno dessa estrela por 10 bilhões de anos, até que finalmente a estrela resolva se aposentar.

No caso do nosso Sistema Solar, o sol foi o vencedor, acumulando cerca de 99,8% da matéria total da nuvem de gás no processo. Após essa vitória, começa uma batalha sangrenta entre os competidores restantes. Aqueles que podem reunir massa o suficiente terão pelo menos a dignidade de ser um planeta. Aqueles que falharem acabarão sofrendo a vergonha de gastar 10 bilhões de anos como paparazzi de um planeta – uma humilde lua.

O perdedor infeliz que não conseguir se tornar nem estrela, nem planeta, nem uma miserável lua estará condenado a tornar-se um asteroide (o mendigo do Sistema Solar) ou ser absorvido em um corpo maior, perdendo completamente sua identidade. É um mundo difícil lá fora.

Durante essa competição cruel, uma coisa estranha pode acontecer. Às vezes, há competidores inexperientes, que não conhecem a regra de ouro da formação formação do sistema solar – saiba quando você está perdendo. Mercúrio, Vênus, Terra e Marte perceberam claramente os primeiros sinais de derrota, podiam ver que o sol tinha uma vantagem muito grande, e então desistiram do estrelato e seguiram em frente. Esses competidores ajustaram suas estratégias e começaram a trabalhar para se tornarem planetas.

Os quatro gigantes de gás, por outro lado, continuaram em vão coletando gás numa tentativa triste e desesperada de virar o jogo. E quando você faz isso, você acaba em uma situação ruim: você tem “quase tudo, mas não o suficiente para ser uma estrela”. A composição de Júpiter é hidrogênio e hélio, assim como o sol, mas, ao contrário do sol, Júpiter não tem massa suficiente para inflamar uma fusão, apenas o suficiente para sempre lembrar a todos de sua tentativa fracassada de estrelato.

Os gigantes de gás jamais admitirão, é claro. Quando ficou evidente que não se tornariam estrelas, os quatro mudaram rapidamente sua narrativa, fingindo que estavam tentando se tornar planetas o tempo todo. Agora eles ficarão nessa situação desolada entre estrela e planeta normal e passarão 10 bilhões de anos como planetas inchados e sem superfície. E ninguém quer ser um planeta sem superfície.

Não temos certeza sobre o que exatamente acontece dentro de um gigante de gás como Júpiter. Se você tentasse descobrir, você aumentaria o zoom ficando acima das nuvens externas, pois a gravidade forte (duas vezes e meia a gravidade da Terra) puxaria você cada vez mais rápido. À medida que você caísse, as coisas ficariam mais escuras, mais quentes, e a pressão aumentaria cada vez mais. Eventualmente, você estaria na escuridão, a temperatura excederia a temperatura da superfície do sol e, com uma enorme quantidade de atmosfera acima de você, o gás ao seu redor estaria tão pressurizado que você não seria capaz de distingui-lo de um líquido (isto é chamado de estado “supercrítico”). O hidrogênio ficaria tão condensado que os elétrons começariam a fluir de átomo a átomo, transformando-o em um mar líquido de hidrogênio metálico, condutor da eletricidade. Se no centro de Júpiter você encontraria ou não um núcleo sólido é algo aberto ao debate.

O que não está em discussão é que os humanos nunca se mudarão para Júpiter. Ou Saturno. Ou Urano. Ou Netuno.

Os seres humanos poderiam se mudar para as grandes luas, rochosas e cobertas de gelo, em torno de Júpiter e Saturno. Mas não seria acolhedor. Nós talvez possamos mudar para a nossa própria lua, mas é apenas uma versão mais suave da situação de Mercúrio – temperaturas diurnas que podem ferver água em gás, temperaturas noturnas que podem condensar oxigênio em líquido e sem proteção contra a radiação do sol. E o ciclo de rotação de 28 dias significa que as plantas precisariam aguentar duas semanas de escuridão – não é fácil.

Quando perguntei a Musk para onde os seres humanos poderiam ir, salvo Marte, ele disse que há um punhado de lugares que poderiam ser interessantes se a nossa tecnologia se tornar suficientemente avançada – várias luas, alguns dos maiores asteroides, mesmo Mercúrio e Vênus se você realmente estiver desesperado. Mas ele acabou dizendo: “Marte é, de longe, a melhor opção”.


 

Vamos recapitular. Até agora, estabelecemos o seguinte:

  • Fazer backup do disco rígido da humanidade é algo crítico e necessário – ter todos os ovos em uma só cesta nos faz vulneráveis ​​à extinção.
  • Marte é, de longe, o melhor lugar para se colocar o segundo disco rígido da humanidade.
  • Mas com tecnologia suficiente, poderíamos criar muitos outros backups ao colonizar até dez ou mais luas, asteroides e planetas no Sistema Solar.

Outra opção de diversão: os cientistas exploraram um monte de idéias para habitats espaciais artificialmente construídos. Embora as ideias existentes sejam limitadas pela nossa imaginação atual, posso imaginar um futuro em que viver em planetas parecerá tão primitivo como viver em cavernas nos parece hoje. Nos últimos mil anos, os seres humanos inventaram o conceito de “estar dentro”, e agora quase todas as pessoas pensam em casa como um lugar entre quatro paredes e um teto. Talvez no futuro um habitat espacial gigante e artificial com montanhas, rios, árvores e milhões de pessoas seja o equivalente à invenção de “estar dentro” aplicado a um mundo inteiro. Nesse futuro, talvez a ideia de se preocupar com o clima e os terremotos e de ser atingido por asteroides venha a ser o equivalente para nós da ideia de um homem das cavernas preocupando-se em ser atacado por uma série de lobos enquanto você dorme. Talvez.

De qualquer maneira – uma vez que venham a existir milhões de seres humanos em vários habitats diferentes, o documento Excel estará bastante seguro, e a humanidade deve poderá sobreviver à natureza por muito mais tempo.

Claro, todos esses discos rígidos ainda estão alojados no mesmo Sistema Solar, e se todos os seus backups estiverem em discos rígidos guardados numa mesma casa, se essa casa pegar fogo você terá um problema. E, assim como estamos infelizmente usando um disco rígido que está destinado a falhar, também estamos vivendo em uma casa que com certeza um dia pegará fogo. O sol está quase no meio de sua vida. Aqui está o roteiro do segundo ato:

Depois de aterrorizar a Terra, o sol se expandirá e tornará cada uma de nossas potenciais outras casas no sistema solar também inabitáveis. Felizmente, temos uma chance de fazer algo a respeito. Musk ressalta que estamos atualmente com 90% do caminho até o momento futuro em que o calor irá aumentar, os oceanos vão se evaporar e toda a vida complexa da Terra irá desaparecer: “portanto, se a vida inteligente tivesse levado mais 10% de tempo para se desenvolver, na verdade nunca conseguiria surgir no planeta”. Em outra conversa, Musk foi mais específico: “Um ponto altamente provável de extinção da vida multicelular na Terra será quando a temperatura ambiente exceder a temperatura de desnaturação das proteínas, o que significa que temos de 200 a 400 milhões de anos pela frente”. No que diz respeito à nossa evolução, chegamos justo no tempo exato, e agora temos que descobrir como se expandir para além do planeta e, eventualmente, para além do sistema solar, antes de sermos varridos da existência.

Uma boa notícia em tudo isso é que os prazos aqui são enormes. O comportamento crítico do sol não vai começar por um tempo insanamente longo, e suponho que, se o sobrevivermos até chegar esse momento, nossa tecnologia futura nos permitirá (A) mover-se facilmente para partes seguras do sistema solar, conforme necessário; (B) tornar-se uma espécie multi-solar que pode se espalhar para outros sistemas solares receptivos à vida na galáxia, e/ou (C) criar no espaço habitats artificiais seguros, capazes de produzir energia sem a necessidade de estrelas, seja através da tecnologia nuclear ou, provavelmente, de uma tecnologia avançada que sequer podemos conceber agora.

Portanto, a nossa lista de coisas a fazer é:

1) Nos tornarmos uma civilização multi-planetária antes que algum evento nos leve à extinção na Terra, o que nos dará tempo de sobra para:

2) Nos tornarmos uma civilização independente do sistema solar, antes que o sol comece a morrer e destrua todos os planetas.

E quando se trata de Item 1, sim, o próximo evento de extinção em massa poderia acontecer a qualquer momento. Mas se levarmos os próximos mil anos para descobrir como nos expandir para além da Terra, as probabilidades são de que conseguiremos criar um backup da humanidade em outro planeta antes de qualquer catástrofe acontecer.

Então isso parece razoavelmente sob controle. Mas vamos voltar para Zurple e Quignee. Se ainda temos milhares, e provavelmente milhões de anos antes que algo terrível nos aconteça – porque os dois extraterrestres estão excitados assistindo o que acontece por aqui agora?

A coisa assustadora sobre os seres humanos

Para enfatizar a magnitude total do que se tornaria uma civilização multiplanetária, Musk muitas vezes fala sobre como uma visão abrangente da história humana expõe todos os eventos em seu verdadeiro significado. Quanto mais abrangente for sua perspectiva, maior um evento precisará ser para permanecer significativo nessa escala.

Você também pode adotar essa visão abrangente em relação ao mundo físico. Aí de onde você está, ruas, casas e carros são objetos significativos. Mas se estiver em um avião em pleno voo, apenas coisas maiores como cidades, lagos e montanhas são objetos significativos. Do ponto de vista de um satélite em órbita da Terra, apenas continentes e oceanos são significativos. Da perspectiva de alguém que olha todo o sistema solar, apenas planetas e estrelas são objetos significativos. De uma perspectiva ainda mais abrangente, apenas galáxias inteiras.

O mesmo conceito se aplica quando você faz o caminho contrário e olha a história humana muito de perto. Do ponto de vista das notícias diárias, um evento significativo pode ser o mais recente escândalo político, o movimento do mercado financeiros, um assalto, um protesto, um evento esportivo. Esses eventos são bastante pequenos, mas também é pequeno o nosso “filtro de significância”.

Quando nossa visão abrange o período de um ano, é como ir do chão a um avião: estamos muito longe para ver a maioria dos eventos mais recentes de cada dia. Dessa perspectiva, apenas os eventos mais impactantes do ano são visíveis: um atentado terrorista hediondo, uma grande eleição, uma crise financeira.

Olhar para um século inteiro é como ver o planeta a partir de um satélite em órbita. As grandes histórias do século são como os continentes e os oceanos que não podem ser vistos completamente da perspectiva de um avião: guerras, revoluções, grandes tragédias mundiais e avanços científicos muito inovadores.

Se avançarmos ainda mais para alguns milhares de anos, são significativos apenas os eventos grandiosos: o surgimento e queda de impérios, o arco de vida e morte das religiões mundiais, profundas mudanças de compreensão científica ou de avanço tecnológico. O filtro apenas permite a seleção de fenômenos que afetam o mundo por muitos séculos, como as Grandes Descobertas Marítmas, a Revolução Industrial e o nascimento do Estado-nação.

Se nossa perspectiva for de cem mil anos, podemos ver o enredo inteiro de nossa espécie. Vemos grandes migrações, o desenvolvimento da linguagem, da agricultura e o eventual surgimento do mundo industrializado.

Mesmo assim, mesmo nesta escala épica, estamos longe de ver o esboço da história da vida orgânica como um todo. A história da vida no planeta ocorre muito mais devagar do que a história humana.

Mesmo do ponto de vista de 10 milhões de anos, só podemos ver os traços básicos da história da vida. Em nossa própria linha evolutiva, podemos ver uma diversificação crescente dos grandes macacos e a progressão do gênero homo que eventualmente resultou nos seres humanos. E esse é o tipo de coisa que você veria em outras partes da história da vida em uma escala de 10 milhões de anos – nada importante, principalmente apenas ajustes da biologia existente.

Com uma perspectiva de 500 milhões de anos, agora podemos ver a história da vida animal. A crescente complexidade dos organismos, começando pelos peixes, depois com os insetos, mais tarde com os répteis e, em seguida, com os mamíferos e sua ascensão simultânea à extinção dos dinossauros. Dessa perspectiva, percebemos os cinco eventos de extinção da vida no planeta.

Mas quando ampliamos a perspectiva para 3,8 bilhões de anos, perspectiva essa em que vemos a origem da vida, o que podemos qualificar como significativo?

Vemos células simples, então vemos células complexas, então vemos a vida multicelular. Vemos a vida explodir na diversidade, emergir do oceano para a terra e, eventualmente, através do advento dos mamíferos, desenvolver a consciência.

Incluir os mamíferos e a consciência em uma lista dos saltos mais significativos da vida pode parecer algo auto-centrado. Mas não é, porque é somente através da consciência que a vida pode fazer um novo grande salto: tornar-se multi-planetária.

Se os seres humanos conseguirem viver de forma auto-sustentada em Marte, isso seria um evento significativo para toda a biologia terrestre naquela perspectiva mais ampla, que abrange os 3,8 bilhões de anos da história da vida no planeta.

E quando você olha as coisas desse jeito, você percebe que Neil Armstrong estava errado ao chamar a chegada do homem à lua de “um grande passo para a humanidade”. Chegar na lua está na mesma categoria que colocar o primeiro homem no espaço ou alguém escalar o Monte Everest pela primeira vez: é uma grande conquista para a humanidade. Mas se o primeiro animal do oceano a sair fora da água apenas tivesse se arrastado para a terra seca por um minuto antes de voltar ao oceano, isso não qualificaria seu ato como um grande passo para a vida. E o mesmo vale para o primeiro pouso tripulado na lua. É somente quando certos peixes passaram por mutações e começaram a viver na terra de forma sustentável que a vida como um todo deu um gigante salto. Colonizar Marte permanentemente, é que será um gigante salto para a humanidade.

Mas devemos parar por um minuto e observar que é um pouco estranho que, depois de 3,8 bilhões de anos, seja justo neste século que poderemos testemunhar um dos maiores saltos da história da vida no planeta? Como isso é possível?

Espere, isso me faz lembrar de algo. Quando estudamos a inteligência artificial, certamente ela se parecia com (A) algo que poderia explodir em super-inteligência artificial no próximo século e (B) algo que poderia afetar permanentemente e dramaticamente toda a vida no planeta (para melhor ou pior). Isso também se qualificaria como um potencial salto gigante?

E, à medida que nossa compreensão do genoma humano avança e a ciência da engenharia genética avança, não é concebível que, em 100 anos, a ciência tenha descoberto como manter os seres humanos vivos por muito mais tempo do que uma vida biológica normal e propiciar às pessoas procedimentos legítimos de envelhecimento reverso? Se isso acontecesse e conquistássemos o processo de envelhecimento, isso também não seria um outro gigantesco salto na história da vida?

O que diabos está acontecendo???

Ou estou sendo irremediavelmente ingênuo ou este é um momento muito intenso para se estar vivo. Aqui está o que eu acho que está acontecendo:

Como discutimos, a taxa de progresso pode crescer de forma exponencial porque, à medida que mais progresso acontece, ele permite um progresso mais rápido, e isso inicia uma cadeia em cascata à medida que o progresso passa por uma explosão de velocidade. Podemos ver isso acontecendo em uma série de taxas de crescimento cada vez mais explosivas:

  • O impacto da espécie humana pré-histórica no mundo natural foi muito, muito maior do que o normal em um período de apenas 100.000 anos – nenhuma outra espécie mudou tanto, tão amplamente e tão rapidamente o planeta.
  • O avanço da humanidade nos últimos 10 mil anos, desde a Revolução Agrícola, foi muito, muito maior do que o avanço dos humanos em qualquer outro período anterior de 10 mil anos.
  • A explosão da indústria e da tecnologia nos últimos dois séculos desde a Revolução Industrial ultrapassa em muito os avanços de qualquer período de 200 anos anteriores.

Quando você coloca esses gráficos juntos, você termina com uma série de tendências:

Então, talvez eu não seja ingênuo – talvez haja boas razões para acreditar que estamos vivendo no auge de uma curva exponencial de progresso diferente de qualquer outra que a vida tenha experimentado. E uma vez que com o progresso vem o poder, nossa espécie agora tem uma quantidade de poder sem precedentes para influenciar as coisas.

E em algum momento no futuro, esse poder crescerá tanto que o mesmo tipo de salto colossal que a vida animal e microbiana levou milhões de anos para dar poderá ser realizado em menos de um século pela humanidade.

Quando uma espécie se torna tão poderosa que pode dar gigantescos saltos da vida em menos de um século, essa espécie pode brincar de deus de muitas maneiras diferentes. Vamos chamar isso de alcançar o Ponto de Deus. Se o progresso está realmente acelerando, faz sentido que uma espécie avançada acabe atingindo o Ponto de Deus. E parece haver muitas evidências de que os humanos já estão muito próximos desse ponto em áreas como viagens espaciais, inteligência artificial, biotecnologia, física de partículas, nanotecnologia e armamento. E esses avanços abrem as portas para uma longa lista de impactos impensáveis ​​e dramáticos no futuro.

Nessa longa lista, há uma série de cenários positivos em que a humanidade chegaria a uma possível utopia e um número ainda maior de cenários horríveis de juízo final que poderiam acabar com a nossa espécie, causar extinções em massa ou mesmo varrer do planeta toda a vida orgânica: tudo, desde uma guerra biológica que resulte numa epidemia criada em laboratório, um acidente catastrófico num colisor de partículas, uma reação em cadeia de nanobots, uma superinteligência artificial fora de controle ou uma mudança climática desenfreada e um monte de outras coisas que não podemos conceber pois a tecnologia ainda não nos permite imaginá-las.

A maioria dos bons e péssimos cenários de impacto maciço discutidos aqui não acabará acontecendo, mas podem acontecer, especialmente porque a tecnologia continua a avançar. E a realidade é que estamos vivendo num momento em que podemos testemunhar múltiplos eventos em nossas vidas que serão tão impactantes como foi a vida orgânica ter saído dos oceanos. Não só podemos estar no ápice do grande salto em que a vida se tornará multi-planetária: também podemos estar diante de um monte de outros grandes saltos.

Há outros sinais que indicam que este é um momento extraordinariamente incomum para estar vivo:

  • Em 99,8% da história humana, a população mundial era inferior a 1 bilhão de pessoas. Nos últimos 0,2% dessa história, cruzou as marcas de 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7 bilhões.
  • Até 25 anos atrás, nunca houve um cérebro global de acesso e conectividade de informação neste planeta. Hoje temos a internet.
  • Depois de 99.800 mil anos de história humana usando muito pouco da energia disponível no planeta, de repente nos últimos 200 anos entramos na Era dos Combustíveis Fósseis, explorando um gigantesco manancial de energia de carbono armazenada no subterrâneo, sem entendermos completamente as implicações de fazer isso.
  • Os seres humanos caminharam ou andaram a cavalo em 999 dos últimos 1.000 séculos da história. Neste século, dirigimos carros, voamos em aviões e aterrissamos na lua.
  • Se a vida extra-terrestre procurava outra vida no universo, seria dramaticamente mais fácil encontrar-nos neste século do que em qualquer século anterior, pois hoje emitimos milhões de sinais, voluntários e involuntários, para o espaço.
  • Com uma média de um evento de extinção em massa a cada 100 milhões de anos desde que os animais surgiram no planeta Terra, podemos estar criando um sexto evento por acidente.

Se dermos um passo para trás e apenas olharmos essa situação de uma perspectiva mais ampla, ficará evidente que nada do que está acontecendo agora é normal. Os seres humanos atuais têm MUITO mais poder do que qualquer outra forma de vida na Terra, e parece provável que se daqui um bilhão de anos um alienígena escrever sobre a história da vida na Terra, o tempo em que vivemos hoje será um grande capítulo de seu livro.


 

E é por isso que Zurple e Quignee estão tão excitados agora. Eles viram um novo alerta no seu aplicativo IntelligenceWatch:

A vida em 143-Snoogie atingiu o Ponto de Deus.

Zurple e Quignee não estão à espera de um asteroide atingir nosso planeta, ou aguardando a morte do nosso sol daqui milhões de anos: eles estão esperando para ver o que acontecerá nos próximos 100 anos.

Esse é o objeto de sua aposta. Quando a vida de um planeta produz uma espécie com alta inteligência, geralmente significa que essa espécie está a um ou dois séculos de distância de seu momento de dar o grande salto ou se extinguir. O seu progresso irá se acelerar cada vez mais rápido até que finalmente atinjam o Ponto de Deus, momento em que essa espécie simultaneamente ganha o poder de acabar para sempre com a vulnerabilidade das espécies ou, ao contrário, desencadear um acidente que resulte na extinção de toda a vida do planeta. E a aposta é sobre o que ocorrerá primeiro.

E é por isso que o primeiro alerta da IntelligenceWatch disse que a vida aqui na Terra havia atingido a “inteligência fetal”: porque da perspectiva mais ampla, atingir o nosso nível de inteligência é como a concepção de um feto, mas apenas ao atingirmos o Ponto de Deus é que determinaremos a emergência de uma nova espécie de vida que seja viável a longo prazo. As espécies de que atingem o Ponto de Deus enfrentam inevitavelmente o caos de inúmeros problemas e de alguma forma saem vivas do outro lado desse processo, e desse modo elas podem oficialmente juntar-se à comunidade das inteligências adultas e imortais que existem no universo.

Zurple e Quignee conhecem nosso planeta há muito tempo por causa de sua aposta, mas qualquer vida galáctica que se aproxime do Ponto de Deus é uma grande notícia e um espetáculo esportivo digno de se observar. Então recentemente nosso planeta tem sido notícia em Uvuvuwu, e todos acompanham o que está acontecendo aqui, curiosos sobre se conseguiremos ou não superar o desafio.

E se houver uma pequena chance de eu estar certo ao afirmar que estamos em algum ponto decisivo de nosso desenvolvimento, em que teremos todo o tipo de novos poderes, com conseqüências desconhecidas e imprevisíveis, considerando que somos totalmente amadores com esse tipo de poder…

…Então esse não é um ótimo momento para fazermos backup do disco rígido?

Tudo o que você precisa fazer é colocar-se nos sapatos de Quignee – imagine que você está apostando contra a espécie humana Você colocou uma tonelada de dinheiro na aposta, e você realmente quer a extinção da humanidade. Nessa situação, o quanto você ficaria aborrecido se essa espécie se tornasse multi-planetária? A colonização de Marte pelos seres humanos é a última coisa que Quignee quer que aconteça. Certo, certos tipos de desastres podem acabar com nossa espécie, mesmo que colonizemos vários planetas mas é muito mais fácil para uma espécie se extinguir quando todos os ovos estão em uma só cesta – e fazer backup do disco rígido seria um grande golpe para quem aposta em nossa extinção.

Enquanto isso, Zurple olha fixamente para a tela, murmurando em voz baixa: “vamos lá, vamos lá!!!” Sua tela está mostrando um edifício de aparência industrial em Hawthorne, Califórnia: a sede da SpaceX.